Paulo Sampaio http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br Só mais um site uol blogosfera Sun, 15 Dec 2019 14:14:02 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 “Prefiro ser engraçada do que coitada”, diz modelo negra criada em orfanato http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/15/prefiro-ser-engracada-do-que-coitada-diz-modelo-negra-criada-em-orfanato/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/15/prefiro-ser-engracada-do-que-coitada-diz-modelo-negra-criada-em-orfanato/#respond Sun, 15 Dec 2019 07:00:24 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=23320 A história da modelo baiana Adriana Quintiliano, 30 anos, tem todos os elementos para despertar aquele indefectível coitadismo que a parte equivocada da militância adora cultivar –por puro preconceito. Negra, pobre e órfã, ela chegou a ser adotada, foi devolvida ao abrigo, saiu aos 18 anos, morou em muquifos (nas palavras dela), viveu um relacionamento abusivo e só há pouco tempo parou de contar os tostões que ganhava trabalhando como estátua viva no Pelourinho e no Campo Grande, centro de Salvador.

“Prefiro falar disso tudo de forma engraçada, para não parecer uma coitada”, diz ela. De tão desencanada, a princípio Adriana perguntou se a entrevista era para falar de mulheres carecas. “É porque eu raspei a cabeça?” Sim, o presente para ela é muito mais importante.

Editorial para um trabalho de faculdade: “A entrevista é para fala de mulheres carecas?” (Foto: Arquivo Pessoal)

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Caminho pedregoso

Ainda bebê, Adriana foi encaminhada a um abrigo, já que sua mãe, vítima de uma doença mental, revelou-se incapaz de criá-la. No abrigo, o sonho de ser adotada por uma família rica e feliz só foi realizado na pré-adolescência, quando ela convenceu a direção do lugar a levá-la a um programa de TV. Quem sabe alguma família que a visse não se interessaria em assumi-la como filha. “A ideia foi minha”, conta ela, alegremente.

Apareceram duas ou três famílias. O juizado determinou que ela fosse morar com uma em que houvesse “irmãs” da sua faixa etária. Fizeram uma festança no abrigo, para comemorar o momento alvissareiro. Menos de dois meses depois, a família mandou Adriana de volta. “Fui devolvida”, diz ela, mais realista do que lamurienta. “Houve um problema de ciúme com as meninas da família.”

De azul, aos oito anos, com os irmãos de abrigo (Foto: Arquivo Pessoal)

De branco, à esquerda, na escola (Foto: Arquivo Pessoal)

Na comemoração dos 15 anos, com a madrinha, Tati, depois de ser devolvida ao abrigo: “Eu queria muito uma festa de debutante, minha madrinha fez pra mim!” (Foto: Arquivo Pessoal)

Observação importante

Apesar de a palavra abrigo nem sempre estar associada a um lugar quentinho e acolhedor, Adriana diz que não pode se queixar do local onde viveu. Administrado por cristãos presbiterianos, amparava 25 crianças que frequentaram escolas particulares, como bolsistas, e que até hoje se chamam de irmãos. Ela foi parar ali porque sua mãe já havia passado no lugar.

“Quando o órfão faz 18 anos, não pode mais permanecer no abrigo. Num primeiro momento, eu fiquei com quatro irmãos que moravam em um quartinho minúsculo”, conta ela, meio que de passagem (ou sem tempo para fazer render o instante ruim).

De estátua viva, na Praça do Campo Grande, em Salvador  (Foto: Arquivo Pessoal)

Desaforo, não

Àquela altura, a pequena órfã havia se transformado em uma mulher deslumbrante, de 1,74 m, 49 quilos e muita disposição para a aventura.

Namorou homens e mulheres, viveu um relacionamento abusivo com um agressor que quebrou um banco em sua cabeça, trabalhou como estátua viva no Pelourinho e no Campo Grande, foi garçonete no mesmo restaurante em que descascava batatas e lavava louça, converteu-se em babá e trabalhou em butique.

Levou alguns calotes de patroas que queriam uma escrava, não um funcionário remunerado. “Eu não sou fácil, não levo desaforo pra casa”, informa. E se o relacionamento (afetivo) não está bom, mesma coisa: “Termino numa boa.”

Posando para um fotógrafo israelense, na Casa Castro Alves  (Foto: Lisandro Suriel)

Não teve jeito

Por força do hábito, eu quis transformá-la em uma pessoa minimamente amargurada –e assim ter mais uma “incrível história de superação” para postar. Acontece que a entrevistada não colaborou. A musicalidade de seu sotaque, o tom meio avoado com que contou as partes mais barra-pesadas de sua vida, e a risada curta e intensa entre um relato e outro afugentaram qualquer sentimento de misericórdia.

Ao final do telefonema, digo a Adriana que considero seu depoimento tão contundente quanto o de milhões de órfãos no Brasil, peço a ela que me entenda, me despeço e desligo.

Como assim??

Inconformada, ela passa a me mandar mensagens dizendo:  “a minha história é de superação, sim”, “tive uma vida difícil, passei fome, fui agredida pelo namorado…”

Na estação da Luz (Foto: Fernando Gomes)

Autocomiseração zero

Eu acho divertido, não pelos fatos (trágicos) em si, mas pela maneira com que ela tenta me sensibilizar. Nitidamente, a própria Adriana não dá todo esse peso àquelas passagens ruins, e muito menos atribui a elas o poder de interferir nos seus planos de sucesso.

Com uma energia aparentemente inesgotável, ela conta que terminou a faculdade de design, fez um curso de corte e costura e agora, além de posar como modelo comercial, pretende trabalhar nos bastidores da moda. Claro: escrever uma biografia. Ah, verdade, depois de inúmeras experiências com ficantes de ambos os sexos, ela deu uma estabilizada em um relacionamento com um “homem maduro”. “Só gosto de mais velhos”, revela. Conta que está com o maduro há dois anos.

O que, no caso dela, soa uma eternidade.

Comercial da marca de sorvete Cubana (Foto: João Regis)

 

 

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Em ato, parente diz que responsável direto por chacina tem nome: João Doria http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/09/em-ato-parente-diz-que-responsavel-direto-por-chacina-tem-nome-joao-doria/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/09/em-ato-parente-diz-que-responsavel-direto-por-chacina-tem-nome-joao-doria/#respond Mon, 09 Dec 2019 08:00:45 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=23209 O som estridente da música evangélica, emitido por duas caixas instaladas à frente das quatro fileiras de cadeiras de plástico branco, reforça a imagem da desolação. Lideranças da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, promoveram ontem um ato ecumênico em memória dos nove jovens mortos pela polícia no baile funk DZ7. Na madrugada de domingo, 1º de dezembro, durante uma operação da Força Tática (grupamento especial de patrulhamento ostensivo) da PM, frequentadores do baile foram encurralados pelos policiais, brutalmente agredidos e abandonados sem socorro adequado. Os nove mortos tinham idades entre 14 e 23 anos.

O ato reuniu cerca de 100 pessoas e sete religiosos — um monge beneditino, quatro frades franciscanos, um pastor evangélico e um médium kardecista.

“Não se apaga fogo com gasolina”, diz o frei franciscano Almerino, da Ordem dos Frades Menores (OFM), que em sua fala recorreu ao Livro do Êxodo, do Antigo Testamento, para recriminar duramente a ação da polícia com os jovens, e repudiar a injustiça dos “faraós” com os menos favorecidos.

“Nem toda ordem é justa. Se alguém der ordem para matar, não obedeça. Se der ordem para comprar armas, não compre. Eu fico imaginando o absurdo, se esses 5 mil jovens [estimativa do número de frequentadores do baile], se eles tivessem obedecido às ordens de um faraó de hoje, eles estariam todos com uma metralhadora na mão. Já imaginou o que aconteceria numa situação dessas?”

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Cristina, mãe de Denys Guilherme, que tinha 16 anos: “O que fizeram com os nossos corações foi uma atrocidade; eu escuto a voz do meu filho todos os dias”(Foto: André Porto/UOL)

Pegos pelo VAR

A versão que a PM divulgou foi a de que os policiais estavam em uma operação chamada pelo governo de “Pancadão” (uma referência a bailes funks clandestinos) quando, ao se aproximar de Paraisópolis, foram recebidos a tiros por ocupantes de uma moto. Na perseguição, os supostos bandidos teriam entrado no baile para se misturar aos frequentadores, sem, contudo, parar de atirar. Os policiais então chamaram reforço e invadiram o baile. Na confusão, teriam pisoteado e matado nove inocentes, porque afinal não poderiam perder de vista os bandidos.

Ocorre que no mesmo dia circularam nas redes sociais vídeos feitos na comunidade que mostram os policiais em pleno exercício da violência gratuita. Tudo aconteceu na Viela do Louro e na Três Corações, duas passagens paralelas que não têm mais de cinco metros de largura e saem da Rua Ernest Renan, onde se realizam os bailes. Desesperados com a ação abrupta dos policiais, que apareceram de um lado e do outro da rua, os jovens se refugiaram nas vielas — mas foram cercados de dois lados.  “Não tinha para onde correr”, diz um morador da Ernest Renan, que estava no baile e foi ao ato ecumênico. 

Mas e os bandidos de moto? “É mentira!”, revolta-se o rapaz. “Isso não existiu!”

A Viela dos Louros, onde os jovens foram encurralados e mortos (Foto: André Porto/UOL)

A impunidade manda

“O b.o. [boletim de ocorrência] quem faz são eles [a polícia]”, afirma José Marcelo da Silva, o presidente da Ação Comunitária Nova Heliópolis, liderança da favela onde um homem morreu na mesma noite, em outra ação da polícia. “Você vê claramente no vídeo que não houve conflito, ninguém atacou os policiais, muito ao contrário: eles chegaram batendo. Eles fazem isso porque sabem que vão sair impunes. A corporação manda para a parte administrativa, e em alguns meses eles estão na rua de novo.”

O blog tentou falar com a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública do Estado, mas não a encontrou por telefone nem obteve resposta à mensagem enviada pelo aplicativo WhatsApp.

