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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Construí minha sexualidade a partir das bichas, diz antropóloga de 69 anos

Paulo Sampaio

2013-01-20T19:05:00

13/01/2019 05h00

A antropóloga misto de vedete Regina Muller, 69 anos, diz que as maiores referências de sua vida são os indígenas e as bichas. Há quase 50 anos, ela transita com igual desenvoltura em tribos Guaranis, Xavantes e Asurini, e em palcos onde revisitou divas como Carmem Miranda, Marlene Dietrich e Rita Hayworth. Fez parte também do grupo Dzi Croquettas, a versão só de mulheres do lendário Dzi Croquettes, consagrado pelo humor cáustico, a androginia deslavada e a prosódia subversiva — em plena Ditadura Militar.

Ela conta isso enquanto espera para se apresentar no porão do Cabaret da Cecília, uma casa de espetáculos dedicada também a shows burlescos, no centro de São Paulo. O lugar é pequeno, abafado e possui uma atmosfera forçosamente embolorada. Boa parte dos frequentadores são jovens que sentem saudades de um tempo que não viveram.

Escracho gay

Embora muitos na plateia não saibam a letra de "Negue", por exemplo, de Nélson Gonçalves, regravada em 1978 por Maria Bethânia, todos se deixam envolver pela interpretação de Edy Star, remanescente do grupo Sociedade da Grã-ordem Kavernista, criado no começo dos anos 1970 por ele, Raul Seixas, Sergio Sampaio e Míriam Batucada. "Negue, seu amor, o seu carinho/Diga, que você já se esqueceu/Pise, machucando, com jeitinho/Esse coração…", canta Star, 81 anos. Ele usa colete colorido, tem o cabelo armado e solta pérolas do escracho gay.

A casa está lotada, mal dá para caminhar entre as mesas, e as cortinas de veludo vermelho aumentam o peso do calor. Muito divertida, Regina gargalha dramaticamente, como se a entrevista fosse para a TV e ela estivesse cercada de refletores. Usa um corselet preto e dourado, com enchimentos nos seios, maquiagem de palco e um turbante preto na cabeça, encimado por plumas verdes.

A indumentária burlesca e o comportamento assumidamente caricato fazem parte da persona de Dorothy Boom, figura que ela criou para viabilizar a encarnação de uma série de entidades célebres, como Angelita Martinez e Maria Callas, além das já citadas no primeiro parágrafo."A Dorothy não nasceu, ela veio", explica. A vinda de Boom aconteceu em 2016.

Dorothy Bloom recebe Marlene Dietrich na pele de Regina Muller (Fotos: Alberto Oliveira)

Momento luminoso

A vida real e a fantasia sempre se confundiram na busca de um personagem que Regina Muller considerasse digno de sua própria existência. O primeiro foi a estudante de ciências sociais da USP (Universidade de São Paulo), que sonhava em preparar os camponeses para a revolução. "A gente queria a conscientização pelo aprendizado. Era (o educador) Paulo Freire na veia", lembra ela, que, como sempre, mergulhou fundo na construção daquele momento.

Era começo dos 1970, e graças a um trabalho experimental de educação no campo, Regina foi parar em uma aldeia de tribos Guarani e Kaingang em Tenente Portela, vilarejo de 13 mil habitantes a 480 km de Porto Alegre. Ali, ela teve o que chama de "momento luminoso", uma referência ao processo de individuação do qual fala o psiquiatra suíço Karl Jung (1875-1961). "É quando uma luz nos desperta para algo que a gente reconhece como parte do nosso destino real. E aí, você pensa: 'É isso!'."

Antropóloga performática

Na volta dessa temporada, quando o amigo das "sociais" que a levou para o sul estava preso (assim como outros militantes que faziam parte de seu círculo), Regina migrou para o curso de antropologia. Em nova viagem de estudos, ela agora se embrenhou em uma aldeia Xavante, também no sul, e ali elaborou uma tese de mestrado com base na pintura e ornamentação corporal, arte visual e comunicação social deles.

