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Histórico

Garotas de programa tentam colocação na rede profissional LinkedIn

Paulo Sampaio

23/11/2017 08h00

Seios turbinados, coxas saradas, top preto, saia justa, saltos de 15cm, Marcela está incrivelmente disponível no bar de uma casa noturna na região centro-sul de São Paulo. Ela dá uma ajeitada nos cabelos longos e retribui os olhares dos clientes, mas não exageradamente, para deixar claro que tem muita gente interessada em pagar caro para transar com ela.

Aos 28 anos, dez trocando sexo por dinheiro, Marcela diz que sua estratégia costumava ser infalível antes de a crise abalroar o mercado de garotas de programa. Para dar a dimensão do estrago, ela  afirma que não se lembra de um Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 tão desacelerado como o último. O GP é considerado o período mais rentável para a GP. “Em temporadas anteriores, cheguei a ganhar R$ 1 mil por um programa. Agora, chorando, conseguia 500”, lamenta ela, que em dias normais costuma cobrar “uma média de R$ 400”.

Não adianta. Tornou-se impraticável para uma garota de programa depender apenas das noites incertas dos cabarés de luxo. Agora, além de anúncios em sites especializados e perfis nos aplicativos de busca de relacionamento, muitas estão tentando colocação na rede profissional LinkedIn, que agrega oferta e procura de oportunidades no mercado de trabalho.

Qualquer um que se proponha a dar uma espiada nos perfis da rede profissional vai perceber que um número grande dessas garotas tem utilizado a ferramenta. “É uma maneira de sair da informalidade, de mostrar que o que você faz é negócio, que tem tempo para começar, para acabar, e um preço. O frequentador do site é o empresário, o executivo, nosso cliente em potencial”, imagina a gaúcha “Mayara GP”.

Proibido para elas

Lançado em 2003 nos Estados Unidos, o LinkedIn está disponível em  200 países e territórios, tem 530 milhões de usuários registrados e disponibiliza mais de 11 milhões de vagas de emprego. O Brasil é o quarto país em número de usuários, com 31 milhões, atrás apenas de EUA, India e China.

Segundo sua assessoria, “perfis​ ​de​ ​garotas​ ​de​ ​programa​ ​ou​ ​que​ ​promovam​ ​prostituição​ ​são​ ​proibidos​”. A princípio não se aplica nenhuma sanção às “infratoras”. “Se houver notificação dos usuários, reclamando de algum perfil, então tomamos as providências cabíveis.”

Desde 2002, a prostituição é reconhecida pelo Ministério do Trabalho como ocupação profissional, o que significa que as garotas de programa podem se registrar no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) como autônomas e ter garantia de aposentadoria. Mas a profissão não é regulamentada. O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) propõe isso em um projeto de lei de 2012, cujo objetivo é reduzir a exploração sexual e garantir direitos básicos como saúde e justiça.

Mayara: maneira de mostrar que o que você faz é negócio (Foto: captura de tela)

Atriz premiada

Para Rafaella Carneiro, que se apresenta com esse nome no LinkedIn, “é importante estar em todos os lugares ao mesmo tempo”. “Hoje, com a crise, a gente concorre com um número cada vez maior de mulheres. Quanto mais o meu nome aparece no Google, melhor.” Carioca da Tijuca, ela conta que participou de inúmeros filmes pornográficos (“ganhei prêmio”) e que atualmente mora em São Paulo (“o coração financeiro da América Latina”).

Com 1,70m e 65kg, ela diz que cobra R$ 300 pelo programa na casa dela, R$ 500 no motel (“por causa do deslocamento”). Depois de alguns minutos ao telefone, Rafaella confirma uma suspeita do blog: “Sou mulher trans”, diz, com sua voz híbrida.

