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Histórico

Ex-símbolo sexual, mãe de Bruno Mazzeo conta que foi difícil posar nua

Paulo Sampaio

14/02/2019 05h00

1974: ensaio assinado por Antônio Guerreiro (Foto: Arquivo Pessoal)

Alcione Mazzeo nunca planejou ser um símbolo sexual. Aconteceu. Nos anos 1970 e 80, era comum a carreira de uma 'modelo e manequim' evoluir para o campo da descontração. Por sugestão de um amigo publicitário, que achava que ela "levava jeito para a coisa", Alcione topou fazer fotos para anúncios de empreendimentos imobiliários e cigarros (ela não fumava), e então uma pose foi levando à outra. Aos poucos, o número de peças de roupa nas campanhas diminuiu. "Hoje, eu vejo mães de meninas de 13 anos orientando as filhas a empinarem a bunda, fazerem pose, acho incrível. Quando eu comecei, era tudo tão puro, a gente encarava como brincadeira. Não tinha preparo nenhum para as fotos, eram feitas na praia, numa praça, em qualquer lugar que tivesse um fundo bonito", lembra ela, prestes a completar 68 anos.

Nascida em Santos, Alcione migrou ainda na adolescência, com a família, para Juiz de Fora, e mais tarde para o Rio. "Ali eu vi que tinha chegado à cidade em que eu queria viver para sempre." Os pais dela voltaram para São Paulo, mas seus patrões na distribuidora de valores em que trabalhava como secretária lhe ofereceram uma promoção, e então ela ficou. Primeiro, morou em um quarto alugado no Flamengo, época em que se sentiu muito só, desacolhida e, por isso, "enrolava para não ter de voltar pra casa". Foi quando conheceu o amigo que a chamou para fazer comerciais. Depois de um tempo, mudou-se para outro quarto, em Copacabana, mas aí a carreira de modelo e manequim havia engrenado.

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Sequer os mamilos

Graças a uma educação muito rígida, Alcione custou a se sentir à vontade para fazer o que chamam hoje de "ensaio sensual". "Nem se cogitava o nu frontal, não se mostravam sequer os mamilos." Ainda assim, ela diz que era "muito difícil posar". Certa vez, em uma sessão produzida no apartamento de um namorado, ela teve de fazer malabarismos com as almofadas que decoravam a cama, para se esconder do próprio fotógrafo: "Como eu não conseguia ficar só de calcinha, ele saía do quarto, eu mudava de posição, abraçava as almofadas, ele voltava para fazer outra sequência, saía, eu mudava de posição de novo, abraçava as almofadas…".

O ensaio com as almofadas (1974): "Só de calcinha, não" (Foto: Arquivo Pessoal)

A modelo e manequim já tinha figurado em inúmeras matérias de moda para revistas femininas, quando finalmente tomou coragem para se deixar fotografar em um ensaio intitulado "Um Banho de Alcione", feito no banheiro da editora Bloch para a revista "Ele & Ela". "Eu aparecia coberta apenas com espuma. Estava com vergonha, mas no fim aquilo me libertou de uma porção de bloqueios. Sabe quando você decide sair do armário? O importante não foi aparecer nua na revista. Foi aparecer nua, e aquilo não me incomodar."

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Banho de espuma no banheiro da Bloch, para a capa de "Ele & Ela" em novembro de 1975: a libertação (Foto: Arquivo Pessoal)

Perdida em Sodoma

Àquela altura, Alcione já havia atraído a atenção de produtores das chamadas pornochanchadas (filmes eróticos sem sexo explícito nem roteiro definido), e estrelado mais de uma dezena delas ("Uma Amante Muito Louca"; "Cada Um dá o que Tem", "O Estranho Vício do Doutor Cornélio", "Perdida em Sodoma"). "Tudo pra mim aconteceu nos anos 1970", diz. Ao mesmo tempo, a convite do apresentador (Luiz Carlos) Miele (1938-2015), participou dos primórdios do programa "Fantástico", que estreou em 1973 na TV Globo. Gravou clipes com cantores como Marcos Valle, do Mustang cor de sangue, e fazia figuração em números diversos. Foi capa duas vezes do cultuado jornal "Pasquim", que representava um sopro de humor em plena Ditadura Militar.

