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Histórico

"13ºC é arbitrário", diz médico sobre temperatura definida em SP para tirar morador da rua

Paulo Sampaio

23/06/2017 12h42

A Prefeitura de São Paulo anunciou que vai intensificar o trabalho de atendimento a moradores de rua com a Operação Baixas Temperaturas, que entra em vigor “sempre que a temperatura atingir um patamar de 13 graus (ou sensação térmica equivalente)”. De acordo com o anúncio, quem quiser ajudar deve ligar para o número 156 e comunicar o local onde a pessoa está.

Anúncio da operação da Prefeitura (Foto: Reprodução)

Para checar o serviço, o blog fez uma ronda por nove locais na madrugada de anteontem, primeiro dia do inverno, por volta de 2h30, e comunicou alguns casos encontrados pelo caminho.  Voltou aos mesmos pontos por volta das 8h, já que uma das atendentes informou que “a perua leva três horas para chegar ao local e não pode obrigar ninguém a ir para o abrigo”.

Embora estivesse frio — especialmente para quem dorme na rua –, os termômetros marcavam 17 graus, quatro acima do estabelecido pela operação. Talvez por isso na segunda ronda todos os moradores de rua permaneciam onde estavam na primeira.

Hipotermia a 20 graus

Segundo o clínico geral Arnaldo Lichtenstein, do Hospital das Clínicas, “13 graus é uma temperatura arbitrária”. “O corpo pode fazer hipotermia a 20 graus. E no caso do morador de rua, não conta apenas o relento. Há o álcool — que ele eventualmente toma para se aquecer ou mesmo por ser alcoólatra –; os vasos da pele se dilatam e a perda de calor pode ser 20 vezes maior.”

O clínico lembra, ainda, que é preciso levar em conta fatores como a chuva e a urina. “A pessoa molhada também perde mais calor e mais rapidamente.” O peso também é importante. “Quanto mais magro, maior a possibilidade de hipotermia”, explica. Segundo Lichtenstein, “é comum o morador de rua reunir os quatro fatores que mais aceleram a baixa de temperatura: além do relento, a desnutrição, o alcoolismo e a falta de agasalho”.

Minhocão, Santa Cecília, altura da estação Marechal Deodoro do metrô (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Limite de registros

Apesar de a reportagem ter anotado nove endereços, a atendente informou que havia um limite, e registrou apenas três: Rua Rego Freitas, 34 (Largo do Arouche); Rua Marechal Deodoro, 121 e 393 (região do Minhocão); e Avenida Angélica, 1170 (Higienópolis). Levou dez minutos fazer o registro e encaminhar para a Coordenadoria de Atendimento Permanente e de Emergência (Cape). Segundo ela, “o computador deu pau”. Ficou faltando ainda comunicar os moradores encontrados na Avenida Geral Olímpio da Silveira, 1326 (Santa Cecília); Rua Piauí, 343 (Higienópolis); Avenida Rebouças, 411 (Jardins); Pedroso de Moraes, 420 (Pinheiros); Praça dos Omaguás (Pinheiros).

Mulher trans abrigada com o companheiro em uma barraca ao lado de uma fogueira, no viaduto que liga as avenidas Paulista, Rebouças e Doutor Arnaldo (Foto: Paulo Sampaio/UOL)Em relação a duas pessoas abrigadas ao lado de uma fogueira no viaduto subterrâneo que liga as avenidas Paulista, Rebouças e Doutor Arnaldo, a atendente informou que só era possível registrar o comunicado se houvesse um número de rua como referência — o que é complicado quando se está embaixo de um viaduto. O número mais próximo era o 2313 da Avenida Paulista. A cerca de 30 metros dali, na calçada, mais duas pessoas dormiam enrolados em panos — mas também não foi possível informar porque o limite de comunicados havia sido excedido.

Avenida Paulista, altura da Rua Haddock Lobo (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Outro lado

Procurada, a Prefeitura informou que os 13 graus estabelecidos para a operação entrar em vigor obedecem a um “critério técnico”.  Argumentou que  “os testes feitos pelo repórter se deram a uma temperatura de 17 graus — situação em que não há riscos iminentes à vida dos moradores em situação de rua. Logo, qualquer aferição de serviços emergenciais neste quadro é equivocada, pois as premissas de atendimento são diferentes”.

A Prefeitura afirma que “o tempo médio do atendimento no 156 é de quatro a cinco minutos, mas como no caso mencionado pela reportagem foram informados vários endereços, o tempo pode ter excedido essa média. É válido ressaltar que não há limites de endereços”.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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