Corações despedaçados

Ao falar no ato, o tio de uma das vítimas afirmou: “O responsável direto pela chacina aqui em Paraisópolis tem nome: João Doria”, referindo-se ao governador do Estado. “E, depois, o secretário de Segurança Pública e a polícia. Isso não pode ficar assim, a gente não pode deixar passar mais uma vez. Essa chacina não matou apenas nove pessoas, mas destruiu a vida de muitas outras. Pelo menos 100 parentes e amigos agora estão com o coração despedaçado com o destino desses meninos.”

Duas horas depois de lamentar as mortes nas redes sociais, no dia 1º, o governador João Doria apoiou a polícia na ação. No evento da filiação do ex-ministro Gustavo Bebiano ao PSDB do Rio, Doria disse que “hoje, São Paulo tem uma polícia preparada, equipada e bem informada” e ainda que “a segurança em São Paulo se faz com com seriedade, com planejamento, com estruturação, com inteligência para permitir a ação preventiva do crime, com respeito aos policiais”.

Só que os vídeos das agressões viralizaram, e ficou complicado para o governador reafirmar as boas intenções da segurança pública. Na quarta-feira, 4, depois de uma manifestação organizada pela comunidade até o Palácio dos Bandeirantes, parentes das vítimas e moradores exigiram uma reunião com Doria. Na ocasião, foi criado um comitê externo de acompanhamento, integrado por familiares, pelo Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana) e pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Genocídio higienista

“O Doria sempre foi claro no que ele pretende. A Operação Pancadão é genocida, higienista, atende a determinados setores da sociedade que não gostam do barulho, da música, do comportamento desses jovens”, diz a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP), presente ao ato. “Ao mesmo tempo, Paraisópolis é a região da cidade onde há mais jovens, proporcionalmente, e você não vê um Céu, um espaço de convivência, de referência, nada. É lógico que eles vão para as ruas.”

De acordo com a gestão do atual governo, a “Operação Pancadão” tem o objetivo de “garantir o direito de ir e vir do cidadão e impedir a perturbação do sossego”.

Sâmia não tem dúvida de que as vítimas do domingo, 1º de dezembro, foram “emparedadas” em uma ação consciente da polícia. “Eles consideram esses jovens um incômodo que deve ser eliminado.”

Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, afirmou que pretende entrar com uma ação civil pública para conseguir investimentos em cultura e educação nas comunidades dos nove jovens mortos — que tinham vindo de outras regiões da cidade. “Se não houvesse o mesmo problema lá, eles não viriam para cá”, diz. 

O universitário Danylo Quirino Salvador, irmão de Denys Henrique, uma das vítimas, e a mãe: a imagem da dor (Foto: André Porto/UOL)

Dor de irmão

Em um dos momentos mais pungentes do ato, o universitário Danylo Quirino Salvador, 19 anos, que passou a maior parte do tempo com uma expressão apática, chora descontroladamente ao falar do irmão Denys Henrique, uma das vítimas.  Diz que vai perseguir a Justiça até o fim.”Ele tinha 16 anos, cursava o ensino médio e trabalhava com limpeza de estofados.”

Estudante do 4º período de geografia na USP (Universidade de São Paulo), Danylo é coordenador de um movimento de educação popular chamado Emancipa, que oferece cursinho de pré-vestibular a jovens da periferia. O movimento é bancado pelos próprios voluntários. Ele conta que tem ainda dois irmãos, uma de 8 anos, e que todos foram criados só pela mãe.

Ao afirmar que não vai ter paz enquanto o responsável pela morte de seu irmão não for punido, ele corrige: “Sinto que eu nunca vou ter paz.”

 

 

 

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Um ano após escândalo, “entidade” João de Deus ainda assombra Abadiânia http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/07/um-ano-apos-escandalo-entidade-joao-de-deus-ainda-assombra-abadiania/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/07/um-ano-apos-escandalo-entidade-joao-de-deus-ainda-assombra-abadiania/#respond Sat, 07 Dec 2019 07:00:26 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=23095

O letreiro à chegada de Abadiânia mudou: tiraram o “Só Jesus Salva”, entrou um coração (Fotos: Paulo Sampaio/UOL)

Apenas um dos cerca de 80 quartos da pousada onde eu me hospedo em Abadiânia, cidade a 90 km de Goiânia, está ocupado. Se até um ano atrás o lugar ostentava gloriosamente reservas feitas com meses de antecedência, agora o salão do café da manhã encontra-se praticamente vazio. O valor da diária cobrado nos áureos tempos, segundo quem atende na recepção, chegava a ultrapassar os R$ 170. O blog pagou R$ 100.

A única mesa ocupada abriga uma senhora que veio do Rio chamada Ruth Nogueira, 83 anos, e o filho dela, o piloto submarino Alex Nogueira, 45 . Eles estão entre os fiéis remanescentes da Casa de Dom Inácio de Loyola, o hospital de curas espirituais comandado desde o começo dos anos 1970 pelo médium João “de Deus” Teixeira de Faria, 77 anos. Conhecido mundialmente como um líder capaz de operar milagres, Faria está preso preventivamente desde 16 de dezembro de 2018, sob a acusação de praticar mais de uma centena de crimes sexuais.

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Ruth e o filho, Alex, em dois momentos: à entrada da casa; e no salão vazio do café da manhã (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Fogo morro acima

Na madrugada deste domingo, 8 de dezembro, faz um ano que o programa do apresentador Pedro Bial, na TV Globo, levou ao ar depoimentos de quatro mulheres que acusavam o líder espiritual de assédio sexual e estupro. A partir do relato da bailarina holandesa Zahira Lieneke, única a se identificar, e de mais três brasileiras, deu-se uma avalanche de denúncias que, nos dias subsequentes, chegaram a centenas.

Na quarta-feira, 12 de dezembro de 2018, o Ministério Público pediu a prisão preventiva de João Teixeira de Faria. O advogado de defesa dele à época,  Alberto Zacharias Toron, solicitou ao juiz permissão para que seu cliente mantivesse os atendimentos na casa, com escolta policial —mas não obteve sucesso. Fora de circulação, Faria foi considerado foragido, até que no domingo, 16, se entregou à polícia em uma estrada de terra batida da região.

Tonta de novo

Na mesa do café da manhã, Ruth diz que acredita na inocência de João de Deus: “Um homem que ajudou tanta gente não seria capaz de fazer o que estão falando. É muita sujeira. Eu acho que, ó (roça o polegar no indicador), muitas dessas mulheres querem é dinheiro”.

Ela conta que recorreu ao médium porque “tinha uma tontura que médico nenhum conseguia resolver”. “Agora mesmo, olhando para você, tudo estaria girando.” Alex explica: “Mamãe foi ao melhor especialista do Brasil, em São Paulo, mas não deu em nada. Aí ela veio na casa, em agosto do ano passado e, durante a consulta, ela já não sentia mais nada”.

Depois da intervenção espiritual, o médium recomendou que Ruth voltasse em 80 dias. Porém, a notícia da prisão dele a fez adiar a consulta. “Quando eu soube, imediatamente a tontura voltou. Tive de me sentar, para não cair”, lembra.

Miss Escurinha

Peço para fazer uma foto de mãe e filho, Ruth se anima. Definindo-se como “extremamente vaidosa”, ela tem os cabelos avermelhados puxados em um rabo de cavalo alto, usa dois brincos dourados muito grandes e está toda de branco –como a maioria dos frequentadores da casa.

Ela comenta que, na década de 1950, foi eleita “Miss Escurinha” em um concurso de beleza carioca. Pede ao filho, com quem parece ter uma relação visceral, que pegue na bolsa colorida dela a foto do desfile. Ele pega. “Imagine um concurso com esse nome, hoje em dia”, comenta Alex.

Ruth se mostra preocupada com o cenário que encontrará na Casa de Dom Inácio: “Estou com medo de chegar lá e não ter ninguém”. Foi quase isso…

Só orando

Segundo Kelly, a recepcionista, a casa costumava receber 1.500 pessoas em “dias de corrente” –quartas, quintas e sextas-feiras. Em datas muito importantes, o número subia para 2.000. E, em fins de semana próximos a feriados, de acordo com relatos de fiéis arrebatados, chegava ao dobro disso. Logo depois da prisão de João de Deus, no auge da crise, a frequência caiu para algo em torno dos 150 visitantes. Mas Kelly afirma que o movimento deu uma melhorada. “Agora, vêm uns 300.”

Na quarta-feira passada, o blog contou 37 pessoas na sala principal, onde uma voluntária chamada Luciana diz palavras de acolhimento, tendo como fundo musical o som de uma flauta. A coreografia é a mesma: um voluntário pede que levante a mão quem está ali pela primeira vez (duas pessoas); pela segunda vez, e os que vieram para “revisão”.  Na sequência, todos se agrupam na corrente de oração. Na ausência do médium, não se garante conversa com entidade.

A sala principal lotada, no ano passado, e com apenas 37 pessoas, a maioria estrangeiros, na semana passada (Fotos: Paulo Sampaio/UOL)

Jogo de empurra

Não há ninguém para explicar porque na cadeira antes ocupada por João de Deus há agora uma imagem de Santa Rita de Cassia, padroeira das causas impossíveis; o voluntário Jardel pede que eu fale com o voluntário Wagner, que me orienta a falar com a voluntária Lara. “Não é jogo de empurra”, garante Wagner. Ninguém fala.

Enquanto isso, um dos mais antigos colaboradores da casa, Norberto Kirst, que vive em Abadiânia há 30 anos, presta um depoimento sobre o médium para um documentário produzido pela Netflix. “É preciso separar o homem João de Deus da entidade…”, diz ele, repetindo um texto defendido por boa parte dos que permanecem leais ao hospital da cura espiritual

“A energia não está no João, está na cidade”, acreditam três francesas de Toulouse, uma delas em sua 12ª visita. A maioria das pessoas que circulam na casa são mulheres e estrangeiras.

