Paulo Sampaio http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Wed, 23 Oct 2019 07:00:22 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 ‘Só não quero ser um troféu’, diz gay paraplégico que conheceu rapaz em app http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/23/so-nao-quero-ser-um-trofeu-diz-gay-paraplegico-que-conheceu-rapaz-em-app/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/23/so-nao-quero-ser-um-trofeu-diz-gay-paraplegico-que-conheceu-rapaz-em-app/#respond Wed, 23 Oct 2019 07:00:22 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22076 De um dia para o outro, a autoestima “sempre muito alta” do assistente de marketing Brendo Martins, 23 anos, “foi a zero” . Em maio do ano passado, quando sofreu um acidente que o deixou paraplégico, Brendo teve de lidar com um preconceito inédito.

“Nunca vi problema em ser gay, até porque as pessoas sempre vinham atrás de mim [para namorar]. Eu escolhia quem queria. Hoje, além de ter de esperar que me escolham, ainda descobri que tem gente que fica com o cadeirante só para mostrar aos amigos que não é preconceituoso, como se fosse um troféu.”

Objeto sexual, não

Ele exclui desse contingente de exibidos o consultor de vendas Isaac Oliveira, 38 anos, a quem conheceu há três meses pela Internet. “Estamos saindo há pouco tempo, mas ele me passa muita confiança. Não digo que é um namoro, porque namoro é depois de uns sete meses. Só não quero ser traído”, diz.

Os dois se encontraram em um aplicativo de busca de relacionamento no qual, segundo Brendo, “as pessoas lidam com as outras apenas como objeto sexual”: “A maior parte dos usuários, os gays em especial, buscam apenas um corpo“, lamenta. Sendo bem justo, Brendo diz que também conheceu o namorado anterior, com quem estava saindo quando sofreu o acidente, em um aplicativo: “Pior que foi!”, conta, rindo.

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Brendo e Isaac: “Pra falar a verdade, o início foi uma porcaria. Não gostei do beijo. Em outros tempos, acho que eu o teria descartado só por isso. Hoje, eu presto mais atenção nas pessoas.” (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

O acidente (04-05-19)

Em 2017, Brendo  ganhou da mãe e do padrasto uma motocicleta Yamaha Factor 150 ED, que seria o seu transporte até o trabalho. Diariamente, ele percorria o trajeto entre Salto, cidade a cerca de 100 km de São Paulo onde a família mora, e Itu, a cerca de 20 minutos dali. “Durante um tempo, meu padrasto me levou na moto dele, mas era cansativo. Ele ainda tinha de voltar pra casa e se aprontar para o trabalho.”

Pilotando a própria moto, Brendo preferia fazer um percurso maior, indo por dentro da cidade, do que pegar a estrada: “Eu achava muito arriscado ultrapassar os caminhões, por causa do vento. Ficar atrás deles era pior, porque tinha o vácuo.

Mas o destino foi implacável. Na manhã do dia 4 de maio, trafegando com alguma velocidade dentro do perímetro urbano, um motorista que não observou a preferencial em um cruzamento abalroou violentamente a moto, na altura da roda de trás. Com o impacto, o corpo de Brendo foi arremessado a cerca de dez metros, e suas costas se chocaram contra uma parede revestida de chapisco. O motorista fugiu, sem perceber que a placa do carro ficara presa no que sobrou da moto.

No dia do acidente: Brendo considera a foto emblemática, porque mostra a dimensão de sua sobrevivência (Foto: Arquivo Pessoal)

Questão de respeito

“A polícia estava passando na hora e foi atrás, pegou o motorista. Era um homem de uns 65 anos, eu soube depois. Só me encontrei com ele uma vez, para negociar uma indenização. Ele não é rico, e o que me moveu não foi dinheiro. Acho que é uma questão de respeito. Se você atropela um cachorro, tem de parar e prestar socorro.”

O saldo do acidente, fisicamente falando, foram várias lesões que levaram Brendo a um longo período de letargia, depois de um coma de 13 dias.  “Eu apaguei no dia 4 de maio e despertei de verdade no dia 10 de agosto. Eu até tinha períodos de semiconsciência, mas sabe quando tudo parece um sonho?”

O inventário das lesões causadas pelo acidente (Foto: Arquivo Pessoal)

Os dias e as horas

Um dia, sua mãe trouxe para ele um celular-substituto do que fora destruído no acidente. “Eu passei a contar as horas e os dias. Meio dia, uma hora, duas, dia 11, 12 13. E a medida em que eu despertava daquele sono, entendia o que tinha acontecido.”

A mãe dele, o padrasto e o namorado se revezavam na vigília à porta do quarto. “Eu não chorava, porque não queria deixá-los mais tristes. Segurei o máximo que eu pude. Só chorei quando já tinha voltado para casa, umas quatro vezes, e mais por dó das pessoas que estavam sofrendo por minha causa. Nunca fui de chorar na frente dos outros, para não mostrar fragilidade.”

Na avaliação dele mesmo: “Eu não sofro; prefiro enfrentar”.

Imagina ter muito, e no momento seguinte, nada. A sociedade olha o cadeirante de outro jeito.” (Foto: Arquivo Pessoal)

Vida pregressa

Digamos que a vida de Brendo, até então, não foi exatamente um sonho bom. Quem o ouve contando sua história desde o início, imagina que a autoestima dele era alta por uma questão de sobrevivência. Sua mãe engravidou aos 17 anos, em um relacionamento com um rapaz que a família não aprovava — seu pai. Dependente químico, ele morreu aos 38 de complicações decorrentes da Aids.

“Minha mãe não sabia nem o que era maconha quando se casou com meu pai. Mas aí começaram a sumir umas coisas lá de casa. Ele precisava de dinheiro. Ela o mandou embora, ele sumiu. Pouco depois, contraiu o HIV junto com uma galera que estava se injetando. Minha madrasta inclusive. Também foi contaminada.”

Coração de pai

O pai de Brendo contraiu o vírus quando o filho tinha cerca de dois anos; morreu quando ele estava com 18. “Pior que meu pai e minha madrasta eram pessoas boníssimas. Tinham um coração enorme. Meu pai, quando estava perto, sempre se dispunha a me ajudar como podia. Mas ele morou na Cracolândia, depois foi internado, sumia, aparecia.”

Brendo conta que certa vez estava com amigos em um restaurante, e seu pai entrou em adrajos, “parecendo um mendigo”. “Ele não me viu, eu também não fui até ele. Pediu comida, e comeu com a mão. Quando cheguei em casa, chorei muito.”

Mais ou menos na mesma época, Brendo deixou de falar com a mãe, porque ela não aceitava sua orientação sexual. “Minha mãe é moderna, mas quando os gays são amigos dela. Com filho, não.” Os dois brigaram, ele chorou, saiu de casa. Foi morar com a avó, que ele adora. Três anos depois, mãe e filho se reconciliaram. Passou. “Na verdade, minha mãe sempre segurou todas as ondas. Mesmo sem grana, com o maior sacrifício, ela bancou escola particular, médico, tudo pra mim.”

De volta pra casa

No fim do ano passado, depois de receber alta no hospital, Brendo decidiu criar uma página nas redes sociais para agregar deficientes físicos e propor ajuda mútua. Batizou-a “Me Obrigue”. “De repente, tinham mil cadeirantes me seguindo. Pode parecer pouco, mas ficou muito pesado pra mim.”

“Eu queria ser simpático, mas não conseguia dar atenção a todo mundo. Aí, me diziam que, mesmo sendo cadeirante, eu era bonito, gostoso. Comecei a me perder. O ego cresceu demais. Aí, passei a sumir, aparecer, sumir, aparecer, até que eu parei com a página. Agora, voltei.”

Devotee & namorado

Nesse meio tempo, ele chamou a atenção de alguns devotees — como são chamadas pessoas que se sentem atraídas por deficientes físicos. Era algo que ele nunca imaginaria existir. “Na época, o menino se espantou de eu estar sem sexo há seis meses, e disse que iria até Salto (de São Paulo) para me encontrar. Eu disse ‘Não, eu tenho namorado, respeito ele’.”

O namorado a quem ele se referia era o mesmo de antes do acidente. O rapaz o acompanhou diariamente no hospital, e manteve a atenção no período de convalescença em casa. Mas um dia: “Eu quis liberá-lo de ter um relacionamento sexualmente medíocre comigo”, lembra Brendo. “Ele tinha me acompanhado na pior fase da minha vida, me viu fazendo cocô, usando fralda, preso na cama. Eu me sentia até constrangido, humilhado, de tentar algo com ele.”

Apesar de serem amigos até hoje, os dois se afastaram porque o desgaste do relacionamento ficou grande demais. “Eu perguntei se ele me desejava, ele disse que naquele momento, não. Fiquei com aquilo na cabeça. Aí, ele entrou na academia, foi ficando cada vez mais forte, mais bonito, e eu gordo, cadeirante, fodeu.”

Nova fase

Como sempre desde que sofreu o acidente, Brendo está experimentando uma nova fase. Sua sorte, diz, é que ele sempre se pautou pelos desafios. Ele conta que Isaac não leu direito o perfil dele no aplicativo — ou pelo menos até a parte em que estava escrito “cadeirante”. Assim, só foi saber disso quando a conversa deles tinha evoluído para o WhatsApp. Isaac: “Em determinado momento, o Brendo citou um ‘acidente’, de maneira muito forte. Eu perguntei: ‘Que acidente?’ Ele contou, e disse: ‘Pronto, agora você vai sumir’.”

Mas Isaac não sumiu. Os dois marcaram um café em um shopping da região, houve um desencontro estilo comédia romântica, e então tudo acabou bem. Brendo tinha ido ao shopping com quatro amigos: “Sendo sincero, o início foi uma porcaria. Não gostei do beijo. Em outros tempos, acho que eu o teria descartado só por isso. Mas eu aprendi a prestar mais atenção nas pessoas”, garante ele.

Cauteloso, Brendo diz que três meses ainda não é namoro (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Nada de nudes

O relacionamento aconteceu em um ritmo “menos gay”. “Não teve troca de nudes, nem pressa para transar. Nem seria possível. O sexo passou a ser consequência”, diz Brendo, que fala muito, e muito rápido. Nesse ponto, o casal parece bastante harmônico, já que Isaac permanece quieto durante a maior parte da entrevista — e em geral concorda com tudo. Só fala quando é instado a se manifestar.

