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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Motorista conduz patroa-candidata a comício em feira na periferia de SP

Paulo Sampaio

03/09/2018 04h10

São 9h15 de sábado, 1º de agosto, e Jarbas aguarda a patroa ao volante de uma Pajero Full blindada, para levá-la do Itaim, onde fica a cobertura duplex dela, na zona oeste de São Paulo, até uma feira livre na Cohab Brasilândia, extremo da zona norte, a 25 km dali. Candidata a deputada estadual pelo Partido Novo, Gabriela Camargo fará uma caminhada para distribuir santinhos na feira, depois seguirá para um pequeno comício em uma comunidade da região, e fechará o périplo em outra, em Pirituba, na zona noroeste.

Muito magra, ela usa uma camisa justa branca com detalhes cor-de-rosa, um jeans e um tênis Nike. Sobe lépida no banco de trás do carro e diz: "Ai, que delícia, vamos numa feira livre. Não vou tirar foto comendo pastel. Todo político tira. Não sei quem disse que isso é legal." Agitada e dispersiva, ela tecla no celular o tempo todo. Em determinado momento, aproxima a boca de uma das extremidades do aparelho e diz: "Não me manda coisa para comprar, eu agora só posso vender." Gabriela está falando com o cunhado, a quem orienta a vender o carro dela, uma Pajero Sport 2006, para ajudar a pagar a campanha. "Pede R$ 30 mil. Vale mais, mas fica com o resto pra você, de comissão."

Musica nacional

Gabriela pede a Jarbas que sintonize a rádio 89,7 FM. "Adoro música nacional", diz ela, com um acento populista. E mergulha de novo na tela do celular. Em cerca de 20 minutos, o motorista  estaciona o carrão em uma rua estreita, próximo à feira. A candidata desce, cumprimenta o coordenador da campanha, Murillo Ferreira, e quatro auxiliares. Um deles, Nélson Resende Roque, é pai de santo e foi contratado porque exerce uma liderança política no local e conhece bem os problemas da região.

A primeira moradora interpelada é uma baiana chamada Maria Marques, que tem 70 anos e 18 filhos. Ela ouve o que a candidata tem a dizer e comenta que ela é muito bonita, merece seu voto. E Gabriela: "Mas o importante é a beleza interior, dona Maria."

Gabriela Camargo grava um vídeo-denúncia na porta de um AMA: "Gente, como podemos aguentar isso! Esse lugar está cheio de equipamento novinho, podia ser uma ótima notícia, mas está parado há um ano! Cadê você prefeito, que não vê isso??" (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Pessoas normais

A receptividade da baiana não se repete ao longo da caminhada — mas tudo bem, Gabriela segue repetindo que o partido dela é formado por pessoas "normais", "que nunca estiveram na política", e que querem "fazer diferente". "Vocês conhecem o partido novo?", ela pergunta. Uns olham com uma expressão incrédula, outros parecem entediados e um terceiro grupo a ignora. Os feirantes não se mostram interessados em propostas políticas, mesmo que seja de alguém que se propõe a "fazer diferente". Para eles, esse é justamente o discurso mais usado por todos. "É sempre assim. Aí, quando chegam lá, começam a roubar", diz Robério de Oliveira, 37, que vende DVDs piratas.

Para convencê-los de que é uma "pessoa normal", Gabriela diz que não foi pedir votos, apenas se apresentar e perguntar o que eles precisam. Então, eles respondem que querem uma matrícula para a barraca; que já tentaram de tudo que foi jeito; que já prometeram a eles, mas o político sumiu; que se sentem inseguros porque podem perder o ponto a qualquer momento.

A candidata segura um bebê no colo, enquanto o pai de santo Nélson Resende, que exerce liderança na Brasilândia, dá um suporte no discurso (Paulo: Sampaio/UOL)

O charme da feira

Judite Xavier da Silva, 68, dona de uma barraca de almofadas, se queixa de que agora o mercado (lojas) vende as mesmas coisas que ela, com a vantagem de dividir o valor em muitas vezes, e que isso arruinou o seu negócio. E Gabriela: "Mas o mercado não tem o charme da feira, dona Judite. A feira é o lugar onde a gente vem pra passear com a família, comer pastel, tomar uma água de coco."

A candidata dá um santinho para Judite e diz: "O Novo é pró-mercado, incentiva o pequeno investidor a ganhar o próprio sustento, pagando cada vez menos impostos. Gente! Em um ano, nós pagamos 5 meses de impostos. Isso é um absurdo!"

"Nós quem?", pergunta Carlinhos de Souza, 30, da barraca do mamão papaia. Mas Gabriela já está na da mandioca, vendendo a imagem abnegada, impoluta, do criador do partido: "Ele foi bancário, trabalhou em uma porção de lugares, tem um patrimônio grande, poderia descansar. Mas não. Sabe por quê? Porque está empenhado na mudança. Ele sempre diz que não quer que os filhos morem em um país melhor, e sim que morem em um Brasil melhor."

