Paulo Sampaio http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Sun, 14 Jul 2019 22:39:31 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Duelo: uma mulher defende o casamento tradicional, a outra, o aberto http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/14/duelo-uma-mulher-defende-o-casamento-tradicional-a-outra-o-aberto/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/14/duelo-uma-mulher-defende-o-casamento-tradicional-a-outra-o-aberto/#respond Sun, 14 Jul 2019 07:40:37 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19599

Tuy e Ana Carolina: casamento liberal x tradicional (Foto: Iwi Onodera/UOL)

São duas perspectivas completamente diferentes de um casamento. A cabeleireira Ana Carolina Rodrigues, 32, apelido Carol, é casada há 17 anos, tem dois filhos, diz que nunca traiu nem foi traída, e garante que o relacionamento sexual com o marido só melhora. “E olha que eu só conheci um pênis na vida”, diz. Para Carol, o defeito de seu marido é ser perfeito: “Ele faz crochê, cozinha, cuida das crianças e ainda me dá muito prazer na cama.”

Já a youtuber Tuy, 26, casada há seis anos, sem filhos, chegou a ter um segundo marido, sem nunca ter se separado do primeiro. Tuy diz amar profundamente sua “alma gêmea”, a ponto de liberá-lo para transar com outro homem ou outra mulher — desde que ela esteja junto. Os dois já integraram um trisal (casal de três) com um homem que era monogâmico: “Essa foi a principal treta. Ele sentia ciúme se a gente ficasse com mais um”, conta Tuy, que criou o canal “Sensualise Moi”.

Veja também: 

O blog juntou as duas mulheres em um debate, para que elas pudessem tirar suas dúvidas a respeito da experiência da outra. Abaixo, os principais trechos da conversa.

Carol — Seu relacionamento é aberto só no sexo, ou no amor também? Se um dos dois se apaixona, como faz?

Tuy — A gente é liberal. Embora eu e o Biel conversemos sobre ficar com outras pessoas separadamente, nós temos um acordo que é: nada pode ser maior que a relação inicial. Então, se eu me apaixono por um, e ele, não, a gente se afasta desse terceiro. Até abrimos pra beijo, em baladas, mas nossa vibe é estar juntos.

Carol — Quando vocês decidiram que viveriam um casamento liberal?

Tuy — Na primeira semana. Só que aí, fomos a uma balada juntos e beijamos todo mundo. Então, precisamos sentar, conversar e refazer as regras. A diferença é que, no seu relacionamento, as regras já existem. No nosso, precisam ser definidas ainda. Não existe um relacionamento liberal padrão.

Carol — Sim, as regras no meu casamento são claras. Uma mensagem de WhatsApp eu já considero traição. Não vou perdoar. Porque eu tenho o mundo pra viajar, conhecer, então, se é pra liberar, eu não quero ficar presa para ser traída.

Tuy — Já aconteceu algo perto disso (msg de whapp)?

Carol — Sim, tanto da minha como da dele. Mas no início do relacionamento, a gente era muito jovem. Hoje, isso não me abala.

Tuy — Que tipo de conversa não te abala?

Carol — Assim, se uma mulher que eu não conheço o aborda no insta: “Oi, tudo bem?” Já aconteceu..

Tuy — Mas você entra no Instagram do seu marido?

Carol — Às vezes eu tô com o celular dele, toca o sinal do insta, eu vejo quem é. Mas eu não me importo, porque quem está com o Patrick sou eu.

Tuy — Você está com ele há 17 anos, desde os 16. Acha que perdeu a parte de sair, ir para a balada, tomar porres..?

Carol — Nunca gostei de balada. Balada pra mim é um show, um cinema, um barzinho, mas com ele junto. Talvez, se eu tivesse casado com uma pessoa bem mais velha, acharia que perdi a parte que ele viveu. Mas eu e o Patrick amadurecemos juntos.

Tuy — Você tem ciúme quando ele olha para alguém na rua?

Carol — Já tive muito. Hoje, não.

Tuy — O tesão é o mesmo do início?

Carol — Não, melhorou. E, por incrível que pareça, melhora cada vez mais. Depois da minha filha, que tem 10 anos, eu sou outra pessoa. Eu engravidei pela primeira vez seis anos depois que nós nos casamos. Depois do meu filho, mais ainda.

Tuy — Mas vocês transam do mesmo jeito há 17 anos?

Carol — Eu sempre gostei de inovar, realizar as fantasias dele. E também transar em lugares diferentes. Nós somos um casal convencional, mas eu gosto dessa brincadeira. E eu acho que isso é que alimenta o casamento. Outra coisa, a gente continua tendo a nossa vida. Eu deixei meu filho com um ano e quatro meses com a minha mãe, para ir para o Rio com ele. Eu faço encontro de casais uma vez por ano, que é uma injeção de ânimo.

Tuy — Já surgiu a proposta de sexo a três?

Carol — Nunca, graças a Deus. Eu não consigo me ver nessa situação. Quando meu pai morreu, minha irmã caçula tinha meses, mas minha mãe nunca mais namorou. Ela não quis colocar um homem estranho dentro de casa, entende? Não cresci com figura paterna, talvez por isso tenha casado cedo, para constituir uma família “completa”. E você: se um dia você tiver um filho, vai contar pra ele o tipo de relacionamento que tem com seu marido, ou vai deixar que ele saiba por si?

Tuy — A criança vai perguntar em algum momento, surge a curiosidade, e eu vou responder. Adaptando de uma forma que ela possa entender. Eu sou  formada em educação sexual, então conheço bem esse jogo da criança. Quando ela pergunta: ‘O que é virgem?’ porque ela leu extra virgem no azeite, você responde de uma forma lúdica.

Carol — Você pretende ter filhos?

Tuy — Não. Eu vivi um trisal (casamento de três) em que a pessoa que chegou queria muito ter filhos. Até pensei no assunto, mas quando ele foi embora, um ano depois, a vontade foi junto. De qualquer forma, desde criança, eu nunca gostei de brincar de mamãe.

Carol — Vocês têm relações com mulheres?

Tuy — Menos do que com homem, porque a mulher é mais apegada. Eu e meu marido somos muito carinhosos. Com os amigos e namorados. A gente gosta de dar café da manhã, vai junto para os lugares, os homens entendem que é um rolê. As mulheres já acham que tem um relacionamento. Umas fogem, outras se apegam demais. Eu digo: ‘Mas a gente está só indo tomar um café…”

Carol — Esses encontros acontecem onde?

Tuy — Em casa. Mas ele mora sozinho desde os 15 anos. Primeira vez que aconteceu foi em um motel. Um cara do Rio que veio para ficar comigo.

Carol — Foi um encontro às escuras?

Tuy  Não exatamente. Eu já o conhecia há algum tempo. Era para eu ficar com ele e a namorada. Aí, ele terminou com ela, e disse: ‘Eu experimento com vocês dois.’ E rolou. Eu não curto o sexo pelo sexo, tipo “Vamos só transar”. Eu gosto de ter uma conversa antes.

Carol — Então você não curte “swing”?

Tuy —  Não. Eu pareço muito liberal, mas tem coisa que eu não faço de jeito nenhum. Troca de casal, por exemplo. O Biel come a mulher, eu dou pro cara. Vira sexo tradicional, duas pessoas se comendo. E sem sequer uma conversa antes.

Carol — O que acontece a terceira pessoa se interessar mais por você, ou pelo seu marido?

Tuy — Quando o trisal já está formado, e tem sentimento, a gente sabe que é normal acontecer isso. Às vezes vai gostar mais de um, ou de outro, e está tudo conversado. Mas quando nós estamos saindo com uma pessoa e percebemos que ela tem mais interesse em um do que em outro, a gente corta. Não vale a pena colocar o relacionamento em risco.

Carol — E como é quando vocês não estão bem um com o outro?

Tuy — Não rola. A gente arruma a casa para receber visita.

Carol — O fato de ter relação com tanta gente não banaliza o sexo quando estão só vocês dois?

Tuy — Nós temos nossos momentos.

Carol — Vocês não ficam ansiosos por estar sempre tentando arrumar mais um?

Tuy — A gente é muito fora da curva em relação aos casais que ficam com outras pessoas. A gente deixa tudo acontecer. Já ficamos dois meses sem transar.

Carol — Nossa, eu e meu marido transamos três vezes por semana, no mínimo!

Tuy — As pessoas já sabem que a gente fica com outros. Então, sempre vem alguém meio que se oferecer…Por causa do canal (880 mil seguidores)

Carol — Vocês ficam com qualquer um, ou tem um filtro?

Tuy — Não é assim. Tem que rolar química. Não é físico, não julgamos por aí. A gente brinca que tem de render 12 horas no motel. A gente não vai transar 12 horas. Tem de ter um papo além da transa.

Carol — Existe uma fila de espera (risos)?

Tuy — Deveria. A gente recebe DMs no Instagram com nudes e mensagens tipo “oi, quero transar com vocês”. Mas nem eu nem ele gostamos disso. Tem quem ache que a gente criou o canal (Sensualise Moi, de dicas sexuais) para atrair gente para sexo.

Carol — Eu ia perguntar: isso não é fake, para ganhar likes e dinheiro?

Tuy — (risos) A gente está “fake” desde 2012, quando o canal não dava nem um tostão. Inclusive, quando o nosso trisal foi noticiado, eu vivi um inferno. Se pudesse voltar atrás, eu não teria dado aquela entrevista. Todo mundo achou que era marketing. As pessoas só acreditaram que não era no vídeo do término, em que eu estava chorando muito. Tinha três meses que a gente estava se separando. As pessoas viram que eu estava sofrendo de verdade.

Carol —  Como que você foi por esse caminho?

Tuy — Bom, eu sou filha única, desde criança nunca quis me casar e, quando eu comecei a entender o que era sexo, falava para a minha avó, que é muito católica e hoje tem 74 anos, que não ia casar virgem. Isso já era um desgosto. Com 11 anos, eu comecei a ouvir rock, em uma família que só ouvia sertanejo. Outro desgosto. Eu me vestia de preto, era gótica. Com 15, 16 anos, comecei a ficar com muitas pessoas. Eu odeio ficar com alguém no meio da rua. Levava pra casa. Até um dia em que eu fiquei com uma cara, e em menos de uma semana, com outro. Aí minha mãe surtou. Foi uma briga, mas ela começou entender.

Carol — Você já era bissexual?

Tuy — Era, mas minha mãe só foi saber com 24 anos. Porque as meninas ela deixava dormir no meu quarto, achando que não ia acontecer nada.

Carol — Com quantos anos você perdeu a virgindade?

Tuy — Com 18 anos, na Paraíba. Eu conheci o cara aqui, mas ele foi pra lá, eu fui atrás.

Carol — Sério? Eu perdi com 17. Você não se cansa de falar o tempo todo do mesmo assunto?

Tuy — Quando o canal estourou, a gente saiu em todos os lugares, na TV, em programas de sexo, recebia caixas de pirocas em casa. Minha mãe quase teve um troço, achou que eu tinha virado puta. O auge foi o trisal. Eu tinha me assumido bissexual dois meses antes. Ela me mandou embora de casa, eu fui. Depois, ela foi me buscar, eu atendi a porta de calcinha, perguntei se ela já estava em condições de entender o trisal. Ela disse “em casa a gente  conversa”, eu disse “não, melhor falar aqui logo, mais fácil; se você não estiver disposta a entender, eu nem volto”.

Tuy: “Já surgiu proposta de sexo a três com vocês?” Carol: “Nunca, graças Deus!” (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Carol — Até que ponto você faz um estilo “eterna rebelde” para chocar sua mãe?

Tuy — É que eu nunca fui diferente, desde criança. Eu traía todos os meus namorados na adolescência, fazia uma porção de gente sofrer, até que um dia decidi que não namoraria mais, só ficaria.

Carol — Você já ficou grávida?

Tuy — Nunca.

Carol — Não tem medo de doença sexualmente transmissível?

Tuy — Não, porque eu me cuido. Eu trabalho com prevenção, tenho muito conhecimento disso.

Carol — Seu marido usa camisinha? E dos terceiros, vocês exigem preservativo?

Tuy — A não ser que a gente faça exames com a pessoa.

Carol — Mas tem a janela imunológica (período de 30 dias que antecede a produção de anticorpos do vírus HIV no organismo)?

Tuy — Sim, mas a gente espera.

Carol — Seu marido usa camisinha quando transa com você?

Tuy — Agora passou a usar, porque a gente não quer mesmo ter filho. Em relação a Aids e outras doenças, a gente faz exames junto, e só fica junto.

Carol —Você não tem receio de ele ter uma relação sem que você saiba?

Tuy — A gente conversa muito, eu confio 100% nele.

Carol — Eu não confio no meu. Só quando está comigo. Ele não gosta de usar (camisinha), eu tirei o diu, a gente tem usado porque eu não quero engravidar de novo. E não me dou bem com pílula.

Tuy — A pílula me castra. Passei quatro anos achando que eu tinha problemas psicológicos, minha libido baixou. Parei, o desejo voltou 100%.