Casa de Dom Inácio de Loyola, em dezembro de 2018 e em dezembro de 2019 (Fotos: Paulo Sampaio/UOL)

Que entidade, que nada

No único restaurante aberto às 20h, na rua principal, um raro homem de branco, carioca, se aborrece quando pergunto se sua fé não foi abalada depois das denúncias contra o médium (denominação usada pela própria Kelly).  “As pessoas não sabem nada sobre mediunidade! Eu nunca vim aqui por causa de João de Deus ou entidade nenhuma. Isso é uma casa de cura, não um centro espírita”, azeda ele, ao que parece bem distante de se curar.

Em alguns casos, entende-se o mau humor. Nem sempre é fácil, para quem busca  apenas a “paz interior” (e não, como a maioria, a cura para um mal físico), desestressar. Não basta estar na cidade, vestir branco e falar aos sussurros. Os que agem assim costumam acreditar, com a mesma arrogância que os levou ao caos, que são mestres em harmonia. Encontram-se ali vários  consultores nessa área.

Desastre de Fukushima

Todos têm grandes histórias para contar. Na mesa do carioca está uma japonesa chamada Harumi, que usa óculos de sol (são 20h), calças largas off-white, cardigan branco e bolsa Chanel nude.  Um guarda-chuva: “Eu contraí uma doença depois do desastre [na usina nuclear] de Fukushima [causado por um terremoto seguido de tsunami, em 2011]”, conta ela, sem detalhar nada sobre a enfermidade. Diz que acredita em Jesus Cristo, é budista e veio a São Paulo para visitar parentes.

E como foi parar em Abadiânia? Ela embatuca. Em vez de responder, Harumi olha para longe, com a boca meio aberta e uma expressão de quem está sob o efeito de um hipnótico.

Ladelá e ladecá

Atravessada pela rodovia BR-060, que liga Goiânia a Brasília, a cidade de 18 mil habitantes se divide em duas regiões bem distintas. Os moradores de Abadiânia se referem a elas como “o ladecá” e “o ladelá”, dependendo do ponto de vista. À direita de quem segue para Brasília fica o centro –prefeitura, igreja, praça, coreto, posto de saúde.  À esquerda da estrada, o lado espiritual, centralizado na Casa de Dom Inácio de Loyola, conhecida simplesmente como “a casa”.

Desde a prisão do médium, a economia de Abadiânia experimentou uma ruína sem precedentes em seus 66 anos. Na Prefeitura, o diretor de comunicação informa que, em 2019,  entre 1.500 e 2.000 pessoas perderam o emprego;  55 dos 63 estabelecimentos comerciais do ladelá (pousadas, restaurantes e lojas) fecharam suas portas. Não houve cristal ou pedra preciosa com energia suficiente para manter de pé o pujante comércio esotérico. “Os que não eram donos do ponto foram os primeiros a ir embora. Muitos saíram para Anápolis, outros para Brasília, Goiânia”, diz o comerciante Djalma, dono da loja Jo Modas, que vende de um tudo.

Ladecá e ladelá: a praça principal, na parte da cidade onde está o centro; e as portas fechadas do comércio falido, na área espiritual (Fotos: Paulo Sampaio)

Aceita cartão?

Em decorrência da debacle, o preço do aluguel de imóveis caiu vertiginosamente. “Eu recebia R$ 12 mil por mês por um terreno do ladelá, onde há uma pousada. O contrato era de 72 meses, mas o inquilino entregou o terreno, e, agora, eu não consigo R$ 3.000 por ele”, lastima Helio Valença, 56 anos, dono da corretora de imóveis Sigilo. “Ainda bem que tenho outros negócios.”

Na porta da Casa de Dom Inácio de Loyola, as filas de táxis que operavam o vaivém de devotos desapareceram quase por completo. O estacionamento também está vazio (a não ser pelos carros de quem trabalha ali), e a lanchonete, idem. Apenas dois bolos de aveia com banana e açúcar mascavo jazem nas vitrines, com melancólicas legendas em português, inglês e alemão. A atendente informa que não aceitam mais pagamento com cartão (“o movimento caiu muito, não compensa”).

Outrora cheio, o estacionamento agora tem a placa de “lotado” voltada de costas para a porta de entrada (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Sem nome

No geral, o que se nota é que a entidade João de Deus ainda assombra a cidade. Com o intuito de fugir de qualquer associação com o médium, alguns comerciantes que antes se valiam dos poderes sobrenaturais dele para atrair clientes, agora pedem para não mencionarem nenhum tipo de relação com o dito estuprador. “Nunca ouvi nada a respeito disso que falam dele. Aliás, se você puder não colocar o meu nome na reportagem, eu agradeço”, diz o dono de uma loja.

O curioso é que a maior parte da população nativa, de famílias que vivem na cidade há muitos anos, parece nunca ter tomado conhecimento da existência de João de Deus ou levado em consideração seus milagres. E isso não é de agora. Todos respondem com muita presteza quando se perguntam informações sobre a cidade, mas, ao ouvir o nome do médium, em geral se entreolham com meios sorrisos. Os mais autênticos esconjuram: “Eita, moço, eu não mexo co’esses trem, não!”

Poder e ego

Para alguns dos que migraram para Abadiânia e continuam vivendo na cidade por acreditar na energia emanada pela casa, resta agradecer. A publicitária paulistana Daniela Mazzariol, 52 anos, que há oito desembarcou ali a fim de se curar de crises de pânico, diz que se sente completamente apaziguada. “Vibro na frequência da gratidão”, afirma.

Muito falante, pilhada, Daniela acredita que o problema na Casa de Dom Inácio de Loyola foi o poder de João de Deus e o ego dos visitantes: “Descia gente de helicóptero, ministro do Supremo, ator, celebridade… E as que vinham de bolsa Prada e microshortinho (ela se contorce em uma pose sensual)? Onde a gata pensava que ia daquele jeito? Mais respeito, né?”

Fenômeno mediúnico

Daniela continua frequentando a casa: “Eu não julgo ninguém. Não tenho nada a dizer do seu João, até porque, falem o que quiserem, o cara é um fenômeno mediúnico!”

Segundo ela, “muita gente de fora continua conectada, mas não aparece aqui porque pega mal”. “Logo depois de tudo o que aconteceu, o povo me ligava direto para saber o que eu achava, se eu já tinha conhecimento dos assédios do seu João, e porque eu nunca comentei. Fiquei tão estressada que saí um pouco de circulação”, conta ela, que trabalhava de “receptivo de grupos de turistas” e tinha clientes fechados até março deste ano. A maioria desmarcou.

Iluminação da Malásia

Superespiritualizado, o piloto de avião paulista Carlos Eduardo Monteiro, 42, desembarcou de mala e cuia em Abadiânia para investigar a energia da cidade. Parece que aprovou. Tanto, que comprou uma casa e uma fazenda na região. Mas o “mestre iluminado” que ele diz seguir está longe, na Malásia. É o Dhyan Vimal.

“Conheci o Dhyan quando morava em Vancouver, antes de vir pra cá, e ele já me autorizou a expandir seus ensinamentos”, informa Monteiro, apontando o tempo todo para o livro Urântia, nome também da fazenda. Na definição dele, o livro é “uma Bíblia menos manuseada”.

Na fazenda, ele instalou o restaurante Borboleta Azul, que tem 40 lugares e serve comida vegetariana. Asséptico, silencioso e voltado para um vale verde, o restaurante evoca ar puro e reforça a fantasia de purificação do organismo. 

A cozinha fica à vista do salão e tem o mesmo aspecto reluzente. A comida é muito boa (confesso que sou suscetível a pratos purificadores). Comi salada, uma quiche de abobrinha, e experimentei a kombucha –uma bebida “probiótica gasosa”, que Monteiro apresenta como “um champanhe natural”. “Quero instalar aqui um centro de saúde através da alimentação natural, com respeito pela natureza”, diz.

Mais denúncias

Quem ficou na cidade aguarda os próximos desdobramentos do escândalo João de Deus. Na semana passada, o médium foi denunciado pela 11ª  vez, por crimes sexuais que teriam sido perpetrados com 11 mulheres, entre 2010 e 2016, duas delas menores de idade, de 14 e 12 anos. No caso de sete vítimas, o crime está prescrito.

A promotora Renata Caroliny Ribeiro e Silva diz que Faria foi denunciado também em uma ação civil pública, para garantir o eventual ressarcimento da vítimas, e em outras duas por porte ilegal de arma de fogo.

Uma dos nove promotores que atuam na força tarefa destacada para atuar no caso, Renata afirma que 319 mulheres procuraram o Ministério Público, mas apenas 144 formalizaram denúncias contra João Teixeira de Faria. Destas, 76 estão prescritas.  “De acordo com a Justiça, elas não podem mais denunciar o acusado. Mas isso não significa que deixaram de ser vítimas. Seus casos dão força ao relato”.

456 anos

Até agora, a promotoria pediu 456 anos de pena mínima para João de Deus, mais indenização. “Fala-se em R$ 100 mil para cada mulher, mas isso está completamente fora de cogitação”, acha Marcos Maciel Lara, atual advogado de defesa de Faria. “O juiz já disse que serão R$ 15 mil, caso meu cliente venha a ser condenado.”

Os promotores explicam que, ao separar as denúncias, sua intenção é organizar a enorme quantidade de mulheres que acorreram ao MP. Para o advogado de defesa, “isso não passa de teatro para aumentar a dimensão dos fatos e impressionar a opinião pública”. “Só faz dificultar o processo. Se cada mulher tem direito a oito testemunhas, imagina quantas serão arroladas!”

De castigo

Ao orientar seu cliente a dar entrevista para apenas uma emissora de TV, Maciel argumentou que a Globo foi incorreta quando divulgou o laudo preparado por quatro médicos a respeito do estado de seu cliente. “Eles ignoraram que os quatro  já trabalharam com o psiquiatra do seu João, e o processaram. Significa que, como não se poderia garantir imparcialidade, eles estariam sob suspeição.”

Assim sendo, Maciel resolveu convencer Faria a dar entrevista para a TV Record. Mas mudou de ideia. Na quarta-feira, disse ao blog que desmarcou a entrevista. Preferiu provar que seu cliente está tão debilitado, por falta de tratamento adequado na cadeia, que não tem nem condição de dar entrevista.

