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"Quando você é jovem, pega um balde de amor e joga no lixo, né? Literalmente. Mas agora eu tô é pagando", diz Roberta Miranda

Paulo Sampaio

18/08/2017 08h00

No escritório de casa, não tão à vontade quanto no ‘Insta’ (Foto: Lucas Lima/UOL)

Roberta Miranda adora falar de amor. Como boa sertaneja, exagera um pouco na carga dramática. Quem a ouve fazendo o inventário de suas experiências afetivas, fica penalizado. Invariavelmente, solta frases como: “Levei muita punhalada pelas costas”; “Ninguém mais vai colocar angústia no meu peito”; “Da porta de casa para dentro, não admito que me venham com cobrança, com encheção de saco: estou só, mas não vivo na solidão.”

Em alguns momentos, seus desabafos soam ameaçadores: “Não sou ciumenta, não fico atrás de ninguém para saber onde a pessoa foi, o que está fazendo. Agora: não minta pra mim. Se eu fizer uma pergunta, eu sei porque estou fazendo e já tenho provas.”; “Eu não brinco com o amor, por isso não permito que brinquem. Esse é o perigo de estar comigo.”

Quem teria feito tão mal a RM? Difícil saber. Ela diz que amou muito, mas poucas pessoas. O sujeito da frase sempre vem camuflado com um pronome indefinido ou um substantivo sobrecomum (que serve para ambos os gêneros): “alguém”, “pessoa”, “figura.” Apenas em relação a um caso, definido por ela como uma “paixão avassaladora”, Roberta perde o controle da concordância de gênero:

“Tive um grande amor, e esse amor não me amava. Foi uma paixão. Eu me apaixonei enlouquecidamente. Um dia, essa pessoa disse pra mim: ‘Ah, pois é. Eu não gosto de você, não amo você, eu tenho alguém na minha vida, eu gostaria muito que você falasse pra ele que foi tudo uma brincadeira, que nós nunca estivemos juntos. Porque é com ele que eu quero ficar.’”

Ela continua: “Peguei o telefone na frente da Célia (empresária) e disse para a pessoa. ‘Olha, foi tudo uma brincadeira, nós nunca ficamos juntos, (..) te ama muito, quer ter filhos com você, você é a vida dele.’” Ela finaliza: “Eu estava doente de paixão.  Mas isso é amor. Abri mão do meu amor para que essa pessoa fosse feliz.”

“O preconceito é asqueroso, cruel, ditador”

Por sorte, às vezes ela lança pistas que podem facilitar o trabalho. No dia da entrevista, por exemplo, RM havia postado no Instagram a frase: “Não me julgue sem antes calçar os meus sapatos”. Quem seria, dessa vez, o algoz?

Melhor tentar descobrir por associação, a partir do que ela vai dizendo.

A palavra é: preconceito. Roberta fala com uma careta de repúdio: “É asqueroso, cruel, ditador. Eu não posso ter algo contra você, se eu não o conheço. Porque você é gay, porque você é negro, porque você é pobre. Você é um ser humano, não um filho da puta!”

Volta e meia surgem na mídia especulações sobre a orientação sexual da rainha dos caminhoneiros. Dão a entender que ela seria lésbica. A pergunta se torna obrigatória. Ela responde: “Amigo, eu parto do seguinte princípio: quem come de tudo não passa vontade.”

Mais uma assertiva enigmática: “Todo mundo está aí com a antena ligada, para que a Roberta Miranda faça alguma coisa de errado, de feio, sei lá o que é, para estar fotografando, estar divulgando. E eu nunca fiz, não tem o que pegar”.

Todo mundo? Antena ligada? Alguma coisa de feio? De errado? Pegar?

Namoro bumerangue, aquele que vai e volta

Enfim. Está namorando? “Cara eu tenho um relacionamento bumerangue, aquele que vai e volta. Mesmo que eu não estivesse namorando, eu já não sei o nome que se dá a isso, eu não estou a fim de ninguém. Acho que me decepcionei muito, tô a fim da minha carreira.”

Mais uma catarse metafórica: “Eu não sou mais a bicicleta, entendeu? Que quando a pessoa precisa ela fica em pé, quando não, fica ali arreada. Eu tô em pé em qualquer momento.”

Quase ao fim do bloco sobre “amor”, ela reconhece que, do mesmo jeito que levou punhaladas, já deixou muita gente “se rasgando, se matando, se acabando por Roberta Miranda”. “Quando você é jovem, pega um balde de amor e joga no lixo, né? Literalmente. Mas agora eu tô é pagando (rindo muito). Uma hora você paga, você se fode.”

Com a coleção de discos de platina, ao fundo (Foto: Lucas Lima/UOL)

Intolerância a glúten, paixão pelo Instagram

Estamos no escritório do apartamento de mais de 300 metros quadrados da cantora, na região dos Jardins, zona oeste de São Paulo, e são 15h30. Roberta está sentada em uma poltrona com uma bandeja no colo, comendo um lanche leve: algumas fatias de melão. O tom, com a assessora, é impositivo: “Me traz água.” Explica que, desde que descobriu que é celíaca (tem intolerância a glúten), há dois anos, mudou radicalmente sua alimentação. Desde então, emagreceu 11 quilos.

R Miranda veste jeans, camisa social cinza com gola e punho brancos, colete e sneakers com bico vermelho, que ela chama de botênis (bota + tênis). São seus sapatos preferidos. Aponta para um modelo coberto de cristais Swarovski,  que está em cima de um móvel, e diz que custa U$ 4.800 (mais de R$ 15 mil). “É pra quem pode. São do Giuseppe Zanotti (designer italiano).”Ela diz que não pagou por eles, ganhou de presente. De quem? “Ah, mandaram.”

