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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Vamos combater a UNE, diz coordenador da união dos estudantes conservadores

Paulo Sampaio

2018-03-20T19:04:30

18/03/2019 04h30

Deputado mais jovem da Assembleia Legislativa de SP, Douglas Garcia anuncia o início do 1º Encontro da União Nacional dos Estudantes Conservadores

O deputado estadual mais jovem da Assembléia Legislativa de São Paulo tem orgulho de dizer que é possivelmente o mais conservador. Eleito com cerca de 74 mil votos, Douglas Garcia (PSL-SP), 25 anos, é um dos fundadores do movimento Direita São Paulo, criado em 2016 por um grupo de apoiadores do então candidato a presidente da República Jair Bolsonaro. Na ocasião, o Partido Verde pediu a cassação de Bolsonaro, depois que ele prestou uma homenagem ao coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), que entre 1970 e 1974 foi chefe do DOI-CODI, um dos principais centros de repressão do Exército durante a Ditadura Militar — de acordo com levantamento do projeto "Brasil Nunca Mais" e da "Comissão da Verdade", 502 pessoas foram torturadas e pelo menos 45 morreram durante o período em que o coronel chefiava a organização.

Garcia defende o coronel. "Ninguém é considerado culpado até o trânsito em julgado. Nesse caso, como caiu a condenação, o juiz declarou Ustra como inocente. Então, já era!", diz o jovem deputado, que no último sábado coordenou o 1º Encontro da União Nacional dos Estudantes Conservadores (Unecon), com a qual pretende combater "a hegemonia de esquerda absolutamente ditatorial da União Nacional dos Estudantes (UNE)".

Filho de cristãos evangélicos, nascido e criado na favela Buraco do Saco, entre São Paulo e Diadema, Garcia afirma que Bolsonaro ganhou a eleição porque "fala a linguagem do povão". "A elite intelectual não nos representa em nada. Eles nunca vão nos entender enquanto não saírem da bolha em que vivem. Os valores dela são inflexíveis. Vai na favela e pergunta a um morador se ele quer que chamem o filho homem dele de Maria (alusão ao debate sobre identidade de gênero, que para ele é uma bandeira da esquerda). As atitudes do presidente consideradas "impróprias" por seus críticos (como o twitter do "golden shower") são, para Garcia e seus correligionários, mera expressão da "autenticidade" de Bolsonaro.  "Ele se elegeu por ser quem é. Não faz tipo. O povo gosta disso!"

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

 

Blog — Qual é a ideia principal da União Nacional dos Estudantes Conservadores (Unecon)?

Deputado Garcia — A ideia é ter liberdade de pensamento, de expressão, fazer com que os conservadores consigam se organizar dentro das faculdades e escolas de ensino médio, não para que eles criem uma nova UNE (União Nacional dos Estudantes), mas fazer com que a gente dome a UNE, de dentro pra fora.

Blog — Como seria isso?

DG — Vamos organizar um DCE (Diretório Central dos Estudantes) dentro da USP, outro na Unifesp, na PUC, no Mackenzie, fazer com que a nossa galera se candidate. E se perdermos as eleições, a gente vai ter um núcleo da Unecon dentro de cada faculdade, para que esses estudantes possam se fortalecer, defender suas bandeiras, seus valores, diferente daquilo que vem acontecendo hoje, que é uma hegemonia política da esquerda, totalmente ditatorial. Eles não aceitam qualquer ideia divergente.

Blog — Quantas pessoas integram o movimento?

DG — Se for contar em página, tem mais de 300 mil pessoas que nos seguem. Mas militantes ativos são cerca de 2 mil espalhados por todo o estado de São Paulo. Ocupam Câmara Municipal, organizam manifestação de rua, colocam a mão na massa. O Instituto Conservador veio depois da Direita SP, e então deu origem à Unecon. O DSP é cheio de garotada na faixa dos 16 aos 20 e tantos anos, a gente entrou no meio estudantil também. Se nós fizermos um filtro pra ver quantos estudantes têm para trazer para o Unecon, vai ver que são cerca de 90%.

Blog — Qual a faixa etária dos integrantes da Unecon?

