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Histórico

Mordida no nariz pelo marido, mulher terá de fazer 15 cirurgias reparadoras

Paulo Sampaio

25/03/2019 05h00

Até ser mutilada pelo homem com quem viveu sob o mesmo teto durante dois anos, a vendedora Talita Oliveira, 28 anos, não entendia como muitas vítimas de agressão doméstica resistem tanto tempo antes de registrar a primeira queixa na delegacia: "Eu pensava: 'Por que elas permitem que o marido bata nelas uma segunda vez, uma terceira? A culpa é delas.' Era algo muito distante da minha realidade — mas então aconteceu comigo. Hoje, se eu vejo uma mulher sendo agredida na rua, eu entro na briga mesmo correndo risco de apanhar. E digo a todas que apanham: não perdoem. Perdoar é o mesmo que se matar. Eu sou uma sobrevivente. Estou com sequelas, mas poderia ter morrido."

Há pouco mais de uma semana, Talita fez a quinta cirurgia de reconstrução nasal. O médico diz que serão mais dez, "no mínimo".  Ela perdeu o nariz e a orelha esquerda, depois de ser abocanhada duas vezes pelo agressor. "Eu havia dito que não queria mais o relacionamento, ele foi embora, levou tudo, mas naquele dia (da agressão no rosto) teve jogo do Corinthians. Toda vez que tinha futebol, ele chegava em casa muito agressivo. Me batia, e no outro dia pedia desculpas, arrependido."

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Há pouco mais de uma semana, Talita fez a quinta cirurgia de reconstrução nasal; faltam dez (Foto: Arquivo Pessoal)

"Coisa de puta"

O primeiro ano de relacionamento, conta ela, "foi uma lua de mel". Os dois se conheceram em uma festa de amigos comuns. Com o passar do tempo, ele a convenceu a não trabalhar fora, e ela abriu um salão de cabeleireiros em casa. "Nós dois administrávamos o comércio", lembra ela. E aí, começaram as implicâncias com o jeito dela. Tudo o que Talita fazia era criticado. Até o modo como ela mascava chicletes: "Ele dizia que era coisa de puta", conta.

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Como acontece em muitos casos de agressão doméstica, o ex-companheiro de Talita era muito afável com amigos, parentes dela e a vizinhança. "Ninguém acreditaria se eu contasse o que ele era capaz de fazer comigo." Com os três filhos que ela teve em um relacionamento anterior (de 13, 10 e 8 anos), "ele sempre foi maravilhoso". Quando as agressões psicológicas passaram às físicas, ele batia nela nos fins de semana, dias em que as crianças estavam com o pai ou a avó.

Tragédia anunciada

Mas naquele domingo de novembro de 2017, quando eles já não moravam mais juntos, foi diferente.  Os berros dele com a mulher deixaram claro para quem pudesse ouvir que se tratava de um homem muito violento. "Depois do jogo (do Corinthians), ele começou a me ligar, me xingando de tudo; dizia que, se eu não falasse, ele iria até a minha casa e me mataria. Às 2h ele apareceu em um carro que devia ser emprestado, bateu na minha janela, eu acordei, abri a porta. Ele queria que eu o acompanhasse, desse uma volta, eu disse que não ia, que não deixaria meus filhos. Ele entrou e vasculhou tudo atrás de algum namorado meu, até debaixo da cama. Acabou indo embora, mas voltou."

Àquela altura, temendo o pior, Talita havia embrulhado os filhos em uma coberta e ido para a casa da mãe, que mora perto. "Eu disse a minha mãe que estava com medo. Deitamos todos na cama dela. Um tempo depois, ouvimos um barulhão lá fora, e os vizinhos vieram falar que ele estava invadindo a casa de todo mundo atrás de mim, aos gritos. Eles pediram para eu acalmá-lo."

Murros na cabeça

Quando Talita saiu com os filhos para tentar fazê-lo ir embora, ele disse ao garoto: "Pode se despedir da sua mãe, porque daqui a três horas eu vou voltar, sem dó." Acreditando que fosse uma bravata, e que ele não voltaria, ela disse à mãe que podia ir trabalhar. Só que ele voltou. Fingindo que estava armado, assustou o menino, que correu para os fundos da casa e queria pular de um barranco para fugir pela rua de trás. Talita tentou segui-lo, para evitar que ele se machucasse.

Fora de si, o agressor a agarrou no movimento de uma gravata e passou a esmurrá-la na cabeça. Então, tentou quebrar seu o pescoço, e quis apagá-la por asfixia. "Eu vi tudo escuro várias vezes." Talita diz que o que mais causa indignação nela, hoje, é lembrar que ninguém na vizinhança chamou a polícia.

Ódio canibal

Na sequência, ele a mordeu na orelha,  arrancando-a, e em seguida, de frente para ela, abocanhou seu nariz: "Quando ele foi embora, peguei os pedaços no chão e os coloquei em um pote com gelo. Achei que poderia conservar, e conservaria, mas deveria ter embalado porque o contato direto com o gelo necrosou a pele".

Desde então, Talita nunca mais viu seu algoz. Um ano e três meses depois de livrar-se dele a um custo altíssimo, ela diz que cada cirurgia a que se submete a deixa mais triste. "É uma dor que eu não merecia." Quem se encarrega da reconstrução nasal são médicos do SUS. Talita não sabe dizer se está pior física, ou psicologicamente. Ela conta que logo que tudo aconteceu os filhos, quando ela pedia um abraço, tinham medo de chegar perto por causa da deformação em seu rosto. "Nunca mais dormi direito. Choro muito à noite, escondida deles."

Dificuldade para respirar

Ela conta que na última cirurgia o médico abriu um pouco suas narinas, para que o ar passasse sem problema. "Eu tenho dificuldade de respirar, me sinto tão cansada."

Talita afirma que a polícia "fez um bom trabalho". Foragido, o agressor foi capturado em Pirapora, cidade a 600km de Belo Horizonte, e julgado em primeira instância. Criminalistas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) se dispuseram a ajudá-la. "Não me deixaram sozinha no Fórum um minuto, para que eu não ficasse frente a frente com ele." Na delegacia em que ela registrou o boletim de ocorrência, o plantonista classificou o caso como "lesão corporal grave"; mas na delegacia de mulheres, a acusação passou a ser considerada uma "tentativa de feminicídio", o que agravou muito a situação do réu. "A família achou que ele fosse sair direto pra casa. Mas eles o mandaram para júri popular."

A data ainda não foi marcada.

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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