Na barraca das almofadas, Gabriela tenta convencer Cida Carolino a votar no Partido Novo, enquanto Judite (de vermelho) parece cética (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Faxina ética

Quase ninguém na feira tinha ouvido falar no engenheiro carioca João Amoedo, o presidenciável a quem Gabriela se refere, fundador do Partido Novo.  Amoedo fez fortuna no mercado financeiro e desde 2010 se dedica em tempo integral a um projeto particular de renovação das lideranças no Brasil. Seu discurso prega uma espécie de "faxina ética" que só admite como partidários pessoas que não tem envolvimento com a política tradicional. Seria um grupo de "não contaminados". Amoedo se define como neoliberal, defende bandeiras privatistas e a redução dos poderes dos políticos. O Estado deve se ater, segundo ele, a questões relativas à saúde, segurança, educação, e na promoção de uma  rede de proteção para quem está na pobreza. De acordo com o Datafolha, o candidato tem  2% de intenções de votos.

"Mas moça, já tem muito partido: dois bastavam", diz Tatiane Santana, 37, da barraca da banana. Leo Pires, 25, que vende verdura, emenda, rindo: "Não preciso de mais candidato, não, dona, em Osasco já tem ladrão suficiente."

Ovo de Páscoa

Para reforçar sua indignação com "a política que está aí", Gabriela mostra no celular uma foto em que o virtual candidato a presidente pelo PT, Fernando Haddad, aparece de mãos dadas e os braços levantados com o presidente Michel Temer e ao ex-deputado Gabriel Chalita, ambos do MDB (Chalita migrou depois para o PDT). A foto é antiga, feita quando Temer ainda era vice-presidente e estava apoiando a candidatura de Haddad a prefeito, com Chalita de vice. Mas Gabriela fala como se tivesse sido tirada ontem.

De certa forma, ao dizer que não foi contaminada pela política, a candidata se mantém em uma zona de conforto. Não promete nada, como os "governantes de antigamente", mas também não se aprofunda em um projeto de governo. "Não adianta levar ovo na Páscoa e presente no Natal, gente. A criança precisa de saúde, educação", diz a candidata, a um grupo de mulheres arregimentado pelos auxiliares para ouvi-la na garagem de um sobrado.

Uma réplica do santinho dela, ampliado, está colada na parede. Quando os questionamentos ficam mais específicos, Nélson Resende, o pai de santo, entra em ação. Aponta para um conjunto habitacional e diz que "o CDHU (Companhia de Desenvolvimento Nacional e Urbano) construiu o conjunto, mas não urbaniza a área em volta. A candidata (Gabriela) vai lutar por isso, mas ela é uma só, precisa do apoio de vocês."

Lula-lá

A maior parte dos feirantes dizem ser eleitores de Lula — mesmo sabendo que ele está inelegível.  "Ele foi o que mais fez pelo pobre. Foi o único que colocou comida na nossa mesa. No período do Lula, a gente não estava nesse sufoco", diz Gilson Cardoso, 65, que vende alho. "O dinheiro não circula." Cético, sincerão, ele não promete dar voto a Gabriela.

Uma das mais revoltadas é Marly Leão, 60 anos, da barraca da cenoura. "Não sei como esses políticos têm coragem de sair na rua. Eles são honestos até cair lá dentro; aí, rouba que só. Eu voto no Lula porque ele deu possibilidade ao povo do nordeste, de onde eu vim. Eu vi isso. Todo mundo lá vota nele. E depois, o Lula é o único que não vai roubar, porque está preso."

Gilson Cardoso, da barraca do alho, não parece sensível aos apelos de Gabriela; ele diz que vota em Lula, "o único que colocou comida na nossa mesa" (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Discurso na laje

A caravana segue. Chega a uma ocupação localizada em um declive bem abaixo do nível da rua, que se acessa por uma escada sinuosa, irregular e íngreme. Santinhos de Gabriela estão pregados em todas as paredes. Ela é ovacionada. "Posso dizer um 'oi' pra vocês?", ela pergunta, humilde. "Nossa casa é um lugar que a gente só abre para pessoas muito íntimas. Por isso, eu estou muito feliz de vocês terem me recebido."

Apoiada pelos moradores, a candidata sobe em uma laje para falar. Diz o de sempre, que é uma "pessoa normal" e que seu candidato quer "fazer diferente". "A gente abriu mão do fundo de campanha, um bilhão de reais, porque nosso compromisso é com vocês, vamos lutar juntos!" A frase soa batida. Duas mulheres da comunidade, uma de cada lado de Gabriela, dão apoio no  discurso: "Eu só conheço a Gabriela de ver duas vezes, mas ela me passou muita confiança", diz a diarista Irinalva Moura de Oliveira, 58 anos. Perto de Gabriela, Irinalva é um prodígio de desenvoltura. "Ela vai passar em uma porção de lugares, como está fazendo aqui, para ver as necessidades do povo. Eu indico ela como candidata!"

Discurso na laje, com o empurrãozinho da diarista Irinalva Oliveira, que reforça o orçamento doméstico trabalhando em campanha política (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Diarista e cabo eleitoral

Segundo Marielza, irmã de Irinalva, "ela é diarista, mas só uma vez por semana". "No resto do tempo, trabalha com campanha política. Dá para tirar bem mais", diz. Gabriela volta a falar, incentiva todos ali a "lutar, lutar, lutar, colocar a boca no trombone mesmo", e finaliza: "Bom, é isso, gente. Alguém tem alguma pergunta?"

"Vai ter almoço!?" "Pelo menos uma caixa de Itaipava, moça!"

A candidata fica sem graça, não sabe o que responder, promete fazer um churrasco, se for eleita. Para o blog, já no carro, ela fala: "Oferecer almoço é coisa de político antigo! Fica parecendo compra de voto!"

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.