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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Brutus: "festa de sexo" reúne 600 homens no centro de São Paulo

Paulo Sampaio

2022-06-20T19:04:00

22/06/2019 04h00

A festa é frequentada também por homens autodefinidos como "exibicionistas" e "voyeurs": os que vão para ser olhados, e os que estão ali para assistir (Foto: Brutus/Arquivo Pessoal)

Definida pelos organizadores como "festa de sexo para público masculino",  o projeto Brutus registrou na quarta-feira, no espaço cultural Casa da Luz, em São Paulo, a presença de 600 homens (e três mulheres: a bilheteira, a caixa do bar e a funcionária que tomava conta do banheiro).

Na festa, os homens estão liberados para circular com pouca roupa, ou mesmo sem nada, e o sexo é permitido em todos os nove ambientes, incluindo a pista. O espaço mais procurado é uma sala mal iluminada, que, supostamente, abriga outra pista. Um DJ toca música techno.

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Gosto para tudo

A Brutus tem um ano de existência e, de acordo com um de seus criadores, o DJ Alexandre Bispo, 45, a ideia é promover um evento democrático: "Nosso mote é a diversidade. Não dá para dizer que a festa é frequentada apenas por musculosos, ou gordos, jovens, ou velhos. Há homens para todos os gostos."

Mais ou menos. Contam-se nos dedos os jovens entre 20 e 30 anos. Segundo o próprio Bispo, a maior parte dos frequentadores tem entre 35 e 55 anos. Uma significativa parcela deles é entusiasta da "cultura leather", cujos integrantes se sentem particularmente atraídos por roupas de couro — que estão associadas ao sexo sadomasoquista.

Nesse caso, eles costumam cobrir o tórax apenas com o harness (espécie de top composto por cintos de couro interligados por argolas de metal); usam calças, jaquetas e quepes do mesmo material (iguais aos usados por nazistas na 2a. Guerra Mundial e, mais tarde, por motociclistas norte-americanos — vide filme "O Selvagem", com Marlon Brando) e jockstraps (tipo de cueca que cobre apenas a genitália, deixando a retaguarda ao léu, presa apenas por elásticos).

Trenzinho reúne cinco homens na sala que abriga um dos bares da festa (Foto: Brutus/Arquivo Pessoal)

Paredes descascadas

O espaço fica em um casarão do século XVII, na região central de São Paulo, perto da Cracolândia. Ao que parece, o aspecto detonado do lugar, que tem a tinta das paredes descascadas e as vigas de madeira do teto remendadas, faz parte da proposta. "A tosqueira mexe com a libido dos brutus", diz o empresário Anderson Gonçalves, 32, rindo. Ele tem 1,87m, 130kg e é dono de uma "academia de bairro" na zona norte. Veste harness e jockstrap. Diz que curte "tapas na bunda".

Nos dias de semana, o casarão funciona como um centro cultural e dispõe de salas para ensaios de teatro, cinema, ateliês de arte, galeria, coworking, yoga, bar, cafeteria e residência para artistas. Para a festa, as quatro salas do térreo abrigam as pistas de dança, dois bares e o darkroom (espaço escuro disponível para uma espécie de 'cabra cega' sexual, onde todos se tocam e, quase sempre, vão além disso). 

Jockstrap arriada

Na quarta-feira passada, a pista contígua à principal, iluminada apenas com uma luz arroxeada, agregava um bololô de homens entregues ao sexo aleatório. Alguns, com as josckstraps arriadas, deixavam-se penetrar no ponto menos escuro da sala, aparentemente excitados com a exposição. Outros os olhavam com a expressão curiosa de quem assiste a um episódio de Animal Planet.

A dada altura, um dos espectadores se abaixou à frente do que estava sendo penetrado e fez sexo oral nele. A cerca de quatro passos dali, um homem muito alto se ocupava de um bem mais baixo, que estava virado de costas, com os braços levantados e as mãos apoiadas na parede. Aqui e ali, parceiros se equilibravam em eventos furtivos de masturbação mútua. Um trio de GG — como são chamados os grandes e gordos — se abraçavam pela frente e por trás. Dois peludos ("ursos") se juntaram a eles.