Capa do Pasquim, em 1976: "Para vereador, Maria da Graça"

Chico, que amava Alcione, que amava…

Contratada para a  linha de shows da Globo, ela fez figuração em uma série de humorísticos como "Satyricom", "Viva o Gordo" e "A Praça é Nossa". No especial "Azambuja", conheceu Chico Anysio. Ele cismou com ela. Queria Alcione de qualquer maneira. Só que a moça estava apaixonada. Não pelo namorado que tinha no momento, mas por um homem casado, que não quis deixar a mulher para assumi-la. Foi então que ela contraiu caxumba e teve de fazer repouso absoluto.

"O Chico me ligava diariamente, várias vezes por dia. Eu dizia que estava apaixonada, que não adiantava insistir, mas ele era muito inteligente, envolvente, nunca me cantou de uma maneira vulgar." Enfim, ela acabou capitulando, tornou-se a terceira mulher de Chico e mãe do quarto dos sete filhos dele. Bruno Mazzeo, 41, faz o papel de professor Raimundo na atual versão da escolinha criada por seu pai. "Eu nunca tinha pensado seriamente na materidade. De repente, me deu vontade de ser mãe", conta Alcione, que engravidou em setembro de 1976.

O filho e os netos

Ela conta que desempenhou exemplarmente o novo papel. "Eu era supermãe, de levar a natação, acompanhar nos estudos. Eu me lembro de que até uma atriz que deixou de ser minha amiga reconhecia: "A Alcione pode ser o que for, mas não se pode falar um 'a' dela, como mãe." Orgulhosa, a agora avó mostra fotos dos netos, e fala de sua relação com eles: "São três. O pequenininho se joga na piscina sem medo, eu já vi que vai gostar de esportes radicais. O irmãozinho é mais cuidadoso, olha bem por onde anda. O mais velho é lindo, um fofo."

Bruno lembra que alternava idas com o pai aos estúdios da Cinédia, para ver as gravações do "Chico Anysio Show", e com a mãe no Teatro Fênix, no Jardim Botânico carioca, para assisti-la nas participações dela em  "Viva o Gordo" e "Os Trapalhões": "Um momento inesquecível foi quando ela participou do 'O Incrível Monstro Trapalhão'. Eu era dos que iam pra fila do Cinema Leblon – que às vezes dava volta no quarteirão – para ver estreias de filmes deles. Então, ver minha mãe na telona ao lado deles, era como uma glória pra mim."

Com o filho, Bruno, e os três netos (Foto: Arquivo Pessoal)

Deu branco (risos)

Assim como a maternidade, Alcione nunca havia pensado seriamente em ser atriz — mas agora tinha tomado gosto pela coisa. Queria mostrar talento. Houve uma primeira tentativa, quando deram a ela uma fala em um humorístico, mas o teste não acabou muito bem. Ela finalizaria uma cena entre dois comediantes veteranos. "Era uma frase curta, mas deu branco. Não lembrava de jeito nenhum", ela ri (muito).

Na segunda chance, quando já estava casada com o gênio do humor, ela se dispôs a desconstruir a imagem de símbolo sexual. Então, Chico criou para ela a inesquecível Maria Angélica, uma garota míope, que usava óculos fundo de garrafa, maria-chiquinha e falava como se estivesse com o nariz entupido. Tinha  paixão por Bozó, interpretado pelo próprio Chico, um galã dentuço e deslumbrado que se gabava por trabalhar na Globo. "Eu abo o Bozó", era o bordão de Maria Angélica.

Apaixonada por Bozó, Maria Angélica foi criada por Chico especialmente para Alcione: maria chiquinha, óculos fundo de garrafa e nariz entupido (Foto: Arquivo Pessoal)

Curriculum Vitae

No meio da entrevista, Alcione saca da bolsa um álbum com fotos de toda sua carreira, desde as primeiras fotos como modelo, até os filmes mais recentes, como "As Aventuras de Agamenon, o Repórter", de 2011, no qual contracena com Marcelo Adnet: "Mandei fazer esse álbum porque meu filho não conhece a minha história. Não me pergunte o motivo, eu não sei. Ele não se interessou", afirma ela, sem mágoa.

Ela se queixa de que já foi muito menosprezada profissionalmente. "Muita gente acha que minha carreira começou quando eu conheci o Chico Anysio. Não é verdade. Resolvi fazer essa compilação para mostrar isso. Deu um trabalhão selecionar essas fotos, o álbum custou uma grana. Mas está aí", diz ela, mostrando foto por foto com justificado orgulho.

No dia da entrevista, em um bar na Avenida Atlântica (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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