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Blog do Paulo Sampaio

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Com 1 milhão de seguidores, personal carioca é chamada de "Fada das Bundas"

Paulo Sampaio

2031-01-20T19:05:00

31/01/2019 05h00

 

Carol, de amarelo, suando a camiseta na aula de "jump" (Fotos: Ricardo Borges)

Acompanhar uma aula de Carol Vaz é entrar em contato com o impressionante universo dos glúteos gigantes. "Vai, jumenta!", grita a treinadora, com voz de comando, usando o jeito carinhoso com que todas ali se chamam. As aulas dela ocupam duas salas que somam cerca de 100 metros quadrados e são separadas por uma divisória baixa de alvenaria; cerca de 20 mulheres de várias idades se aglomeram no corredor, a espera do começo. Um contingente de retardatárias aguarda a leitura da lista de espera: "Sempre tem espaço, então eu faço a chamada das que ficaram de fora", diz Carol, que segue gritando: "Karina! Yasmin! Daniele! Não se batam, meninas! Poliana! Ingrid!…"

Carol Vaz exibe o muque e os glúteos; 16 anos sem férias, pulando, pedalando e requebrando (Foto: Ricardo Borges)

Carol Vaz se define como "especialista em glúteos", e isso ela comprova no aplicativo Instagram, com postagens do progresso muscular das bem fornidas retaguardas de suas alunas. Para treiná-las, desenvolveu um método que consiste em "dividir a bunda em quadrantes": topo, lateral (culote), meio, e excesso na parte de baixo, provocado pelo peso da gravidade. "Eu me sinto uma artesã. Sou conhecida como a 'Fada das Bundas"', diz ela, com um indisfarçável orgulho. Por sua vez, as alunas oferecem uma incrível contrapartida. As mais "aumentadas" chegam a treinar cinco horas por dia, em dois turnos, no começo da manhã e no da noite.

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Mas por mais hipertrofiadas que estejam, boa parte delas nunca parece satisfeita com o próprio corpo. Ou falam em "secar", para destacar os músculos, ou em "crescer", para ficar "grande". Em muitos casos, a obsessão com o físico está ligada a alguma mossa na autoestima. A estudante de engenharia eletrônica Vanessa Garcia, 25 anos, conta que decidiu ficar forte depois de ser traída por um namorado que a trocou por uma menina  "mais gostosa". "Eu era muito magra, bunda pra dentro, tá ligado? Tímida até para andar."

Vanessa Garcia quando ainda não se achava "gostosa", e hoje (Foto: Arquivo Pessoal)

69 cm de coxa

Atualmente, Vanessa se encontra em um estágio mais avançado de "gostosura", e agora mira outros objetivos. Diz que "gostaria de ficar como a Juju Salimeni". Refere-se à modelo que foi panicat, repórter do programa Legendários e musa da escola de samba Unidos da Tijuca. Em 2017, Juju revelou ao blog que nunca estava contente com o próprio tamanho. Com 1,70m de altura, ela tinha na ocasião 106 cm de quadril, 69 de coxas e 330 ml de silicone em cada seio. "Meus braços e pernas eram finos, eu não gostava, queria 'crescer"'.

Embora ainda não esteja do tamanho de sua ídola, Vanessa tem um ponto em comum com ela: ambas reconhecem sofrer daquilo que os especialistas chamam de "dismorfia muscular", uma distorção da autoimagem corporal  que as leva se achar menores do que na realidade são. "Tem isso sim. Mas não vejo como doença", diz a estudante.

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Comportamento lesivo

O psiquiatra Eduardo Arantagy, do Hospital das Clínicas, explica que de fato não se trata de um transtorno "porque não necessariamente envolve mudanças de hábitos alimentares". "Mas é comum esse paciente sobrecarregar o organismo com doses altas de proteínas e esteróides (anabolizantes)." De acordo com  Aratangy "muitos passam a ter comportamentos lesivos, até para ganho de massa muscular".

Segundo ele,  a distorção da própria imagem pode levar a um sofrimento muito grande. "O paciente se acha 'um franguinho', mesmo estando forte, e tem vergonha do próprio corpo a ponto de só treinar em lugares vazios, ou de moletom." O psiquiatra diz que o tratamento com antidepressivo pode ter efeito, mas o mais eficaz é a psicoterapia.

