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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Não queria posar nua e acionei a Playboy por fraude, diz ex-símbolo sexual

Paulo Sampaio

14/09/2018 04h00

Quando a "pantera de 1984", Diana Burle, apareceu no estúdio do fotógrafo J.R. Duran — que ela chama de  "Duran, Duran", como o grupo de rock –, para posar para as fotos da capa da revista "Playboy", percebeu que ele não cumprira o que ela havia combinado com a direção da revista: "Eu queria algo bem natural, uma selva, que remetesse a onças, panteras, araras, macacos, e no entanto ele tinha preparado um ringue para me colocar lutando box." Mesmo assim, ela posou, com a condição de aprovar o material.

O Baile das Panteras foi lançado em 1981 pelo produtor carioca Walther Guimarães e patrocinado pelo "empresário da noite" Ricardo Amaral. Promovido durante o Carnaval, o evento elegia a vencedora entre 20 candidatas e teve vida longa —  13 anos. Primeiro, a disputa ocorria no Golden Room do Copacabana Palace, no Rio; depois, no Clube Monte Líbano e, por fim, na casa de espetáculos Metropolitan. Um dos prêmios oferecidos à vencedora era sair pelada na capa da Playboy. "A gente tinha um acordo com a revista", lembra Guimarães, que assinava na publicação a coluna "Gatas, Coelhas e Panteras". Muito midiático, o baile também era transmitido pelo programa "Fantástico", da TV Globo.

Diana reprovou as fotos de "Duran, Duran". "Não ficaram nem perto daquilo que eu imaginei. Acho que eles também não acharam legal. Então, propuseram que eu posasse com a Cláudia Lúcia, que foi a primeira colocada no concurso da Musa do Verão, e a terceira no da pantera. Achei aquilo estranho, disse que pelada, com ela, jamais, e então fizemos de biquíni."

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Diana (esq.) "passa a faixa" para Vera Guimarães, a pantera 1985; à direita, Valéria Câmara, segunda colocada (Foto: Reprodução)

Falsa pantera

Diana esperou pela edição de abril, mas a revista não publicou as fotos. Nem em maio: "Na de junho, eles colocaram só a Cláudia Lúcia na capa, com a chamada: 'A pantera de 1984'. Fiquei indignada! Aquilo era uma fraude! A pantera era eu!"

Furiosa, ela processou a Editora Abril, que publicava a Playboy: "Eles foram obrigados a me pagar uma multa, e ainda o correspondente ao meu cachê e o da Cláudia Lúcia. Na verdade, o que eles ofereciam em dinheiro para quem posava não era grande coisa", lembra. O blog não conseguiu localizar Claudia Lúcia. A Playboy produzida pela Editora Abril foi extinta no ano passado.

Segundo Diana, os editores da revista a convidaram mais uma vez para posar. "Ofereceram muito mais. Já dava pra comprar um apartamento pequeno." Mas, de novo, ela recusou o convite.

A capa da Playboy com Cláudia Lúcia, a "falsa pantera" (Foto: Reprodução)

Escola de etiqueta

Antes de Diana virar pantera, quando tirou o terceiro lugar no concurso de Musa do Verão, em 1984, seu pai sugeriu que ela fizesse um curso na Socila, escola de etiqueta que ensinava como usar os talheres à mesa, como falar e até como andar. "Meu pai era comandante de avião e trabalhava para uma família muito rica. Queria que eu soubesse me portar quando me levasse para jantar na casa deles."

Ela diz que suas participações nos concursos foram acontecendo sem que jamais houvesse planejado nada.  "Um dia, minha mãe disse: 'Bom, minha filha, agora chega. Tá na hora de arrumar emprego.' Aí, eu disse que queria seguir carreira. E ela: "Mas não existe carreira de bonita." Foi então que ela resolveu ser atriz, mas não evoluiu muito na profissão. Fez algumas participações em novelas, no programa "Os Trapalhões" e em júris de programas de auditório.

1985: jurada do programa de Flávio Cavalcanti (Foto: Arquivo pessoal)

Efeito colateral

Para ela, ter se tornado "pantera" trouxe mais desgosto com os homens do que alegrias. Recebeu, por exemplo, telefonemas de gente que ela não conhecia e que fazia ofertas indecorosas. "Um desses caras ligou dizendo que queria me conhecer melhor. Da terceira vez, disse que estava disposto a pagar. Eu respondi: 'Que ótimo: quero um apartamento na Vieira Souto, uma casa em Miami e um iate de 40 pés'. Ele falou que não tinha condição de pagar. Eu disse: 'que pena'."

Em outra situação, no Pizza Palace, ponto de encontro de artistas e socialites nos anos 1980, em Ipanema, Diana avistou um sujeito que espalhara entre os amigos que havia pagado para transar com ela. "A mesa dele estava cheia, eu cheguei perto e disse: 'Sabe aquele dinheiro que você disse que me pagou para transar comigo? Até hoje eu não recebi.' Ele negou, resmungou 'não, o que é isso, eu não disse nada', mas depois eu soube que a mesa toda riu dele, e lembrou de outras mentiras contadas."

Posando para comercial, no fim dos anos 1980 (Foto: Arquivo Pessoal)

Azar no amor

Diana nunca se casou.  De acordo com ela, foi mais por falta de sorte, do que de vontade. "Simplesmente não aconteceu." Na ocasião do concurso, namorava com um advogado que trabalhava como vendedor de carros. "Gosto de homens de aparência rústica, mas que sejam gentlemen. Esse contraste me atrai muito", avisa ela, que continua muito bonita.

Mais tarde, quando sua mãe passou a sofrer de doenças decorrentes da senilidade, ela se mudou para Cabo Frio, na região dos lagos, Rio, para dar atenção a ela — até morrer, no ano passado. "Foi uma perda horrível. Tinha paixão pela minha mãe", diz ela, enquanto procura nos guardados fotos de seu momento pantera.

Diana Burle, em Cabo Frio, os anos 2010, mais de 20 anos depois de se tornar "pantera" (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.