Carol –– Uma semana sem, eu subi pelas paredes. Uma curiosidade: e quando um só está com vontade de transar?

Tuy — A gente não transa. Respeita a muito a vontade do outro.

Carol — E se você se interessa muito por alguém que ele não tem atração, ou vice-versa?

Tuy — Tudo é conversado. Nós temos amigos héteros, que não transam comigo e com ele. Então, a gente negocia. Já cheguei a sair com um, mas não fiquei.

Carol — Vocês já converteram heterossexuais em gays?

Tuy — Muitos, a maioria que fica com a gente se diz hétero. Alguns, depois, se assumem gays.

Carol —  Você pretende levar essa vida pra sempre, ou pensa em parar um dia?

Tuy — Eu não vejo nem como parar, porque não encaro como uma prática, mas como a minha essência. Como parar de ser eu mesma?

Carol — Não é toda mulher que acha bonito ver dois homens transando. Algumas se sentiriam até excluídas…

Tuy — Eu sempre gostei, desde criança. É uma fantasia.

Carol –Você tem fetiche?

Tuy — Descobri que tenho um que os americanos chamam de ballbusting, ou CBT (cock ball torture), que é chutar o saco dos homens. Alguma coisa do universo SM (sadomasoquismo) também me atrai.

Carol — Nossa, um dia o Patrick me deu um tapa na bunda, broxei na hora.

Tuy — Tapa eu não gosto, mas cera de vela quente no corpo, sim.

Carol — Vocês tomam algum aditivo nesses encontros?

Tuy — A gente bebe, fuma maconha, mas não obrigatoriamente. E come alguma coisa.

Carol — Você é livre a ponto de se permitir viver um casamento tradicional?

Tuy — Eu sou bem aberta em relação ao futuro. Mas eu não me vejo casada assim.

Carol — Como você reagiria se seus filhos fossem gays: meu marido outro dia chegou da rua e disse: ‘Ai, amor, você não sabe. Eu vi dois homens barbudos se beijando. Ai, me deu um negócio.’ Eu disse, “amor, não pensa assim, respira; é o mundo que a gente está vivendo hoje, nós temos filhos”.

Tuy — Mas isso seria um problema?

Carol — Eu não quero isso para os meus filhos.

Tuy — Você acha errado ou tem medo da sociedade?

Carol — Eu sou evangélica. Então, isso é errado. Eu quero que os meus filhos sigam o que a minha mãe ensinou. Mas se meu filho chegar pra mim e disser: ‘Mãe, eu sou‘, eu jamais vou abandonar, apedrejar, de forma alguma. Vou expor o que ele vai passar, os preconceitos, mas nunca vou deixar de ser a mãe dele..

Tuy — E se ele se relacionar com duas pessoas?

Carol — Eu dei a vida pra ele, ele vai fazer da vida o que ele quiser. Porém, eu estou educando pelo caminho que eu acho certo. Posso não aceitar, mas vou respeitar.

Tuy — É muito o que a minha família fala. Minha mãe não é religiosa, mas tem a cabeça de quem nasceu em 1940. Nunca te passou pela cabeça ficar com uma mulher?

Carol — Eu vejo até em redes sociais isso. Até me passa pela cabeça, mas eu não vou abrir mão do negocinho (pênis), que é a parte que eu mais gosto.

Tuy — E se fosse uma mulher trans?

Carol — Nossa, nem pensar. Não entendo. O caso do Thammy (homem trans), por exemplo. A mulher dele gosta de mulher, e casa com uma que se transformou em homem. Então, casasse logo com um homem.

Tuy — E homem com homem?

Carol — Não me causa tanto estranhamento. Não sei se é porque eu sou meio travesti, não me incomoda ver um homem montado, sabe? Um cara com um cílio postiço eu curto. Agora, mulher com cabelo raspado, andando como um homem, eu fico olhando. Gente! Duas mulheres femininas, juntas, aí eu acho até legal.

Tuy — Existe algo que, por um momento, leve você a querer desistir do casamento?

Carol — Eu já me fiz essa pergunta. Não tem.

Tuya — Você é muito assediada por outros homens?

Carol — Sim. Não é por falta de gente me paquerando que eu não deixo meu casamento. Em festas, os caras do nosso convívio vêm, dão aquela arroxada, aquele cheiro no cangote, você fala: ‘Oi?’ Eu já quero correr para os braços do Patrick e dizer “Não, meu lugar é aqui”.

Tuy — Se você sentisse vontade, você deixaria o relacionamento?

Carol — Fugiria. O único combinado que eu tenho com ele é: se eu me apaixonar por alguém, eu vou te falar. Não vou entrar de cabeça e continuar. Teve um momento em que eu me vi balançada, preferi chegar e dizer. Ficamos seis meses separados. Em compensação, ele fez comigo, sem dizer. Eu descobri. Bem coisa de homem mesmo.

Tuy — Como você descobriu? E como você sabe que não vai acontecer de novo?

Carol — Eu descobri no celular. Ele me ligou de um bar, disse que estava no carro, e  esqueceu de finalizar a ligação. Aí, eu ouvi a conversa dele com a menina. Minha mãe já tinha me falado, minha irmã. Foi antes de a gente se casar, um affairzinho.

Tuy — E você conseguiu confiar nele depois disso?

Carol — Eu penso assim. Como foi bom eu permitir o perdão. E continuar com ele, ter tido meus filhos. Eu não me arrependo de ter perdoado. Errar é humano. Eu o amava, por isso o perdoei. Mas depois, eu também fiquei com uma pessoa.

Tuy — Para se vingar?

Carol — Na verdade, eu pensei em me vigar no início. Mas quando eu vi que a coisa ia acontecer para valer, eu pensei que não estava fazendo aquilo para machucar ele, mas a mim. E não fiz. Houve uma conversa: vamos casar, constituir família e estamos aqui até hoje.

Tuy — Hoje, você perdoaria?

Carol — Não. Por tudo que a gente passou, pelos filhos que a gente tem..Não que ele me proporcione bens materiais. Ele não me dá nada de extraordinário.

Tuy — Já houve caso de milionário que se apaixonasse por você?

Carol — Não. E olha que eu gosto de luxo.

Tuy — Você acha que, se não fosse esse marido “perfeito”, você estaria com outro?

Carol — Se eu me separar hoje, não passa seis meses sem que eu me case de novo. Eu gosto daquela coisinha chegar em casa, deitar, ter um companheiro. Nesse frio, você não sabe a falta que faz.

Tuy — Eu vou te dizer que, no frio, ter duas pessoas é muito mais legal. Dormir no meio é tão quentinho.

Carol — Vocês fazem todo tipo de sexo: oral, anal..

Tuy — Eu não sou muito fã de anal, mas faço.

Carol — A terceira pessoa tem de fazer de tudo?

Tuy — Não, a gente respeita muito a individualidade de cada um. Tem gente que fica tenso. O pior pra gente é casal do Tinder, que quer transar de saída. Nós queremos sair, tomar uma breja, ver o que rola. O problema é gente que fica nesse desespero de “vamos transar, vamos transar”, isso acaba levando as pessoas que se interessam por casais a ter medo. Por conta de casais imbecis, que tratam o terceiro como objeto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

]]>
0
Mulher esconde do marido que vai à terapia sexual tântrica e tem orgasmos http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/10/mulher-esconde-do-marido-que-vai-a-terapia-sexual-tantrica-e-tem-orgasmos/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/10/mulher-esconde-do-marido-que-vai-a-terapia-sexual-tantrica-e-tem-orgasmos/#respond Wed, 10 Jul 2019 07:00:43 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19532  

Lívia, Marília e Camila: depois da terapia, orgasmos nunca antes imaginados (Foto: Iwi Onodera/UOL)

As quatro mulheres entrevistadas neste post pediram para ter suas identidades resguardadas. Três enfrentavam questões no relacionamento sexual “doméstico”, quando resolveram experimentar a terapia tântrica. Trata-se de uma massagem feita com toques leves dos dedos, a partir da periferia do corpo, em direção ao sexo. A paciente deve estar nua. As quatro afirmam que valeu muito a pena. Se, até ali, elas se consideravam reféns da vontade sexual do parceiro e faziam “todas as vontades dele”, a partir da terapia descobriram não só que seu corpo tem um “potencial infinito de prazer”, como chegaram a orgasmos nunca antes alcançados.  “Meu marido não pode saber de jeito nenhum que eu estou aqui”, diz a veterinária Lívia, 39 anos, há 12 anos com o mesmo homem. “Nem o meu, pelo amor de Deus”, ri a psicanalista Marília, casada há 21 anos, quatro filhos.

As outras duas são a roteirista Camila, 36, separada, sem filhos, e a fisioterapeuta Renata, 40, casada há nove anos, sem filhos. Como não pode estar na entrevista “coletiva”, Renata conversou com o blog em outro dia. “O processo (da terapia) foi tão transformador, que depois eu fiz formação em terapia sexual e hoje trabalho com fisioterapia uroginecológica”, conta. O marido é o mesmo, mas Renata diz que a transformação a obrigou a pedir um tempo a ele. “Ficamos um ano e três meses separados”, diz.

Veja também:

A fisioterapeuta Renata viu resultados logo na primeira sessão: “Senti uns arrepios, uma excitação diferente. Pensei: ‘Opa, funciona!'” (Foto: Arquivo Pessoal)

30 mil orgasmos

Evandro Palma, terapeuta sexual das quatro, é reverenciado por elas como um mago. Aos 52, 11 atuando como terapeuta, ele calcula ter “veiculado 30 mil orgasmos”.  Palma fez formação na Sadhana Communa Metamorfose,  autodefinida como um “centro terapêutico de desenvolvimento, pesquisa e expansão da sexualidade humana”. Segue um método criado em 1996 pelo coach Tadeu Horta, ou Deva Nishok, que erigiu em Itapeva, Minas Gerais, “o maior espaço dedicado ao tantra do mundo”. O Ministério Público de Minas recebeu denúncias de mulheres que teriam sido sexualmente abusadas por Nishok; funcionários o acusam de assédio moral. Ele diz que seu trabalho não é sexual, “é muito sério”, e afirma que muitas pessoas deixaram a comunidade irritadas porque ele expulsou voluntários por uso de drogas. Desligado da communa, Evandro Palma hoje comanda o próprio centro, que leva seu nome. 

Ele garante que não há perigo de envolvimento afetivo de ambas as partes, já que “existe uma técnica terapêutica que supõe o distanciamento, a neutralidade”. Para afastar qualquer suspeita de segundas intenções, ele descreve a massagem com um linguajar científico: “É um estímulo somatossensorial proprioceptivo, com a ponta dos dedos, de forma leve e lenta. Pode compreender todo o corpo, ou apenas uma parte, de acordo com a anamnese realizada anteriormente. Esse trabalho é completo por si. Mas se for necessário compreender a abordagem da vulva, o estímulo será feito manualmente, com luvas, nos grandes e pequenos lábios, e clitóris — com a aplicação de forma progressiva de uma cápsula vibratória. Isso pode levar a um orgasmo, ou a vários, dependendo do potencial instalado naquele corpo”.

Aparentemente, a crença das mulheres no poder transformador da terapia é importantíssima para o êxito do processo. Elas embarcam sem reservas: “Nós não viemos aqui para transar com o Evandro. Não sei como explicar, mas não tem nada a ver com o sexo que a gente faz na vida“, acredita Camila. “Você nem sente a presença de um ser humano trabalhando no seu corpo”, afirma Renata. Abaixo, trechos das entrevistas com elas. As respostas de Renata estão inseridas no conjunto da conversa, uma vez que as perguntas foram basicamente as mesmas.

Evandro com as pacientes: “É preciso tirar o prazer da imoralidade, legitimá-lo”

Blog — O que as levou a procurar a terapia sexual tântrica?

Lívia — Eu e meu marido fazemos sexo da mesma maneira há 12 anos. Eu é que tenho que ir até ele, mostrar interesse. Se não vou, sou cobrada. No fim, ele espera que eu me masturbe para me satisfazer. Acha que tudo bem assim. Eu, não. Ainda por cima, ele não perde uma oportunidade de me diminuir.

Renata –– Eu tive uma educação repressora, pai italiano, família patriarcal, machista. Sexo era um assunto proibido. Desde o início do casamento, minha sexualidade não se encontrava com a do meu marido, que, por sua vez, é ansioso, não relaxa. Mas aos 26 anos, eu achei que isso seria contornável. Ele se encaixava na concepção doriana que eu tinha de família. Só que, ao longo dos anos, a questão “sexo” começou a pesar. Uma hora, a conta chegou.

Camila — Eu já estava separada, mas sempre me questionei sobre a obrigação que sentia de ser desejável, de performar. Até tive bons relacionamentos, mas sempre achava que era melhor para os caras.

Marilia — Meu caso é um clássico. Estou casada há muitos anos, o relacionamento sexual caiu na mesmice. Se eu trago novidades para a cama, meu marido até topa. Mas sempre tem de partir de mim.