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Ventilador Cenográfico

A academia onde Carol Vaz dá aula funciona em uma casa de dois pavimentos, no Grajaú, bairro na zona norte do Rio, e não oferece nenhum luxo. Ao contrário do que se vê nas academias de rede, as instalações são precárias, as máquinas da musculação, antigas, e as paredes pedem uma pintura urgente. O ventilador instalado na sala onde as alunas treinam tem um efeito, digamos, cenográfico. No spinning, um aparelho de ar condicionado igualmente decorativo, fora de atividade, faz par com uma samambaia de plástico encerrada em um nicho envidraçado.

"Senta e acelera!", continua Carol. "Tá bocejando por quê? Quer levar um tapa nessa boca, minha filha!?" O tom é mais engraçado do que agressivo. Do lado de fora, os termômetros marcam 34ºC, mas, de acordo com os sites de meteorologia, a sensação térmica é de 37ºC. A umidade relativa do ar, naquele dia, estava em torno dos 70%. Ali dentro, a temperatura chegava, fácil, aos 40ºC. Na aula de jump, a professora alterna flexões de perna, braços e movimentos tronco, com pulos enfurecidos em um mini trampolim redondo. Para um não-iniciado na arte da hipermalhação glútea, é como se aquelas moças tivessem resolvido se penitenciar, dentro de uma sauna úmida.

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Carol gosta de tudo ali do jeito que é. Antes de cursar Educação Física, ela já era recepcionista da academia. Com o salário, pagava a faculdade de direito, que abandonou no 8º período, junto com o vício do cigarro: "Fumava um maço de Hollywood vermelho, comia joelho e tomava Coca Cola", conta. O dono da academia, Nico Anfarri, a convenceu de que ela seria uma excelente treinadora. Procurado pelo blog, ele não quis falar.

16 anos sem férias

Presumivelmente, o lugar desperta em Carol um afeto fora do comum. Seria apenas o seu local de trabalho, mas ela não vê assim: "Moro mais aqui do que na minha casa", diz a treinadora, que trabalha cerca de 20 horas por dia e não tira férias há 16 anos.  Basicamente, sua vida é pular, pedalar, puxar ferro e requebrar (respectivamente nas aulas de jump, spinning, musculação e dança). Às 6h ela começa a se mexer, às 2h ainda não foi dormir, às voltas com aulas particulares (personal) e consultorias prestadas a clientes do mundo todo, "do Pará a Dubai". No último ano, conta, amealhou 700 mil seguidores no Instagram — já tinha 300 mil.

Com 35 anos completados em outubro, Carol mede 1,55m de altura e tem 100 cm de bunda. Apesar dos glúteos agigantados e do abdômen muito seco, a treinadora garante que nunca usou "bomba" (anabolizante): "Tenho endometriose", justifica. Como todos naquele ambiente, ela faz tudo para parecer maior. Regularmente, posta no "insta" vídeos dela mesma feitos a partir de baixo, para dar a impressão de crescimento. No dia em que a reportagem esteve na academia, ela orientou o fotógrafo do blog — com o mesmo tom de comando — a ficar no chão, para "ampliar" suas dimensões. "Eu me sinto mal quando não estou aqui (na academia). Eu era asmática", diz ela, em ritmo de superação, enquanto passa um pente de plástico amarelo nos cabelos molhados de suor.

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Quase rica

O lifestyle espartano vale para tudo. Depois de afirmar que está muito bem financeiramente, Carol diz que não tem tempo de gastar o dinheiro. "Guardo 80% do que eu ganho." Como prova de seu amor pela malhação, ela afirma que nunca vai deixar de dar aulas para turmas grandes. "Se ficar rica e não precisar mais de dinheiro, ainda assim vou continuar vindo à academia", diz ela. Dada a celebridade da professora, a quantia para frequentar as aulas é da ordem do irrisório. Basta pagar a matrícula, de R$ 115, e, se não conseguir chegar com antecedência, entrar na fila de espera.

As únicas aquisições de algum valor feitas por Carol são um jipe Renegade "mecânico, porque gosto de dirigir" e duas bolsas de R$ 10 mil cada, das grifes Dolce & Gabbana e Valentino. Ela as usa com chinelo Havaianas, não por fazer o estilo high-low, mas porque não tem "saco para usar salto". Nas raras vezes em que não está dando aula, em geral aos sábados à tarde, ela vai ao shopping (pediu para não dizer qual, para não atrair o assédio: "Eu me tornei uma figura conhecida, as pessoas querem tirar selfies comigo", gargalha.)