Segundo Maciel, “ele está completamente abobado”. “Seu João é um senhor de 77 anos, que perdeu 60% do estômago por causa de um câncer, tem quatro stents nas artérias e toma 19 medicamentos. Sabe por quantos médicos o presídio onde ele está é atendido? Dois. Que vão duas vezes por semana. É desumano!”

Complicado falar em desumanidade, nesse caso.

 

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Miss Plus Size 2019: “Quem fazia bullying, hoje me procura nas redes” http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/miss-plus-size-2019-quem-fazia-bullying-hoje-me-procura-nas-redes/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/miss-plus-size-2019-quem-fazia-bullying-hoje-me-procura-nas-redes/#respond Mon, 02 Dec 2019 07:00:36 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=23054

Eduardo Araúju, idealizador do Miss Plus Size Nacional 2019, posa com a vencedora, Ludmila Holanda (Marcia Salles/Divulgação)

Aqueles garotos que praticavam bullying com a “baleia” da turma, o “saco de areia”, a “elefanta” continuam se acovardando. Agora, falta coragem para manifestar publicamente a atração que sentem pela ex-colega de escola. Eleita miss plus size nacional 2019, Ludmila Holanda, 26 anos, 1,70m, 101kg conta que vários deles costumam cortejá-la reservadamente, nas redes sociais: “Acontece demais. Alguns fazem elogios abertamente, outros ficam rodeando para ver como eu reajo. Sinto que, se eu der chance, eles vão em frente”, diz ela, que é modelo.

Tarde demais. O coração de Ludmila está ocupado. O nome do noivo, como ela o apresenta, é Bruno Martins. Apesar de o relacionamento dos dois ter começado há apenas seis meses, eles já estão morando juntos e se tornaram sócios em um pub em Fortaleza. “Ele é meu grande incentivador. Era o que mais gritava na torcida do concurso”, exulta a miss, que é formada em enfermagem e pretende se especializar  em estética avançada.

Bruno tem 26 anos, 1,83m, 94kg. É “fitness”, diz Ludmila. Frequenta a academia  diariamente, cuida da alimentação e, apesar de ser muito vaidoso, “não dá nenhum motivo para eu ficar insegura”.  Eles se conheceram pelo aplicativo Tinder. O noivo conta que foi paixão à primeira foto. “Eu me encantei antes de conhecê-la pessoalmente. Nunca tinha ficado com uma mulher plus size, estava curioso”, diz ele, sem soar antropológico.

Veja também

Com o noivo, Bruno, em dois momentos: em um desfile de vestidos de noiva (o menino é filho dele); e na academia (Fotos: Arquivo Pessoal)

A melhor, entre 28

De acordo com Bruno, sempre aparece alguém para “questionar o relacionamento com Ludmila” e se referir a ela de maneira preconceituosa. Pai de um garoto de 3 anos, ele conta que sua ex-mulher, por exemplo, em uma tentativa de reatar o casamento, usou o sobrepeso de Ludmila como argumento a seu favor. “Mas ela é gorda!”, alegou.

No concurso de sábado, realizado no Novotel Rio Porto Atlântico, no centro do Rio, a “gorda” derrotou 27 candidatas. Ao tornar-se a segunda cearense a levar o título, ela recebeu a coroa da conterrânea Talita Reis, vencedora em 2018, e ganhou R$ 5 mil.

Na praia de Canoa Quebrada, no Ceará: “Nos passeios de buggy, a gente para em alguns lugares para fotografar. Nessa foto, eu estou morrendo de medo de montar no jegue, por ser gordinha, e todo mundo rindo de mim. No final do aperreio, eu mesma acabei rindo de tudo” (Arquivo Pessoal)

Morte ou W.O.

O idealizador do miss plus size nacional, Eduardo Araúju, anunciou que no ano que vem o concurso será em Fortaleza. “Nossa intenção é que o evento cresça e que, a partir de 2021, possa se realizar em outros estados.”

Trabalhando há dez anos com modelos plus size, Araúju diz que não conta com nenhum apoio ou patrocínio, mas afirma que, “enquanto tiver saúde”, não pretende desistir do concurso: “Só se eu morrer, ou se não houver mais candidatas”.

Brigadeiro e cervejinha

Filha do meio de uma família de classe média, a miss plus size tem um irmão de 32 anos e um de 18. Conta que o mais novo “era gordinho”, até que se submeteu a um regime rigoroso, trocou o curso de ciências contábeis por nutrição e hoje é “rato de academia”.

Aos 7 anos, posando para foto: “Sempre fui muito vaidosa. Adorava concurso de miss, assistia a todos” (Foto: Arquivo Pessoal)

A própria Ludmila treina pelo menos cinco vezes por semana, faz musculação e dança (zumba e fitdance). “Tenho facilidade para engordar e não quero deixar de comer brigadeiro nas festas nem de tomar minha cervejinha. Então, malho para manter o meu peso atual”, diz ela, que veste manequim 46 e já chegou a 110kg.

Fisiculturista sádico

Isso foi depois de terminar um relacionamento abusivo com um catarinense que tinha “corpo de fisiculturista” e a agredia física e psicologicamente. “Ele não me aceitava, queria a todo custo que eu emagrecesse.  Eu cheguei a perder 20kg, mas sofrendo muito.” Um dia, Ludmila descobriu que o agressor a traía e passou a ter crises de fortes de ansiedade e pânico, “a ponto de ir parar no pronto-socorro, achando que ia morrer”.

Passou. “Eu escolhi me aceitar”, diz ela. Depois de deixar claro que “o movimento plus size não é uma apologia ao sobrepeso”, Ludmila afirma que nunca se sentiu tão feliz. “Hoje, estou com a pessoa que eu amo, trabalho com o que eu gosto e me sinto maravilhosa!”

Benzadeus.

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Homens demoram a perceber câncer de mama porque não pensam na possibilidade http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/01/homens-demoram-a-perceber-cancer-de-mama-porque-nao-pensam-na-possibilidade/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/12/01/homens-demoram-a-perceber-cancer-de-mama-porque-nao-pensam-na-possibilidade/#respond Sun, 01 Dec 2019 07:00:52 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22996 Entre o final de 2016 e o meio de 2017, os médicos do plano de saúde que atenderam o vidraceiro Anderson Pereira da Silva, 41 anos, diziam que o que ele tinha era uma “possível íngua” e o mandavam para casa com uma receita de amoxicilina (antibiótico). Mesmo quando o nódulo no peito direito de Anderson estava “praticamente do tamanho de um limão”, e ele sentia dores que o impossibilitavam de mexer o braço, os doutores insistiam no diagnóstico.

Por sua vez, o vidraceiro jamais aventaria a possibilidade de estar com um tumor na mama: “Eu nunca tinha ouvido falar de homem com câncer no peito.”

Veja também:

Mesmo com dores e um caroço do tamanho de um “limão” no peito, os médicos levaram um ano para diagnosticar o câncer (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Coisa de mulher?

Nenhum dos doutores teve a ideia de pedir um exame de ultrassom na região onde estava o “limão”. Na época, a firma em que Anderson trabalhava foi a pique, ele ficou desempregado e perdeu o plano de saúde. Com muita dor, buscou atendimento no Hospital Geral da Pedreira, do SUS (Sistema Único de Saúde), na região centro sul de São Paulo.

Ali, enfim, fizeram um ultrassom, e o radiologista prenunciou tempos sombrios: “Tô vendo um negócio aqui meio grave. Já vi várias vezes isso aí, mas em mulher. Nunca vi em homem. Posso te dizer com certeza: é um câncer.” Naquele momento, abriu-se na mente de Anderson “uma cratera escura e sem fundo”.

Direto pra funerária

“Comecei a pesquisar o assunto na internet, só via palavras como  ‘diagnóstico tardio’; ‘metástase’; ‘foi a óbito’. Pensei: ‘Vou comprar o caixão’. Liguei para um amigo que trabalha em uma funerária e contei o que tinha acontecido. Disse: ‘Vou morrer, mano’. E ele: ‘Ah, se liga, deixa de ser palhaço. Não vou nem dar ideia para você. Depois a gente conversa.'”

Encaminhado a um posto de saúde, para se consultar com um mastologista, Anderson esperou mais sete meses para conseguir uma hora. “Quando você cai nos postos, aí ferrou, é esquecido mesmo”, diz. Desesperado, ele pediu ajuda a uma agente comunitária de saúde da Prefeitura, que é sua vizinha e costuma fazer ronda na região onde mora, no Grajaú, zona sul. “Ela disse: ‘Anderson, o médico não está passando no posto’.

Sem orientação

Até então, ele não tinha conhecimento da existência do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), onde ele deu esta entrevista, nem do AC Camargo Cancer Center, as duas principais referências no tratamento da doença. “Eu não sabia nem por onde começar, para onde ir, o que fazer. Eu não tinha certeza de nada, ninguém dava nenhuma informação nem mostrava um caminho.”

Finalmente, depois que ele literalmente levantou a camisa e mostrou o caroço para a vizinha agente saúde, ela achou que deveria levar os exames para um clínico geral “dar uma olhada”. Imediatamente, o médico mandou chamar Anderson, e o encaminhou a uma mastologista.

Pior dor da vida

A doutora perguntou: “Você aguenta fazer uma punção?” E o preveniu: “Mas é sem anestesia tá?” Anderson não sabia o que era uma punção, mas toparia qualquer coisa naquele momento, para aliviar o desconforto.

Foi então que ele enfrentou “a pior dor” que já havia sentido na vida (“e olha que eu já caí de moto; desloquei a clavícula duas vezes; rasguei o braço esquerdo com a queda de uma placa de vidro, o osso saiu do lugar, perdi o movimento da mão…”).

Mais adiante, em outras duas punções feitas com anestesia, os médicos “ficaram bestas” quando souberam da experiência “a frio”. Ele explicou: “A mastologista era legal, o problema é que o posto estava sem anestesia, e não havia previsão de chegar.”

‘Vai dar certo, pai’

O exame ficaria pronto em duas semanas, mas em dez dias o chamaram. Embora ninguém tenha adiantado o estágio do tumor, disseram que era “gravíssimo”. Encaminharam-no ao AME (Ambulatório Médico de Especialidades) Dr. Geraldo Paulo Bourroul, uma entidade filantrópica que se dispõe a cooperar com o sistema de saúde pública federal, estadual e municipal (de São Paulo).  