Blog — E como foi a primeira sessão?

Lívia — Nos quinze minutos em que eu fiquei na sala de espera, me vieram as coisas mais loucas na cabeça. Pensava no constrangimento que seria ficar nua, com alguém tocando em mim. Pensei várias vezes em desistir e sair correndo dali. Ainda bem que eu fiquei. Até agora, só fiz duas sessões, mas foi o suficiente para perceber que fiz descobertas incríveis em relação ao potencial sexual do meu corpo.

Camila — No começo, eu me sentia constrangida de ir à terapia. Saía de lá como se estivesse saindo do motel com o cabelo molhado, ao meio dia de uma quarta-feira. Mas das últimas vezes em que fui, eu me senti tão bem, tão desligada, que tive vontade de fazer uma selfie.

Marília — Um divisor de águas na minha vida. Eu não imaginava que meu corpo seria capaz de ir tão longe rs.

Renata — Eu tinha marcado com uma terapeuta, mas me avisaram na última hora que ela não poderia vir. Acabei sendo atendida por um “Shiva” (homem). Ele fez a terapia chamada “sensitive”. Consiste em um toque muito delicado, que mexe com a bioeletricidade do corpo. De saída, senti uns arrepios, uma excitação diferente. Pensei: “Opa, funciona”.

Blog — E os maridos, como reagiram?

Lívia — O meu não pode nem imaginar que eu estou fazendo, mas percebe que a minha atitude na cama mudou. Está em pânico.

Camila — Eu estou sem namorado. Há um tempo, contei a experiência da terapia tântrica para um cara com quem eu estava saindo, ele ficou tão assustado que terminou o relacionamento rs.

Renata — Eu chamei meu marido para fazer uma terapia de casal comigo (o espaço coordenado por Evandro oferece essa possibilidade), mas em um primeiro momento ele não quis. Quando percebeu que estava surtindo efeito para mim, topou fazer. Na hora em que chegou no lugar e viu do que se tratava, quase teve um ataque do coração. Ficou enciumado, nós brigamos, ele não queria mais que eu fosse. Durante o processo, acabamos nos separando.

Blog — Por quê?

Renata — Eu precisei de um tempo para reavaliar minha vida. A terapia sexual mexeu com tudo, teve impacto até na parte profissional. Hoje, sou fisioterapeuta uroginecológica, trabalho com vaginismo, dor na relação, incontinência urinária.

Blog — Atende homens também?

Renata — Sim. As queixas mais comuns são disfunção erétil, ejaculação precoce, questões que a gente chama de ansiedade por temor do desempenho.

Blog — Eles ficam nus?

Renata — Sim, mas o que eu faço não tem nada a ver com massagem tântrica. Trato o físico enquanto musculatura. Antes, eu converso longamente com o paciente, em um set psicoterpêutico.

Blog — Você chegou a aplicar essa técnica em seu marido?

Andrea — É aquela história do santo de casa. Quando a fisioterapeuta é a mulher do paciente, lascou. Existe uma série de exercícios que ele precisa aprender para fazer em si. É a lição de casa. Mas parece que, quando não se paga, não funciona.

Blog — Na terapia sexual, existe risco de a paciente se apaixonar pelo terapeuta?

Renata — Se eu dissesse que não, estaria mentindo. Mas eu também corro o risco de me apaixonar pelo jornalista ou pelo médico. Não é?

Camila — Imagine! A gente não vem aqui transar com o Evandro. A massagem é um processo que lida com técnicas, em nenhum momento eu estive apaixonada por ele.

Lívia e Marilia — risos

Blog — Vocês atribuem aos maridos grande parte do fracasso sexual do casal. Afirmam que eles esperam que vocês dêem prazer a eles incondicionalmente, e que isso “é cultural, faz parte da educação machista que receberam”. Ocorre que, pelo mesmo motivo (cultural), vocês se sentem responsáveis pelo eventual fracasso deles na cama. Não pode existir um homem diferente, que inverta isso, digamos, e se sinta bem dando prazer à mulher?

Lívia — Nunca, de jeito nenhum.

Marilia — Casei com meu marido muito jovem, ele é legal, mas com o tempo o relacionamento foi ficando bem mecânico. Sem contar que agora ele tem 30 quilos a mais.

Camila — Ainda não conheci um homem que me tivesse mostrado as possibilidades infinitas que o meu corpo tem de me dar prazer. Fui descobrir isso na massagem tântrica. No momento, tá tudo certo comigo. Não significa que eu tenha resolvido o problema dos homens.

Renata — Antes de buscar a terapia sexual, fui a vários especialistas. Foi sugestão do meu marido, para saber porque eu estava tão “desestimulada” na cama. Nada funcionou. Uma ginecologista me mandou cuidar bem dele. Quase o levei para ela mesma cuidar. 

Blog — Pelo que eu entendi, o terapeuta leva uma certa “vantagem” sobre os maridos (ou namorados, parceiros sexuais), já que as mulheres vão ao consultório basicamente para ter um orgasmo. Em casa, as exigências são outras. Além de promover um “orgasmo com afeto”, é esperado do marido que ele ajude a cuidar das crianças, a administrar a casa, e ainda durma todos os dias na mesma cama. Há um desgaste a ser descontado nesse sexo “doméstico”, não? 

Renata —  De fato, a atuação de qualquer terapeuta sexual é muito mais refinada do que a de qualquer pobre marido. Você nem sente a presença de um ser humano trabalhando no seu corpo. Ele sequer nos toca com a roupa. Sim, é desleal exigir do marido que chegue nesse refinamento.

Marília –– Verdade. Ainda mais depois de 21 anos e quatro filhos. Mas também não dá para ficar estagnado.

Lívia —  O desgaste é para ambos. Mas enquanto eu busco entender o que acontece, meu marido não pode nem saber que faço terapia tântrica. Então, mais uma vez, a melhora na cama vai ficar sob minha responsabilidade. Só que, agora, eu sinto que ele vai ter de esforçar mais. Ele também sente rs. Daí o pânico.

Camila —  Bom, eu não estou namorando, então posso dizer que com os eventuais parceiros não existe esse “desgaste doméstico”. Mas dá na mesma, viu?  Eu não sei se sou a menina do dedo podre, ou se as frutas é que são podres. O fato é que, se você toca no assunto “sexo”, vem aquele papo de macho de esquerda afinado com o feminismo, “não, claro, vamos conversar sim”. Mas se você insiste, o cara foge sem deixar rastros.. Eu acho que na relação entre homem/mulher existem muitos vácuos. Eu estou na fila da “cura hétero”.

Blog — Vocês falam dos ciúmes do marido, ou que eles sequer podem saber que estão fazendo terapia sexual. Se eles fizessem também, com uma mulher, tudo bem?

Lívia e Marília — Hmm, não. Acho que não gostaria não.

Camila  (que está sozinha) — Acho que tudo bem. É uma terapia gente!

Renata — Eu adoraria. Cheguei a oferecer. As poucas sessões que ele fez fui eu quem deu de presente. Custa R$ 390. Só de receber um presente desse valor, eu estaria feliz da vida. Ainda com a possibilidade de ter um orgasmo e melhorar o entendimento do próprio desempenho sexual, quem não ia querer?

Blog (para Renata) — Apesar dos pesares, vocês reataram o casamento.

Renata — Sim. Um dos relacionamentos que eu tive quando estava separada, o mais duradouro, foi incrível. Serviu, inclusive, para eu descobrir que queria meu marido de volta. Ele é um bom parceiro. Só em respeitar os meus horários de trabalho, eu atendo sábado, domingo, imagine, o cara é um maridão.

Blog — O relacionamento de vocês melhorou?

Renata — Sim. Nossos diálogos estão mais brandos, menos desafiadores, sem cobrança.

Blog — E o sexo?

Renata — Melhorando. Em construção…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

]]>
0
“A cada 19 minutos nasce o produto de um estupro no País”, diz médica do HC http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/07/a-cada-29-min-nasce-o-produto-de-um-estupro-no-brasil-diz-medica/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/07/a-cada-29-min-nasce-o-produto-de-um-estupro-no-brasil-diz-medica/#respond Sun, 07 Jul 2019 07:00:30 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19486

A ginecologista Albertina Duarte: “A gente vive um momento assustador de retrocesso. Eu me sinto em 1975, quando se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher. Só que era uma época difícil, de construção, de luta. Agora, é de desconstrução, desmoronamento” (Foto: Reprodução/Instagram)

Em 42 anos de profissão, a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, 69, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente do estado de São Paulo e chefe do ambulatório de Ginecologia da Adolescência do HC (Hospital das Clínicas), foi muito além da investigação minuciosa da fisiologia feminina.

Ela se dedica incansavelmente ao atendimento de mulheres sequeladas por conta de preconceito, machismo e violência. A solução para boa parte dessas mazelas estaria na conquista de autonomia para assumir as rédeas do próprio destino. Ocorre que isso não depende apenas delas. “No Brasil, 550 mil adolescentes por ano ficam grávidas, sem a menor perspectiva de acolhimento, de assistência à saúde, à educação, à informação. São, então, 1.100 pessoas no caminho da desigualdade”, diz a ginecologista. “Metade dessas meninas volta a engravidar em dois anos.”

Veja também:

Um relatório divulgado em junho pela Organização Universal de Direitos Humanos da ONU revelou que menos da metade dos hospitais listados no Ministério da Saúde e no CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde) como locais que fazem aborto nos três casos previstos por lei realiza de fato o procedimento. De 176 instituições cadastradas, apenas 76 (43%) confirmam a oferta do serviço quando contatadas pelo telefone.

“A gente vive um momento assustador de retrocesso. Eu me sinto como se estivesse em 1975, quando se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher (8 de março). Era uma época de muita repressão, a gente lutou, levantou bandeiras, deu sangue para desenhar um modelo de saúde que atendesse da mesma maneira brancos, negros, índios, refugiados, pessoas de todas as orientações sexuais. Criamos o SUS a duras penas. Eram os alicerces para a construção de um mundo livre de preconceitos, perseguições, violência. Agora, a gente assiste à ameaça de desconstrução disso tudo“, lastima Albertina.

Com a experiência de quem atende cerca de 300 mulheres por mês, das populações mais carentes às mais abastadas, ela conversou com o blog sobre estupro, gravidez indesejada, infidelidade e relacionamento homoafetivo.

Blog — O Brasil vive um momento nebuloso. O governo mostra-se despreparado para enfrentar desafios, a economia está em depressão  e a crise política agrava a situação. Há 13 milhões de desempregados. Até que ponto o desânimo do povo, ou o desespero, podem levar a comportamentos sexuais destrutivos?

A desesperança nunca é saudável. E não se tratam de 100, 200 pessoas. É um enorme contingente da população desesperançoso. A insatisfação e a sensação de fracasso levam à busca de uma saída. A bebida e a droga aparecem como alternativas acessíveis para “animar”, ou “esquecer”. Com a falta de juízo crítico, seguem-se o descontrole, a impotência, a raiva. Nessas circunstâncias, a sexualidade não é vivida com prazer, mas como válvula de escape. E então, a parte mais fraca se vê sujeita a abusos sexuais, violências domésticas, estupros. Isso é muito mais frequente nas classes mais pobres.

Existe relação entre o ambiente e o evento?

Albertina — Situações sociais trágicas podem levar a comportamentos extremos. Existe uma quantidade enorme de meninas adolescentes que não tem acesso à educação, à saúde, à cultura, que não tem um projeto de futuro. Há um caso que eu não esqueço, de uma menina que engravidou na roda do funk. Ela dizia que não queria ter o filho, foi a mãe que insistiu para ela ter. A mãe é religiosa, contra o aborto, e não admite que foi estupro, sustenta que a filha quis ir ao baile.

Blog — E como essa adolescente falava disso?

Albertina — Quarenta por cento delas acham que tudo bem ter relações no funk. Existem as crecheiras, que cuidam dos filhos dessas adolescentes enquanto elas vão para os bailes. Lá, há uma prática que eles chamam de “táuba”. A adolescente deita em uma superfície lisa, suspensa, e é penetrada por uma fileira de homens. Ou, então, eles deitam lado a lado, e elas fazem cavalinho em um por um. Aí, nascem os filhos da táuba, frutos de um estupro de que ninguém está falando.

Blog – Ao mesmo tempo que elas acham que “tudo bem”, é complicado afirmar que foi consentido.

Albertina — Sim, porque não foi uma decisão, foi uma falta de decisão. Que acolhimento da sociedade tem uma menina que foi estuprada aos 13 anos e engravidou? Ela voltou para a escola? Até os 14 anos, por lei, qualquer relação sexual é considerada estupro presumido. No Brasil, 28 mil garotas por ano engravidam entre 10 e 14 anos; a cada 19 minutos, nasce o produto de um estupro. Então, o estupro coletivo já existe. O estupro social. Resta uma situação de vulnerabilidade.

Blog — Isso inclui o contágio de doenças sexualmente transmissíveis.