Em determinado momento, Brendo resolve contar detalhes íntimos do relacionamento. Pergunta para Isaac: “Posso?” Sem esperar a resposta, revela: “Sempre gostei de sexo pesado. Não me vem com papai-e-mamãe, que eu sou escorpião. Quando nosso beijo finalmente ‘encaixou’, resolvi investigar outras partes dele (Isaac) com a boca. No sexo oral, fui até o fim, e então entrei em paranóia. E se ele for soropositivo?? Eu vou ser gay, cadeirante e soropositivo?? Falta o quê?” Apavorado com a responsabilidade atribuída a ele, Isaac fez o teste na sequência — deu negativo.

A entrevista acaba em pouco mais de uma hora, já que Brendo havia avisado que pretendia visitar a exposição temática Castelo Rá-Tim-Bum, sobre o seriado infanto-juvenil dos anos 1990, em cartaz no shopping. O programa revela a dimensão da parte criança de Brendo. Penso que, se ele souber usá-la, pode ser de grande auxílio em sua recuperação. Se não souber, melhor deixá-la no passado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Zelador em SP dá notícias do prédio em vídeo com trilha do plantão da Globo http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/20/zelador-em-sp-da-noticias-do-predio-em-video-com-trilha-do-plantao-da-globo/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/20/zelador-em-sp-da-noticias-do-predio-em-video-com-trilha-do-plantao-da-globo/#respond Sun, 20 Oct 2019 06:00:21 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22030 A vinheta do plantão jornalístico da TV Globo, aquela que interrompe a programação da emissora quando algo extraordinário acontece no mundo, abre um dos vídeos que o zelador Horácio Monteiro de Almeida, 46 anos, encaminhou aos moradores do condomínio onde trabalha, na zona sul de São Paulo, com a informação:

“Pessoal, bom dia. Só para lembrar, hoje, que toda essa semana, até o dia 24, das 8 às 17hs, estarei aqui no condomínio colhendo as digitais do pessoal, tá ok? E no final de semana, plantão. Tanto no sábado como no domingo, das 8h às 17h, tá bom? Contamos com o apoio de todos. Obrigado.”

 

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Zelador do condomínio há nove anos, Horácio explica que decidiu gravar os informativos em vídeos porque percebeu que “comunicados não funcionam”.  “As pessoas têm uma vida corrida, muitas vezes não sobra tempo para dar atenção à tanta informação. Era comum  dizerem: ‘Ah, é que eu não li’.”

Horácio tentou criar um grupo coletivo no aplicativo WhatsApp, mas resultou igualmente ineficiente. “Não resolvia. Eram quinhentos ‘Bom dia’, quinhentos ‘Boa tarde’, e ficava naquilo. Ninguém dava importância.” Ultimamente, ele criou um perfil no Instagram com as “Dicas do Zela” e um blog homônimo, ainda em construção.

Mensagens personalizadas

A ideia dos vídeos surgiu no meio do ano passado, e desde então Horácio calcula ter enviado cerca de vinte comunicados aos moradores. São gravados de acordo com as “ocorrências” do condomínio. A principal diferença, em relação aos comunicados por escrito e por whapp, é que agora ele pode selecionar os moradores a quem a notícia possa afetar. “São 84 unidades, às vezes é um vazamento em uma delas, que não vai interessar a todos.”

Cada apartamento tem 116 m2, e o condomínio oferece duas piscinas, quadra de esportes, academia e sauna. Mesmo com a novidade dos vídeos, Horácio não pode abrir mão dos comunicados coletivos, como os referentes à garagem ou a quadra de esportes. Boa parte têm um caráter educativo. Segundo ele, “as decisões tomadas no condomínio visam o coletivo, não o individual”. “A mensagem nunca é pessoal, para cutucar alguém.”

Apoio do síndico

A recepção entre os moradores, de uma maneira geral, “foi boa”. “Nunca se agradam gregos e troianos. Houve morador que não queria ser importunado no trabalho e pediu, com toda educação, que eu não mandasse mais os vídeos para ele. Mas o resultado tem sido positivo”, avalia Horácio. Ele afirma que teve “muito apoio do síndico, em relação à transparência”.

Procurado, o síndico preferiu não se manifestar. A autônoma Ângela Candian, 43 anos, que mora na unidade 23 desde a formação do condomínio, diz que Horácio é “popular entre crianças, jovens e adultos”. “Ele conhece bem o condomínio, e é muito prestativo. Está sempre presente para dar apoio”, diz ela.

 

Curriculum Vitae

Filho único de um zelador cearense e de uma dona de casa pernambucana, Horácio morou com os pais até os 35 anos, quando se casou com uma auxiliar administrativa Elly Silva, que hoje é calista e atende em domicílio. O casal tem uma filha de 6 anos, Clara, e mora em um apartamento reservado ao zelador, no próprio condomínio: “A construtora aproveitou bem um espaço que havia no mezanino, ao lado da academia”, conta ele.

De acordo com Horácio, a “nova tendência” é não oferecer moradia ao zelador no condomínio, o que ele não acha aconselhável: “Não estou advogando em causa própria, mas suponhamos que aconteça um incêndio no edifício: quem vai fechar o registro de gás? Quem vai desligar o circuito elétrico? Quem vai travar os elevadores?  A mesma coisa: estoura o cano do barrilete. 50 mil litros de água descendo nos apartamentos e nos poços do elevador. Quem vai fechar?”

Com a mulher, Elly, e a filha, Clara (Foto: Arquivo Pessoal/UOL)

Pentium 150, Windows 95

Antes de ser zelador, Horácio trabalhou durante sete anos, desde os 14, como modelador vacuum forming, dando forma a embalagens industrializadas. Ele diz que, hoje, o trabalho artesanal da época foi substituído por ferramentaria. Ao mesmo tempo, como sempre se interessou por tecnologia, ele começou a estudar informática. “Meu primeiro computador era um Windows 95, com processador 150″, lembra, rindo. “Eu não sabia nem desligar a máquina no mouse, só na tomada.”

O novo conhecimento serviu para economizar em manutenção de computador (“toda vez que o micro dava problema, eu gastava dinheiro com conserto”), mas naquela ocasião era utilizado apenas em nível doméstico. Só mais tarde ele verificou o quanto foi útil: “A tecnologia me abriu essa janela (da comunicação por vídeo) com os moradores.”

Boom imobiliário

A informática o absorvia, mas não dava emprego. Então, ele se tornou motorista de uma juíza moradora do prédio em que seu pai  trabalhava nos Jardins, zona oeste de São Paulo. Dirigiu para a família por 14 anos: “As crianças (filhas da juíza) cresceram, eu fiquei obsoleto. Deixei de ser motorista também porque apesar de gostar muito de dirigir, o trânsito de São Paulo me deixou estressado.”

De novo disponível, Horácio olhou para o futuro e se perguntou: “O que eu posso fazer agora?” Foi então que, “observando o boom imobiliário na época“, ele percebeu que a zeladoria tinha um mercado promissor e resolveu fazer um curso de no sindicato da classe. Logo no primeiro condomínio em que apresentou seu currículo, foi contratado — e está lá até hoje. De temperamento inquieto, ele fez vários cursos associados à função (“fora os obrigatórios”).

“O que eu sinto na minha profissão é que existe muito aquele senhor acomodado, de camisa azul e molho de chaves pendurado no bolso lateral. O mercado está zerado para esse tipo de profissional”, acredita. “Eu tenho noções básicas de primeiros socorros, aprendi sobre ‘equipamento de proteção individual’ e Cipa NR05 (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). Se acontecer de alguém passar mal, um idoso, uma criança, quem vai lidar com a emergência?”

Por essas e outras, Horácio afirma que a nova nomenclatura atribui ao zelador o título de “gerente predial”. “Quem não se atualiza, está fora do mercado”, afirma.

Falência do ser humano

No comando de uma equipe de oito funcionários, o zelador conta que “o relacionamento com eles foi se ajustando”. “O ser humano está falido”, lamenta ele, referindo-se a “acomodação da maioria”. “Eu aplico o que eu aprendi nos cursos de segurança. Então, se um funcionário me diz: ‘Ah, no outro condomínio eu não usava capacete (para executar tarefas de risco)’. Eu informo: ‘É, mas aqui vai usar. Nenhum seguro vai trazer sua saúde ou sua vida de volta’.”

Com 1,78m de altura e 105kg, Horácio mantém a cabeça raspada e cultiva uma farta barba grisalha. Se o colocassem em cima de uma Harley Davidson, com um jeans surrado, uma jaqueta de couro preto adornada com a língua-símbolo dos Rolling Stones e botas rústicas, ela poderia ser confundido com um motoqueiro-tigrão de fim de semana.

A propósito, ele usa uma camiseta com o silk de uma motocicleta Honda 750F — também conhecida como 7 galos. Diz que seu sonho de adolescência era ter uma. “Meu pai me pediu que, enquanto ele estivesse vivo, esquecesse a ideia de ter uma moto. Palavra de pai é uma ordem. Sendo filho único, eu entendi que eles precisam de mim vivo para atender eventuais ocorrências.”

Pergunto se nesses nove anos como zelador ele foi assediado por alguma condômina. Sua expressão assume um ar sério: “Eu sei me impor nesse sentido. Quando você se dá o respeito, respeitado você é”, diz ele, como um escoteiro sempre pronto a emitir voz de comando.

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Paquita Miuxa lança biografia: ‘Escrever livro é muito difícil’, desabafa http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/16/paquita-miuxa-lanca-biografia-escrever-livro-e-muito-dificil-desabafa/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/16/paquita-miuxa-lanca-biografia-escrever-livro-e-muito-dificil-desabafa/#respond Wed, 16 Oct 2019 07:00:00 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21966 Catia Paganote, 43 anos, também conhecida como paquita Miuxa, garante que “agora tá tudo certo” para o lançamento de sua biografia, anunciada por ela própria em fevereiro, para sair em março: “Escrever livro é muito difícil”, desabafa. Apesar do esforço para concluir a obra, que agora deve sair em novembro, ela afirma que “Minha Vida é Um Show” ficou “dinâmico, rápido de ler”.

Segundo Catia, valeu a pena “fazer uma nova leitura, consertar algumas coisas”. “Conto a história da minha vida desde que minha família se mudou para Brasília, eu tinha 3 anos de idade, passando pela minha entrada no mundo artístico, ainda bem pequena, como modelo, e vou até a Fazenda (10a. edição do reality show da Record)”, diz ela, que nasceu no Rio. Sua família transferiu-se para a capital federal no fim dos anos 1970, atrás de novas oportunidades.