DG — Entre 16 e 35 anos.

Blog — O movimento sofreu influencia da ideologia assumidamente conservadora do atual presidente?

DG — Pelo contrário. Eu só apoio o atual presidente porque ele tem ideias de que eu gosto. Ele possui posições e valores que nós defendemos. E conservadorismo não é uma ideologia; aliás, nós somos radicalmente contra ideologias. Ele segue a mesma ideia que eu e a população. Nós elegemos Jair Bolsonaro porque ele representa a população. Nós vamos falar dos prejuízos que as ideologias totalitárias trazem para os estudantes.

Blog — O senhor acha que o momento é especialmente propício ao surgimento de ideologias de direita e conservadoras?

DG — Sim, nós estamos no meio de um tsunâmi de conservadorismo. Mas por mais que o mandato de Jair Bolsonaro passe, e venham outros, a Unecon é um projeto de longo prazo. Quando eu falo em crescer e ocupar o espaço que a UNE tem só pra ela, eu não digo que isso vai acontecer em um ano, dois ou três, porque qualquer idiota sabe que isso fugiria da realidade. Para você criar um núcleo forte dentro de uma universidade, escola, e combater a esquerda no meio estudantil, pode jogar uns 30, 40 anos.

Blog — Vocês premiaram o vencedor de uma gincana do encontro com um livro do coronel Brilhante Ustra. São a favor da tortura como forma de impor a ordem? 

DG — A única condenação que considerou o Ustra um torturador, entre aspas, – e que nem era criminal, era cível, pode ver em qualquer tribunal do Brasil — foi aquela que falava sobre danos morais a um terrorista. E, mesmo assim, essa condenação caiu em um julgamento recente, em segunda instância, no Tribunal de Justiça de SP. Não existe mais. Pode procurar, não tem tribunal no mundo que o considere torturador, entre aspas. Se a Justiça não considera, não dá nem para começar a discussão. Então, já era!

Blog — Vocês são totalmente conservadores, ou liberais em relação a temas como união homoafetiva e aborto?

DG — Nós somos 100% conservadores, defendemos a liberdade de mercado, e é uma confusão enorme dizer "vocês são conservadores nos costumes e liberais na economia". Ora, ser conservador é defender a liberdade de mercado. Portanto, não há o que falar. Quanto a questão do casamento gay, não tem como ficar metendo o bedelho nisso. Pra que que a gente vai falar disso, é uma coisa que existe no Brasil, deixa os caras serem felizes. Dentro do DSP, o que não falta é gay. Eu falo com a maior liberdade do mundo, porque sou  politicamente incorreto mesmo, a gente chama um ao outro de viado, o pessoal brinca, faz piada etc. Tem muito gay fazendo parte do movimento, eu nem imaginaria, enfim, dentro da Unecon também, então a gente não tem problema nenhum, pode vir. O que nós somos radicalmente contra é a cartilha gay. Outro dia apareceu o "perucossauro", o cara com um pênis de borracha enorme, vestido com ele, ensinando as crianças a usarem camisinha. Isso é absurdo, surreal, que não tem como você passar numa escola meu Deus do céu. Isso é nojento, não representa em nada o movimento LGBT, a gente tem nojo, nojo, nojo. Não dos gays, mas de uma minoria que faz parte da militância LGBT e quer impor sua ditadura gay, essa coisa nojenta de depravação cultural; que quer expor as crianças a um tipo de assunto tão delicado que é a erotização. A gente não quer a erotização infantil. Entende? A infância das crianças precisa ser respeitada. Beleza?

Blog — E em relação ao aborto?

DG — O (youtuber) Arthur Durval defende a legalização. Nós somos ra-di-cal-men-te contra. É isso que nos diferencia: somos 100% conservadores. E para você fazer parte da Unecon você precisa ter esses valores, inclusive a gente tem uma lista em que há alguns pontos do movimento. Se o estudante não segue essa lista, pode ir procurando a UNE, se for um revolucionário, ou o pessoal da Unilivres, que é mais liberal.

Leia também: Ex-militante a favor do aborto promove congresso antifeminista

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.