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Histórico

A São Francisco é uma 'bolha de tolerância', dizem estudantes em micareta

Paulo Sampaio

21/10/2017 08h00

“Se Deus quiser, eu ainda vou ser uma ‘franciscana’”, almeja a estudante Beatriz Caldas, 20, usando a maneira informal com que os alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), também conhecida como do Largo São Francisco, referem-se uns aos outros. Beatriz deve prestar vestibular no fim do ano.

Por enquanto, ela está do lado de fora do cercado que protege a concentração da “peruada”, tradicional micareta promovida anualmente pelos alunos do Centro Acadêmico XI de Agosto. Realizada ontem, a deste ano teve como mote “Meu Peru Não Tá Contente, Quer Votar pra Presidente”. “É o melhor carnaval fora de época da cidade”, acha a estudante Juliana Tornizielo, 23, que faz obstetrícia na USP Zona Leste e no momento toma no gargalo goles generosos de Amarula.

Beatriz Caldas (esq.) e a amiga Beatriz Isadoro: “Hei de ser uma franciscana”

Para entrar no cercadinho e participar da concentração, é preciso pagar R$ 55 (se é aluno), ou R$ 65 (se não). Mas, segundo o diretor geral do XI de Agosto, Felipe Martinez, 23, os preços este ano chegaram a R$ 80 e R$ 90, encarecendo a medida em que o dia da festa se aproximava.

Tudo pode

Dentro do cercadinho, tudo pode. Pelo menos é o que dizem os alunos. A palavra de ordem é  “tolerância”. “A Sanfran foi a primeira faculdade que adotou essa política antiopressão. Se você for na PUC e no Mackenzie, não vai encontrar um evento como esse. Vá lá e veja com seus próprios olhos”, propõe Stephanie Hitomi, 22, que cursa o terceiro ano. “A Sanfran é um lugar confortável para você ser o que quiser.”

Stephanie é uma verdadeira metralhadora político-libertária, do tipo que avança enquanto fala (sem parar) e vai até o ponto de encurralar o interlocutor na parede do majestoso prédio da Sanfran. “Aqui, um cara não vai me agarrar e passar a mão na minha bunda. Não existe isso”, garante.

Ela faz parte do time de rugby da faculdade, cujas jogadoras se proclamam feministas. E o que seria isso, na visão delas? “Posso resumir numa frase: ‘Feminismo é não ser escroto’”, afirma Samara Santos, 23, um tanto vaga. Ela está no quarto ano de direito. Samara conta que seu sonho na adolescência era ser comunista. “Eu estudei em colégio público, velho, e entrei aqui sem cota.”

Stephanie Hitomi (ao centro, agachada) e o time de rugby da Sanfran (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Todas falam ao mesmo tempo, numa atitude que suscita a existência de um tipo híbrido de criança de 20 anos.  “Cara, a Sanfran já foi muito conservadora”, esclarece Stephanie, providencialmente. “Você olha, vê um monte de branco. É a elite. Mas de quatro anos pra cá houve uma transformação radical no comportamento. Foi quando a gente (feministas e tolerantes em geral) começou a fazer barulho”, diz Anna Victoria Petersen, 22. Quatro anos? “Por aí…Uns dois, vai”, dizem as garotas, buscando um consenso.

Homem com homem

Elas se orgulham do rápido progresso, e com razão. Imagine o que é mudar completamente o comportamento de uma faculdade que tem quase dois séculos, em dois anos. “A Sanfran é hoje uma bolha de tolerância na sociedade, velho. Não existe um lugar como aqui.” Segundo elas, houve um considerável avanço na “questão de gênero”. “No barzinho da Sanfran, ninguém está nem aí se mulher fica com mulher, homem beija homem, meu, numa boa. Eu fico com quem eu quiser, (apontando para outra jogadora) ela também fica…E daí, entendeu?”

Quando o blogueiro questiona até que ponto essa abertura toda não seguiria uma tendência midiática, ou não seria um jeito relativamente prático de mostrar engajamento, Samara o chama de “conservador”. “Já vi que você gosta de rótulos”, diz a comunista feminista.

Isso é ridículo

Mais uma jogadora do time se junta ao grupo, com boas novas sobre tolerância: “Um cara acabou de pedir o namorado em casamento no alto do trio, velho”, diz Mariana Antunes, 22, ofegando.

“Isso é ridículo!”, diz Samara, num impulso. As outras tentam contê-la. No fim, o casal era heterossexual. Alarme falso. Um menino e uma menina.

Tanto faz. No departamento jurídico do XI de Agosto, só se usa o “feminino universal”. “Quando a gente manda uma correspondência interna na faculdade, não importa se há homens entre os destinatários. Colocamos: ‘caras estagiárias’”, afirma o segundanista Stefano Silveira, 20, que trabalha no jurídico. Ele acredita que “a ideia de paridade de gêneros” na faculdade tomou um impulso muito grande nos últimos anos.

Para dar um exemplo, Silveira diz que a intenção do centro acadêmico era trazer a mulher trans Pablo Vittar para fazer o show no trio elétrico. No fim, a banda que veio foi mais representativa. Ele  aponta para o trio e mostra: “Tem um branco, um negro e uma mulher.” A cantora era trans.

“A questão de gênero está muito bem encaminhada na Sanfran”, acreditam as garotas do time de rugby.

Stefano Silveira, do time de vôlei Dinos (referência à arca “Di-noé”): mensagens internas apenas no “feminino universal” (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Grupo de mulatas

Decidido a averiguar a quantas anda a política antiopressora na Sanfran, o blog realiza uma varredura na concentração. Em poucos passos, encontra Benedito Vitor dos Santos, o Vitão, 71, que trabalha na coordenação de estágios e há 38 anos se fantasia para participar da peruada.  Ontem, estava com uma capa amarela, a cabeça ornamentada com plumas da mesma cor e colares de “pérolas”. Ele conta saudoso que no passado costumava chegar à manifestação com um “grupo de mulatas”. “Elas me ajudavam a chamar a moçada para o samba”, lembra. Vitão lamenta que não seja mais assim…

E o que aconteceu? “As feministas disseram que aquilo era exploração do corpo das mulatas, e cortaram a participaçãoo delas.”

Volto ao time de rugby, para entender melhor. As jogadoras confirmam. “Aquilo era objetificação da mulher.” Vitão diz que ninguém consultou as mulatas para saber se elas se sentiam objetificadas.

Enfim, tem que debater, gente.

 

Vitão, com a amiga Simone Lima; feministas cortaram a participação das mulatas que o acompanhavam, por considerarem exploração do corpo delas (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Bicha burra

Agora, parto para a investigação da “questão de gênero” na Sanfran. Interpelo um estudante muito alto chamado Eduardo Ritter, de 26 anos, que se alonga languidamente dentro de uma enorme capa preta e roxa, com uma touca bicórnia e unhas grandes pintadas de vermelho. Pergunto: “Que fantasia é essa?”

Resposta: “Sua bicha burra, não tá vendo!? É a malévola!!” Bem que o time de rugby disse que a política de tolerância antiopressora chegou a Sanfran há apenas dois anos. A malévola é mais antiga, está no último ano. Parece refratária ao progresso.

Malévola: refratária ao progresso antioperessor (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Felipe Martinez, do centro acadêmico. informa que cerca de 2.200 pessoas estão no cercadinho. Mais tarde, a bolha de tolerância se romperá, e os franciscanos se juntarão à multidão de 10 mil pessoas que, segundo Martinez, está do lado de fora. Será que vai haver um choque de intolerância?

Com receio, o blog não ficou pra ver. Soube depois que não.

 

 

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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