Ela agora responde sobre sua desinibição na rede social Instagram, de vídeos e fotos, onde publica imagens íntimas, faz caretas e encarna personagens. Lembro de outra entrevista com ela, em que sua empresaria, Celia Moratori, alertou para o “mau humor” de Roberta toda vez que precisa posar para fotos profissionais. “Ela detesta”, disse Célia na ocasião. De qualquer maneira, se recusa a posar para fotos no salão de casa, por causa das obras de arte. “Você quer que saibam o que tem aqui, querido!? A seguradora vem em cima de mim!”

A cantora explica que seu problema com fotos remonta à infância. Seria quase um trauma. “Quando eu era menina, e chegavam perto com aquele trem (máquina), eu saía correndo, aos prantos.”  Agora que a máquina pode ser um telefone celular, e a fotógrafa, ela mesma, Roberta anda se esbaldando. E atrai milhares de seguidores: em um vídeo feito pela própria, de óculos escuros, sentada no vaso sanitário do banheiro do avião, ela faz biquinho e diz em tatibitate fluente: “A Roberta tá com tanto sono olha só (apontando com os dedos para as lentes espelhadas) apf ai, gente, tchau”. Em outro, ela aparece em um fundo azul, entre bolhas, com uma bandana virtual composta de estrelas do mar e conchas. Pergunta: “Será que a Roberta precisa falar alguma coisa acordando às 8h15 da manhã??? (Cantarolando) Sereia, te quero, te amo, glup, glup, glup”, e emenda um ronco. Com duas rosas nas têmporas, e a “legenda”: “Já vi de quase tudo, agora…chifre de rosas é demais.” Vestindo um casaco de nylon vermelho, com o capuz: “Roberta indo pra lua.”

Para uma artista que tem 25 anos de carreira e já vendeu 18 milhões de discos, bombar no ‘Insta’ não chega a ser um feito. Roberta M certamente não precisa daquela exposição, como tantos artistas em fase de construção de carreira. Mas é ali que se sente mais à vontade: “Sou viciada em postar. Onde quer que eu esteja, você vai me ver com o celular na mão. No Insta, tive condição de mostrar que sou meio palhaça, brincalhona, sem ter vergonha.”

Não sei nem o que é maconha; tenho horror a tóxico

E o que Roberta Miranda gosta de fazer, quando não está trabalhando? Sai à noite? Bebe? “Nada, não saio. Minha bebida é água. Gosto de receber os amigos em casa, viajar”, diz.

Já usou droga? A pergunta tem o efeito de uma ofensa: “Imagina! Amigo, eu tenho uma família que me ensinou o que é certo, o que é errado. Trabalhei na noite, em bares, convivi com esse pessoal que cheira, que fuma. Eu não sei  nem o que é maconha.”

Ela se refere à droga como “tóxico”, uma terminologia pouco frequente entre usuários. “Eu tenho uma passagem na minha vida, isso há muitos anos. No meio do show, alguém veio e me disse: ‘O tecladista está usando muita maconha antes de entrar no palco’. Eu: ‘É mesmo?’ Como sempre fui muito escoltada pela polícia, não tive dúvida. Desci e falei para os policiais: ‘Dá uma olhadinha ali para ver se tem alguma coisa, algum tóxico’. Ele foi ver e tinha. O tecladista pagou a fiança e foi embora. Foi embora do meu show.”

Ela afirma que nem os amigos estão autorizados a consumir “tóxico” ao lado dela: “Ninguém encosta em mim para fazer isso, meu amor. Sabem que eu não admito. Nem na minha casa, nem na minha vida, nem no meu show.”

“Tem fdp em todos os partidos políticos”

Ela fala com a mesma virulência, se o assunto é política: “Eu tenho ânsia quando vejo a situação podre, nojenta, em que eles deixaram o país..”

Eles, quem? PT, PMDB, PSDB? “Eu não posso falar todos, porque toda regra tem sua exceção. Mas eu posso falar aí de 95% porque todo mundo sabe, está na mídia. Tem fdp em todos os partidos.”

Roberta diz que tenta usar o fato de ser formadora de opinião para mobilizar fãs e fazê-los defender os seus direitos, “mas de que adianta?” “Os hospitais estão cheios de gente pelos corredores, a violência continua. Acabaram de matar o bebê que estava dentro da barriga da mãe. Nosso querido Vander Lee, que era um guitarrista maravilhoso, o cara teve câncer, implorou, foi para seis hospitais. Cara, você chora vendo o Vander Lee dizendo:  ‘Prefeito, por favor, me dê uma dignidade, eu tô pedindo, eu votei no senhor…’  Porra. Então (olhando para a câmara, com os olhos marejados e a voz embargada), é revoltante..”

Sua maior preocupação é a própria família. Para dimensionar a importância dos sobrinhos, Roberta afirma que venderia tudo o que ganhou em 30 anos “para lhes dar dignidade”. Apesar de todas as punhaladas que levou pelas costas, a sertaneja mostra que ficou um lado dadivoso: diz que destina uma parte de sua “folha de pagamento” a pessoas que a ajudaram quando ela própria passava necessidade. “Isso há 35 anos. Eles perderam tudo. Eu digo: ‘Vem cá, toma o seu plano (de saúde), toma aqui por mês isso.’ Não noticio porque eu não preciso fazer isso.” Com certeza.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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