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Por enquanto, Catia preferiu mandar só a capa do livro (Foto: Reprodução/UOL)

Vereadora e deputada

Até hoje, Catia refere-se ao seu ingresso no Xou da Xuxa como um ritual monástico: “Em 27 de abril de 1989 eu me tornei paquita”, conta ela. Ficou até 1995, quando tinha 19 anos. Dali em diante, ela sobreviveu basicamente do que sobrou de Miuxa. A tentativa de se lançar como “loura do pagode” e, depois, vereadora e deputada estadual (pelo Partido Verde, MDB e PTB), não vingou. “Culpa da minha carreira.”

O fato de se vestir com o figurino de mais de 20 anos atrás e de repetir o repertório da época (Balão Mágico, Trem da Alegria, Lua de Cristal etc) em casamentos, batizados, bailes de debutantes, aniversários de crianças em praças de alimentação e festas particulares para adultos não a deixam nostálgica, garante, mas a enchem de orgulho.

“É o que eu gostava, o que tinha prazer de fazer e o que eu tenho até hoje: subir num palco e me apresentar vestida de paquita pros baixinhos que foram meu público naquela época. Quando eles pedem para cantar as músicas, e batem palmas, acontece uma troca de energia que me deixa arrepiada!”

Paquita Miuxa na época do Xou da Xuxa, e hoje (Foto: Arquivo Pessoal/UOL)

Pegando celebridades

Nas entrevistas que deu em fevereiro, quando falou pela primeira vez que estava lançando a biografia, Catia afirmou que falaria de famosos, “mas nada ofensivo”. “Não quero confusão na minha vida, mas vou dar pistas, e as pessoas podem até descobrir de qual celebridade estou falando. Eu quero evitar processos. Tive muitos namoricos e ‘peguei’ muitos famosos: ator, jogador de futebol, deputado, empresário, nadador, sertanejo e pagodeiro”, disse ela ao UOL. 

Mãe de Valentina, 9 anos, ela conta que a menina não é filha de nenhum de seus três maridos oficiais, mas de “um amigo”. “Ela é minha parceira, minha luz, a minha força de viver.” Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Universa — Você deu entrevistas falando pela primeira vez do lançamento da biografia em fevereiro. É a mesma?

Catia Paganote — Eu ia lançar naquela época, mas não deu tempo, a gente teve de rever, fazer uma nova leitura, consertar algumas coisas. Logo depois pintou o Dancing (Brasil, reality show apresentado por Xuxa na Record), eu tive que dar atenção ao programa. Livro não é fácil fazer, livro é difícil.

Universa — Na ocasião, você falou que um dos capítulos mais polêmicos é o que você conta seus casos com famosos. Pode adiantar algum?

Catia — Não tem nada disso, não. Como eu tenho um leque gigante de conhecimento, falo que, além de pessoas comuns, já fiquei com famosos. O meu livro não é polêmico. É a história da minha vida, com as partes importantes.

Universa — Li que você fala do casamento com o Djair. Cita a confusão com a Cristina Mortágua, que foi mulher dele depois de você?

Catia — Falo sim do casamento com o Djair, onde eu fui casada 13 anos, uma história muito bonita, porque foi meu primeiro namorado, o primeiro homem da minha vida, onde eu fui muito apaixonada, onde eu amei muito. Essa história é contada com muitas partes engraçadas, mas eu não bato palma para maluco.

Universa — Você continuou se apresentando como paquita.

Catia — Sim, no último sábado estivemos na festa Ploc (no Circo Voador, Rio), que já tem uns 14 anos. No começo, éramos quatro paquitas. Eu, a Priscila Couto (Catuxita); a Roberta Cipriani (Xiquitita) e a Ana Paula Almeida (Pituxita). Como a gente recebeu vários outros convites, continuamos na estrada fazendo esse reencontro.

Universa — Mais tarde, você passou a se apresentar apenas com a Catuxita. Como é o show?

Catia — Depende do que a pessoa tá querendo. Pode ser um show, uma presença VIP, ou algo menor, dentro de uma apresentação coletiva, como a Ploc.

Universa — Qual o tempo de show?

Catia — Então, depende. Se for só uma presença, é menor, três músicas, ou quantas a pessoa quiser. Se for o show completo, leva uma hora e meia.

Universa — E o repertório?

Catia — Músicas da Xuxa e das paquitas. Trem da Alegria, Balão Mágico, é mesclado, puxando o lado infantil. A gente faz um misuncê (mise-en-scène: em francês, desenho de palco) bem bonito, bem legal, dança a coreografia da época. É o máximo ver os olhos da pessoas brilharem quando a gente canta Lua de Cristal, o Ilariê, isso que nos move.

No show depois do Xou: “E agora, todo mundo canta!” (Foto: Arquivo Pessoal/UOl)

Universa — Alguns especialistas afirmam que expor crianças desde pequenas na TV pode marcá-las para sempre. Acha que isso aconteceu com você?

Catia —  Não. Cada criança, cada indivíduo, já nasce com um dom. É a sensibilidade do adulto que está próximo que vai perceber isso.  Cabe a ele ver o que pode ser insistido. No meu caso, não há sequela porque minha mãe percebeu que eu tinha o dom, e eu segui na carreira, que foi uma coisa bem natural. Eu estava com dez anos quando comecei a fazer teste para o Xou da Xuxa, e onze quando eu entrei. Eu já trabalhava com isso, então não era novidade.

Universa — O  fato de ser paquita até hoje não seria um tipo de sequela?

Catia — Não, porque é saudável. É o que eu mais gosto e tenho prazer até hoje: subir num palco e fazer um show vestida de paquita pros baixinhos que foram meu público naquela época é felicidade pura. Essa energia do povo gritando seu nome, respondendo ao seu chamado: “E agora, canta, todo mundo canta! Vamo bater palma!” Independente de quantos shows eu faça, quantos anos eu faça, cada público é um público. Quando a pessoa se emociona ao cantar uma música que eu já cantei, nossa, me dá vontade de nunca mais sair dali.

Universa — Como é a sua relação com Xuxa?

Catia — Normal, a gente não tem mais muita convivência, mais agora no Dancing, mas coisa de artista, de bastidor. Nos temos um grupo de whapp, estamos sempre trocando informações, mas não é como antigamente, que era superpresente. Até porque cada um segue a sua estrada. Não é um contato hiperamigas, hiperpresente, mas de apoio, de amizade antiga, pode comentar, falar, dar opinião sincera.

 

Com o queixo apoiado no ombro de Letícia Spiller, Miuxa posa com as paquitas para a divulgação do filme “Lua de Cristal”, de 1990 (Foto: Arquivo Pessoal/Facebook)

Universa — Você incentivaria sua filha a ser paquita, caso o programa ainda existisse?

Catia — Pelo que eu conheço da minha filha, ela não seria paquita. A Valentina tem uma personalidade muito forte, tem opinião formada sobre as coisas. Eu não sou de impor nada, eu sou de mostrar. Quer, eu ajudo; não quer, vamos prosseguir para alguma coisa que dê prazer.

Universa — O pai dela é algum dos seus ex-maridos?

Catia — Não, é um amigo. Ele é presente quando pode. Valentina ama o pai. Ele ajuda, com certeza, na parte financeira, que é o dever dele, mas como não mora aqui no Rio, não se vêem com tanta frequência.

Universa —  Você chegou a investir na carreira de “loura do pagode”.

Catia — Sim. A (empresária) Marlene (Mattos) teve a ideia de me lançar, com CD. Esse capítulo tá no livro, a produção era do Michael Sullivan. Foi uma fase divertida, de aprendizado, de crescimento, onde eu tava amadurecendo o que eu estava querendo ser na vida. Eu deixando de ser Paquita, de viver naquele mundo superfantástico. Foi um trabalho bem rápido, de um ano e meio, logo depois casei com o Djair, resolvi viver a vida dele, sendo esposa e blábláblá, cuidando da casa, viajando com ele, dando toda a atenção que ele precisava. Não me arrependo.

Universa — Também houve uma tentativa de ser vereadora, depois deputada estadual, pelo Partido Verde, o MDB e o PTB. Qual era a sua plataforma de governo?

Catia — Era direcionada à mãe que é provedora do lar, cuida do seu filho, da casa e trabalha. Fiz curso de política pela Fundação Getúlio Vargas, mas infelizmente não deu certo. Foi curta a minha carreira.

Apesar de se candidatar a dois cargos, por três partidos, a carreira política não vingou (Foto: Arquivo Pessoal)

Universa — Em 2002, você posou nua para a capa da revista Sexy. 

Catia —  Posei por causa do dinheiro. Na época muitas artistas faziam, o meu foi um trabalho muito bonito. Eu escolhi as fotos, tudo que saiu foi sempre com o meu aval. Eu queria uma coisa legal que, até futuramente, se minha filha quisesse ver, meu pai, primos, não fosse vulgar, mas um nu artístico bem bacana.

Na capa da revista Sexy, em 2002: nu artístico (Foto: Reprodução)

Universa — Posaria de novo hoje?

Catia — Hoje não tem mais essa coisa do glamour, mas, se me convidassem novamente, eu faria por causa do dinheiro.

Universa — Você está namorando?

Catia — Eu não, gente, tô solteira. Procurando meu quarto casamento, mas não tá fácil encontrar.

Universa — Se arrepende de alguma coisa?

Catia — Não. Tudo o que eu quis fazer, fiz. Eu sou muito impulsiva, e quando coloco uma ideia na cabeça, eu não fico sossegada enquanto não acontece. De coisas feitas, nenhum arrependimento, das que eu não tive vontade de fazer, não é arrependimento.

 

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Em fórum conservador, Eduardo Bolsonaro cita importância de ser cara de pau http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/13/em-forum-conservador-eduardo-bolsonaro-cita-importancia-de-ser-cara-de-pau/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/13/em-forum-conservador-eduardo-bolsonaro-cita-importancia-de-ser-cara-de-pau/#respond Sun, 13 Oct 2019 07:00:01 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21861 Tutelado por conservadores americanos de raiz, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) se sentiu muito à vontade na última sexta-feira (11) para dividir todo o seu conhecimento acadêmico sobre história, política, filosofia e até jornalismo. Eduardo foi um dos coordenadores da primeira vinda ao Brasil da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), que tem 40 anos de tradição nos EUA e atraiu cerca de 1.800 pessoas ao auditório do Hotel Transamérica, na zona sul de São Paulo.

Dos Estados Unidos, vieram o presidente da União Conservadora Americana, Matt Schlapp, que organiza a CPAC; e a criadora do movimento Lone Conservative, Kassy Dillon. Segundo estimativa do vice-presidente do PSL, Antônio Rueda, o partido desembolsou R$ 800 mil pelo evento, o que deu a Eduardo Bolsonaro tranqüilidade para nadar de braçada.

Enquanto a plateia, composta em sua maioria por estudantes de movimentos conservadores de todo o Brasil, gritava “lindo!” e “mitinho”, os convidados americanos elogiavam a “iniciativa” do palestrante e seu “incrível carisma”.  Ainda por cima, elogiavam em inglês: quem poderia duvidar do que eles estavam dizendo?

Veja também:

 

Eduardo Bolsonaro cita Olavo de Carvalho em palestra (Foto: Paulo Sampaio)

Seguindo Olavo

Logo no início, Eduardo citou uma frase do influencer Olavo de Carvalho que acabou pautando toda a palestra. “O Olavo diz: ‘O poder da ação individual é enorme, desde que você tenha cara de pau de agir’.”

Depois de afirmar que “a esquerda reescreveu (como quis) a história recente do Brasil”, Eduardo Bolsonaro seguiu o ditame de Olavo de Carvalho e passou a contar sua própria versão. Foi muito didático:

“Vou fazer um breve resumo aqui, desde o tempo do Karl Marx até a eleição do Jair Bolsonaro. O Karl Marx, ele sintetizou as ideias comunistas, fez o manifesto, e depois, no início do século 20, o que começou a acontecer? 1917, revolução Bolchevique na Rússia; 1949, temos Mao Tsé-Tung, na China; 1959, Fidel Castro; e depois, em 1964, seria a vez do Brasil, se não fossem o povo nas ruas e os militares, com muita coragem.

“De 1964 a 1985, a esquerda chama de Ditadura Militar. Só que os militares chegaram ao poder não foi colocando o pé na porta.”

Muitos aplausos e gritos de “uhu!”. Na conexão de Eduardo Bolsonaro com a plateia de jovens apoiadores, algo remete à atmosfera da novela infanto-juvenil “Malhação”. Ele seria um professor de história surfistão, brother.

Animado com a ovação, o palestrante pega embalo: “Que golpe [de 1964] é esse? Que ditadura é essa, em que você podia sair do Brasil e voltar quando bem entendesse? Que ditadura é essa que não tira as armas do povo? Nunca passou pela cabeça de um militar tirar as armas dos brasileiros.”

Pérolas filosofais

Na parte da plateia reservada aos convidados, logo à frente do palco, a produção de pérolas filosofais é intensa: “Só fruta gostosa leva pedrada”, acha a empresária cearense Elany Leão, a propósito das críticas à família Bolsonaro.

Elany veio direto de Miami para a conferência, junto com o pai, a mãe e a irmã. “Você precisa ver a reação dos americanos, quando a gente diz que votou no Bolsonaro. Eles ficam empolgados. Dizem: ‘Oh Yeah! Bolsonaro, agora o Brasil entra nos trilhos’!!”

A respeito da indicação de Eduardo pelo pai para ser embaixador nos EUA, a família Leão tem a mesma opinião: “Só seria nepotismo se ele não tivesse competência para ocupar o cargo, como outros que estiveram no mesmo posto [não citam nomes].”

Segundo os Leão, “desfrutar de influência com o presidente mais poderoso do mundo não tem preço”. “Ser o filho da pessoa que desfruta dessa influência é uma bênção. Agora, imagina se essa pessoa [que desfruta…] é o presidente do nosso país. Eles [os americanos] vão abrir as portas para todos nós empresários brasileiros dispostos a empreender!”, acredita Elany.

Família Leão, cearense: em Miami e Orlando, quando você diz que votou no Bolsonaro, eles ficam empolgados. Dizem: ‘Oh, Yeah, Bolsonaro!’ (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Mal informado

Neuma Leão, a mãe, afirma que o repórter está mal informado quando diz que o Nordeste é um reduto de eleitores do PT: “Imagine! Nas passeatas da (avenida) Beira-Mar de apoio a Bolsonaro, você não conseguia andar, de tanta gente. Suas fontes não são boas. Pare de assistir a Rede Globo, ler a Folha e ouvir a CBN.”

A responsabilidade de todas as pedradas na fruta gostosa é atribuída à imprensa, instituição atacada sistematicamente pelo atual presidente da República, que em sua última investida a chamou de “fétida” e afirmou que “a Folha desceu às profundezas do esgoto”. Eduardo Bolsonaro gasta quase metade de seu tempo de palestra tentando desqualificar jornalistas, em particular Guga Chacra (GloboNews), Carlos Andreazza (O Globo e Band News), José Maria Trindade (Jovem Pan) e Reinaldo Azevedo (Folha e BandNews), que ele anunciou como “a cereja do bolo”: “O que a gente faz com eles? FARMEME [Faz meme]. HAHAHAHAHA”

Pelas tantas, Eduardo usa em sua explanação a teoria da “espiral do silêncio”, da qual Jair Bolsonaro seria vítima. De acordo com o palestrante, o eleitor do presidente, com medo de apanhar na rua ao declarar seu voto, prefere não se manifestar.

Ao dar um exemplo prático de como funciona a espiral, Eduardo viaja (até os Estados Unidos): “Se você fala em uma universidade americana – não sei se isso ocorre nos EUA –, mas, enfim, se você fala que é Trump e toma porrada, as pessoas vão ficar com medo de ir com a camisa do Trump para a faculdade, de expressar sua opinião. Isso acaba se revertendo no voto silencioso.”

Vermelhos e azuis

A culpa desse medo generalizado seria do noticiário.

“Existem jornalistas vermelhos, que são a maioria de esquerda, e os azuis, que podem flertar com o liberalismo, mas não vão arriscar o emprego”. A tese é do  administrador do Burke Instituto Conservador, Wagner Lima, 37 anos, de São José dos Campos, que vende livros em uma banca à entrada do auditório do hotel. “Os azuis se fingem de vermelhos para manter o emprego.”

Lima vende obras que  “dão voz àquilo que foi obnubilado pela academia”. Ao lado de uma pilha de livros de Olavo de Carvalho, ele lamenta a ignorância dos pedagogos:  “Você fala em Mario Ferreira dos Santos, maior filósofo brasileiro, ninguém sabe quem é. Os caras não sabem quem é Michael Oakeshott!”

Muito imbecil

Será mesmo que os conservadores que elegeram Jair Bolsonaro conhecem o pensamento de Michael Oakeshott? “Claro que nesses 52 milhões que votaram no presidente tem muito imbecil.”

A culpa de boa parte dessa imbecilidade, de acordo com Lima, é dos autores da Constituição de 1988, que é “comunista”, “brizolista”, “foi feita para ninguém entender”. “Os militares entregaram a educação para os socialistas.”

Para ele, “quando um jornalista da GloboNews diz que o bandido é vítima da sociedade, ele aprendeu isso na faculdade”. “Está arraigado na cabeça dele há 40 anos.”

(Em sua fantasia a respeito do funcionamento de uma redação, Lima acredita que o jornalista vermelho é um ser autônomo. Escreve e fala tudo o que quer. O azul  precisa se fingir de vermelho, já que todos os jornalistas do Brasil, inclusive os editores e os redatores-chefes, aprenderam na faculdade a serem vermelhos. Mas então, quem demitiria o azul disfarçado de vermelho? O dono azul da empresa? Mas não foi ele que contratou o editor e o redator-chefe vermelhos?)

Wagner Lima, do Burke Instituto Conservador, de São José dos Campos, levou livros para vender: “Conteúdos clássicos, obnubilados por pedagogas” (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

O conservador, em tópicos

Confuso, busco alguém que possa me esclarecer sobre o que é, afinal, ser conservador no Brasil. O catarinense Lucas Campos, 33 anos, que se apresenta como  personal trainer e professor de história da filosofia, desova uma frase em tom de decoreba: “Conservadores se pautam pela filosofia grega, o direito romano e a moral judaico cristã”. Ele fala um pouco sobre a tríade, mas não alcanço.

Pulo algumas cadeiras, chego à juíza de direito aposentada Silvia Mariozi, 57 anos, que integra um movimento chamado “Articulação Conservadora”. Com a autoridade de quem tem 15 mil seguidores, Silvia divide o conservadorismo em três tópicos. “Primeiro, temos a vida como um bem maior. Somos contra o aborto. Meu corpo, minhas regras, não! O corpo é dela, mas o do feto, não!”

Silvia fala em um tom suave, que constrasta com a firmeza de seus princípios: a favor da posse de arma, e do porte, ela apoia a legítima defesa. “Nós somos judaico-cristãos por princípios fundantes da nossa civilização, a ocidental, e por isso contra o suicídio. Não posso ser covarde a ponto de colocar nas mãos de um terceiro a responsabilidade sobre a minha vida.” 

Segundo tópico

Versa sobre o direito à herança, à propriedade privada e à liberdade de expressão. A respeito da herança, que de certa forma se liga às duas outras, Silvia explica que serve para “valorizar os elos intergeracionais”. “Eu preciso do meu background civilizador para ir adiante. Não vou jogar fora o bebê junto com a bacia.”

No caso de um miserável cujo background intergeracional foi interrompido pela fome, a falta de saúde, as tragédias familiares, Silvia diz que: “Cada um tem a sua base de civilização judaico-cristã: nossa herança não é só dinheiro, é cultura.”

Próximo tópico: O descarte do que ela chama de “pautas de modismo”. Quais seriam? “Ideologia de gênero, sexualização da criança, bandidolatria e vitimismo da esquerda.”

Com 15 mil seguidores no facebook, Silvia Mariozi despreza a modinha da bandidolatria (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

5 mil anos de civilização

Nesse ponto, Silvia discorre sobre a diferença entre ser reacionário e conservador. O primeiro, diz, quer o passado de volta. O outro, dá valor ao que já foi pesquisado, testado pelas civilizações ao longo dos séculos: “Se a gente sabe, depois de 5 mil anos de civilização, que o banditismo é nocivo, então não vai defender bandido porque é modinha.” 

Para ela, “crime é opção”. “Caso não fosse, a maioria na cadeia seria de pobres.” 

E não é? Muitos, ainda, cumprindo excesso de pena, ou até condenados “por engano”?

A juíza: “Por que eles não procuram a defensoria? Eu não sei como é que funciona, não é minha área…”

Nada a declarar

Jovens do Movimento Conservador se agrupam para fazer uma foto. Pergunto a Edson Salomão, um dos coordenadores, o que ele achou do vídeo em que Bolsonaro pede a um apoiador para “esquecer o PSL” e diz que Luciano Bivar, presidente da sigla, está “queimado”. Salomão diz: “A melhor pessoa para falar sobre isso é ele próprio.”

Faço a mesma pergunta à universitária Lidia Mara, 24 anos, coordenadora do Direita Minas, ela responde: “Não posso julgar. Como falo em nome do movimento, minha opinião isolada não tem valor. Enquanto grupo, o que posso dizer a gente vai aonde o presidente for.”

Integrantes do movimento conservador posam para foto: nada a declarar (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Chanel legítima

Eduardo Bolsonaro diz que “o Brasil vai chegar ao fim do ano sem um único escândalo de corrupção”. Ali perto, na segunda-fileira da plateia, entre os convidados VIP, a empresária mineira Walkyria Freitas, 45 anos, concorda com tudo o que o deputado diz. Depois de afirmar que foi a primeira mulher do estado de Minas a apoiar Jair Bolsonaro, em 2014, Walkyria conta que soube de sua primazia pelo então deputado federal Marcelo Alvaro Antônio (atual ministro do Turismo): “Ele gravou um vídeo agradecendo muito o meu apoio.”

Marcelo Antônio do laranjal??

A empresária Walkyria Freitas se orgulha de ser a primeira mulher de Minas a apoiar Bolsonaro: “O deputado Marcelo Antônio fez um vídeo agradecendo”(Foto: Paulo Sampaio)

Aparentemente, Walkyria não ouve a pergunta. Repito. Ela diz: “Confio muito no Bolsonaro. A imprensa está acabando com ele.”

A mineira posa para a foto meio de lado. Além de ter orgulho do presidente e de Marcelo Antônio, ela também tem de sua bolsa: “É Chanel legítima! Eu sou capitalista!”

A culpa é da imprensa.

 

 

 

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“Sou a louca do litigioso”, diz advogada portadora de paralisia cerebral http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/11/sou-a-louca-do-contencioso-diz-advogada-portadora-de-paralisia-cerebral/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/11/sou-a-louca-do-contencioso-diz-advogada-portadora-de-paralisia-cerebral/#respond Fri, 11 Oct 2019 07:00:41 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21806 A advogada Marcella Santaniello Buccelli, 35 anos, não fazia ideia de que 11 de outubro (hoje) é o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência Física. “Bom saber, assim vou começar a pedir para me darem parabéns”, brinca ela, que é portadora de paralisia cerebral congênita. Quando estava grávida, sua mãe cursava o último ano de engenharia e contraiu toxoplasmose ao comer carne mal passada no refeitório da empresa onde fazia um estágio.

Apesar da brincadeira, Marcela reconhece a importância de se criar uma data para conscientizar a sociedade sobre os desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência física: “Por temperamento, sempre fui de brigar pelo que eu acho justo e vou às últimas consequências. Sou a louca do contencioso, do litigioso”, diz ela, rindo muito, durante a entrevista que deu ao blog em uma das amplas salas de reuniões do banco de investimentos onde trabalha no setor jurídico.

Veja também: 

 

Há cinco anos trabalhando no setor jurídico do banco BTG Pactual, Marcella diz que vai às últimas consequências no contencioso: “É a história da minha vida” (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Ao dizer que discute quando uma situação a deixa indignada e que acredita na sua tese até o último recurso (“Essa é a história da minha vida”), Marcella explica que seu enfrentamento não deve ser confundido com ativismo: “Acho legal que haja movimentos de defesa da pessoa com deficiência física, dos homossexuais, dos negros, me solidarizo inclusive, mas não levanto bandeira. Eu tenho a minha própria batalha, venço no dia a dia.”

10% da população

De acordo com dados na Organização das Nações Unidas (ONU), essa parcela da população significa 10% do total do planeta, e apresenta as mais variadas manifestações — física, auditiva, visual, mental ou múltipla, quando duas ou mais delas estão associadas.  

O decreto lei nº 3298, de 1999, define a deficiência como “toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano”.

Minimizando sequelas

Extremamente afirmativa, Marcela em momento nenhum fraqueja ao contar sua história. Não existe autocomiseração. Ela concorda que a deficiência física (ou de qualquer outra espécie) fica maior, ou menor, dependendo de como o portador a encara, ou no que ele a transforma. No seu caso, ela minimiza o quanto pode as sequelas. Quando diz que nunca foi discriminada nem sofreu bullying, eu a instigo: “Nunca sofreu, ou não teve ouvidos para isso?”

Resposta: “Não tenho lembrança de criança tirando sarro de mim.” Por sinal, ela conta que passou por dificuldades na primeira escola em que estudou, para crianças especiais, justamente porque “quase ninguém conseguia falar, então eu não tinha com quem conversar, me sentia sozinha, um peixe fora d’água”.

Livre demais

Ainda à procura da melhor forma de adaptação para ela, seus pais a matricularam em uma escola que seguia a linha montessoriana, cujo método dá relativa autonomia ao aluno para que ele possa se desenvolver de acordo com sua própria natureza. Ela tinha 6 anos.

Aos 8, pediu para sair. “Eu me senti livre demais, não fazia nada (risos)”. Só quando a colocaram em uma escola “normal” (nas palavras dela), Marcella de fato se encontrou. No Colégio Agostiniano Mendel, considerado um dos mais puxados do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, ela diz ter feito seus “melhores amigos”. A advogada lembra que “amava muito a escola”, a ponto de sua mãe, quando ficava brava, determinar como castigo não deixá-la ir à aula.

Na base do bom senso

Mas não, nem tudo foi tão tranquilo quanto pode parecer. Em determinado momento, ela precisou fazer-se ouvir naquilo que considerava injusto em relação ao aluno com deficiência física, já que não havia lei que regulasse esses casos no currículo escolar: “Eu dizia às professoras que não dava para terminar uma prova no mesmo tempo que todos os alunos da sala. Se eles gastavam uma hora, eu levava duas”, lembra ela, que é cadeirante e tem comprometimento motor. Não houve sequela intelectual.

Como teve o privilégio de estudar em uma escola particular, essas questões foram resolvidas informalmente, na base do bom senso. “Em um primeiro momento, tinha uma professora que não entendia. Mas aí o orientador educacional interviu e me ajudou sem contar com lei nenhuma.” Ela reconhece que, de lá pra cá, “as coisas começaram a melhorar”.

Curiosa e disponível

Aparentemente, o segredo da superação em Marcella está em seu espírito curioso, disponível, desbravador. Ela seria uma bem disposta aventureira, sem tempo para conversa fiada. Vida afetiva? “Se eu não encontrar algo que possa ser legal para mim, prefiro ficar só. Dá para ser feliz de tantas maneiras na vida, não vou morrer se não tiver namorado.”

Apesar de seus pais, ambos, serem engenheiros, ela diz que sempre teve dificuldade em matemática (“em física era pior ainda”), e que o curso de Direito, feito na Universidade Presbiteriana Mackenzie, no centro de São Paulo, teve como qualidade precípua libertá-la dos números. “Sempre gostei de escrever, me comunicar, nada a ver com ‘exatas'”, diz.

Chega de concurso

Quando se formou, ela pensou em prestar concursos públicos, queria a promotoria, mas então percebeu que era “muito ansiosa e imediatista” para investir tempo em cursinhos e ainda esperar, depois de aprovada, para ser chamada. “A ideia de concurso me cansou. Hoje eu vejo que, de fato, aquilo não tinha nada a ver comigo.”

Ao mesmo tempo, a avó que ela considerava uma “segunda mãe” sofreu um AVC e teve sequelas graves: permaneceu incomunicável durante cinco anos. “Quando eu percebi que podia ficar muito deprimida, resolvi dar uma guinada na minha vida. Fazer tudo diferente, recomeçar do zero.”

Amor pelo teatro

Para receio de seus pais, que a viam bem colocada em um cargo público, Marcela decidiu se aventurar no setor privado. Distribuiu seu currículo por muitas empresas, até que o banco em que trabalha há cinco anos a chamou. Apesar de ser uma das instituições financeiras mais conhecidas do país, ela confessa que não sabia do que se tratava: “Quando me chamaram para conversar, estudei tudo sobre o banco. Cheguei aqui para a seleção afiadíssima.”

Sua mais nova realização é um curso de teatro. Apaixonada por palco, há seis meses ela entrou para a Oficina dos Menestreis, que o cantor Oswaldo Montenegro fundou há quase 30 anos. “É teatro amador”, diz ela, meio exibida.

Pose para fotos: “Adoro essa parte. Nunca saio bem, mas adoro”, diz. Depois dos cliques, ela olha o resultado no visor e diz: “Ah, até que eu saí bem dessa vez.”

Por fim, sempre com o raciocínio muito ágil, Marcella conta que a melhor coisa que ouviu em suas batalhas de superação veio de um dos médicos que a trataram. “Ele me disse que o termo ‘paralisia cerebral’ é um palavrão. Não faz sentido. O cérebro não anda, então não pode parar.” No caso dela, faz todo sentido.

 

Erramos: Diferentemente do publicado, 11 de outubro é o Dia Nacional, e não Internacional, da Pessoa com Deficiência Física.

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Na estreia do show Baby Shark em SP, mãe reclama da ausência de mommy shark http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/09/na-estreia-do-show-baby-shark-em-sp-mae-reclama-da-ausencia-de-mommy-shark/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/09/na-estreia-do-show-baby-shark-em-sp-mae-reclama-da-ausencia-de-mommy-shark/#respond Wed, 09 Oct 2019 07:00:21 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21701

A princípio, o “Baby Shark Live Show” é dedicado ao público infantil — mas há adultos que também se deixam levar pela saga da família de tubarões cantantes. Na estréia latino-americana do espetáculo, sábado, em São Paulo, a arquiteta Thaís Trentin, 41 anos, mãe de Helena, 4, ficou muito aborrecida com a ausência de um personagem que considera importante: “Cadê Mommy Shark?”, perguntou ela, levantando os braços e apontando para si como referência na família. A falta de mamãe tubarão pareceu atingir em cheio seu orgulho de progenitora. “E a Grandma Shark?”, continuou, mostrando sua sogra, dona Mazé, correspondente de vovó shark. “Não achei legal não. O lance deles (os Shark) tem muito a ver com pai, mãe, avó, com família mesmo. O show não valoriza isso. Eu esperava mais. E outra: como musical, sem Mommy nem Grandma, foi caro”.

Aos não-iniciados: Baby Shark é um filhote de tubarão estilizado que, diferentemente do bicho real, não morde nem mata — só tortura. Sua principal presa são crianças de 0 a 5 anos, que costumam ser abduzidas por uma música cuja letra diz: “Baby shark, doo doo doo doo doo doo/Mommy shark, doo doo doo doo doo doo/Daddy shark, doo doo doo doo doo doo/Grandma shark, doo doo doo doo doo doo/Grandpa shark, doo doo doo doo doo doo/Let’s go hunt, doo doo doo doo doo doo/Run away, doo doo doo doo doo doo/Safe at last, doo doo doo doo doo doo.”

Veja também:

Helena com os pais, no dia de sua festa de 3 anos, cujo tema foi Baby Shark: “A música bombou de verdade muito recentemente, então a gente não encontrou quase nada no Brasil para a decoração. Por sorte, ele (Diego, o pai da menina) estava indo para os Estados Unidos poucos dias antes e comprou até a camiseta (que está vestindo, com a letra da música tema)”, conta Thaís (Foto: Arquivo Pessoal)

3,5 bilhões de views

Cada frase da música deve ser repetida quatro vezes e, por fim, tudo volta ao início. Com 3,5 bilhões de visualizações no Youtube, o hit chegou a ocupar a 32a. posição entre os Hot 100 Billboard, considerado o ranking de singles mais importante do mundo.

Composta originalmente na década de 1990 por dois educadores norte-americanos, a canção mais tarde foi revisitada por vários ritmos e tendências. Maycon Fontoura, produtor do “live show”, diz que o doo doo doo que de fato viralizou foi o da versão do espetáculo, criado pelos coreanos do Smart Study — que se apresenta como “empresa de entretenimento educacional”. “A gente segue o roteiro deles, que é a base do show da turnê mundial”, explica Maycon, para justificar a ausência de Mommy Shark (e de Grandma e Grandpa).

Ele garante que esse primeiro show no Brasil foi “só uma provinha” e que os próximos muito provavelmente apresentarão a família toda. Que bom.

Será possível?

Antes de ir ao show, o adulto que conhece minimamente o conteúdo da família Shark é tomado pela apavorante questão: como será que eles transformaram uma canção de cinco personagens e vários doo doo doo em um musical de 65 minutos?

A resposta vem com uma notícia relativamente boa para quem tem intolerância psíquica a repetições: a música tema é cantada apenas 4 vezes.

Na história, tudo gira em torno da busca por Baby Shark, que se perde de Daddy. Além do próprio papai tubarão, vão atrás dele os coadjuvantes Pinkfong e Hogi, mais um explorador, um cowboy e uma mergulhadora, entre outros personagens que, segundo Maycon, “remetem às culturas regionais de alguns países”.

Hogi, Pinkfong e grande elenco, em busca de Baby Shark (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Embora o texto seja adaptado para o português, as músicas foram mantidas na versão em inglês: “As crianças só reconhecem essas canções no original”, explica Maycon. Por sua vez, os atores cantam em playback as gravações produzidas previamente com suas próprias vozes. Por que então não deixá-los cantar ao vivo? “Para não sair do timing do show nem um segundo”, diz o produtor. Ah.

Baby Shark desce à plateia, em momento interativo (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Missão de fim de semana

No saguão, antes do espetáculo, os pais parecem cumprir alegremente sua missão de fim de semana. Alguns reconhecem que é puxado: “Quem deu o ingresso para o show foi o padrinho dela, de Dia das Crianças. Deu o ingresso, mas não veio junto”, ri a analista de sistemas Mayara de Oliveira, 31 anos, mãe de Alice, 1 ano e meio.

Alice ganhou o ingresso para o show do padrinho, de Dia das Crianças. “Deu o ingresso, mas não veio junto”, ri a mãe (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Pouco antes do segundo sinal, que avisa o começo do show, um casal de primeira viagem tenta encaixar o carrinho de bebê de ré, na porta da sala. Dá tempo apenas de dizer que o filho não sabe ainda o que é Baby Shark, “mas a gente estava sem saber o que fazer, comprou o ingresso para vir”. “Vai ser divertido”, acredita o engenheiro Rafael Cruz, 37 anos, com invejável animação.

O engenheiro Rafael Cruz com a mulher, Renata, e o filho (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Réplicas dos Shark

A estréia de sábado, na casa de espetáculos Tom Brasil, foi anunciada como  “única apresentação” em São Paulo. De acordo com Maycon, o “live show” deve percorrer 50 cidades do Brasil, mais o mesmo número na América Latina, incluindo as capitais de todos os países. Ele espera que o espetáculo seja visto por 350 mil pessoas. Em São Paulo, os ingressos foram vendidos a preços entre R$ 29 e R$ 180, e se esgotaram em cinco dias. O Tom Brasil tem 1.800 lugares.

Logo à entrada da casa, uma banca comercializava réplicas de Baby e Daddy em forma de travesseirinho de pelúcia. O blog pergunta se venderam muito, e uma das encarregadas diz que não. “Para o padrão brasileiro, os preços são salgadinhos”, disse. Pelo travesseirinho em forma de Baby, cobravam-se R$ 200; o modelo igual, “mas que canta”, R$ 250; e o que está em cima de uma bicicleta, R$ 450. A representante da empresa que tem a licença para comercializar os produtos no Brasil não quis revelar números, nem mesmo o próprio nome.

Grandma Shark, Pinkfong, Karina Bacchi Shark, Grandpa Shark (ao fundo), Enrico, Baby e Daddy Shark; Amaury Daddy Shark Nunes fazendo a foto (Foto: Paulo Sampaio)

Crianças VIP Shark

Assim que o show terminou, quando os atores ainda estavam agradecendo, a atriz,  apresentadora e modelo Karina Bacchi se levantou de uma mesa na primeira fila e caminhou para a saída fazendo um vídeo-selfie dela com o filho, Enrico, no colo. Era seguida pelo marido, Amaury Nunes.

Já no camarim, onde crianças VIP esperavam para fazer fotos com Baby e Daddy, o pequeno Enrico mostrou-se impaciente com a demora. Para entretê-lo, Karina passou a referir-se à própria mãe como Grandma Shark e ao pai como  Grandpa Shark. A representante da empresa que tem a licença para comercializar os produtos Shark disse: “Pode fazer fotos com eles (Baby, Daddy e Pifkong), viu Karina? Fica à vontade. E fica à vontade para filmar também!”

Fica à vontade é ótimo.

 

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Torcedor rifa entrada de Flamengo x Grêmio para tratar cão com câncer http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/08/torcedor-rifa-entrada-de-flamengo-x-gremio-para-tratar-cao-com-cancer/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/08/torcedor-rifa-entrada-de-flamengo-x-gremio-para-tratar-cao-com-cancer/#respond Tue, 08 Oct 2019 07:00:23 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21708 O cão vira-lata do flamenguista carioca Danilo Mello, 32 anos, acaba de submeter seu dono a uma espécie de teste máximo do amor incondicional. Diagnosticado com câncer na mandíbula, o animal levou Mello a rifar o ingresso que havia comprado para assistir ao jogo contra o Grêmio, na semifinal da Taça Libertadores, dia 23 de outubro. “Voltamos do veterinário malucos com os valores do tratamento. Pensei em vender o único bem que eu tenho, um Fox 1.0 2010, mas um amigo me disse que não valeria a pena porque não está quitado, e ainda tem o IPVA deste ano e as multas”, lembra o torcedor, que é ator e está desempregado.

Descartada a hipótese de se desfazer do carro, ele pensou: “O que eu tenho de mais valioso?” A resposta pipocou rápido em sua mente: o ingresso para o jogo. Como sócio-torcedor do clube, Mello tem oportunidade de garantir a entrada com antecedência, por um valor mais em conta. “Já são mais de 150 mil sócios, e eles disponibilizam vários planos. O meu é o básico.”  No caso, ele e os três amigos que o acompanham em todas as partidas, “desde que o Flamengo era um time ruim”,  pagaram módicos R$ 80. Porém, ele lembra que agora os ingressos estão esgotados: “Quando abriram, já havia mais de 50 mil vendidos. É um jogo histórico, que as pessoas estão esperando há 35 anos.” O ingresso em um camarote “muito VIP” pode chegar a R$ 2,1 mil.

Veja também: 

Amor do cão: “Danilo com Doze” (Foto: Arquivo Pessoal)

Duzentos amigos

O resultado da biópsia de Doze saiu na segunda-feira passada, por coincidência na semana em que se comemora o Dia Mundial dos Animais (4 de outubro). A princípio, o tratamento ficaria em R$ 7 mil. São oito sessões de quimioterapia e 4 de radio, só administráveis em uma clínica oncológica na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Mello e a namorada, a publicitária Renata Ragi, 31, pensaram em promover uma vaquinha entre amigos. Eles calcularam: “Eu tenho uns 100 amigos, você também. Se cada um deles der R$ 30, já seria metade do que a gente precisa”.

Vascaína desde criança, como o irmão, Renata disse que no primeiro apelo que mandou aos amigos para a vaquinha fez “uma brincadeira para aliviar a dor” (“Pelo Doze, eu viro flamenguista”), e quase arrumou briga feia: “Alguns vascaínos ficaram ofendidos, tive que me retratar. Expliquei que sempre fui Vasco, não tinha como fingir que era Flamengo, quem me conhece saberia.”

No entanto, Renata confessa que há sete anos, desde que começou a namorar Mello, torce pelo Flamengo “porque quando o time ganha ele fica feliz”.

Danilo, Renata e Doze. Ela chegou a dizer: “Pelo Doze, eu viro Flamenguista”, mas voltou atrás (Foto: Arquivo Pessoal)

Sorteio dia 18

A dada altura, sugeriram ao casal que fizesse uma vaquinha virtual. Eles acharam a ideia boa, mas não esperavam que chegariam aos R$ 7 mil. No desespero, Mello lançou mão do ingresso e informou aos colaboradores que o rifará em 18 de outubro, cinco dias antes do jogo. O ator se impressionou com a resposta a sua iniciativa: “São 114 pessoas até agora, e já temos mais de R$ 9 mil”, disse ele, ontem.

Porém, a notícia boa foi sucedida por outra nem tanto. Ao levar Doze para a primeira sessão de quimioterapia, o casal ouviu do veterinário que o cão está com outro caroço, agora no pescoço: “Pelo que ele disse, pode ser que a doença tenha se espalhado. O Doze tem um pouco de sangue de Sharpei, uma raça que tende a sofrer de câncer. O difícil é tomar as decisões sobre o que fazer. A gente não quer perdê-lo, mas também não vamos submetê-lo a um sofrimento insuportável.”

“Coisa do destino”

O nome do cão faz referência ao dia em que Mello e Renata se conheceram, 12 de dezembro de 2012. Doze tem 5 anos e mora com eles desde bebê. “Foi coisa do destino. Eu tinha pegado carona com a amiga de uma amiga, em uma viagem de fim de semana, e comentei com ela que queria um cachorro. Só que, na ocasião, eu e a Renata dividíamos um apartamento minúsculo com um amigo, não daria de jeito nenhum”, lembra o ator. Renata: “Apesar de amaaaar cachorro, já ter tido quatro, a gente não contava com uma renda fixa, eu era estagiária, não havia a menor condição.”

Entretanto, a tal amiga da amiga mandou para Danilo na segunda-feira o anúncio da adoção de Doze no facebook. Danilo encaminhou a foto para Renata. “Foi amor à primeira vista”, lembra ela. “Eu estava no estágio, fiquei muito nervosa, liguei para ele e perguntei: ‘O que a gente vai fazer?'”. Segundo Renata, Danilo “deu uma desconversada”, enquanto ela “tentava ser racional”. Não adiantou: “Dois dias depois, quando eu cheguei em casa, ele estava com o Doze no colo, tipo Simba.  É inesquecível!”

Foto publicada no anúncio oferecendo adoção de Doze: “Foi amor à primeira vista”

Medo grande

O casal já suspeitava da doença de Doze: “Existia um medo grande, mas você nunca está preparado para uma notícia dessas”, diz Renata. “Eu tentava me acalmar, dizendo  que vira-latas não costumam ter problemas assim. Meu primeiro cachorro, o Apollo, viveu 16 anos, morreu na velhice. Era o que eu esperava do Doze. O resultado da biópsia foi assustador.” O tumor é “extremamente agressivo”, diz ela. Está no grau 3 de 3.

Segundo Mello, Doze reagiu com valentia à primeira quimio: “Como bom vira-lata, ele não está com enjoo nem passando mal’. O que me preocupa é o lado Sharpei dele”, diz.

A quem estiver interessado na recuperação de Doze, ou em assistir ao jogo Flamengo e Grêmio, o link da vaquinha/rifa é http://vaka.me/743847.

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De Duque de Caxias para a Sorbonne, estudante negro diz como ‘virou o jogo’ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/06/de-duque-de-caxias-para-a-sorbonne-bolsista-negro-conta-como-virou-o-jogo/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/06/de-duque-de-caxias-para-a-sorbonne-bolsista-negro-conta-como-virou-o-jogo/#respond Sun, 06 Oct 2019 07:35:37 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21618 O caminho percorrido pelo estudante Elian Almeida entre Duque de Caxias, na temerosa Baixada Fluminense, e a Université de Paris-Sorbonne, uma das instituições de ensino mais prestigiadas do mundo, foi bem maior que os 9 mil quilômetros que separam o Brasil e a França. É preciso contabilizar a distância imposta pelo preconceito social, racial e geográfico que ele teve de enfrentar até o embarque para a Europa.

Quinto e último filho de uma família de renda modesta, Elian, 25 anos, conta que sua mãe é uma dona de casa que no passado trabalhou como empregada doméstica, e seu pai um crente que tem a vida profissional “atrelada a questões religiosas”. Explica que seu nome tem origem hebraica e significa “pertence a Deus”.

Veja também:

Elian Almeida, cercado por seus trabalhos, no estúdio onde mora em Paris (Foto: Arquivo Pessoal)

Líder em homicídios

Em Duque de Caxias, Elian foi criado no bairro do Corte Oito, onde cursou o ensino fundamental na rede pública. A Baixada Fluminense é tida como a região mais violenta do Rio. De acordo com dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), em agosto liderou o ranking de homicídios no estado, com 30 % (ou 97 casos). Os números de Caxias representam 22% desse total.

Foi ali que Elian entendeu, desde cedo, que só conseguiria conquistar sua independência através dos estudos. Diante do boletim repleto de notas altas, seus irmãos se cotizaram para bancar para ele uma escola particular. “Eles estudaram o tempo todo na pública, porque na época minha mãe era doméstica e não podia pagar. Então, o esforço da família não era só um sinal de confiança em mim; eu me vi diante de uma grande responsabilidade”, conta ele.

Fenômeno educacional

Concluído o ensino médio, em 2015 ele passou no vestibular para o curso de artes visuais na conceituada Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Por um desses contra-sensos do sistema educacional brasileiro, a grande maioria dos aprovados no exame para faculdades públicas, bancadas pelo governo, pertence a uma elite que pode pagar os estudos em escolas particulares.

Isso porque a grande maioria das escolas particulares são mais bem avaliadas que as públicas. Então, paradoxalmente, quem cursou o ensino fundamental em uma escola municipal ou estadual estaria menos preparado para entrar em uma universidade pública. Entrando na privada, precisaria desembolsar um dinheiro que nunca teve para frequentar uma escola paga.

“Ser um estudante negro em uma das melhores universidades do país é um ato político”, diz Elian. Ele não pensa em sua formação apenas como um diploma, mas como “uma experiência que trará retorno para negros, pobres e moradores de periferia que nunca tiveram acesso a um estudo de qualidade”. 

Elite sucateada

Eis que, por outro contra-senso do sistema educacional brasileiro, em 2016 a UERJ (“uma das melhores universidades do país”) estava sendo sucateada graças à crise financeira pela qual passava o estado, depois da gestão fraudulenta do ex-governador Sérgio Cabral — preso naquele ano por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em agosto, Cabral foi condenado pela 10a. vez, e agora acumula uma pena de mais de 200 anos de prisão. Seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, apoiado por ele, também está na cadeia.

Pioneira em programas de ação afirmativa, a UERJ deixou de pagar bolsas em março de 2016. Professores e servidores técnico-administrativos passaram a receber salários atrasados, isso quando recebiam. O bandejão da faculdade, que era usado principalmente por alunos mais pobres, foi fechado. As aulas que se davam em 2017 eram referentes ao segundo semestre de 2016.

Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2016, quando se noticiou seu sucateamento

Université de Paris, Sorbonne (Ana Carolina Dani/Folhapress)

Aula com refugiado

Mas Elian já era sobrevivente bem antes de entrar para a faculdade, e logo viu que, mesmo cursando uma universidade renomada no Rio, não alcançaria ali o que imaginou para o futuro. Foi então que se candidatou a um intercâmbio que integra  um acordo de mobilidade entre universidades brasileiras e estrangeiras. Seu interesse era Paris. Mas faltava falar francês.

Informou-se sobre um projeto chamado “Abraço Cultural”,  em que os professores são refugiados de todas as partes do mundo: “O meu era da República Democrática do Congo, médico e formado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Existe uma base pedagógica e de capacitação dos professores. Fiz dois módulos, depois continuei sozinho.”
Para bancar as despesas com a ida e a chegada a Paris, Elian promoveu uma vaquinha virtual que angariou 153 colaboradores, incluindo pessoas que ele não conhecia, e que rendeu, em uma semana, 21 mil reais. Conseguiu a passagem com o patrocínio de uma cia aérea. O estúdio onde ele mora é subsidiado pela Sorbonne, faz parte da residência universitária

Ataque racista

No meio do caminho, pouco antes de ir para França, havia outra pedra. Pela primeira vez, Elian passou por um ataque frontalmente racista. Ele trabalhava como educador no Museu de Arte do Rio, no centro da cidade, quando se ofereceu para atender um turista norte-americano que apareceu procurando informações. Ao perguntar ao visitante, em inglês, se precisava de ajuda, Elian foi ignorado. O turista virou-se de costas e disse: “Não quero negros”.
Chocado, ele correu até a base da guarda municipal, enquanto o turista americano tentava sair dali, mas acabou sendo levado ao distrito policial.  “Foi um momento marcante, porque eu me vi psicologicamente fragilizado. Já tinha passado por atos racistas, mas de maneira velada, em um comentário, em uma aula na universidade. Há quem acredite que existe democracia racial no Brasil, mas os números de mortos entre pessoas negras evidência o contrário. Uma nova geração de artistas, intelectuais, acadêmicos negros, na qual eu me incluo, está aqui para continuar a reivindicar nossa história.  Essa geração é tudo que o atual governo brasileiro teme.”

Elevador de serviço

O discurso de Elian não soa rancoroso, mas documental, como um registro. Ele prefere olhar pra frente: “É importante pontuar mais  uma vez que fui vítima de agressão racial, mas no momento meu objetivo é construir uma base sólida em Paris, continuar minha pesquisa em artes visuais, com a possiblidade de atuar com direção criativa e no campo cinematográfico. Espero que, em breve, eu consiga transformar a experiência que eu acumulei no Brasil e aqui, e levar a quem ainda não tem acesso à educação pública e de qualidade. Quero criar um espaço para reverter aquilo que quase me derrubou e impede que milhões de pessoas negras acreditem em seus sonhos ou os construam.”
Em Paris, ele diz que sua mãe, enquanto doméstica, não precisaria utilizar o elevador de serviço. Ele não encontra babás de branco nas ruas, nem tem notícia de quartos de empregadas nos apartamentos. Por outro lado, vê negros ao volante de carros de luxo — não na condição de chauffeurs. Mas não se ilude: “Por melhor que seja o status social de uma pessoa negra, isso não a isenta de sofrer racismo. Está marcado na pele, por uma construção secular baseada em um contrato racial. Mesmo que eu veja pessoas negras sentadas em cafés sofisticados aqui, a constituição de um pensamento europeu como o centro do mundo, e os outros à margem, é fundamental para entender o racismo estrutural. Eles são extremamente elitistas e cultivam de maneira rígida um modo de vida que serve para conservar uma condição centenária de dominação. E não querem perder isso.”