Casado com uma policial militar, um filho de 11 anos, Anderson preferiu ir desacompanhado. “Chorei no caminho, queria estar sozinho. Mas antes falei abertamente sobre o assunto com meu filho, que tem uma postura de adulto e é meu grande companheiro. Mais tarde, ele me ajudou a tomar os remédios nos horários certos, quando eu estava grogue.”

O garoto sempre disse: “Vai dar certo, pai!”

Era só um carocinho…

Por aqueles dias, trabalhando como pedreiro em uma obra, Anderson sentiu uma forte dor na coluna, se desequilibrou e caiu no chão. “Os colegas me levantaram, me encostaram em um cantinho, eu voltei ao AME.” Descobriram então que ele estava com metástase na axila. O médico disse que ali não havia mais recursos para continuar a tratá-lo. E o encaminhou para o Icesp.

Em abril de 2018, depois de se consultar com uma oncologista do insitituto, ele foi submetido à nova bateria de exames. Os resultados apontaram metástases na axila, coluna, sangue e fígado. Àquela altura, o tumor, muito agressivo, estava encostando no osso, e uma eventual  cirurgia apresentava riscos de sequela: “Eu  poderia ficar com o movimento do braço comprometido”, conta.

Ele se lembra perfeitamente do dia em que ouviu “aquela bomba”. “Os médicos foram fantásticos, disseram que hoje há tratamentos avançados, e que havia muitos recursos.” Eram por volta das 18h quando Anderson tentou digerir a notícia junto com um sanduíche que comeu na cantina do instituto, enquanto tentava se convencer de que “não estava tão ferrado assim”.  Ao mesmo tempo, não parava de pensar: “Putz, era só um carocinho no peito…”

Eis a questão

A atenção que recebeu no instituto resultou em uma significativa recuperação no estado físico e psicológico de Anderson. Ele ainda sente dores, mas diz que seu estado geral é incomparavelmente melhor. “Fiz quimio, radio, as metástases estacionaram, os médicos dizem que estou indo bem.”

A pergunta que não quer calar: “De que forma  um paciente como ele pode evitar a via crucis percorrida durante um ano e ir direto a especialistas que não tomarão um tumor maligno como íngua, nem farão punção sem anestesia?”

A assessoria do Icesp explica que, por causa da grande demanda de pacientes, seria impossível atender todo mundo. É preciso estabelecer prioridades. À frente estão os casos muito graves e os pacientes que moram em regiões próximas do hospital.

Parece irônico, mas Anderson foi “salvo” por estar entre os casos gravíssimos. Não mora perto, nem pode se queixar de gastar duas horas e meia para chegar ao instituto (e de vomitar várias vezes até chegar em casa, depois das sessões de radioterapia). Apesar de tudo o que passou, ainda tem de reconhecer que, diante da precariedade da saúde pública disponível, ele é um privilegiado.

Palavra de especialista

Anderson topou posar para foto sem camisa, mostrar o rosto e dar depoimento porque acredita que pode ajudar muitos homens que estejam na mesma situação em que ele se encontrava há três anos. De toda forma, a atitude de aparecer “de peito aberto” publicamente é tida como rara entre os pacientes de câncer de mama.

A oncologista Laura Testa, chefe do grupo de onco-mama do Icesp, afirma que “os homens se sentem constrangidos de se expor, porque é uma doença que remete à feminilidade”. “Nas salas de espera, praticamente só há mulheres. Os cuidados são todos voltados para elas. Eventualmente, eles não se sentem acolhidos”, explica.

Pequeno notável

Laura diz que, no Brasil, há 60 mil casos de câncer de mama por ano e, desses, 1% são homens. Assim, é normal que o paciente sequer considere a possibilidade, e leve tempo para associar os primeiros sintomas à doença. Ainda assim, afirma a médica, “não faria sentido propagar a necessidade de se pedirem exames preventivos, como a gente faz com as mulheres”.

Ela garante que, apesar de mais raro, o tumor no homem “aparece mais”. “A mama masculina é muito pequena, então qualquer pequena alteração é facilmente notada.” Laura diz que o principal sinal é uma nodulação atrás do mamilo, ou perto da axila.  “O homem que conhece o próprio corpo vai perceber que há algo estranho. Enquanto na mama de uma mulher um nódulo de 1cm facilmente passa despercebido, na dele faz diferença.”

No fim, tudo se resolve

Quando a cirurgia de retirada do tumor é indicada, nem sempre é possível preservar o mamilo  —  exatamente porque a mama é muito pequena. Laura explica que é normal que o homem se sinta intimidado ao expor o peito sem mamilo, especialmente quando está em ambiente público, mas garante que o tamanho da cicatriz diminuiu muito com a tecnologia: “Como no caso da mulher, existe a possibilidade de reconstrução.”

Por último, mas não menos importante, a médica afirma que, diferentemente de tumores como o da próstata ou bexiga, o da mama a princípio não afeta a sexualidade do paciente — a não ser durante o tratamento.

 

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Cantora Priscilla Alcântara atrai cristão conservador, LGBT e agnóstico http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/27/cantora-priscilla-alcantara-atrai-cristao-conservador-lgbt-e-agnostico/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/27/cantora-priscilla-alcantara-atrai-cristao-conservador-lgbt-e-agnostico/#respond Wed, 27 Nov 2019 07:00:19 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22892 Tudo no espetáculo da cantora evangélica Priscilla Alcântara, 23 anos, corre como o esperado. Antes da apresentação do pequeno musical que antecede o show, na tarde de sábado (23), ela anuncia a presença de Jesus, o público chora e ri ao mesmo tempo, com as mãos levantadas e, de vez em quando, alguém grita: “Aleluia!” ou “Glória a Deus!”

Para um leigo, a única pessoa ali com reais motivos para estar tão emocionada, a ponto de as lágrimas escorrerem e a voz sair estrangulada, é a própria Priscilla, que conseguiu atrair mais de 4.000 pessoas para assisti-la em um único show da turnê ASU (Até Sermos Um), produzida por ela, que percorreu oito cidades do Brasil e tem um tíquete médio de R$ 60.

Ela conta que sua menor audiência foram 2.000 pessoas. Nada surpreendente, para uma artista que é acompanhada no Instagram por 5,3 milhões de seguidores. No sábado, os fiéis tiveram o privilégio de participar da gravação do DVD do show, com direito a quase oito horas de atrações.

Veja também:

O repertório do show é composto por 12 músicas da própria Priscilla, e uma da cantora britânica Jessie J  (Fotos: Paulo Sampaio/UOL)

Jesus merece

Antes que alguém pense besteira, ela diz: “O dinheiro que você pagou para entrar aqui foi só para que houvesse uma estrutura digna de Jesus. Você não pagou para experimentar um conteúdo mercadológico, um conteúdo gospel. Você está no mesmo lugar que a presença de Jesus escolheu estar”.

No caso de Priscilla, o público fiel a Deus se mistura ao fiel apenas a ela (que, por sua vez, representa a “presença de Jesus”). Ela teve a habilidade de abrir as portas do templo “a quem quisesse entrar” e, apesar de sua pregação apresentar peculiaridades de um culto evangélico clássico, consegue juntar, em um mesmo ambiente, o cristão conservador de várias vertentes do protestantismo, o integrante da comunidade LGBT –incluindo uma umbandista– e o agnóstico.

Arte plural

“Meu namorado não veio porque acha que a Priscilla é modinha. Acontece que ela se diferencia muito dos outros cantores de igreja porque tem um público diverso. A arte dela é plural”, acredita a analista Giovanna Carotruso, 20 anos, que está na primeira fila e teve a maquiagem “lavada pelas lágrimas”.

No palco, pregando, Priscilla está de joelhos, com a testa encostada no chão, e a todo momento enxuga os olhos: “Hoje é um dia especial, não sei se você consegue sentir isso, mas eu poderia ficar o dia inteiro curtindo a presença Dele, porque Ele realmente veio. Ele não foi um nome entoado em canções, eu tô te afirmando a presença de Jesus, a pessoa Dele está aqui…”

Espremido na grade

O universitário Eder Gonçalves, 27, de São José dos Campos, acordou às 5h para pegar um bom lugar na plateia e agora se espreme na grade que limita o acesso ao palco, na fila do gargarejo. Ele repete o que Priscilla diz em sua pregação, como se fosse um Amém incondicional: “Ela representa a presença de Jesus. Ao mesmo tempo em que é ela no palco, poderia ser qualquer um ou ninguém.”

Eder está com duas amigas que, assim como ele, também se emocionam: “A gente não chora porque Jesus nos emociona, e sim porque Ele está aqui”, assegura a universitária Isabely Araújo, 19 anos.

O universitário Eder Gonçalves, ladeado por Giovana, Isabely e Mylleny Beatriz (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Tudo sobre a fé

Em uma livre-associação de palavras, Priscilla segue pregando num crescendo de emoção, até algo próximo do desatino. “Nossa, é tão forte isso pelo qual vivemos, que decidirmos viver é algo que transcende o tempo. Nas lágrimas, o único sopro, a fé é um legado que ninguém vê como se forma. Ninguém tem uma fórmula mágica de como guardá-la ou como não perdê-la, tem um bastão que vamos passando, próximo à linha de chegada…”

“A Priscilla não faz assunção [distinção] entre as pessoas. Você vai encontrar aqui, por exemplo, muita gente da comunidade LGBTQ”, diz Isabely.

O sobrenatural

“Nós não estamos amassando grade à toa. A gente sabe que está para acontecer algo sobrenatural nesta noite e queremos fazer parte disso”, diz a universitária Giovana Malta, 22.

Priscilla vai em frente: “A alegria do Senhor está se espalhando por esse lugar [resfolega]. Eu vejo o sorriso de Jesus curando uma geração. É o simples sorriso de Jesus: feche seus olhos e sorria com ele, é só isso que você precisa fazer”. Ela garante: “Isso não é fantasia, isso é conhecer com intimidade a pessoa de Jesus. Não tenha medo: nós somos íntimos, por isso que nós falamos essas coisas. Pra quem não conhece é loucura, mas para os íntimos, isso é real.” Aleluia!! Aleluia!!

