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Histórico

Criador da "Festa dos Pelados", sucesso no Centro de SP, diz que "roupa é uma prisão"

Paulo Sampaio

18/04/2017 04h00

Rodrigo Turra, o DJ, observado em sua nudez “não sexualizada” (Foto: Divulgação/Festa Kevin)

Sem roupa nenhuma, no meio da pista cheia, três amigos evoluem animadamente ao som de “Bad Girl”, na voz de Donna Summer. Mentira. Um deles, o mais magro, não está completamente nu. Usa um “bondage harness”, espécie de top composto por cintos de couro interligados por argolas de metal (terceira foto). O apetrecho está associado à figura do escravo na prática do sexo sadomasoquista. O DJ também está pelado.

Originalmente, a ideia era criar um evento onde as pessoas se sentissem livres de qualquer preconceito, especialmente na forma de se vestir. Isso incluía se despir. Não demorou para que a Kevin ficasse conhecida como a “festa dos pelados”. Um sucesso. Cerca de 450 libertários costumam prestigiar cada edição do evento, que é mensal, itinerante e se realiza há pouco mais de um ano em São Paulo.

Seu criador, o jornalista mineiro Rafael Maia, 29, conta que esteve em festas assim quando morou em Londres, há quatro anos, e também em Berlim.  “O projeto propõe que as pessoas expressem a liberdade através do corpo. A roupa é uma prisão. Mas, para muita gente, se sentir livre é se montar. Usar um salto de 15cm, um vestido de lamê e uma peruca.” O nome da festa é uma alusão às tirinhas Kevin & Friends, que retratam “as aventuras do menino inconvenientemente feliz”.

Panorâmica da festa, pelo ângulo de um pequeno palco instalado ao lado da pista (Foto: Divulgação/Festa Kevin)

Espelhos embaçados

A última edição da Kevin foi na véspera da Sexta-feira Santa, em uma boate de aspecto decadente (faz parte da proposta) na rua Álvaro de Carvalho, uma ladeira pouco convidativa que passa por baixo do Viaduto Nove de Julho, no centro de São Paulo. O lugar tem paredes pintadas de preto, espelhos embaçados, neons esmaecidos e um corredor que leva a um espaço ainda mais escuro, ao fundo, que nesse caso funcionou como “darkroom”-  como é conhecido em festas gays o quarto onde os frequentadores fazem fast sexo com um ou mais parceiros. Sim, a festa é majoritariamente gay. Havia, com esforço,  três mulheres – uma na bilheteria.

Apesar de ninguém ser obrigado a ficar nu, Rafa Maia viu-se enredado por uma questão político-filosófica. Será que, como anfitrião, ele deveria ser o primeiro a tirar a roupa (ou, pelo menos, se desfazer dela em algum momento)? “No começo, eu não conseguia ficar pelado. Mas com o tempo aprendi a me sentir à vontade com o meu corpo. Hoje, eu acabo sempre nu”, lembra.  Rafa aponta para o DJ Rodrigo Turra e diz que “a história dele é parecida”.

Glúteos Firmes

Turra, 27, afirma que foi se libertando do sentido meramente erótico da nudez.  “Passei a achar que estar nu não deveria ser obrigatoriamente sexualizar o corpo.” O DJ chegou à festa dentro de um macacão curto preto, que ele tirou aos poucos, começando pela parte de cima. Depois de abaixá-la até a cintura, tocou cerca de três músicas, livrou-se do resto, mais três e foi-se a cueca. Para quem curte, foi um strip-tease e tanto.Tórax malhado, braços tatuados, glúteos firmes, ele não parece assim tão desligado da parte “sexualizável” de seu corpo.

Uma rápida panorâmica da festa mostra que a liberdade e a beleza física nem sempre caminham (ou dançam) juntas. Há corpos de todos os tipos, gordos, magros, peludos, negros, brancos, bonitos, feios, até vestidos. A grande maioria dos frequentadores, lá pela metade da Kevin, se mostra bem à vontade com o que Deus lhes reservou. A quantidade de álcool ingerida para atingir tal estágio é variável.  Embora o tumulto na chapelaria seja grande, pouquíssimos ficam completamente nus logo que chegam à festa.

Trilha de Gargalhadas

No pequeno palco na lateral da pista, o performer gaúcho Duda Babalu, rebatizado Dudx (em defesa da neutralidade de gênero) aguarda a sua hora de entrar em cena. Difícil para um artista chamar atenção do público na Kevin. Para tanto, Dudx se vestiu de palhaço. Com 1,76m e 108kg, ele vai dublar  uma “música” sem letra, a “Laugh Track”, trilha de gargalhadas que acompanha as comédias.

O bondage harness (Foto: Divulgação/Festa Kevin)

Do lado de fora, no fumódromo, um professor de português relativamente vestido afirma que seu negócio “é olhar” (as pessoas nuas). “Sou voyeur”, diz ele, que prefere não se identificar. Veste cueca rosa, botina marrom e cardigan atoalhado preto. A seu lado está um colega de magistério que, graças a um sapato de saltos vertiginosos, pulou de 1,88m de altura para 2,05m.  Pernas de fora, cueca preta e jaqueta justa, ele segura uma sacola com a roupa que veio de casa. Diz que a chapelaria está lotada. Entre uma baforada e outra de fumaça, conta que é a primeira vez que vai a uma festa naqueles trajes. “Nunca tive vontade em outros lugares.”

Na edição “Santa” da festa, realizada no meio do feriado que comemora paixão, morte e ressureição de Jesus Cristo, a fé dos frequentadores foi testada até o seu limite. Marcada para as 11h55, a entrada só foi liberada a 1h15. Um cano na parte de trás da casa estourou por volta das 19h, deixando a pista de dança completamente alagada. Rafa só conseguiu debelar totalmente os estragos seis horas depois, com a ajuda de bombeiros. Ele e seu parceiro no projeto, o site de relacionamento gay Hornet, chegaram a pensar em cancelar a festa. Ocorre que do lado de fora a fila de mais de 100 pessoas permaneceu impávida, aguardando esperançosa a oportunidade de compartilhar momentos de liberdade. Horas mais tarde, não havia sinais de arrependimento.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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