Rafaella: “A culpa é da crise” (Foto: Reprodução)

Ninguém é de ninguém

No superlotado universo das garotas de propaganda, o único compromisso parece ser com o faturamento. Marcela, a moça do primeiro parágrafo, não tem vínculo com nenhuma casa noturna específica, mas, como as outras frequentadoras, é muito bem recebida em todas. As garotas funcionam como chamarizes de clientes dispostos a consumir. Elas costumam passar a noite circulando de casa em casa, em busca da que tem a melhor clientela.

Ocorre que o movimento já não é o mesmo. E como não há vínculo, é natural elas tentem a sorte na Internet  — e isso inclui o LinkedIn. Dono do Bahamas, uma das casas mais famosas de São Paulo, o empresário Oscar Maroni, 66 anos, que nadava de braçada no mercado, reconhece o debacle. “A frequência caiu muito, eu estimo uns 40%. Antes de o Brasil começar a falir, e de todo mundo se ferrar por causa da vergonha dessa classe política, cheguei a receber 160 clientes em um dia. As meninas tinham de pegar senha para atender, porque as suítes estavam sempre cheias.” Maroni pensa em abrir o Bahamas em horário alternativo, pela manhã, como casa de massagem, para alcançar outra clientela.

Sua gerente, que foi garota de programa durante 20 anos, afirma que a crise levou o mercado a dois movimentos concomitantes e desfavoráveis: o número de garotas aumentou, e o de clientes, diminuiu: “Eles deixam de vir não só para cortar custos, mas também porque muitos homens, quando quebram financeiramente, ficam brochas.”

Sem eufemismos

No LinkedIn, as garotas mais diretas anunciam seus préstimos sem eufemismos. A paulistana Fabiana F Gomes se vende como “profissional do sexo” (não há qualquer outra informação a respeito de seu currículo); Anny G.D., a “prostituta no puteiro”, se define como “garota puta e discimulada”; uma mineira de Ipatinga postou apenas uma foto dela e a legenda “sexo animal”.

Sem eufemismos

Para valorizar o passe, a proponente eventualmente agrega à oferta de serviço o nome de uma instituição de ensino. A carioca Juliana Santos, “garota de programa no Bordel da Lapa”, complementa seu perfil com um enigmático Universidade Federal do Rio de Janeiro. A conta “Book Rosa bh” vem com o link para um site de acompanhantes de Belo Horizonte (www.belasbh.com) e usa como credencial a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. O LinkedIn informa que “qualquer​ ​usuário​ ​ou​ ​empresa​ ​que​ ​detecte​ ​uma​ ​informação​ ​errada​ ​em​ ​algum​ ​perfil​ ​ou​ ​que se​ ​sinta​ ​agredido​ ​ou​ ​prejudicado​ ​por​ ​um​ ​comentário​ ​ou​ ​comportamento ​deve reportar​ ​à empresa”.​

GP da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Book Rosa, linkado com a Pontifícia Universidade Católica (Foto: Reprodução)

De lado, no sofá

Em alguns perfis, as moças se apresentam com títulos como “enfermeira”, “gerente de marketing” ou “atendente”. E como saber se são mesmo profissionais do sexo? A resposta pode estar nas entrelinhas do texto, ou, quando não houver, nas imagens. Segundo o dicionário Michaelis, atendente é a “pessoa que cuida, em hospitais e consultórios, da higiene do paciente”; ou que “está a serviço dos enfermos, dispensando-lhes cuidados”. Há ainda a possiblidade de ser uma recepcionista, balconista ou operadora de telemarketing.

No LinkedIn, a atendente aparece deitada de lado em um sofá pink, dentro de um microvestido com estampa de onça, os olhos quase cobertos por uma franja muito lisa e os lábios úmidos ligeiramente abertos. Não acompanha qualquer informação profissional. Alguns dirão que o blog está “julgando pelas aparências”, e é possível que haja mesmo alguma confusão. Afinal, diante de uma crise tão devastadora e de um perfil tão sucinto, não é um despautério supor que a garota de programa esteja fazendo um extra como atendente. Ou vice-versa. Nenhuma das duas retornou contato.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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