“Algo de sobrenatural está para acontecer aqui nesta noite”, afirma a universitária Giovana Mota, que se espreme na fila do gargarejo para assistir ao show (Fotos: Paulo Sampaio/UOL)

Lula Livre!

A parte não cristã do público de Priscilla diz que o bom de seu repertório é que ela não cita nominalmente Jesus em todas as músicas, “só dá a entender”: “Você pode encaixar quem quiser naquele personagem. Eu encaixo o boy [namorado]”, diz o publicitário gay Cauê Lopes, 29, que se define como agnóstico, conta que veio apenas por causa da música de Priscilla e trouxe quatro amigos que pouco a conheciam para assistir ao espetáculo.

Ao que parece, o grupo despreza o musical que precede o show. Nele, figuras primitivas, em andrajos estilizados, grunhem no que parece ser uma metáfora da salvação. Um dos amigos de Cauê diz que não está entendendo nada. Outro faz uma careta irônica e responde que “não é pra entender, é para sentir”.

Alguém no meio da plateia grita “Aleluia!”. Um dos gays replica: “Lula Livre!”

Bullying da sapatona

Empolgado, Cauê Lopes conta aos amigos que, no clipe de “Empatia”, carro-chefe de um álbum de Priscilla, “a Santa Ceia só tem mulheres, Jesus é negro e vem para salvar uma sapatona que sofre bulliyng”.

O publicitário Cauê Lopes (à esq.) e os quatro amigos que levou para conhecer o trabalho de Priscilla: Thales, Mateus, Henrique e Mateus Aguiar (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

No fundo da plateia, solitária, a universitária Tatiane Costa, 25 anos, conta que nasceu lésbica, cresceu em uma família evangélica e fez de tudo para reprimir sua atração por mulheres: “Eu ficava repetindo que não podia sentir aquele desejo, mas não adiantou”.

Há quatro anos, quando cortou o cabelo para doar para uma entidade de combate ao câncer, Tatiane diz que foi rejeitada na igreja. “Deixaram de me chamar para as atividades, fui excluída”, lembra. Ela se encontrou na umbanda, onde, segundo diz, ninguém impõe nada (“não me dizem como devo ser, falar ou me sentar”).

Rejeitada na igreja evangélica, a universitária lésbica Tatiane Costa tornou-se umbandista e foi ao show de Priscilla porque a admira como artista (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Mistério do amor

Priscilla, ela mesma, diz que nunca namorou ninguém. O assunto coração, ali, jaz envolto em uma aura de mistério. “Tá ruim o negócio”, resume ela, vagamente. Insisto: como pode uma jovem falante, esperta, nada feia, muito assediada não ter sequer experimentado um namoro?

“Pode deixar que, quando acontecer, eu faço uma coletiva de imprensa”, desconversa.

Ela explica que o repertório do show é todo autoral, exceto por uma música da cantora britânica Jessie J, que já se declarou bissexual: “Eu me identifico muito com ela”, diz.

Mocinha nas nuvens

No braço esquerdo, Priscilla ostenta a tatuagem de “uma mocinha com nuvens ao redor da cabeça” –o maior desenho dos cerca de dez que tatuou pelo corpo. “Eu queria uma figura feminina”, diz ela no camarim, enquanto se submete aos cuidados do cabeleireiro Dindi Hojah, 33. Antes de ser templo da igreja Bola de Neve, o lugar abrigava a casa de espetáculos Olympia.

Hojah finaliza o penteado, umedecendo os cabelos repartidos no meio, fixando uma presilha de cada lado. Os fios já foram compridos, tingidos de roxo, mais curtos de um lado do que de outro…

No camarim, entregue aos cuidados do maquiador Dindi Hojah (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Focada no trabalho

“A Pri está focada no trabalho”, diz Paula Alcântara, 47, mãe da cantora, tentando explicar a solteirice da filha. Paula, o marido e a filha mais velha do casal, irmã de Priscilla, correm de lá pra cá nos bastidores, ocupados na coordenação do espetáculo.

A carreira de Priscilla Alcântara começou ainda na infância, aos seis anos, quando ela tirou primeiro lugar em um concurso de cantores infantis no programa de Celso Portiolli, no SBT.

Soul e black music

“Desde muito novinha, a Pri não executava nada infantil. Sempre gostou de soul e black music”, conta Paula. “Eu fazia aula de música, e um dia ela estava me ouvindo e disse: ‘Mãe, você tá fazendo errado’. Ela tinha cinco anos e estava com razão em me corrigir. Eu e meu marido achamos que deveríamos investir nela.”

Portiolli apresentou o trabalho dela a Silvio Santos, que a convidou para estrelar o programa “Bom Dia & Cia” no SBT. Priscilla tinha então 8 anos. “Ela foi a primeira apresentadora infantil da TV”, afirma Paula. “Era ela e o Yudi Tamashiro.”

Com a popularidade alcançada no programa, a carreira de cantora deslanchou. Aos 17, ela estava se apresentando em shows. “Como mãe, eu tento não elogiar muito, mas como musicista, reconheço uma qualidade excepcional nela.”

Rica de amigos

Ficou rica? “O objetivo não é o cachê”, assegura Paula. “O principal é que a igreja apresente algo de qualidade, de excelência.  Não queremos mais aquela história de violão e musiquinha.”

A pregação de Priscilla está quase no fim. “Jesus não vai parar o que está fazendo aqui… Eu sinto que ele não vai parar… [ela ri emocionada, enxugando o rosto]. Eu sou pentecostal, então ficaria nessa, meu filho, vixe, para sempre…”

Segue-se uma profecia: “A arte brasileira vai mudar, gente. Eu não tô dizendo que vai ser gospel. Mas vai ter os valores do reino…”

Logo, o show começa.  Digo “merda pra dar sorte” e pergunto se uma cristã com tamanha popularidade pode falar palavrão. Ela responde que sim, e que não fala por causa de sua formação. Não nega que tem “uma responsabilidade em relação a Deus”. “Represento alguém,  e essa pessoa é Jesus. A coisa é mais entre eu e Ele [sic] do que entre eu e a sociedade.”

Ali, no camarim, tudo bem. “Merda pra dar sorte eu posso”, diz ela, rindo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Duplo preconceito: “Não tenho duas cores, eu sou negro”, diz modelo http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/20/duplo-preconceito-nao-tenho-duas-cores-eu-sou-negro-diz-modelo/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/20/duplo-preconceito-nao-tenho-duas-cores-eu-sou-negro-diz-modelo/#respond Wed, 20 Nov 2019 07:00:24 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22785 Apesar de a Sociedade Brasileira de Dermatologia estimar que mais de 2 milhões de pessoas têm vitiligo no País, frequentemente o modelo negro Akin Cavalcante, 36 anos, precisa recorrer ao didatismo para explicar aos desinformados que ele não está “tentando ser branco”. Nem que tem chances de conseguir “50% de cota na universidade pública”.

Nos textos que publica sobre o assunto no Instagram, ele parte do beabá: “O vitiligo não é cor nem etnia. A pele não fica branca, mas perde a pigmentação. O vitiligo não altera a identidade racial das pessoas, já que todas as características e traços étnicos ficam preservados. Uma pessoa que nasceu negra e tem vitiligo continua sendo negra, e uma pessoa que nasceu branca e tem vitiligo continua sendo branca. O mesmo ocorre com albinos, cuja ausência de pigmento na pele é total, mas a gente consegue identificar facilmente pelos traços raciais os que são de origem branca ou negra.”

Veja mais: 

O vitiligo apareceu quando Akin tinha 18 anos e percebeu um ponto de despigmentação ao redor da boca (Fotos: Augusto Wyss e Henrique Falci/Divulgação)

Orgulho e preconceito

Especialistas afirmam que o vitiligo não é contagioso e não traz prejuízos à saúde do corpo, mas costuma causar transtornos de ordem psicossocial — pela alteração estética na fisionomia do paciente. O tamanho das lesões varia, assim como o local onde aparecem. O tipo de vitiligo de Akin é o mais comum — classificado como “não segmentar ou bilateral”, aparece principalmente nas mãos, pés e cotovelos, e pode se espalhar pelo rosto.

Apesar do impacto que a doença causa na aparência, Akin considera o preconceito racial mais opressivo do que a discriminação em função do vitiligo. “Você pode me achar feio, por causa da despigmentação, e me rejeitar pelo meu aspecto — ainda que eu fosse branco. Mas o preconceito de raça discrimina o negro socialmente, tenta desqualificá-lo no ambiente de trabalho, na fila do banco, no pronto-socorro, enfim, nas mais diversas situações.”

Identidade forte

Hoje, Akin reconhece que não pode reclamar de falta de oportunidade profissional. O mercado nunca valorizou tanto a diferença. “Diversidade é a palavra da hora“, diz. “Antes, a nossa imagem era usada para chocar. Hoje, ela cria identidade para as marcas.” Ele conta que já há um filtro que reproduz manchas no rosto da pessoa fotografada, para que ela tenha o aspecto de um paciente com vitiligo.

O estilista Leo Bronk’S, da Cavalera, conta que 80% de seu casting na  última edição da Fashion Week, incluindo Akin, era formado por negros, modelos com idade ou altura fora do padrão para passarela, plus size, estreantes que jamais haviam tido contado com a moda, homens e mulheres trans, e um albino.

“Nosso conceito se resume em duas palavras: resistência e versatilidade”, diz Bronk’S. “É assim que achamos que se deve reagir a problemas e frustrações. Se não formos habilidosos o suficiente para driblarmos situações contrárias ao nosso planos, estaremos sempre sujeitos às imposições sociais. Seremos como querem que sejamos.”

Cada um na sua

Bronk’S, que é negro, afirma em letras garrafais que não pretendeu preencher COTAS. “Em contrapartida, o impacto no desfile foi grande, especialmente em comparação ao que apresentamos na coleção anterior. Desta vez, os modelos usaram as peças como quiseram, e puderam expressar sua identidade livremente.”