Sim, claro. Ainda bem que o abusador em geral é incompetente, não tem prazer na penetração, mas na submissão. Então, a relação se dá muito rapidamente, e não é orgástica.

Blog — Casos de estupro veiculados na mídia são seguidos por relatos em série de violência doméstica. 

Albertina — Notícias de estupro sempre vão despertar indignação nas mulheres. E más lembranças. Eu diria que 20% das que viveram isso não contam, mas não esquecem. E há vários tipos de estupro. Pouco se fala do caso em que a mulher se sente obrigada a consentir a relação sexual com o marido.

Blog — Isso não é conversado? Como resolver?

Albertina — Os espaços reservados a essas conversas são cada vez mais restritos e profissionalizados. Se eu estou com um problema, procuro um psiquiatra, um psicólogo, um astrólogo. Se quero manter a relação, procuro uma terapia de casal. Geralmente, o momento em que se diz “eu não aguento mais te ouvir falando dos meus defeitos” acontece próximo à ruptura, quando o casal está para se separar.

Blog — Muitas  mulheres se queixam de falta de atenção dos homens, de descompromisso deles com o relacionamento, de inabilidade (inclusive na cama). Por outro lado, nota-se que os casais de mulheres ficaram mais “visíveis”. Homens heterossexuais têm se surpreendido de ver tantas mulheres de mãos dadas nas ruas. 

Albertina — As mulheres que antes tinham uma orientação heterossexual e se encontraram em uma relação lésbica afirmam que a companheira dá a elas tudo o que o homem não foi capaz de oferecer. Trata bem, vai buscar no trabalho, se preocupa em saber como ela está.

Blog — A escolha por outra mulher seria, nesse caso, “culpa” do homem?

Albertina — Basicamente, o que a mulher quer é ser desejada. Quando ela sente que a outra pessoa a deseja de um jeito profundo, aí entra a substituição.

Blog — Em caso de existência de um terceiro elemento, quando se fala em “traição”, existe diferença entre a maneira de agir do homem e da mulher?

Albertina — Hoje, eu concordo plenamente com a tese de que o homem trai para ficar no casamento, e a mulher, para sair. Ele busca um aditivo, mas preserva a relação estável que tem com a família. Então, quando ela o confronta com “provas”, diz que o viu com outra, grita, joga na cara, ele nega sempre. Já a mulher que se apaixona por outro logo se pergunta: “Será que eu termino meu casamento?” Algumas me falam: “Eu contei mesmo que o traí. Queria ver a cara dele!” Eu sempre digo para tomar cuidado com o “sincericídio”.

Blog — A Internet mudou a “qualidade” da traição? 

Albertina — No mundo virtual, ela parece mais difusa. Antes, quanto havia uma pessoa física, real, a traída eventualmente ligava para ela e xingava, ameaçava, escandalizava. Com a internet, os códigos, os canais, a imaginação são infinitos. A paciente chega e diz: “Eu descobri com quem ele conversa (nas redes sociais). Mas têm as que eu não descobri!” É como se houvesse uma constelação.

Blog — Qual a principal preocupação de uma mulher traída?

Albertina — Em 42 anos de profissão, eu nunca vi uma paciente interessada em saber se a “outra” é inteligente ou bem sucedida. As perguntas sempre são: “Será que ela é jovem?” “Bonita?” “Boa de cama?”

Blog — E quando o homem fica com outro?

Albertina — Acho que é menos complicado para a mulher. É como se ela não tivesse culpa, o problema é com ele.

Blog — O presidente da República já se revelou homofóbico, fez declarações machistas e misóginas. A comunidade LGBTQI+ e as feministas afirmam que o governo Bolsonaro pode legitimar comportamentos agressivos contra as minorias. Agora, ele pede apoio a parlamentares para a manutenção do decreto que flexibiliza a posse e o o porte de armas. De que maneira isso impacta na segurança das mulheres?

Albertina — Somos hoje o 5º país do mundo em feminicídio. O 1º em assassinatos de transexuais e travestis.  O porte de armas supõe o combate à violência com a violência. Eu, particularmente, sou a favor do caminho da paz. Em relação a homofobia, não acho que caiba a um governo censurar ou julgar comportamentos, mas encontrar maneiras de resolver questões básicas de todas as populações. LGBTQI+, mulheres, brancos, negros, índios, refugiados. Eu sou portuguesa, vim para o Brasil quando tinha 10 anos, com minha família, fugindo do governo do (ditador Antônio de Oliveira) Salazar (1938-1974), que achava que mulheres jamais deveriam ter independência profissional. Eu seria uma camponesa, o que não é indigno, mas foi muito melhor ter a chance de descobrir minha verdadeira vocação. E a chance de descobrir eu tive aqui, no Brasil. Como é que eu vou ser a favor agora de fechar as fronteiras aos imigrantes refugiados?

]]>
0
“Melhor fazer faxina do que estágio”, diz aluna de pedagogia da Unifesp http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/03/melhor-fazer-faxina-do-que-estagio-diz-aluna-de-pedagogia-da-unifesp/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/03/melhor-fazer-faxina-do-que-estagio-diz-aluna-de-pedagogia-da-unifesp/#respond Wed, 03 Jul 2019 07:20:46 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19424  

“Não é só pelo dinheiro, é pelo tempo que me sobra para investir na minha própria formação” (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Foi uma decisão bem racional. Depois de colocar na ponta do lápis a relação entre o tempo que gastaria fazendo um estágio na sua área e o dinheiro que ganharia, a estudante de pedagogia Fernanda de Castro, 23, chegou à conclusão de que valia mais a pena fazer faxina.  “Não é só pelo dinheiro, mas também pelas horas que me sobram para investir na minha própria formação”, diz. Ela cursa o quarto período na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), uma das seis instituições de ensino mantidas pelo governo federal.

Ao contrário do que acontece no ensino fundamental e médio, as universidades públicas no Brasil são mais bem avaliadas que as particulares. Significa que, paradoxalmente, alguém que estudou a vida toda em uma escola municipal ou estadual, como Fernanda, estaria menos preparado para entrar em uma universidade pública. Entrando na privada, precisaria desembolsar um dinheiro que nunca teve para frequentar uma escola paga. “A escola pública abriu mais o acesso, mas a qualidade do ensino caiu. Eu sou idealista, acredito que essa situação pode mudar. É por isso que decidi fazer pedagogia, e não um curso que talvez me desse mais perspectiva financeira, como, por exemplo, marketing”, diz ela.

Veja também:

Em sua experiência no estágio remunerado, quando dava aulas em regime de meio período, trabalhando diariamente, ganhava R$ 900. Com sete dias por mês de faxina, fatura R$ 840. E ainda conta com a possibilidade de complementar o orçamento vendendo café e palha italiana para os colegas da universidade. Fernanda não despreza o estágio, mas diz que, por enquanto, considera importante a convivência no ambiente universitário. “Estou em contato permanente com professores e alunos de todas as faculdades, estudo, pesquiso, faço cursos, participo de congressos acadêmicos.” Ela acredita que esse convívio vai ajudá-la a saber, inclusive, se o que quer é mesmo dar aulas, ou dedicar-se a outra área da pedagogia.

Ilustríssima conversa

Nas duas casas em que faz faxina, Fernanda diz ter uma “relação orgânica” com as patroas: “Elas são professoras, uma delas aposentada, então no café da tarde conversamos sobre a educação que se pratica no Brasil e o futuro dela. Elas se reconhecem nos meus questionamentos, e posso entender o rumo que a carreira delas tomou.” A universitária fica das 7h até às 16h no trabalho, e então sai para a faculdade.  Enquanto varre a casa, lava a louça e arruma as camas, ela ouve podcasts. Entre os seus favoritos estão os de “Ilustríssima Conversa”, produzido por uma equipe de jornalistas do caderno cultural da Folha de S. Paulo: apresenta entrevistas com autores acadêmicos e de não ficção;  e “Filosofia Pop”, com professores e pesquisadores que falam sobre pensadores.

Rápida, focada, amigável, Fernanda explica a importância de ouvir a pesquisadora Sabrina Fernandes falando sobre o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), autor de “O Capital” e “O Manifesto Comunista”, durante a tarefa doméstica. Diz que é uma forma de realizar a própria “práxis”  de que fala Marx em sua obra. “Se você trabalha munido de informação, sabe o valor do que está fazendo. Teoria e prática caminham juntas. Caso contrário, eu seria uma faxineira que apenas faz a faxina”, diz ela. Trata-se da famigerada “transformação das circunstâncias com a atividade humana”.

Aborto masculino

Durante a entrevista, ela toma um cafezinho, mas não aceita nenhum doce porque diz que exagerou no dia de seu aniversário — comemorado no fim de semana. “Comi muito bolo (prestígio)”, conta. Ao posar para a foto, na livraria do shopping, escolhe para acompanhá-la uma obra do educador Paulo Freire. Fernanda é de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, mora na zona leste e foi criada apenas pela mãe. “Houve um aborto masculino”, diz ela, referindo-se ao abandono da família pelo pai. Tem uma irmã dez anos mais velha, filha de sua mãe com o primeiro parceiro.

Apesar de, por ora, privilegiar a faxina, Fernanda diz que pretende cumprir os quatro estágios obrigatórios — “educação infantil”, “ensino fundamental”, “educação de jovens e adultos” e “gestão” — e chegar ao fim do curso. Até lá, ela se ocupa de projetos como o de “remissão prisional via leitura”, em que trabalha com detentos da Penitenciária Parada Neto 1, de Guarulhos; e repensa permanentemente em “um modelo de ensino que faça sentido”. “A gente trata educação com apostila. Isso não pode levar a um conhecimento satisfatório de nada.”

Embora sofra com crises de incerteza relacionadas à educação, ela diz que não houve nada que a decepcionasse a ponto de fazer desistir. “Precisa ser algo forte.  A gente ainda vai patinar muito nesse governo, mas eu sou dura na queda.  Até agora, a terapia tem ajudado a dar conta”, diz.

Terapia paga com a faxina.

 

 

 

 

]]>
0
Ato pró-Moro tem Pai Nosso, Hino Nacional e Regina Duarte falando em amor http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/01/em-trio-pro-moro-regina-duarte-fala-de-amor-e-reporter-e-agredido/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/07/01/em-trio-pro-moro-regina-duarte-fala-de-amor-e-reporter-e-agredido/#respond Mon, 01 Jul 2019 08:13:42 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19322

O Pai Nosso, momentos antes da tentativa de confisco do bloco do repórter (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

O trio do movimento Nas Ruas executou o Hino Nacional, puxou um Pai Nosso e ainda teve uma palavra de Regina Duarte. Emocionada, a atriz pegou o microfone e falou sobre “fé, amor e esperança”: “Eu poderia estar aí, com vocês, gente. Tive uma carreira abençoada, cheia de personagens maravilhosos, que me colocaram no lugar em que eu estou (em cima do trio). Fui criada por um militar e uma religiosa, que me ensinaram a respeitar regras e a vontade de Deus!”

Regina Duarte fala em ato pró-moro

Todos: “Regina! Regina! Regina!” Ela sorri e inclina a cabeça para um lado e para o outro, meio na diagonal, em um movimento de ternura.

Lá embaixo, no asfalto da Avenida Paulista, centro de São Paulo, manifestantes gritam palavras de apoio ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, em um ato que ocorreu ontem, simultaneamente, em ao menos 70 cidades do pais.

Veja também:

Pautas mil

Apesar de os organizadores informarem que a pauta incluía  “reforma da previdência” e “pacote anticrime”, a convocação foi feita principalmente para hipotecar solidariedade a Moro, no caso das revelações feitas pelo site The Intercept Brasil. O site tem divulgado supostas trocas de mensagens entre o então juiz e o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa Lava Jato em Curitiba.

As mensagens, trocadas pelo aplicativo Telegram, exporiam a proximidade entre Sergio Moro e a força-tarefa e colocariam em dúvida a imparcialidade dele na condução dos processos da Lava Jato. A Constituição brasileira proíbe que o Ministério Público e o Poder Judiciário exerçam influência um sobre o outro. O artigo 254 do Código de Processo Penal estabelece que o juiz será considerado suspeito “se tiver aconselhado qualquer das partes”. 

Porém, para o corretor de imóveis Élcio Santos, 50 anos, “isso é a coisa mais normal do mundo (o juiz sugerir ao Ministério Público Federal trocar a ordem de fases da Lava Jato; cobrar a realização de novas operações; dar indicação de testemunha)”. “Eles (Moro e Dallagnol) eram colegas de trabalho, conversavam sobre assuntos profissionais, é natural que eles se falassem.” Santos está com amigos do grupo virtual de relacionamento “Bolsolteiros”, que foi criado em novembro e hoje tem cerca de 6 mil integrantes.

Quem é esse?

A médica cearense Renata Magalhães, 32 anos, afirma que o The Intercept Brasil “é uma piada, uma brincadeira de mau gosto”. Renata ignora informações importantes a respeito do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, fundador do site. Aparentemente, ela ignora com orgulho.

