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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Mãe quer prisão para empresário acusado de matar seu filho em acidente

Paulo Sampaio

2026-02-20T19:05:00

26/02/2019 05h00

Jeanette Heide, 76 anos, reconhece que nada trará seu filho de volta, mas quer que o homem que o atropelou e causou sua morte pague pelo que fez. Na noite de 17 de julho de 2013, a moto Honda Lead verde que o comerciante Fabio Antônio Heide pilotava foi abalroada por um automóvel Jetta preto que trafegava em alta velocidade, segundo testemunhas, pela contramão, na rua Iubatinga, no Morumbi, zona sul de São Paulo. Fábio, então com 43 anos, foi lançado a cerca de 80 metros de distância e morreu em decorrência do choque. O condutor do Jetta, o empresário Bernardo Romitti, 36 anos, tentou fugir, mas não conseguiu porque parte da lataria da moto se prendeu ao para-choque dianteiro do carro, impedindo-o de seguir em frente.  "O que me dá ódio é a impunidade", diz Jeanette.

Jeanette e Fábio, no réveillon de 2013 (Foto: Arquivo Pessoal)

Preso em flagrante, Romitti foi posto em liberdade antes mesmo da missa de sétimo dia de Fábio, graças ao pagamento de uma fiança de R$ 100 mil. O empresário aguarda o julgamento, marcado para o dia 23 de abril, em liberdade. Contratou para defendê-lo o escritório do advogado Celso Vilardi, um dos que atuaram no caso do filho do empresário Eike Batista, Thor, que em 2012 atropelou e matou um ciclista no acostamento da Rodovia Washington Luís, na Baixada Fluminense, no Rio. Em 2015, Thor foi absolvido. Procurado pela reportagem, Vilardi não quis se manifestar.

Bafômetro, não

Terceiro dos quatro filhos de Jeanette, Fábio estava voltando do restaurante da família, no Campo Belo, zona sul, quando tudo aconteceu. No boletim de ocorrência, os dois policiais que faziam patrulhamento de rotina na região, e foram acionados por moradores, relataram que Romitti "apresentava sinais evidentes de embriaguez, como fala desconexa, olhos avermelhados, dificuldade motora e andar cambaleante"; ele se recusou a fazer o teste do bafômetro. Os dois policiais informaram ainda que "foi necessário o emprego de força moderada para controlar o empresário, que chegou a avançar contra as pessoas, na tentativa de se evadir do local". Jeanette se pergunta: "Como pode a pessoa descrita nesse B.O. estar em liberdade?"

Apesar de o acidente ter ocorrido pouco depois das 23h, ela só foi saber por volta das 6h30. "Fiquei em choque. Aquilo parecia irreal, eu simplesmente me recusava a acreditar. Nem sei dizer como sobrevivi àquela dor. Chorei, gritei, me desesperei, até hoje eu tenho dificuldade de entender como aquilo aconteceu. Procuro me policiar para não voltar muito ao assunto e incomodar as pessoas", diz.  A primeira a ser comunicada foi a mulher de Fábio, Gisela, com quem ele tinha dois filhos, de 13 e 7 anos. Ela ligou para Luciano, o irmão caçula dele, que falou com Andrea, a irmã. Enquanto Luciano e Gisela seguiram para o Hospital Universitário (da USP), para onde levaram Fábio, Andréa ficou com os sobrinhos: "O menor estava dormindo, mas o outro sabia que o pai tinha sofrido um acidente. Por volta da meia-noite, o Luciano ligou para dizer que não teve jeito."

Último pedido

Luciano e Andrea acompanham a mãe na entrevista ao blog. Ele lembra: "Algumas testemunhas disseram que, antes de ser levado para o hospital, o Fabio disse: 'Por favor, cuidem dos meus filhos'. Eu sabia que só um milagre poderia salvá-lo, mas nessas horas a gente não quer acreditar no que está acontecendo. Quando o médico me chamou na sala de espera, imediatamente eu percebi o que ele ia me dizer. Aí, desabei. Fiquei tão transtornado que, na hora da revolta, não tomei o cuidado de dar a notícia para a Andréa com jeito. Deixei-a desorientada."

Os quatro irmãos, com a mãe (o pai morrera em 1994). Da esq. para dir.: Eduardo, Jeanette, Luciano, Andrea e Fábio (Foto: Arquivo Pessoal)

Pouco antes da morte de Fábio, a família inteira havia se reunido para passar alguns dias em uma casa que eles alugaram na Riviera de São Lourenço, litoral de São Paulo: "Foi um momento de muita alegria. Hoje, olhando para trás, fica parecendo que o destino preparou um encontro para a gente se despedir dele", diz Jeanette. Ela conta que, se não tomar dez gotas do tranquilizante Rivotril e um comprimido do indutor de sono Stilnox, não dorme. "O Fábio era um filho amoroso, prestativo, do tipo que ajudava as pessoas de graça. A alegria que eu tinha de viver acabou ali. Agora, só consigo rir superficialmente."

Dolo eventual

Na denúncia, o promotor Rubens Andrade Marconi argumenta que, por estar alcoolizado, em alta velocidade e sem habilitação para dirigir, "o indiciado assumiu o risco de produzir o evento morte".  Na pronúncia, a juíza Carla de Oliveira Pinto Ferrari acolheu o pedido da promotoria de imputar ao réu o crime de homicídio doloso eventual — "quando o agente tem condições objetivas de prever a possibilidade de produzir um determinado resultado e, mesmo assim, dá continuidade a sua conduta".

A juiza atendeu o pedido da defesa para que Romitti recorresse em liberdade, mas determinou a aplicação de duas medidas cautelares: a suspensão do direito de dirigir até o fim do processo; e a proibição de frequentar bares ou locais onde haja comercialização de bebidas alcoólicas para consumo imediato.

Limite do sofrimento

Retrospectivamente, os irmãos Heide não conseguem decidir se foi mais doloroso ouvir a notícia de que Fábio havia morrido, ou contar para Jeanette que ela tinha perdido o filho querido. "A gente teve de se armar de coragem", lembra Andrea. "Nós somos uma família muito unida, dessas que todos fazem tudo junto, que se falam todo dia, que um torce pelo outro. Só que dessa vez não tinha como suavizar a história." O sofrimento de Jeanette parecia ter chegado ao limite do suportável, quando, no velório, o filho mais novo de Fábio se aproximou do caixão para deixar ali uma folha de papel com um desenho especialmente feito para ele. Ela pergunta: "Você acha que existe condição de eu deixar pra lá o que aconteceu?"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.