Modelo tardio, Akin iniciou a carreira em 2017, aos 34, quando jovens de um coletivo negro chamado Mooc entraram em contato com ele pelo Facebook, para perguntar se interessava participar de um comercial de cerveja. Sociólogo de formação, com direito a três anos de estudos na França, ele sonhava em ser diplomata.

Eu, modelo?

Akin conta que a baixa autoestima e o temperamento retraído, ambos consequência do duplo preconceito, o fizeram reagir assustado à proposta de fazer o comercial. “Imagina, logo eu? Não gostava nem de fazer foto caseira. Eu queria sempre me esconder”, lembra. Não teve jeito. Ele acaba sendo sempre o que mais aparece. Já nesse primeiro comercial, de cerveja, sua imagem viralizou.

“O comercial explorava o colorismo, com 14 modelos de várias cores, numa espécie de degradê. Os primeiros spoilers da campanha eram de uma foto em que eu aparecia entre duas modelos. Essa imagem foi vista em vários países e também nas comunidades de vitiligo. Aconteceu um boom nas redes sociais.”

Entre as modelos Sue Cardoso e Leticia Bonchristiano, na primeira imagem comercial veiculada, de um anúncio de cerveja: boom nas redes sociais (Foto: Divulgação)

Valorização da diferença

Pedro Bittencourt, 23 anos, agente de Akin, explica:  “Aqui na (agência) Rock, a gente parte do princípio de que ninguém é igual. O Akin é um modelo negro, que tem vitiligo. Então, nossa missão é mostrar para a publicidade o homem que ele é. Do mesmo jeito que mostramos o loiro ou a plus size. Quando o produtor do casting de um comercial pede um homem negro entre 30 e 40 anos, eu mando o Akin.”

Segundo Bitecourt, “Akin é muito requisitado justamente por que passou a ser muito visto”. “Sem contar que é fotogênico, carismático e sabe trabalhar em conjunto. Além da missão da própria Rock, ele tem a dele, que é afinada com a da agência.”

Preta, Anitta e Lexa

Talvez por não ter investido desde sempre na carreira de modelo, como tantos jovens, Akin mostra que tem plena consciência do que a exposição representa, e aproveita a visibilidade para empunhar bandeiras contra o preconceito e a discriminação:

“Acredito que o papel do modelo pode ser bem mais importante do que caminhar de lá pra cá em uma passarela, ou posar para fotos. A indústria da moda tem usado a diversidade de uma maneira oportunista, superficial, sem a menor pesquisa. Eles entendem que existe um movimento globalizado e que têm de escalar figuras diferentes para conseguir destaque. Colocam o negro para desfilar, o plus size, o trans, aquele monte de pessoas que não são os consumidores daquelas roupas, sem saber nada sobre o universo delas.”

Nesses dois anos, Akin não só participou de campanhas importantes, como também de clipes das cantoras Preta Gil, Anitta e Lexa. “O Akin era exatamente o que eu sempre busco no meu trabalho, a quebra de estereótipos óbvios e de padrões colonizadores”, diz a produtora de elenco e coordenadora de produção do clipe de Lexa, “Provocar”, Wanisy Roncone, 30. “Chega daquele papo de que não pode ser preto, gordo, gay ou trans. Quero ver uma outra vertente discursiva, outras narrativas, ‘um novo começo de era, sabe?'”

Com Anitta, no clipe “Não Perco Meu Tempo”; e com Lexa, em “Provocar” (Foto: Rodolfo Magalhães/Divulgação)

Inclusão? Tô fora

Akin acha louvável a iniciativa de muitos estilistas e diretores, mas afirma que tem um pé atrás com a palavra “inclusão”. Para ele, faz supor que há um lugar ideal, ao qual todos devem pertencer — como um parâmetro de correção. “Incluir é fazer com que a pessoa entre nesse lugar. Aí, ela entra, e deixa de ser ela, para agir naquele padrão. De que adianta?”

Ele diz que costuma ser lembrado tanto hoje (20 de novembro), Dia Nacional da Consciência Negra, como também em 25 de junho, Dia Mundial do Vitiligo. Em ambas as datas, aproveita para tentar “desconstruir o senso o comum”. “Por causa dessas ideias conservadoras, muita gente preferia acreditar que o Michael Jackson queria mudar de raça — e não que tivesse vitiligo. É comum, aliás, me chamarem de Michael Jackson (além de dálmata, mancha, malhado..) ”

Questionador, Akin lembra que inúmeros artistas se submetem a cirurgias plásticas e procedimentos estéticos para corrigir alguma imperfeição no rosto ou corpo, ou mesmo para mudar radicalmente a aparência, sem que tenham como “desculpa” o vitiligo.

Pirados em mancha

Definindo-se como preto, pobre e periférico, Akin conta que ele e a irmã sete anos mais velha foram criados pela mãe, que se separou do marido quando os dois eram crianças. Para dimensionar o tanto que sua vida mudou desde que passou a trabalhar como modelo, ele diz que a recente visibilidade atraiu enxurradas de elogios, um número menor de críticas e até propostas de fetichistas.  “Tem uma galera que é pirada em mancha. Já recebi proposta de dinheiro para sair. Alguns querem só saber se eu tenho vitiligo na genital.”

Pergunto como saber se uma pessoa está olhando para ele por curiosidade, ou por se sentir atraído fisicamente.  “Ah, dá para saber”, garante ele, que está namorando há um ano “uma pessoa do samba”. Akin explica que “existe uma diferença entre você ter vitiligo na Avenida Paulista, na periferia de SP, no interior do estado ou no interior do Piauí”. “Eu construí uma imagem mais cosmopolita para mim, por causa da maneira de vestir, de me comportar, de ter morado fora, isso faz muita diferença.”

Veja bem…

Como boa parte das pessoas que são (ainda mais) julgadas pela aparência, Akin em geral está preparado para perguntas que ele considera mal formuladas. Na última edição do Fashion Week, alguém quis saber se ele algum dia imaginou que o fato de ser negro e ter vitiligo o levaria às passarelas.

Resposta: “Não foi isso que me trouxe às passarelas. O que me trouxe foi o que eu fiz com isso.”

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De 1919 a 2019: cem anos de diversidade no cinema http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/17/diversidade-sexual-no-cinema-de-todos-os-tempos-e-tema-de-curso-em-sp/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/17/diversidade-sexual-no-cinema-de-todos-os-tempos-e-tema-de-curso-em-sp/#respond Sun, 17 Nov 2019 07:00:45 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22643 Especialistas enxergam no filme “Sangue Vermelho” (“Call Her Savage”), de 1932, o  primeiro registro de um bar gay no cinema. Em Nova York, um amigo gigolô da personagem Nasa Springer (Clara Bow) a leva a “um lugar onde só poetas radicais e anarquistas vão”. Em uma mesa do bar, frequentado apenas por cavalheiros de costume, um deles passa o braço por cima do ombro do outro. Basicamente isso.

O filme está entre os citados no curso “Cinema Queer — No Brasil e no Mundo”, ministrado a partir do dia 28 no InC (Instituto de Cinema), em São Paulo, pelo cineasta Lufe Steffen, 44 anos, e o crítico Bruno Carmelo, 34.

Veja também

“Call Her Savage”: a entrada de Nesa Springer e seu colega gigolô agita a atmosfera do primeiro bar gay retratado no cinema; a única alusão “queer” é um braço no ombro do colega de mesa (Foto: Reprodução)

Bixa Travesty

Para a época de “Sangue Vermelho“, a cena do bar tornou-se tão significativa que passou a ser considerada um marco. Hoje, não seria suficiente para definir sequer a orientação sexual dos dois amigos. Na Alemanha, já se fala em mais de 70 diferentes identidades de gênero.

Em fevereiro, o prestigiado Festival de Cinema de Berlim premiou o documentário “Bixa Travesty” (Brasil, 2018) com o Teddy Awards, destinado a filmes de temática LGBTQI+. “Bixa” trata da vida da cantora trans brasileira Linn da Quebrada, 29 anos, que se declara “bicha”, “travesti” e “mulher cisgênero”.

Linn da Quebrada, do documentário “Bixa Travesty”, autodeclarada “bicha”, “travesti” e “mulher cisgênero” (Foto: Reprodução)

Queer quem?

O avanço globalizado do debate sobre orientação sexual e identidade de gênero foi tamanho que, hoje, já se considera plausível usar o termo “queer” no título de um curso de cinema — numa suposição de que o todo o mundo sabe do que se trata.

Ao pé da letra, “queer” quer dizer “excêntrico”, “esquisito”. A comunidade gay aceitou propositalmente a menção depreciativa, como forma de se diferenciar do que é normal ou normativo. Steffen e Carmelo falam em uma “identidade de gênero fora do padrão hétero dominante”. (Esse parágrafo serve apenas para explicar que é preciso muita cautela no uso dessa nomenclatura, uma vez que se tornou uma bandeira politico-ideológica cara aos esquisitos de todos os gêneros).

Casal diferente

No curso, Carmelo se incumbe dos filmes estrangeiros, especialmente americanos e europeus, e Steffen, dos nacionais. Como seria impraticável citar tudo, a dupla faz um recorte cronológico do que considera importante, a partir do começo do século passado.

O primeiro longa-metragem a mostrar claramente o relacionamento afetivo entre dois homens foi o alemão “Diferente dos Outros” (“Different from the Others”), de 1919: um professor de violino e seu aluno se apaixonam e são chantageados por um vigarista que os flagra de mãos dadas. O final não é feliz.

“Different from the Others” é considerado o primeiro filme da história com temática homossexual (Foto: Reprodução)

Robe de plumas

Em “Levada da Breca” (“Bringing up Baby”), de 1938, a palavra “gay” (alegre, em inglês) faz seu début no cinema como sinônimo de homossexual. Dr. David Huxley (Cary Grant) é feito refém por Susan Vance (Katherine Hepburn), que o tranca em casa para que ele não se case com outra; obrigado a usar as roupas dela, ele se aperta em um robe debruado com plumas, ao sair do banho. Susan comenta, rindo, que ele está “bem gay”.