No meio do mestrado, em 1973/74, aconteceu um novo momento luminoso, mas agora sem academicismos. Foi quando ela teve contato com os Dzi Croquettes. Enfeitiçada pela nova tribo, a antropóloga investigativa descobriu em si um grande potencial cômico-performático. "Eu me apaixonei de cara por eles. Assistia todos os espetáculos e sabia as falas de cor." Regina e outras garotas na mesma situação eram tão dedicadas ao grupo que um dos mentores dos Dzi, Wagner Ribeiro, inventou as Dzi Croquettas. E criou especialmente para elas o show "As Fadas do Apocalipse".

A antropóloga em seu trabalho com os Asurini, no Xingu; e a Dzi Croquetta no show "As Fadas do Apocalipse", onde fazia o número  "Sympathy for the Devil"  (Fotos: Arquivo Pessoal)

Beleza Pura

"As Dzi Croquettas não deram certo", reconhece ela, resignada. Regina não conseguiu ser uma daquelas figuras andróginas, mas em compensação conquistou um troféu cobiçado por todos os Dzi. Chamava-se Renato Deralore e reunia tudo o que eles mais valorizavam: era belo, sexualmente livre e aberto aos mais diversos experimentos, digamos, químicos. "Todas as bichas eram loucas por ele, e eu, como mulher-bicha recém inventada, construí minha sexualidade através delas. Aquele tesão era uma novidade pra mim. Até então, o sexo tinha sido um drama."

Uma parte da dissidência das Croquettas se juntou para formar o grupo musical "As Frenéticas"; Regina arrumou as malas e partiu, com Renato, para uma temporada na tribo dos Asurini, no Xingu. Lá, ela escreveu sua tese de doutorado sobre a história e a arte deles, ilustrada com fotos de Renato — que, apesar de nunca haver manuseado uma câmera antes, revelou-se "um grande artista". Em 1983, os dois tiveram uma filha, Carina, que, segundo Regina, "tem estado cada vez mais próxima". Renato sumiu no mundo.

Frida Kahlo

O trabalho no Xingu perdurou até 2015, pouco antes da vinda de Dorothy Boom e do surgimento do grupo Atrupe — Arte Desacato, criado em 2018 pelo historiador Alberto Oliveira e pelo ator, escritor e artista plástico Alberto Camarero, amigo de longa data de Regina. A intenção é reviver os espetáculos de variedades, com artistas de diversas tendências e idades — de 30 a 80 anos.

"Desde que conheci a Regina, no início dos anos 1970, em Campinas, ela sempre intercalou  os estudos na academia com a brincadeira dos personagens. Toda vez em que tinha uma festa, a dada altura ela sumia, ia para o banheiro e reaparecia com um pano amarrado na cabeça e apresentava um número. Acabou levando essa coisa da criação de performances para dentro da universidade. Quando assumiu a direção do instituto de arte da Unicamp, a plateia estava toda de terno e gravata, e ela apareceu vestida de Frida Khalo."

Tisch School of Arts

Em determinado momento, decidida a estudar seriamente a história da performance, Regina Muller embarcou para um "estágio pós-doutoral" na New York University, nos Estados Unidos. Apresentava a persona Chica Chic, uma incorporação de Carmem Miranda, sem deixar de fazer suas incursões pelo Xingu. Ainda que os interesses de uma plateia não sejam os mesmos que os de outra, nada parece deixar Regina constrangida. A decoradora Célia Camarero, irmã de Alberto e ex-Dzi Croquetta, conta que certa vez a assistiu performando Carmem Miranda para uma plateia de intelectuais renomados. "Fiquei preocupada com a aceitação do show por aquela gente pernóstica e de poucos sorrisos, mas ela encantou todo mundo."

No Xingu, e na porta do Cabaret da Cecília, com o amigo de longa data Alberto Camarero: "Uma festa com Regina Muller, em algum momento teria um atração especial; ela ia aparecer e fazer um número com a platéia." (Fotos: Arquivo Pessoal)

Alguém no Cabaret da Cecília vem avisar a Regina que está na hora de entrar em cena. O sonoplasta escondido à direita do pequeno palco coloca Lili Marlene pra tocar, e Dorothy Boom encarna uma Marlene Dietrich burlesca. Obcecado pelo universo do vedetismo, Alberto Oliveira assiste à performance embevecido. Comenta: "E olhe que ela nem ensaiou!", enquanto Regina Boom abusa da expressão corporal e da máscara facial para dramatizar a personagem eternizada pela atriz alemã.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.