“O cara é um desconhecido! De onde ele surgiu? Ninguém sabe!”, indigna-se a médica, que veste uma camiseta onde se lê “In Moro We Trust”.

Greenwald se tornou mundialmente famoso — menos para Renata — quando revelou, em 2013, com dados fornecidos pelo ex-agente da CIA e da NSA Edward Snowden, o monitoramento indevido de informações privadas, e em massa, pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Pelo conjunto de reportagens, ele recebeu o prêmio Pulitzer em 2014.

Renata volta à carga: “Que prêmio é esse!? Pergunta pra qualquer um aqui (na manifestação), você vai ver que ninguém sabe!”

O Pulitzer é um prêmio norte-americano muito prestigiado entre jornalistas, que se outorga desde 1917 (também) a reportagens de expressão em todo o mundo.

A médica Renata Magalhães (esq.) e a dentista Gabriela Arraes (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Foi o Zé Dirceu!

Um pouco adiante, ao entrevistar o autônomo Alexandre Cupertino, 41 anos, o blog vê uma boa oportunidade de seguir a sugestão de Renata e testar o conhecimento de um manifestante a respeito de Glenn Greenwald e o prêmio Pulitzer. Para Cupertino, o jornalista norte-americano é “um criminoso que a esquerda contratou um para desmoralizar o Moro”. “Provavelmente, foi o Zé Dirceu (que contratou). Eu sou da área de TI, sei como trabalham os hackers”, afirma Cupertino.

Pelo raciocínio dele, a palavra “força”, na expressão força-tarefa, é sinônimo de “união”: “Natural que juiz e procurador se unam em busca da Justiça”.

Em relação ao Pulitzer, Cupertino diz: “Qualquer um pode institucionalizar um prêmio. O Lula não ganhou um na ONU? O problema é a credibilidade.”

Nordestino homofóbico

Enrolado em uma bandeira com as cores do arco-íris, que representa o movimento LGBTQI+, Cupertino pretendeu mostrar que “tem gays que aprovam Bolsonaro”. Sobre a homofobia declarada do presidente, o autônomo diz que seu pai também era preconceituoso: “Ele era nordestino, do tipo que não admitia. Eu mesmo lavava a boca com sabão depois de beijar um homem.”

Cupertino está com a secretária Andréa Pezzin, 46, vizinha dele no Tucuruvi (zona norte de SP). Em sua primeira vez em uma manifestação, Andréa considerou a experiência bem tranquila. “Não vi briga, achei bem passiva.

O autônomo Alexandre Cupertino e a secretária Andréa Pezzin. Em sua primeira vez, ela diz que “a manifestação estava muito passiva” (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Momento de tensão

O trio do movimento Nas Ruas havia acabado de rezar o Pai Nosso, quando tentaram confiscar à força o caderno de anotações do repórter. O motivo da violenta abordagem foi uma pergunta inconveniente a respeito do ministro Moro.

Foi feita ao empresário Tomé Abduch, 44 anos, que manda no trio. Abduch havia dito que o Intercept tem um direcionamento de esquerda — manifestantes mais sagazes observaram inclusive que o nome do site termina com as letras PT — e que estava “causando instabilidade em um momento muito importante para o Brasil”.

Abduch assegurou que “o próprio Moro disse que pediria para sair (do ministério), caso ficasse provado que ele havia cometido qualquer ato ilícito”. Nesse ponto, o blog se viu na responsabilidade de fazer uma pergunta de ordem fática, aparentemente fácil de responder: “Será mesmo?” 

Pra quê.

Puxa-e-empurra

Fora de si, o empresário passou a gritar que o repórter tinha de publicar exatamente o que ele disse. “É óbvio”, disse o repórter. Não adiantou. Enquanto Abduch o empurrava com a mão e informava que o expulsaria do carro, vociferou em tom de xingamento: “Imprensa de esquerda!”. Em uma tentativa de se defender (fisicamente), o repórter sentiu um novo puxão no bloquinho, desta vez efetuado pelo capanga de Abduch.

A deputada Carla Zambelli, que tinha acabado de cantar o hino, rezar, falar para a multidão e postar tudo nas redes sociais, intercedeu em favor do repórter — que a essa altura buscava, com a fotógrafa, uma saída de “emergência”.

Haja fé, Regina Duarte.

]]>
0
Por que homens gays lotam festas de sexo? Só em SP, foram 7 em uma semana http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/30/por-que-os-homens-gays-lotam-festas-de-sexo-nas-ultimas-semanas-foram-8/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/30/por-que-os-homens-gays-lotam-festas-de-sexo-nas-ultimas-semanas-foram-8/#respond Sun, 30 Jun 2019 07:00:18 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19199

Vestindo uma luminosa hot pant, meia arrastão, cinta-liga e bota com spikes, um frequentador da festa Kevin é arrastado por uma corrente (Foto: Arquivo Pessoal)

Os encarregados da produção de uma “festa de sexo” costumam reservar um espaço relativamente grande para a chapelaria. Alguns frequentadores livram-se das roupas logo de saída. Outros, aos poucos. Um terceiro grupo troca as que está usando quando chega, por outras que trouxe de casa. Pega na mochila, digamos, uma bota de cowboy e uma calcinha fio dental. Ou uma máscara de cachorro — que no universo sadomasoquista indica submissão e obediência —  e um  “bondage harness”, espécie de top composto por cintos de couro interligados por argolas de metal. Ou ainda uma sandália pata de vaca com salto de 20 cm e um macacão preto de borracha.

A fantasia sexual que envolve o ato de se despir ou se vestir não fica, nesse caso, apenas no exercício lúdico. Em poucas horas, no salão mal iluminado, imperscrutável, onde as caixas de som emitem sucessos de Anitta, Beyoncé ou house music, o visitante tromba com gente se masturbando, fazendo sexo oral, anal, de quatro, acocorada, ou levando o cachorrinho para passear. O “darkroom” é ocupado pelos mais reservados. Eles fazem a mesma coisa, só que no escuro.

“50% das pessoas estão ali pela música, 50% pela putaria”, calcula Thiago Roberto de Souza, 28 anos, um dos criadores da festa “Dando”, de público majoritariamente masculino. “Você coloca dois homens sem roupa, um em frente ao outro, em uma festa, é natural que haja sexo. É da cultura gay.”

Marcelo D’Ávila e Thiago Roberto de Souza, criadores da festa Dando (Foto: Ariel Martini)

Muito prestígio

Cerca de mil pessoas prestigiaram a edição mais recente da Dando, na quinta 22 de junho, durante a semana do Orgulho LGBTQI+.  Na mesma ocasião, outras seis festas de sexo realizadas em São Paulo atraíram multidões. A Brutus recebeu 600 homens; a Kevin, a Z(o)NA, a After Kevin e a F4F, outros 2.500; as duas edições da CaBBaré dos Leiteiros, especialmente dedicada aos entusiastas do sexo sem camisinha, por volta de 400. O blog esteve em quatro das sete festas.

Quase 100% dos frequentadores delas são HSH (homens que fazem sexo com homens). A expressão diz respeito não só a homossexuais, mas também a bissexuais que não se consideram “gays” — é usada por epidemiologistas envolvidos em estudos sobre o vírus HIV, que causa a Aids, e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Mas afinal, por que os HSH lotam festas de sexo? (Não existe notícia de nada com essas dimensões para héteros ou lésbicas).

Veja também:

Antes da resposta, um didatismo:

a) os criadores da “Dando” afirmam que batizaram a festa com o gerúndio do verbo “dar” para reverenciar à “filosofia franciscana”: “É dando que se recebe”, cita Thiago Roberto de Souza;

b) já o nome Brutus remete à masculinidade, virilidade, macheza, palavras que soam afrodisíacas para uma parcela significativa de HSH;

Na Brutus, dupla exibe o peitoral adornado pelo “bondage harness” (Foto: Divulgação)

c) “Kevin” foi tirado das tirinhas “Kevin & Friends”, que retratam “as aventuras do menino inconvenientemente feliz”;  

d) a letra “o”, entre parêntesis, no meio da palavra Z(o)NA, é uma alusão ao ânus;

e) After Kevin é uma espécie de “kevinha”, realizada no dia seguinte ao da outra;

f) F4F é o braço paulistano de uma festa promovida em Berlim por um brasileiro.  O primeiro “F” é de “ficken”, que em alemão significa foder; “4F” é a versão numérico-representativa da expressão em inglês “for fun”;

g) os dois “b” maiúsculos de CaBBaret dos Leiteiros são uma referência à expressão “bareback”, que em inglês significa montar cavalo sem sela, ou, na gíria dos iniciados, transar sem camisinha.

Tédio sexual

Conversando com especialistas — médicos, produtores das festas e frequentadores — chega-se basicamente a três explicações sobre o sucesso desses eventos entre HSH. Eles falam do impacto que a Internet promoveu no comportamento sexual dos usuários; mencionam o “simples prazer” de transar (e também de correr riscos); e se referem ao corpo como um “aliado na luta política”.

De acordo com o psiquiatra Aderbal Vieira Jr, responsável pelo ambulatório de tratamento de dependências comportamentais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a facilidade de acesso a conteúdos pornográficos na Internet ocasionou uma expressiva mudança no comportamento sexual dos usuários. “A superexposição de imagens e vídeos eróticos em sites, aplicativos e nas redes sociais levou a uma espécie de tédio em relação ao que antes despertava desejo. Isso faz com que se busquem vivências cada vez mais diversificadas — inclusive na vida real.”

Em seus estudos no ambulatório, Aderbal observou que os HSH são os maiores consumidores de conteúdo pornográfico na rede: 50% , ante 10% de heterossexuais. O médico diz que, assim como acontece com as substâncias químicas, o sistema neurológico cria tolerância em relação a “doses” de prazer sexual que não sejam iguais ou superiores ao que já foi vivido intensamente: “Com o tempo, uma imagem de nudez ou um vídeo erótico já não são mais tão atraentes”, diz.

A máscara antigás no universo sadomasoquismo indica que o usuário é adepto do “toy hard” (brincado pesado) (Foto: Arquivo Pessoal)

Atração pelo risco

Abordado pelo blog na Dando, um ator de 30 anos afirma que já foi mais fácil alcançar a satisfação sexual. “Quando eu tinha 20 anos, a imagem de um homem pelado me dava muito tesão. Hoje, eu preciso ser subjugado, dominado, penetrado com força.” Ali perto, um publicitário de 33 anos explica que descobriu um prazer inaudito no exibicionismo: “Gosto de ser observado enquanto trepo. Tenho a sensação de que sou desejado por mais gente, além da pessoa com quem estou.”

Na Kevin, um gerente de vendas de 28 anos diz que a sensação de “perigo” o atrai: “De repente, eu me vejo abaixado no meio de cinco homens, fazendo sexo oral em todos. Não posso negar que o frisson do risco faz parte do prazer.”

O “frisson” tende a ser maior na Cabbaré do Leiteiro, que é dedicada aos adeptos do sexo sem preservativo. “O fetiche do risco seduz as pessoas”, acredita Leo Dutra, 42 anos, criador da festa. Ali, não há pista de dança, os ambientes são escuros,  equipados com camas grandes ou individuais, e possuem acessórios como o sling (espécie de balanço de couro côncavo suspenso por correntes, para facilitar a penetração de quem está deitado com as pernas para o alto, na posição ‘frango assado’). Pede-se para ir sem roupa, ou, no máximo, de sunga. “Ninguém vai discriminar o cara que usa camisinha, mas eu já aviso que ele está em ambiente errado”, explica Dutra. Entre os outros motivos que atraem o frequentador da festa, segundo ele, estão “estilo de vida” e “maior sensibilidade na penetração (sem camisinha)”.

Sexo e prevenção

De acordo com uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Ministério da Saúde, um entre quatro homens que fazem sexo com homens em São Paulo tem o vírus HIV. A pesquisa foi feita em 12 cidades brasileiras e, no grupo entrevistado, 83,1% se declaram gays, 12,9% heterossexuais ou bissexuais e 4% outros. Do total, 75% faziam sexo apenas com homens. 

Todas as festas citadas nesta reportagem são visitadas por voluntários que explicam métodos de prevenção contra o HIV e as doenças sexualmente transmissíveis. Na Dando, há um espaço batizado de “bibal” (reunião de “bibas”), localizado ao lado da chapelaria, onde uma pessoa com um microfone dá informações sobre a PrEP (profilaxia pré-exposição ao vírus da Aids) e a PEP (profilaxia pós exposição, também conhecida como ‘pílula do dia seguinte do HIV’). Explica, inclusive, que ambos só tem eficácia contra o HIV — não contra a sífilis, a gonorréia e o HPV.

Vista panorâmica da Kevin (Foto: Arquivo Pessoal)

Ativista anti-HIV

A única festa que não distribui camisinhas é a Cabbaré do Leiteiro. Mas Dutra, que é soropositivo, tornou-se um ativista no combate ao vírus HIV. Ele participa de um grupo montado pelo Centro de Referência e Treinamento em Doenças Sexualmente Transmissíveis (CRT-Aids), da secretaria da Saúde de São Paulo, para tornar a prevenção mais próxima do indivíduo que está na ponta do comportamento de risco. “Sou um anfitrião muito atencioso, explico as formas de prevenção, dou dicas de saúde e faço aconselhamento”, diz.

Além de produtores de festas, o grupo reúne ONGs envolvidas na prevenção contra o HIV; coletivos LGBTI; donos de estabelecimentos frequentados pela população vulnerável — saunas e cruising bars — e administradores de aplicativos de relacionamento. “Percebemos com a experiência que chegar próximo a essa população é o grande pulo do gato”, diz a diretora de prevenção do CRT, Ivone de Paula.

Como representante desse segmento, Leo Dutra esteve no começo do mês em dois congressos promovidos pelo HPTN (The HIV Prevention Trials Network), em Washington, nos Estados Unidos, nos quais se divulgaram pesquisas sobre novos tratamentos e métodos de prevenção. “Falaram também em um medicamento que estão desenvolvendo para a cura da doença”, conta ele.

Sem patrulha

As festas são periódicas, a maioria mensal. Pelo menos duas se revelaram tão atrativas que se reproduziram — como era de se esperar em eventos dedicados ao sexo. A Dando é uma espécie de subproduto eletrônico da Pop Porn, realizada desde 2010 em um “cinemão” do centro de São Paulo. A Kevin, por sua vez, deu cria: nasceu a Z(o)NA, cujo dress code libertário é mais rigoroso. “A hostess cuida na porta para que ninguém entre vestido. No máximo de cueca ou, claro, ‘montado'”, diz o jornalista Rafa Maia, 32, criador das duas festas.

Segundo ele, o objetivo principal de ambas é ajudar as pessoas a se despir de preconceitos. Eventualmente, o processo só se dá com o auxílio de aditivos. Mas Rafa diz que o álcool e as substâncias químicas são apenas o “pano de fundo” de uma celebração muito maior — a da liberdade em relação ao próprio corpo.  “Em um ambiente assim,  uma pessoa que sofreu bullying por ser gordo, baixo, feio, ou afeminado não vai se sentir julgada”, acredita.

Rafa, o próprio, revela que foram necessárias muitas edições da Kevin até que ele sentisse à vontade para ficar nu. Hoje, diz, precisa se lembrar de colocar a roupa quando vai embora.

Dançando o textão

Alexandre Bispo, da Brutus, é da mesma filosofia. Sua ideia é promover um evento democrático. “Nosso mote é a diversidade. Queremos que qualquer pessoa, com o corpo que tem, se sinta bem na festa.

Por sua vez, Thiago Roberto, da Dando, fala da nudez “enquanto atitude política”. Declarando-se “radicalmente de esquerda”, ele acredita que “o corpo é um aliado na nossa luta”. TR diz que não pode afirmar que os mil frequentadores da festa façam tal elaboração antes de tirarem a roupa e se entregarem ao sexo livre. Mas garante que todos ali estão fazendo política, ainda que sem saber. “Se não quer ouvir o textão, vai dançar o textão.”

Atualizando: foram oito festas. Na sexta, 28, teve Z(o)NA.

Na sexta que vem, 5 de julho, a Dando promove uma edição um pouco menor, casada com um desfile da 45a. edição da Casa de Criadores — evento que há 20 anos lança ou projeta nomes da moda. Entre outros, Mário Queiroz, André Lima, Rita Wainer, Walério Araújo e João Pimenta.

 

 

 

 

]]>
0
As ‘sapas’ são muito chatas, diz lésbica criadora de festa para mulheres http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/23/as-sapas-sao-muito-chatas-diz-lesbica-criadora-de-festa-para-mulheres/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/23/as-sapas-sao-muito-chatas-diz-lesbica-criadora-de-festa-para-mulheres/#respond Sun, 23 Jun 2019 07:00:34 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19071

Festa de Glaucia ++ completa 22 anos em agosto: “Sempre preferi as bi, elas são muito mais divertidas que as lésbicas” (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Há 22 anos, a produtora lésbica Glaúcia Nascimento, 45 anos, mais conhecida como Gláucia ++, criava uma festa especialmente dedicada ao público feminino, na qual só mulheres trabalhavam. Batizou-a de Cio. “Se um homem quisesse tocar, teria de se vestir de mulher”, conta Gláucia. Em mais de duas décadas, a festa passou por quatro clubes: The Cube; Torre do Dr. Zero; Stereo e Ultralounge. Atualmente, acontece sempre às quintas-feiras, no clube Jerome, em Higienópolis, zona central de São Paulo.

O tempo passou, e, na edição da semana passada, 90% dos frequentadores eram gays cis (identificados com o gênero designado no nascimento). Uma das DJs era a mulher trans Valentina.

Gláucia tem duas explicações para o fenômeno. Primeiro, ela mesma diz que sempre gostou mais da companhia das “bi” (forma reduzida da expressão “bicha”, ou “biba”, utilizada na própria comunidade LGBTQI+). “As ‘sapa’ são muito chatas, sérias. Não frequento lugar de lésbica, não dá certo. As bi são bem mais divertidas”, diz ela, que sempre preferiu namorar garotas não iniciadas no sexo lésbico.  ‘Sapa’ é a forma reduzida da palavra “sapatão”.

Veja também:

Boteco e cerveja

O segundo motivo, diz ela, é que as lésbicas não gostam de dançar música eletrônica. “Elas reclamam de ambiente escuro e do som. Preferem se sentar em um bar, ou boteco, conversar e tomar uma cerveja.” Gláucia explica que, tradicionalmente, os bares para lésbicas ofereciam música ao vivo, em geral pop ou MPB. No auge da noite, as cantoras mandavam sucessos lésbicos como “Barbara”, de Chico Buarque, “Tola foi Você”, de Angela Rorô, e “Eu gosto é de mulher”, de Ana Carolina. Muitos desses estabelecimentos, como o Café Vermont do Itaim Bibi, o Farol Vila Madalena e o (bem mais antigo e lendário) Ferros Bar, fecharam suas portas.

Muito divertida, Gláucia usa o linguajar das “bi” em seus relatos e, embora reconheça que já traiu e foi traída, é muito leve ao contar as histórias. “Nunca fui uma sapa-sapa. Minhas amigas ‘bi’ diziam que eu nasci drag e não sabia.” Na entrevista abaixo, ela fala da transformação no comportamento das mulheres que curtem mulheres e das que passaram a curtir.

 

 

Universa: Em 22 anos, muita coisa parece ter mudado para as mulheres lésbicas

Gláucia: O sexo entre as mulheres, especialmente as que têm até 30 anos, se tornou fluido. O fato de uma menina namorar outra não significa necessariamente que ela vai ser lésbica para o resto da vida. Isso tem um lado bom, de liberdade. Quando eu tinha 18 anos, muita gente quando se assumia, e saía de casa, estava “condenada”. Tipo não podia voltar atrás.

Você pensou em “voltar atrás”? 

Não! Já fiquei com homens, mas não dá para namorar. Gosto de mulher mesmo.

 Essa maior liberdade que as pessoas têm hoje de expressar sua orientação sexual talvez explique o fato de os casais de mulheres terem ficado mais “visíveis”. Amigos héteros comentam que nunca viram tantas meninas de mãos dadas nas ruas.

Sim, a liberdade de escolha tirou muita gente do armário. Ao mesmo tempo,  hoje se vive o “amor líquido”. As pessoas são livres, mas as relações são mais frágeis e imprevisíveis. Ninguém tem garantia de nada. Bom, nunca teve mesmo, rs.

 Para alguém que não curte guetos, como você, essa geração que não tem os “vícios”  adquiridos no convívio com grupos fechados de “sapas” deve se mostrar mais atrativa.

Eu já tentei ficar com novinhas, mas não dá muito certo. Elas são muito animadas, gostam de sair e já querem casar. Eu tô sossegada.

Ao que parece, nem só as mais novas estão experimentando. Observa-se hoje que muitas mulheres heterossexuais mais velhas, recém-saídas de casamentos de 20, 30 anos com homens, iniciam relacionamento com amigas lésbicas

E nunca mais querem outra coisa, rs. Porque mulher conhece mulher sexualmente, tem um ritmo parecido. A possibilidade de relaxar e aproveitar é maior.

Você inventou o termo “bolacha”, um eufemismo para “sapatão”.

Começou como uma brincadeira, “bater uma bolacha”, significava ficar com alguém. Aí, pegou. Durante muito tempo, em São Paulo, as pessoas usaram bolacha para se referir às lésbicas.

Atualmente, as próprias lésbicas, que antes consideravam ofensivo serem chamadas de “sapatão”, estão usando o termo.

É uma maneira politizada de encarar o preconceito, uma forma de desarmar o próprio agressor e assumir a orientação sexual em todos os seus aspectos. Eu continuo achando ofensivo. Mas como eu sei o que eu sou, não me importo.

Existem muitos nomes para designar os diferentes gêneros. Em Nova York, a Comissão dos Direitos Humanos oficializou 31; no Brasil, fala-se em 17; e na Alemanha, mais de 70. 

O babado hoje é essa nomenclatura. Todo mundo quer pertencer a um grupo. São nomes pelos quais a pessoa quer ser reconhecida e chamada. Então, vão surgindo termos para designar cada vez mais grupos.

Em suas abordagens, você usa muito o linguajar dos gays. Acha que é a convivência?

Sim, eu sempre me montei com as “bi”. Elas diziam que eu era uma drag e não sabia. Nunca fui uma sapa-sapa. Todo mundo sempre questionou isso.

Acha que as “bi” são menos complicadas que as “sapas” para namorar?

Sem dúvida. Um dia, minha irmã me perguntou como é namorar outra mulher. Para ela entender, eu tentei fazer uma analogia: “Imagina você namorando você mesma.”  Ela disse: “Eca!”

Os gays dispõem de uma série de possibilidades para busca de sexo casual: aplicativos, festas, saunas, darkrooms, cruising bars. Esse apelo não funciona com as lésbicas. Acha que isso as torna mais fiéis que os homens? 

Elas também traem, mas não abertamente. Nunca confiei em mulher lésbica. A namorada de uma fica com a de outra, que, por sua vez, está saindo com a da primeira. É o chamado rebuceteio. Se a gente pergunta se tá rolando traição, o texto é sempre o mesmo: ‘Você tá louca??’ Depois, vem a confissão, em prantos.”

Ao evitar o grupo das “sapas”, você foi menos traída?

De jeito nenhum! Fui traída muitas vezes. Recentemente, inclusive, por uma mulher que nunca tinha tido relacionamento com outra. Mas também já traí muito. Aos 28 anos, não me pergunte porquê, decidi que não trairia mais. E desde que assumi esse compromisso, me sinto muito pior quando sou traída.

Ultimamente, pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais têm assumido fetiches.

Eu adoro salto, tapa na bunda e na cara.

Você tem um tipo de mulher?

Gosto muito de sexo, a ponto de as namoradas reclamarem, mas não curto popozuda. Tipo mulher da Thammy. Sou mais uma Fernanda Lima (muitos risos). Bobinha, né?

Uma das maiores fantasias dos homens heterossexuais é transar com duas mulheres. 

Sim, o hétero viril. O que ele não sabe é que, com as lésbicas, vai acabar chupando o dedo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

]]>
0
Brutus: “festa de sexo” reúne 600 homens no centro de São Paulo http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/22/brutus-festa-de-sexo-reune-600-homens-no-centro-de-sao-paulo/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/22/brutus-festa-de-sexo-reune-600-homens-no-centro-de-sao-paulo/#respond Sat, 22 Jun 2019 07:00:11 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=19053

A festa é frequentada também por homens autodefinidos como “exibicionistas” e “voyeurs”: os que vão para ser olhados, e os que estão ali para assistir (Foto: Brutus/Arquivo Pessoal)

Definida pelos organizadores como “festa de sexo para público masculino”,  o projeto Brutus registrou na quarta-feira, no espaço cultural Casa da Luz, em São Paulo, a presença de 600 homens (e três mulheres: a bilheteira, a caixa do bar e a funcionária que tomava conta do banheiro).

Na festa, os homens estão liberados para circular com pouca roupa, ou mesmo sem nada, e o sexo é permitido em todos os nove ambientes, incluindo a pista. O espaço mais procurado é uma sala mal iluminada, que, supostamente, abriga outra pista. Um DJ toca música techno.

Veja também

Gosto para tudo

A Brutus tem um ano de existência e, de acordo com um de seus criadores, o DJ Alexandre Bispo, 45, a ideia é promover um evento democrático: “Nosso mote é a diversidade. Não dá para dizer que a festa é frequentada apenas por musculosos, ou gordos, jovens, ou velhos. Há homens para todos os gostos.”

Mais ou menos. Contam-se nos dedos os jovens entre 20 e 30 anos. Segundo o próprio Bispo, a maior parte dos frequentadores tem entre 35 e 55 anos. Uma significativa parcela deles é entusiasta da “cultura leather”, cujos integrantes se sentem particularmente atraídos por roupas de couro — que estão associadas ao sexo sadomasoquista.

Nesse caso, eles costumam cobrir o tórax apenas com o harness (espécie de top composto por cintos de couro interligados por argolas de metal); usam calças, jaquetas e quepes do mesmo material (iguais aos usados por nazistas na 2a. Guerra Mundial e, mais tarde, por motociclistas norte-americanos — vide filme “O Selvagem”, com Marlon Brando) e jockstraps (tipo de cueca que cobre apenas a genitália, deixando a retaguarda ao léu, presa apenas por elásticos).

Trenzinho reúne cinco homens na sala que abriga um dos bares da festa (Foto: Brutus/Arquivo Pessoal)

Paredes descascadas

O espaço fica em um casarão do século XVII, na região central de São Paulo, perto da Cracolândia. Ao que parece, o aspecto detonado do lugar, que tem a tinta das paredes descascadas e as vigas de madeira do teto remendadas, faz parte da proposta. “A tosqueira mexe com a libido dos brutus”, diz o empresário Anderson Gonçalves, 32, rindo. Ele tem 1,87m, 130kg e é dono de uma “academia de bairro” na zona norte. Veste harness e jockstrap. Diz que curte “tapas na bunda”.

Nos dias de semana, o casarão funciona como um centro cultural e dispõe de salas para ensaios de teatro, cinema, ateliês de arte, galeria, coworking, yoga, bar, cafeteria e residência para artistas. Para a festa, as quatro salas do térreo abrigam as pistas de dança, dois bares e o darkroom (espaço escuro disponível para uma espécie de ‘cabra cega’ sexual, onde todos se tocam e, quase sempre, vão além disso). 

Jockstrap arriada

Na quarta-feira passada, a pista contígua à principal, iluminada apenas com uma luz arroxeada, agregava um bololô de homens entregues ao sexo aleatório. Alguns, com as josckstraps arriadas, deixavam-se penetrar no ponto menos escuro da sala, aparentemente excitados com a exposição. Outros os olhavam com a expressão curiosa de quem assiste a um episódio de Animal Planet.

A dada altura, um dos espectadores se abaixou à frente do que estava sendo penetrado e fez sexo oral nele. A cerca de quatro passos dali, um homem muito alto se ocupava de um bem mais baixo, que estava virado de costas, com os braços levantados e as mãos apoiadas na parede. Aqui e ali, parceiros se equilibravam em eventos furtivos de masturbação mútua. Um trio de GG — como são chamados os grandes e gordos — se abraçavam pela frente e por trás. Dois peludos (“ursos”) se juntaram a eles.

Vendem-se harnesses

No segundo andar estão quatro salas grandes, mais claras. Numa delas, havia uma instalação composta por galhos, folhas secas e pingentes de capim; na outra, que faz as vezes de galeria, expõem-se algumas pinturas a óleo; na terceira, a produção exibiu em um telão vídeos de sexo explícito, em geral com personagens fortes, ou gordos, vestindo couro. Assistindo aos vídeos, refestelados em três jogos de sofás confortáveis, os brutus também amavam. Na sala central, vendiam-se harnesses de diferentes cores. Cada cor, explicava o encarregado da venda, representa uma preferência sexual:

Preto: fetiche

Vermelho: fisting (introdução da mão, até o pulso, no ânus do parceiro)

Azul escuro: sexo anal

Claro: oral

Amarelo: golden shower (‘chuva dourada’: de urina)

Marrom: prática escatológica (fezes)

A focinheira de couro é indicada para quem é submisso e “obedece como um cachorrinho”

Na cultura leather, a máscara de cachorro, com coleira, indica personagem submisso (Foto: Festa Brutus/Arquivo pessoal)

Bacia das camisinhas

Pela movimentação intensa, a dificuldade para enxergar com nitidez quem está na principal sala de sexo, e a própria urgência do ato, ninguém parecia estar a procura de um adônis. Aparentemente, praticava-se um sexo despreocupado, até porque na escuridão ninguém cobra lealdade do(s) parceiro(s). À entrada da festa, havia uma bacia com preservativos disponibilizados gratuitamente. Bispo assegura que a oferta não é ignorada: “Ao fim da noite, o volume de camisinhas diminui quase que pela metade. Não posso garantir que usem, mas levam.”

Pode ser uma boa notícia. De acordo com uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Ministério da Saúde, um entre quatro homens que fazem sexo com homens em São Paulo tem o vírus HIV. A pesquisa foi feita em 12 cidades brasileiras e, no grupo entrevistado, 83,1% se declaram gays, 12,9% heterossexuais ou bissexuais e 4% outros. Do total, 75% transavam só com homens. 

No segundo andar, refestelados em sofás, os brutus também amam (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Ação extramuros

Bispo conta que, em determinado momento da noite, havia lá um voluntário dando informações aos frequentadores da festa sobre doenças sexualmente transmissíveis. Ivone de Paula,  diretora de prevenção do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, da Secretaria Estadual de Saúde, afirma que as chamadas ações extramuros — que saem do CRT e vão aos lugares frequentados pela população mais vulnerável, especialmente homossexuais jovens e pessoas trans — têm-se revelado a estratégia mais eficaz .

“Parece simples, mas descobrimos recentemente, com a experiência, que chegar próximo a essa população é o grande pulo do gato. Na quinta-feira, nós estivemos na feirinha da diversidade (19a. Feira Cultural LGBT de São Paulo) e distribuímos 1 mil autotestes rápidos de HIV. Muitos levavam sem dar muita importância, mas uma porção voltou para dizer que tinha feito”, conta.

Engarrafamentos de adeptos ao harness (Foto: Arquivo Pessoal)

Mais sex parties

Ivone diz que o CRT também visita os lugares para dar informação sobre a PrEP (Profilaxia pré-exposição ao vírus da Aids) e a PEP (Profilaxia pós-exposição, também conhecida como “pílula do dia seguinte da Aids”). Ela esclarece que ambas são eficazes em relação ao HIV, mas não a outras doenças sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorréia e HPV (cuja incidência atingiu números alarmantes).

A Brutus não é a única sex party do calendário da semana que antecede a parada do Orgulho LGBTQI+.  Além da “Dando”, de público mais jovem, marcada para a hoje à noite, há pelo menos outras quatro, autodefinidas apenas como “festas dos pelados” , mas com a mesma característica libertária. Ocorrem desde a quinta-feira — F4F; Z(o)na; Kevin (hoje) e After Kevin amanhã cedo.

Enquanto isso, a um canto do segundo andar, uma instalação reúne galhos, folhas e pingentes de feno (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Aos animados, hoje (22) e amanhã tem mais.

 

 

 

]]>
0
“Sem agenda”, Damares falta a evento de seu Ministério sobre pessoas trans http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/19/damares-nao-vai-a-seminario-promovido-pelo-ministerio-sobre-populacao-trans/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/19/damares-nao-vai-a-seminario-promovido-pelo-ministerio-sobre-populacao-trans/#respond Wed, 19 Jun 2019 08:00:35 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=18993

Damares Alves, ausência sentida em seminário sobre políticas públicas para população trans no Brasil e União Europeia

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, não participou ontem (18) da abertura do seminário “Diálogos Setoriais: Políticas Públicas para População Trans no Brasil e União Europeia”, promovido pela pasta em São Paulo. A informação é a de que ela não comparecerá ao evento, que termina hoje.

Seria uma ótima oportunidade de a ministra mostrar o quão próxima ela está da população trans, representada ali por ativistas de diversas áreas. Em junho, se comemora o Mês do Orgulho LGBTQI+, quando São Paulo acolhe a maior parada do país, alegadamente a maior do mundo. “Ela estava sem agenda”, justificou o secretário adjunto da secretaria nacional de Proteção Global, Alexandre Magno, que a representou. “O tanto que essa mulher trabalha, você não imagina.”

Damares tem dito que está comprometida com os tópicos abordados no evento — empregabilidade, saúde, educação, sistema prisional e leis de identidade de gênero. Por outro lado, o tema do seminário parece divergir da ideologia do presidente Jair Bolsonaro, que já se mostrou francamente homofóbico.

 Veja também:

Sem comentários

Magno explica que é procurador do Banco do Central e foi requisitado para ser secretário no ministério. Como tal, ele se abstém de comentar as declarações polêmicas de Damares — cujos críticos acusam de sustentar posicionamentos retrógrados. Logo que assumiu, ela apareceu em um vídeo afirmando que o Brasil estava em uma “nova era”, em que “menino veste azul, menina veste rosa” — o que foi considerado pelos militantes da ideologia de gênero uma afronta.

Advogada, educadora e pastora da Igreja do Evangélio Quadrangular, Damares está também em outra imagem, recuperada do passado, em que afirma que o relacionamento entre duas mulheres é uma “aberração”. Mais recentemente, teria interpretado o fim solitário da personagem Elsa, do filme Frozen, da Disney, como decorrência do fato de ela ser lésbica.”

Damares diz que a declaração foi tirada de contexto.

Concordância x Tolerância

“Não posso comentar as declarações da minha ministra”, diz Magno. “A gente precisa fazer uma distinção entre concordância e tolerância. Não se pode exigir do governo que concorde com todas as posições. Como regra geral, pode se exigir o respeito. Para o ministério, e portanto para o governo Bolsonaro, a população LGBT tem os mesmos direitos de quaisquer outras parcelas da população brasileira. Direitos humanos são universais”, garante.

Soa incoerente, já que o presidente chegou a fazer declarações como:

“Não vou combater, nem discriminar, mas se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.”

“Sou preconceituoso, com muito orgulho.”

“90% dos filhos adotados (de homossexuais) serão homossexuais ou garotos de programa.”

“Só porque uma pessoa faz sexo com o órgão excretor, ela não merece lei de proteção (contra ações homofóbicas).”

“Seria incapaz de amar um filho homossexual; não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que meu filho morra em um acidente de automóvel do que apareça com um bigodudo por aí. Pra mim, ele vai ter morrido mesmo.”

“De novo”, repete Magno, “não posso comentar as declarações do presidente. Eu tô falando da prática que a gente tem. Do nível onde as coisas acontecem. Nós desenvolvemos políticas para as mais diversas parcelas da população, uma delas a LGBT.”

Os mesmos de antes

Infere-se que as ideias do presidente não se verificam na “prática” do ministério. “Não é minha função aqui me manifestar.”

Ironicamente, um dos pontos que Magno destaca como positivos no ministério é que o governo manteve a mesma estrutura com relação à política LGBTQI+. “A diretora da secretaria é a Marina, que é transgênero: um ponto relevante. Inclusive, não é a única lá dentro.”

Papel de gestor

A professora Marina Reidel, 48, diretora de Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais da secretaria de Proteção Global, tem mais ou menos o mesmo discurso de Magno. “Para além do presidente ou da ministra, a gente cumpre o nosso papel de gestor. A gente está trabalhando, a gente tem as pautas, a gente as desenvolve”, diz.

Em relação ao material do “Escola sem Homofobia”, chamada por correligionários de Bolsonaro de “kit gay” e criticado pelo presidente por, segundo ele, dar lições de sexo a crianças e estimular a pedofilia, Marina diz  vagamente que há “muitos atravessamentos” na interpretação da cartilha. “As pessoas não dialogam, vão no senso comum. Então, mesmo sem saber do que se trata, repetem o que muita gente diz sem conhecimento de causa.” Uma referência às fake news.

Composto por um caderno e peças impressas audiovisuais, a cartilha tinha como principal objetivo promover “valores de respeito à paz e à não-discriminação por orientação sexual”.

Processo pedagógico

Marina garante que Damares não impõe qualquer obstáculo aos projetos da diretoria, inclusive aos que vinham sendo desenvolvidos em gestões passadas. Até apoia. “A gente tem um diálogo tranquilíssimo. Na diretoria, eu às vezes me sento com pessoas que não têm nada a ver umas com outras, e discuto os assuntos na maior civilidade. Foi assim que a gente viu que o maior problema hoje, na população trans, é empregabilidade e violência.”

A principal questão com Damares, ela explica, “são os equívocos” de interpretação (das declarações da ministra). “Mas aí é um processo pedagógico. Tem muita coisa do tempo dela como pastora que está reverberando agora.”

Marina conta que o seminário estava previsto para ocorrer em janeiro, mas, com a mudança de governo, foi adiado por quase seis meses. Mesmo assim, a ministra não teve agenda.

A diretora trans não revela se é um dos controversos integrantes da comunidade LGBTQI+ que deram seu voto a Bolsonaro. “Ah, isso eu não digo.”

Sem retrocesso

Ela sugere que o blog converse com Noellia Barriuso, representante da União Europeia no seminário. Noelia não quer falar. Aponta para Mar Cabrollé, presidente da maior plataforma trans da Espanha.