Dr. David Huxley com o robe de Susan Vance (Foto: Reprodução)

Sissy, o afeminado

Durante as décadas de 30, 40 e 50, explica Carmelo, o cinema americano usou muito a figura da “sissy” (gay afeminado), que em geral era o melhor amigo da protagonista. Sempre disponível para admirá-la, a “sissy” não se relacionava com outros homens nem frequentava ambientes gays. O ator Franklin Pangborn (1889-1958) é um clássico intérprete de “sissies”:  fez o papel cerca de cem vezes. 

Naquela época, os estúdios de Hollywood adotaram o Código Hays, um conjunto de normas criado para moralizar os roteiros. O personagem gay, quando havia, ou era uma “sissy” (que o tornava palatável) ou estava associado à depressão, punição e morte.

Eis que a recém-surgida televisão aborda os mesmos assuntos  “leves e familiares” (admitidos pelo Código Hays), e assim rouba muito da audiência do cinema –que, para se recuperar, precisa recorrer a temas que seriam censurados no horário nobre. A homossexualidade estava entre eles.

Franklyn Pangborn: cerca de cem sissies no currículo (Foto: Reprodução)

Fassbinder e Almodóvar

Constam ainda do roteiro de aula de Carmelo clássicos densos, como “Infâmia”(1961); tresloucados, como “The Rocky Horror Picture Show” (1975);  divertidos, como “Priscila, a Rainha do Deserto” (1995); prosaicos, como “Minha Vida em Cor de Rosa” (1997); heteronormativos, como o “O Segredo de Brokeback Mountain” (2006); e politizados, como “Milk” (2009).

Em uma referência ao conjunto da obra, citam-se a sombria filmografia do alemão Rainer W. Fassbinder, que morreu por uma overdose de cocaína em 1982; as tintas fortes do americano Gus Van Sant; e a colorida genialidade do espanhol Pedro Almodóvar.

O blog incluiria entre os obrigatórios “Um Bonde Chamado Desejo” (1951) e “Gata em Teto de Zinco Quente” (1958), ambos baseados em peças de Tennessee Williams; “Os Rapazes da Banda” (1970); “Morte em Veneza” (1971); “Parceiros da Noite”(1980); “Fome de Viver” (1983); “Furyo” (1983); “Filadelfia” (1993) e “Notas Sobre um Escândalo” (2006).

Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, em “O Segredo de Brokeback Mountain” (Foto: Divulgação)

Paris is Burning

Entre os documentários, a peça de resistência é o incendiário “Paris is Burning” (1990), de Jennie Livingston. Considerado um dos mais importantes registros do comportamento queer, o filme explora os delírios de grandeza e o sentimento de exclusão de uma comunidade gay no Harlem, bairro negro de Nova York, onde se promovem competições de desfiles de passarela, fantasias e danças.

O valioso retrato da época expõe a discriminação de gênero, raça, classe social e sexualidade.  Não bastasse o peso político, o filme tornou-se icônico também por mostrar a origem do “voguing”, o movimento feito com os braços que Madonna transformou em letra de música e consagrou mundialmente.

Menos político, mas tão documental quanto, é “Celluloid Closet”(1996). Faz um apanhado de personagens LGBTQI criados para o cinema e aborda também a eventual homossexualidade dos próprios atores. O filme continua ótimo, mas a exponencial multiplicação do assunto dentro e fora da tela faz crer que ja há farto material para a produção de um “Celluloid Closet 2”, quiçá um 3.

O documentário “Paris is Burning”, que mostra registro de comunidades queer do Harlem, em Nova York (Foto: Divulgação)

Filmes brasileiros

Na parte nacional do curso, que será intercalada com a estrangeira, Lufe Steffen vai explicar que no começo do século passado, até os anos 50, não havia cenas abertamente gays no cinema produzido no Brasil. “Muita coisa é subliminar, a gente deduz. Não existe uma informação concreta”, diz. 

Já nos anos 1950, as comédias produzidas pela Atlântida mostravam figuras como Oscarito e Grande Otelo usando roupas de mulheres, em personagens que não eram homossexuais –apenas gaiatos. Nessas comédias, Steffen vê um quê de queer na composição coruscante dos cenários, na exuberância dos figurinos e nas anedotas de duplo sentido. 

Grande Otelo e Oscarito, travestidos em comédia da Atlântida (Foto: Reprodução)

Nelson e Plínio

No anos 1960 e 1970, apesar da ditadura militar, houve uma tímida saída do armário no cinema nacional, marcadamente em filmes adaptados de peças de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, como “O Beijo no Asfalto”, que explora a homossexualidade como escândalo, e “Navalha na Carne”, o submundo.

“Os censores eram toscos, só prestavam atenção na subversão estritamente ligada à política”, diz Steffen. Desse período, ele cita “A Rainha Diaba” (1974), de Antônio Carlos Fontoura; e “República dos Assassinos” (1979), no qual o namorado da travesti Eloína (Anselmo Vasconcellos) é eliminado pelo grupo paramilitar Esquadrão da Morte. No final, para se vingar, Eloína mata o assassino e foge em um iate. “Ela termina empoderada”, lembra Steffen.

Milton Gonçalves em “A Rainha Diaba” (1974)

Pós-ditadura

Perto do fim da ditadura, antes um pouco do começo da nova república (1985), houve uma leva de longa-metragens que retratavam o descompromisso daquele momento com a politização do tema: “São filmes que falam de diversidade de uma maneira solta, bem-humorada, com cara de nova década mesmo”, diz Steffen.

Em “Bete Balanço” (1984), a personagem de Debora Bloch é bissexual e tem um caso com a de Maria Zilda. O de Lauro Corona aparece na cena final vestindo um casaco de pele branco e óculos de sol chamativos, que Steffen associa à “estética queer”. O filme integra uma trilogia dirigida por Lael Rodrigues, da qual fazem parte “Rock Estrela”(1986) e “Radio Pirata”(1987).

Em São Paulo, os cineastas José Antônio Garcia e Icaro Martins dirigem uma trilogia estrelada pela atriz Carla Camurati, que segue a mesma linha. “O Olho Mágico do Amor” (1981), “Onda Nova”(1984) e “Estrela Nua” (1986) sobrevoam alegremente o universo queer: “Os lançamentos acontecem ao som de rock nacional e da new wave brasileira”, explica.

Em “Bete Balanço”, Diogo Vilela faz um amigo gay da personagem título, interpretada por Deborah Bloch (Foto: Reprodução)

Barra pesada

Na segunda metade dos anos 1980, no auge da epidemia da Aids, a leveza dará lugar à melancolia, “em filmes mais complexos”, como “Anjos da Noite” (1987), uma história estilo barra pesada que reúne prostitutas, bandidos, artistas e garotos de programa.

E então, com o fim da Embrafilme, em 1990, houve o chamado “desmonte” do cinema nacional. Em cinco anos, não se produziu nada. “A retomada foi em 1995, com Carlota Joaquina, da Carla Camuratti. Aí, deu uma engrenada. Em termos de temática LGBTQI+, o único filme produzido na década foi ‘Bocage’, do Djalma Limongi Batista”, diz Steffen.

Depois do desmonte da Embrafilme, em 1990, o longa “Bocage, O Trunfo do Amor” foi único registro com temática LGBTQI+ em toda a década (Foto: Reprodução)

00, enfim

Animados com a extraordinária visibilidade alcançada pelo universo queer, tanto Carmelo quanto Steffen –ele próprio diretor de dois longas (“São Paulo em Hi-Fi” e  “A Volta da Pauliceia Desvairada”)–  falam de uma “explosão de curtas com temática LGBTQI+” e definem o atual momento como “época de ouro”.

Eles citam a importância do Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade, criado em 1993 pelo empresário André Fischer. (Para dimensionar o espaço que a comunidade LGBTQI+ conquistou no mundo, vale lembrar que nos primeiros anos do festival a sigla que era composta por apenas três letras, GLS. Signifcava “gays, lésbicas e simpatizantes”). Agora, em sua 27ª edição, o Mix Brasil apresenta 158 curtas produzidos no país entre 2018 e 2019.

Ao se referir à postura assumidamente homofóbica do atual governo, André Fischer fala em “uma guerra cultural declarada unilateralmente, que tem como principais alvos a educação, a cultura, a ciência e as minorias, em especial a população LGBTQI+”. “Passado o primeiro momento de perplexidade, vimos a cena cultural dita ‘temática’ reagir com vigor. Nunca se produziu e se falou tanto sobre identidade e direitos”.

Já no fim da conversa, Carmelo e Steffen afirmam que, por enquanto, é difícil avaliar o impacto da onda LGBTQI+ no cinema do futuro. “A gente tem de esperar pra ver no que tudo isso vai dar.”

 

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“A ignorância é uma bênção”, diz palestrante da 1ª Convenção da Terra Plana http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/a-ignorancia-e-uma-bencao-diz-palestrante-da-1a-convencao-da-terra-plana/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/a-ignorancia-e-uma-bencao-diz-palestrante-da-1a-convencao-da-terra-plana/#respond Tue, 12 Nov 2019 07:00:22 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22544 Em sua fala durante a 1ª Convenção Nacional da Terra Plana (FlatCon), no domingo, em São Paulo, o maquetista Siddartha Chaibub citou o filme “Matrix” (1999) para afirmar que a humanidade é manipulada por “globolóides” — como ele se refere à comunidade cientifica internacional, composta por estudiosos que definem a Terra como um planeta esférico. “Eles nos tratam como gado, disciplinam as leis e as normas. Somos todos doutrinados. Ninguém nasce acreditando que a Terra é uma bola. A ignorância é uma bênção.”  Chaibub é apresentado no flyer do evento como “Prof. Terra Plana”.

Prof Terra Plana: “Os globolóides nos tratam como gado” (Foto: Ricardo Sena/Divulgação Flat Con)

99,9% de certeza

Promovida pelo jornalista Jean Ricardo Gonçalves, 44 anos, a convenção atraiu ao Teatro Liberdade, na zona central de SP, 400 pagantes (R$ 80, primeiro lote; R$ 110, segundo). