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Trump, milícia e bolsas de luxo: uma aula de atualidades para empresárias d

Paulo Sampaio

10/03/2017 04h01

Cerca de 80 mulheres se reuniram anteontem no Iate Clube de Santos, em Higienópolis, região central de São Paulo, para assistir a uma aula sobre Donald Trump, seguida de um brunch "leve" e do lançamento de uma coleção de joias. A aula custa R$ 60 por cabeça, os valores das joias vão de R$ 7 mil a R$ 30 mil, e o brunch saiu por conta. O pretexto do encontro era o Dia Internacional da Mulher, comemorado na própria quarta-feira, 8.

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A professora não quis ser identificada. Tem por volta de 60 anos, é judia de origem libanesa e fala com bastante sotaque. Usa a prosódia para imprimir consistência ao discurso: prolonga a última sílaba de algumas palavras, solta expressões em inglês e caminha dramaticamente pelo palquinho instalado à frente do salão. Veste uma saia branca abaixo dos joelhos, uma camisa estampada de gola redonda e um cinto fininho também branco, como as sapatilhas. Atrás dela há um quadro cheio de anotações feitas com marcador preto e, ao lado, um mapa mundi.

Marli Mansur, Fabíola Fernandes Araújo Pereira, Lígia Carvalho e Solange Chohfi: bolsas tem status de pet.

Ao citar a organização supremacista norte-americana Ku Klux Klan, que apoiou Trump, ela diz em tom de indignação: "Para eles, se você não é white, anglo-saxon, protestant, supremacist, você simplesmente não existe!" Lindinalva, única mulher negra no ambiente, pergunta se eu quero um cafezinho. "Há 660 grupos que não reconhecem o governo, 200 milícias. O que são milícias?" Ninguém responde. A professora poderia tomar como exemplo as favelas do Rio, um clássico, mas prefere algo mais familiar: "É como se os Jardins e Higienópolis tivessem um exército particular que tomasse conta de tudo!… Tá confuso?"

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A aluna Dulce Kalil ("se escreve K-A-L-I-L, que nem o do médico") Fagundes, 72, pergunta "quanto tempo vai durar esse one man show". A professora diz que a "colocação de Dulce" remete a "um homem de cabelo lambido chamado Stephen Bannon", e então conta a história do estrategista-chefe do presidente americano. "Ela é muito esperta", diz Dulce, olhando para a professora. "A aula é paga sabia? À tarde tem outra turma." Na verdade, são muitas turmas, sem contar as aulas particulares, sempre para alunas endinheiradas. Dulce, que, segundo a professora, "é uma das 20 milhões de pessoas que seguem o twitter de Donald Trump", assiste às aulas de "atualidades" da libanesa há quase 20 anos. A psicóloga Miriam Baptistella, 60, chegou há um ano: "É muito gostoso esclarecer o que a gente não sabe. Eu não sou muito de ler, não tenho paciência. Prefiro escutar." O brunch é servido no jardim de inverno do Iate, onde a artista plástica Miriam Mamber expõe suas joias. "Meu laboratório é o planeta Terra. Sou muito ligada na natureza", explica ela, que aproveitou "o gancho da aula" para promover seu trabalho.

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As alunas parecem mais animadas (ou menos sonolentas). Cada uma se faz acompanhar de uma bolsa grande, reluzente, que tem status de pet. Três modelos das marcas Dior, Prada e Balenciaga repousam em cima de uma mesa redonda, enquanto suas proprietárias conversam sobre amenidades. Cabeleireiros, decoração, preenchimentos, cachorros, empregadas. "Ohohoho" Todas são bem falantes, mas, nas entrevistas, quando se perguntam suas profissões, algumas embatucam: "Ah, precisa colocar isso? Então põe que eu sou empresária. Eu tenho mesmo uma empresa, juro! Não vou lá, mas tenho!", diz Marli Mansur, acompanhada de um sacolão Chanel. Solange Chohfi e Lígia Carvalho possuem Fendis gêmeas. Solange resiste a revelar o que faz. As outras dizem que ela é "uma empresária poderosa". "E põe poderosa nisso!", repetem. Lígia afirma que é "do lar", e Fabíola Fernandes Araújo Pereira, orgulhosa proprietária de uma Gucci colorida, responde que não faz "nada".

A sala de aula do curso, que aconteceu no Iate Clube de Santos

Ao lado da mesa do brunch, uma mulher com a bochecha turbinada e os lábios intumescidos tenta  mordiscar uma "crosta de salmão com creme azedo e dill". Metade cai no chão. Ela pisca um olho só. Ri resignada. Além da crosta, tem patê de foie gras com geleia de framboesa; espetinho de melão com parma; espetinho caprese; mini batatinha recheada com cream cheese e chips de bacon; cuscuz marroquino e mini porção de risoto de funghi. A dona do bufê Snob Food, Fernanda Sayeg, explica o cardápio: "Fiz uma coisa lightizinha com um prato quente para finalizar." Por volta das 14h da quarta-feira útil, o grupo começa a dispersar.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Paulo Sampaio