Tomado como branco

Por estudar em uma universidade frequentada pela elite do Rio de Janeiro, Elian diz que era tomado como branco. O intercâmbio não levou essa circunstância para a França. “Na Europa, esse código evidentemente não é reconhecido, porque toda a estrutura educacional injusta do Brasil é um fenômeno muito próprio. Então, em Paris eu continuo negro. E isso significa que o racismo é tão presente na França, quanto no Brasil.”
No discurso de Elian, fica claro que ele não abandonou a lucidez e o senso de realidade no extenso caminho que tem percorrido até aqui. Isso não o impede de ostentar um sentimento de orgulho, com toda razão. Foi uma vitória para ele. Não necessariamente para o Brasil. Este ano, o governo bloqueou 44% das verbas de custeio das universidades federais, afetando a rotina de aulas e as pesquisas.  Em algumas instituições, as salas de aula ficaram sem luz, o bandejão perdeu o bife e os vigias foram dispensados. Haja alunos como Elian para superar o desprezo do governo pela educação.
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Promoter cria festa para ‘ursas’: gays grandes, peludos e afeminados http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/02/promoter-fara-festa-para-ursas-gays-pesados-peludos-e-femininos/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/10/02/promoter-fara-festa-para-ursas-gays-pesados-peludos-e-femininos/#respond Wed, 02 Oct 2019 07:00:41 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21560 Até aqui, a comunidade LGBTQIA+ associava o gay grande e peludo, conhecido como “urso”, a um ser “rústico”, “machão” e “destemido”. Mas então o produtor de festas Rafael Maia, 31 anos, resolveu promover uma balada para derrubar esses estereótipos e prestigiar as “ursas” — o correspondente afeminado da espécie.

“A comunidade ursina é historicamente controversa no que diz respeito a aceitar o que é diferente da normatividade. Até pouco tempo, havia festas de ursos que não aceitavam ou dificultavam a entrada de mulheres. Viemos para quebrar isso”, diz Rafa Maia, que mede 1,78m, pesa 98kg e se autodenomina “ursinho” .

“Quisemos fazer uma celebração específica para pessoas que não tem o corpo padrão e que gostam de se sentir livres para expressar seus desejos e vontades, como se montar de drag queen, usar maquiagem, brincar com cores e formatos nas roupas, cabelo etc. e usar tudo isso com muita extravagância e alegria”. 

Veja também:

 

Com 1,78 e 94 kg, o criador da festa para ursas, Rafael Maia, se define como “ursinho” (Foto: Arquivo Pessoal)

Quem é quem no zoo

Como quase sempre acontece nessas metáforas idealizadas, quem primeiro associou o animal urso ao gay grande e peludo foram os norte-americanos. No fim dos anos 1970, o jornalista George Mazzei escreveu um artigo para revista gay Advocate intitulado “Quem é quem no zoológico“. Surgia o “bear”.

Naquele tempo, quando a conceituação de identidade de gênero mal engatinhava, o principal alimento do urso “básico” era o “lenhador” (exemplar encorpado do animal, rude e corajoso, em geral reconhecido pela camisa quadriculada, o jeans desbotado e a bota reforçada).

Para todos os gostos

Com o tempo, a nomenclatura para designar os interessados em desenvolver romances com ursos se expandiu. Agora, havia os cub (filhotes); os chubby (barrigudinhos); o chaser ou hunter (caçadores muitas vezes não identificados fisicamente com a espécie, podendo ser franzinos e lisos); a lontra (peludos, mas não necessariamente gordos);  o coala (ursos loiros); panda (asiáticos); e polar (mais velhos, com pêlos brancos).

Existe uma controvérsia, dentro da própria comunidade, a respeito da definição de  urso gay. Alguns acreditam que ele tem de ser gordo (como o animal), outros o vêem como grande e musculoso (o animal idealizado) — mas todos concordam em relação a abundância de pêlos. Em São Paulo, o número de festas e bares dedicados a ursos cresceu exponencialmente na última década.

Úrsula, originalmente, é a ursa lésbica. Tem aparência masculinizada, está acima do peso e se veste de couro.

Inconvenientemente feliz

Não é de hoje que Rafael Maia persegue um ideal libertário. Conhecido no meio baladeiro underground por promover festas de sexo onde todos acabam nus, Maia criou em 2015 a “Kevin” (baseada nas tirinhas “Kevin & Friends”, que retratam as “aventuras do menino inconvenientemente feliz”); depois a Z(o)NA (o “o”no meio da palavra é uma alusão ao ânus) e atualmente representa também a F4F, braço paulistano de uma festa promovida em Berlim por um brasileiro (o primeiro “F” é de “ficken”, que em alemão significa foder; “4F” é a versão numérico-representativa da expressão em inglês “for fun”).

“Somos todos plurais e livres, as pessoas se comportam da maneira que quiserem desde que respeitem quem está lá. Gordofobia, lesbofobia, racismo, homofobia, transfobia, machismo, misoginia não são tolerados de maneira nenhuma. E a pessoa que performar qualquer um desses insultos será posta pra fora do clube”, diz Maia.

Rejeição gigante

Ele recebe para as festas no Club ZIGduplex, localizado no centro de São Paulo. A primeira “Úrsula”, como foi batizada a festa das ursas, foi em setembro e reuniu 350 pessoas. A próxima será no dia 25 de outubro. Para a ursa Duda Dello Russo, nome artístico do assistente de estilo, DJ residente da Ursula e palestrante Eduardo de Oliveira Jr., 23 anos, “as afeminadas sofrem dentro da comunidade gay, por ela estar ligada a um sistema patriarcal, machista e misógino, que rejeita qualquer imagem que se assemelhe a mulher/feminino”.

Duda diz que sempre foi “muito afeminado” e que quando começou a “explorar ainda mais esse lado”, como drag queen, sentiu uma “rejeição gigante da comunidade”.  “A ‘Ursula’ foi a primeira festa em que fui só de roupa íntima. Sabia que era um lugar seguro, e livre de julgamentos a respeito do meu corpo.

Duda Dello Russo, a DJ residente da Ursula, devidamente paramentada: “Aqui eu me sinto livre de julgamentos a respeito do meu corpo” (Foto: Arquivo Pessoal)

Ursos versus ursas

Para o maquiador e designer de moda Diego Bernardino, 24 anos, que encarna a drag queen Di Vina Kaskaria e toca na festa, “a proposta da Ursula é trazer um público que não se sente acolhido em festas típicas de ursos”. “Como qualquer microcosmo, o meio ursino passou a reproduzir preconceitos sociais, como racismo, gordofobia, misoginia.”

Diego conta que, no dia da primeira edição da Ursula, há um mês, ele esteve também em uma festa tradicional de ursos. “A recepção foi bem diferente. Enquanto na dos ursos eu percebi olhares de estranhamento, na Ursula eu me senti confortável na pele de uma drag queen ursa peluda e barbada”, diz ele, que é casado há quatro anos.

O maquiador e DJ Diego Bernardino, que toca na Ursula como Di Vina Kaskaria, posa com um bife no olho: “Na Ursula eu me sinto confortável na pele de uma drag peluda e barbada” (Foto: Arquivo Pessoal)

A todos, Rafael Maia saúda com um “Woof!” (cumprimento ursino).

 

 

 

 

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Após 8 anos, Justiça decide validar leilão do hotel Maksoud Plaza http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/09/30/apos-8-anos-justica-determina-leilao-do-hotel-maksoud-plaza-valido/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/09/30/apos-8-anos-justica-determina-leilao-do-hotel-maksoud-plaza-valido/#respond Mon, 30 Sep 2019 08:00:57 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=21475 Em sessão realizada no último dia 17, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) determinou válido o leilão do Maksoud Plaza, em São Paulo, realizado há quase oito anos para pagar dívidas trabalhistas da empresa Hidroservice Engenharia Ltda, controladora do hotel. O acórdão da decisão ainda não foi publicado. Cabe recurso.

Naquela ocasião, a Hidroservice entrou com um mandado de segurança em que pedia a suspensão do leilão, alegando que já havia quitado a dívida trabalhista. Na véspera do leilão, o juiz autorizou a sua realização, mas suspendeu seus efeitos.

O Maksoud foi arrematado em 24 de novembro de 2011 por R$ 70 milhões, lance mínimo, pelos empresários Jussara e Fernando Simões, da empresa Julio Simões Logística, com sede em Mogi das Cruzes, SP. Sem concorrentes, os empresários levaram o hotel em apenas um lance.

Veja também:

Áureos tempos: em 1981, o fundador do hotel, Henry Maksoud, recebe o cantor norte-americano Frank Sinatra para um show exclusivíssimo, pelo qual o cantor teria recebido alardeado 1 milhão de dólares; na foto, Maksoud entre Sinatra e Roberto Carlos (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde o início

O leilão foi determinado pela Justiça depois que Jesuíno D’Ávila, funcionário da Hidroservice, entrou com uma ação contra a empresa cobrando uma dívida trabalhista de aproximadamente R$ 350 mil (à época). Após a condenação, decidiu-se que seriam reunidas nesse processo outras execuções de dívidas trabalhistas da empresa, pelo que o montante total subiu para cerca de 13 milhões.

De acordo com os advogados de Jussara e Fernando Simões, “a quitação integral da dívida trabalhista ocorreu somente oito dias após a realização do leilão, enquanto a lei determina que deve ocorrer antes do seu início”.

Ação rescisória

A Hidroservice entrou com uma série de recursos e agravos, e sofreu sucessivas derrotas em primeiro e segundo grau. O leilão havia sido considerado válido pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT), mas por meio de um recurso em que a empresa pedia revisão da decisão (embargos de declaração), o tribunal reconsiderou seu último pronunciamento.

Assim, apesar de o processo ter chegado ao limite de recursos (estava transitado em julgado), os arrematantes conseguiram impugná-lo em 2014, por meio de uma ação rescisória. Inconformados, eles alegavam erro cometido pelo TRT (“reexaminar uma decisão que não apresentava vício”), e pediam a confirmação do leilão. O tribunal então julgou a ação procedente.

5 votos a 2

Um novo recurso da Hidroservice levou a ação ao TST. De acordo com o advogado dos Simões, “houve vários incidentes suscitados pela empresa (Hidroservice), a maioria para ganhar tempo, o que levou o julgamento a ser adiado várias vezes”.

Por 5 votos a 2, o TST julgou a ação rescisória procedente.

Nota do Maksoud

Em nota, o Maksoud Plaza afirma que utilizará “todos os recursos cabíveis” para retomar a ação. Alega que “o prazo para questionar o leilão foi indevidamente realizado e, por isso, será reaberto”.  “Antes dessa decisão, haviam sido tomadas todas as medidas para anulação do leilão, incluindo o pagamento das dívidas que existiam por parte da holding que controla o Hotel (Hidroservice).”

Apesar das ações trabalhistas que levaram o hotel a leilão, o Maksoud acha “importante salientar que o hotel gera 350 empregos diretos e aproximadamente 700 indiretos”. “Estas pessoas e suas famílias são um dos maiores legados da história de 40 anos do Maksoud.”

 

 

 

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