Vendem-se harnesses

No segundo andar estão quatro salas grandes, mais claras. Numa delas, havia uma instalação composta por galhos, folhas secas e pingentes de capim; na outra, que faz as vezes de galeria, expõem-se algumas pinturas a óleo; na terceira, a produção exibiu em um telão vídeos de sexo explícito, em geral com personagens fortes, ou gordos, vestindo couro. Assistindo aos vídeos, refestelados em três jogos de sofás confortáveis, os brutus também amavam. Na sala central, vendiam-se harnesses de diferentes cores. Cada cor, explicava o encarregado da venda, representa uma preferência sexual:

Preto: fetiche

Vermelho: fisting (introdução da mão, até o pulso, no ânus do parceiro)

Azul escuro: sexo anal

Claro: oral

Amarelo: golden shower ('chuva dourada': de urina)

Marrom: prática escatológica (fezes)

A focinheira de couro é indicada para quem é submisso e "obedece como um cachorrinho"

Na cultura leather, a máscara de cachorro, com coleira, indica personagem submisso (Foto: Festa Brutus/Arquivo pessoal)

Bacia das camisinhas

Pela movimentação intensa, a dificuldade para enxergar com nitidez quem está na principal sala de sexo, e a própria urgência do ato, ninguém parecia estar a procura de um adônis. Aparentemente, praticava-se um sexo despreocupado, até porque na escuridão ninguém cobra lealdade do(s) parceiro(s). À entrada da festa, havia uma bacia com preservativos disponibilizados gratuitamente. Bispo assegura que a oferta não é ignorada: "Ao fim da noite, o volume de camisinhas diminui quase que pela metade. Não posso garantir que usem, mas levam."

Pode ser uma boa notícia. De acordo com uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Ministério da Saúde, um entre quatro homens que fazem sexo com homens em São Paulo tem o vírus HIV. A pesquisa foi feita em 12 cidades brasileiras e, no grupo entrevistado, 83,1% se declaram gays, 12,9% heterossexuais ou bissexuais e 4% outros. Do total, 75% transavam só com homens. 

No segundo andar, refestelados em sofás, os brutus também amam (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Ação extramuros

Bispo conta que, em determinado momento da noite, havia lá um voluntário dando informações aos frequentadores da festa sobre doenças sexualmente transmissíveis. Ivone de Paula,  diretora de prevenção do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, da Secretaria Estadual de Saúde, afirma que as chamadas ações extramuros — que saem do CRT e vão aos lugares frequentados pela população mais vulnerável, especialmente homossexuais jovens e pessoas trans — têm-se revelado a estratégia mais eficaz .

"Parece simples, mas descobrimos recentemente, com a experiência, que chegar próximo a essa população é o grande pulo do gato. Na quinta-feira, nós estivemos na feirinha da diversidade (19a. Feira Cultural LGBT de São Paulo) e distribuímos 1 mil autotestes rápidos de HIV. Muitos levavam sem dar muita importância, mas uma porção voltou para dizer que tinha feito", conta.

Engarrafamentos de adeptos ao harness (Foto: Arquivo Pessoal)

Mais sex parties

Ivone diz que o CRT também visita os lugares para dar informação sobre a PrEP (Profilaxia pré-exposição ao vírus da Aids) e a PEP (Profilaxia pós-exposição, também conhecida como "pílula do dia seguinte da Aids"). Ela esclarece que ambas são eficazes em relação ao HIV, mas não a outras doenças sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorréia e HPV (cuja incidência atingiu números alarmantes).

A Brutus não é a única sex party do calendário da semana que antecede a parada do Orgulho LGBTQI+.  Além da "Dando", de público mais jovem, marcada para a hoje à noite, há pelo menos outras quatro, autodefinidas apenas como "festas dos pelados" , mas com a mesma característica libertária. Ocorrem desde a quinta-feira — F4F; Z(o)na; Kevin (hoje) e After Kevin amanhã cedo.

Enquanto isso, a um canto do segundo andar, uma instalação reúne galhos, folhas e pingentes de feno (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Aos animados, hoje (22) e amanhã tem mais.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.