 

Primeiras da classe: Alessandra, Andressa, Fernanda, Patrícia e Vanessa (Foto:Ricardo Borges/UOL)

Não é pra se achar

Durante o treino coletivo, as primeiras filas são ocupadas por moças que dedicam mais tempo, e já há mais de um ano, à construção do glúteo gigante. Carol diz que ministra "uma aula só de bunda". Pelo menos cinco dessas moças têm, desde que passaram a "treinar pesado", mais de 100 mil seguidores no "insta". "Só faço questão de deixar claro que a repercussão massiva é um fenômeno das redes sociais. Ninguém virou desembargadora, nem ganhou o Oscar", diz a professora.

Carol garante que, "ao contrário de qualquer ambiente com muita mulher, todas aqui se tratam com respeito". "Não tem essa história de ficar detonando a outra. Mostro que a gente tem de se proteger, e que qualquer uma deve ser bem acolhida." A treinadora diz que incentiva as veteranas a dar uma força no insta para às recém-chegadas. "É muito comum a menina chegar aqui com dois mil seguidores, e ser apadrinhada pelas outras." Carol faz o mesmo. Um dos maiores sucessos de audiência é a postagem estilo "antes"e "depois"

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As 'de boa', e as recalcadas

Pergunto como é a relação das "aumentadas" com as mulheres que não treinam tanto nem tem o corpo tão musculoso. A nutricionista Fernanda Alves, 31, um filho de 11, diz que "tem as de boa, e as recalcadas". Estas últimas, segundo ela, "costumam dizer que a gente se enche de bomba (esteróide), e que é tudo puta." Todas riem. Elas vestem roupas de cores cítricas, mantém os cabelos longos e, em pelo menos três casos, usam cílios postiços.

E os homens? Como eles as abordam? A arquiteta Renata Miceli, 29 anos, 1,60m, 104 de quadril, diz que é assediada permanentemente no Instagram: "Todo dia recebo proposta de gente que quer me comer. Tem um que me pede para postar foto do meu pé." E Fernanda Alves: "Ih, esse é manjado!"  Mais risadas. Fernanda diz que gosta de "homem raiz": "Tem que ter atitude para chegar em uma mulher grande. Aparece muito veadinho!", queixa-se.  E haja atitude para encarar uma chave de pernas de Fernanda (veja treino abaixo)

Para Vanessa Garcia, "o homem não pode ser mais bonito (do que ela)". Há cerca de quatro anos, Vanessa namora o dono de uma loja de suplementos alimentares, que, segundo ela, "come besteira o dia todo: pizza, Coca-Cola, chocolate…". Ela atribui o físico forte do namorado à genética. "Ele não merecia", acha. Por sua vez, ela conta que, apesar de se alimentar de forma saudável, come mais do que qualquer homem que esteja em sua mesa: "Hoje meu almoço pesava 1 kg", diz.

Bem desequilibrada

Carol afirma que muitas de suas alunas chegaram à academia com "a parte psicológica bem desequilibrada". Várias delas, incluindo Vanessa Garcia, relatam que a família "não aceita" sua relação obsessiva com o físico ("minha mãe odeia essa vida de academia; vive dizendo 'já tá bom, chega', nem olha mais pra mim") "Além de aperfeiçoar o físico, busco estabilizá-las emocionalmente", explica a fada das bundas.

Embora afirme que seu treino não foca apenas no corpo, mas na mente, a própria Carol conta que dorme apenas quatro horas por noite, não se senta para fazer uma refeição e não sente falta de relacionamento afetivo. "Chega uma hora em que eu quero matar a pessoa! Sou casada com o meu trabalho!" Sua família a considera "over".  Ela ignora. "Aprendi a aproveitar a parte boa deles". Autêntica, expansiva e determinada, Carol conta que foi "gorda" na adolescência ("pesava 70kg") e atribui sua desinibição ao sobrepeso: "Se eu entrasse nos lugares sem ser notada, morria de fome", acha.

Agora que virou "musa fitness", busca usar sua influência para "melhorar a qualidade de vida das pessoas". Ela tem plena convicção de que o empoderamento feminino pode partir do crescimento físico, ou da força no sentido estrito. Mas reconhece: "O grande problema da era fitness é que as pessoas querem ficar igual a outras. A Gracyanne (Barbosa), por exemplo, inspira muita gente, não só pelo corpo como pelo estilo de vida, mas não é para querer ser ela. Digo sempre à aluna: 'Seja a sua (da aluna) melhor versão!"'

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.