Mar explica que a situação em seu país é diferente da do Brasil, “porque lá existe consciência política”. “Os espanhóis nascem com uma série de direitos conquistados, que eles sabem que não vão perder. Desde criança, existe a consciência de que não será preciso lutar por esses direitos de novo, entende? Por exemplo: vivemos um governo progressista, e temos leis que garantem aos trans integralidade na área de saúde, trabalho, educação e esporte. Mesmo percebendo a aproximação de uma onda ultraconservadora, a gente sabe que, aconteça o que acontecer, não vai haver retrocessos.”

A espanhola elogiou a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), de criminalizar a homofobia: “Isso repercutiu no mundo todo. É muito louvável que a mais alta instância do poder Judiciário do Brasil tenha votado a favor da proteção do direito de se expressar da comunidade LGBTQI+”, diz.

Mar não sabia que Bolsonaro, patrão de Damares, discordou da decisão do Supremo. Na ocasião, disse que o tribunal “se equivocou”; defendeu (mais uma vez) que a corte tenha um ministro evangélico.

O blog informou a ela também que muitos congressistas argumentaram que o julgamento do STF seria uma usurpação dos poderes do Parlamento. Ela deu uma engasgada.

Como explicar a Mar a natureza do relacionamento entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário no Brasil?

 

 

]]>
0
“”Mostra as teta, amiga!”. Concurso de drag queen elege “princesas” http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/sofri-bullying-mas-pratiquei-tambem-diz-drag-queen-vencedora-em-concurs/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/06/18/sofri-bullying-mas-pratiquei-tambem-diz-drag-queen-vencedora-em-concurs/#respond Tue, 18 Jun 2019 12:00:23 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=18917

Antônia Pethit com a mãe, Cida; as princesas, Drag Verona e Leandra Gitana (de lilás); e a apresentadora Tchaka (Foto: André Giorgi/UOL)

Rodeado por decanas do transformismo, o ator Gustavo Zanela, 26 anos, finaliza no camarim a produção do personagem que criou há apenas nove meses e que se tornaria no fim da noite o vencedor de um concurso de drag queens realizado no domingo no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, na zona norte de São Paulo. “Eu me senti meio intimidada de estar ali no meio de gente com tanta experiência”, disse Antonia Pethit, depois de receber a coroa, a faixa de rainha e R$ 1 mil. Ainda como prêmio, ela desfilará no carro oficial da Parada do Orgulho LGBTQI+, que sai da Avenida Paulista no domingo (23), e fará show na ‘Feirinha da Diversidade’, amanhã, na Praça da República.

Antonia Pethit contou com uma mini-torcida no Drag Contest, composta pela mãe, o namorado e a “sogra”. O nome da personagem é uma homenagem ao pai dela, Antônio, morto quando Gustavo ainda era criança; e o “sobrenome”, uma referência a seu status de caçula da família. Ele tem tem dois irmãos homens, mais velhos, que encaram sua orientação sexual “numa boa”.”Claro que sofri bullying na escola, mas praticava também. Ninguém me fazia de besta, não”, diz Antônia, piscando os olhos com dois cílios 301 (o maior do mercado) em cada. Ela está em cima de um scarpin vermelho de verniz, com 15 cm de salto agulha.

Veja também:

O ator conta que sua intenção era fazer uma homenagem às cores do arco-íris, símbolo da causa LGBTQI+, “mas não queria simplesmente entrar enrolada na bandeira ou pintada com listras”. Então, decidiu borrar a pele do corpo todo com manchas de guache vermelho, cor de abóbora, amarelo, verde, azul e roxo. “Acrescentei o rosa para intrigar o povo”, diz. Cantou “Born this Way”, sucesso de Lady Gaga que ele considera o correspondente Millenium de I’ll Survive, lançada por Gloria Gaynor em 1978 e tornada um hit gay.

O namorado, Lucas, ajuda no acabamento da personagem de Antônia Pethit; à dir., ela  recebe os aplausos, ao lado da mãe, Cida (Foto: André Giorgi/UOL)

Palestra motivacional

“Ela é um espetáculo, gente, muitos aplausos para Antônia Pethit!”, grita a apresentadora Tchaka, 50, que usa um vestido amarelo bordado, corselet no mesmo tom e barbatana de tule; peruca alta, óculos com grossas armações pretas e detalhes em strass, quatro meias-calças e sandália dourada pata de vaca. “O amarelo representa o mundo das drags, provoca, instiga, compartilha e perpetua!”, acredita Tchaka, que se considera “uma mistura de Consuelo Leandro e Zezé Macedo”.

Formado em direito nos anos 1990, Valdir Bastos conta que, desde que criou Tchaka, há 20 anos, já apresentou 4 mil eventos. “Faço desde palestra motivacional em empresa, até animação em casamento de judeu na Hebraica.” Ele explica que seu nome artístico é uma referência ao personagem do seriado “Elo Perdido”, dos anos 1980:  “Na primeira vez em que me montei, no Réveillon do ano 2000, eu fiquei tão feia que meus amigos disseram que eu parecia o macaquinho Tchaka. E você sabe, quanto mais a gente não gosta dos apelidos, mais eles grudam.”

No camarim, em linha de montagem, da esq. para a dir., Brunessa Lopez, Drag Verona, Lavínia Storm e Antonia Pethit (Foto: André Giorgi/UOL)

Do indiano ao burlesco

Em sua 12a. edição, o Drag Contest apresentou 15 candidatos e, pela primeira vez, uma candidata. “Se eles abriram espaço para mim, vou peitar. O que mais me atrai é justamente a diversidade”, diz a vendedora Elis Pessotti, 41, que é solteira, dona de dois cachorros vira latas e de um repertório que vai do africano ao indiano, passando pelo burlesco —  performance que une o caricato, o ridículo, o cômico, e quase sempre termina com um striptease.

“Mostra as teta, amiga!”, grita alguém no camarim cheio. Elis sorri, entre encabulada e absorta, e diz a título de legenda que seu orixá é Ogum. “Representa a lindeza, a doçura, o feminino, o espelho.”

Primeira mulher a participar do Drag Contest, Elis Pessotti apresentou um show que misturava dança indiana, música africana (“da cantora Larissa Luz, que fala de todos os orixás, do índio, do caboclo”) e performance burlesca (Foto: André Giorgi/UOL)

Elza Soares e Lady Gaga

O visagista Claudinei Hidalgo, 47 , produtor do concurso há nove anos, explica que “não existe mais definição de gênero para quem quer ser drag queen”. “Durante um tempo houve essa ideia de que a drag tinha que ter uma roupa espalhafatosa, bater cabelo e se apresentar como uma diva americana. Hoje, a maioria mistura ritmos, canta MPB, samba, dubla Elza Soares, Larissa Luz, Lady Gaga, Madonna, e também Gloria Gaynor. A única coisa que se espera de uma boa candidata é que ela seja caricata, divertida, cause impacto nas pessoas, estranhamento e, ao mesmo tempo, as deixe fascinadas. É quase um palhaço gay.”

Durante cerca de vinte anos, o próprio Claudinei se apresentou em boates gays como Fátima Fast-food. Ele conta com orgulho que o Drag Contest não é apenas uma apresentação amadorística de candidatos, mas um evento aculturador. Para participar, o interessado tem de participar de quatro oficinas — perucaria, cabelo e maquiagem; saúde e cidadania; dança; e consultoria com personalidades da noite.

1a. Drag do Brasil

Entre estas últimas estão pioneiras como Marcia Pantera, 49 anos, autointitulada primeira drag do Brasil. “Antes, elas eram chamadas de transformistas”, diz.

E qual a diferença? “Nenhuma. É que eu fiz a passagem. Nessa transição, americanizou um pouco, entende?”

Ex-jogadora de vôlei, Marcia desfilou para o estilista Alexandre Herchcovitch e foi  nove vezes campeã da versão gay da corrida de São Silvestre — conta que venceu, inclusive, subindo a Consolação de salto alto. Ela está no júri com mais três personalidades: o jornalista Chico Felitti, a atriz-drag-ativista Dani Glamourosa e a cantora Giselly Poppovic.

Um dos pontos altos da noite é a maneira como Márcia e todas as veteranas presentes ao concurso falam às drags mais novas. É sério, e por isso mesmo é muito engraçado. Elas encarnam divas octogenárias de Hollywood, falam do começo difícil de suas carreiras, da ascensão ao estrelato e do auge no exterior: “Gente, eu tive o Hercovitch, o Fernando Pires, tanta gente me deu a mão pra voar… “, diz Márcia, que mora na Alemanha. “Hoje, eu vejo uma rivalidade, uma competição que não havia. Essa coisa de correr atrás do sucesso imediato, gente, falta conteúdo. Não precisa passar por cima de ninguém. Quem dá o título é o público!  O seu sucesso quem faz é ele!” A plateia, composta de cerca de cerca de 70 pessoas, a aplaude e grita seu nome.

As 16 concorrentes e a apresentadora (Foto: Andre Giorgi/UOL)

Segunda princesa

Eleita a “segunda princesa” da noite, Drag Verona diz que nunca contou com a mão obsequiosa de Alexandre Hercovitch, mas em compensação tem uma “mãe drag”. Trata-se da artista Pretty Lupon, que apresentava shows em uma boate onde Verona trabalhou como bilheteira. “Foi ela que me deu força para tentar a carreira”, conta. Hoje, sempre que seu acervo extrapola o espaço do guarda-roupa, Verona usa o armário de mãe drag.

Dentro de um macacão de strass coberto de pedrarias amarelas, ela se define como uma “drag de concurso”. “Já ganhei 13. Só em Jaguariúna (cidade a 120 km de SP), fui bi-campeã”, orgulha-se.

Vários candidatos entrevistados pelo blog também venceram concursos. No camarim, a Miss Gay Santo André 2018 conta que sua performance agora será inspirada na aeróbica dos anos 1990 e no pole dance. Angel, 19, está com um body nas cores verde e rosa cítricos, pronta para entrar em cena e ficar de cabeça para baixo na barra americana, ao som de I’m Gonna Rock You (Pussycat Dolls). “Minha mãe não gostou muito quando percebeu que eu era homossexual, mas hoje me ajuda a me montar.”

Angel, 19, se vira no pole dance (Foto: André Giorgi/UOL)

Muito prazer

Paulo Sérgio Viana, 23, conta que sua família nunca havia visto Yasmin Carraroh  (“o ‘h’ no fim é pra dar o close”), até que, na semana passada, ele recebeu o telefonema de um cliente que o chamou para animar uma festa dali a uma hora. “Eu não tinha onde me montar, teve de ser no meu quarto mesmo. Saí do armário literalmente. Sentei em frente ao espelho, comecei a me maquiar, minha mãe passada. No fim, meu pai disse: ‘Ficou bonito, pode ir’. Foi gratificante.”

Viana diz que sua carreira artística deslanchou quando ele participou do reality Academia de Drag, transmitido pelo Youtube. “Ali foi o meu boom.” Apesar do sucesso, ele afirma que “a drag sofre preconceito dentro da própria comunidade LGBTQI+”. Alguns pretendentes de Paulo Sérgio, quando descobrem que ele também é Yasmin, se afastam. Outros, perguntam: “Se a gente for ao cinema, você vai montado? Posso te levar na casa da minha mãe?” Paulo teve dois namorados, “um não aceitava a Yasmin, outro ficou em cima do muro”.

Drag X-Men

Ali ao lado, enquanto se transforma em Lavínia Storm, Douglas Ramon de Mattos, 31, conta que a família evangélica dele rejeita sua orientação sexual, mas o marido, não. “Ele me assume com o maior orgulho: me beija, me abraça, me acompanha em todo lugar”, diz Lavínia, cujo nome artístico “apareceu em um sonho”. “Storm é uma homenagem ao X-Men, que eu amo.”

Claudinei Hidalgo entra no camarim trazendo um saco plástico cheio de papeizinhos dobrados com os nomes das candidatas, para fazer o sorteio da ordem de entrada no palco. Cerca de duas horas depois, em novo momento de apreensão, Tchaka anuncia que houve um empate entre as duas princesas. Ela as submete ao veredito do público.

Lady Cigana

Drag Verona acaba perdendo em aplausos para a concorrente Leandra Gitana, 30 anos, 1,80m, 110kg. Gitana conta que é viúva, vive em São Mateus e que, além de todos os preconceitos previsíveis, ela ainda enfrenta a gordofobia: “As pessoas acham que a drag gorda tem de fazer a avacalhada, mas o meu estilo é clássico”, afirma.

Parece que o público entendeu o recado. De cigana, sua dublagem de Born this Way dentro de um vestido de cetim lilás amplo, com uma saia rodada e bem explorada, foi um sucesso.

A primeira princesa Leandra Gitana roda a cigana, enquanto dubla Born this Way (Foto: André Giorgi/UOL)

Não resta dúvida de que se deve levar Leandra Gitana a sério, ainda que ela nos provoque com seu humor. Quando pergunto se ela pretende se submeter à transição de gênero, a princesa responde: “Não preciso. Sempre fui gordinha e tive peito, então dá pra fazer a garota.”

 

 

]]>
0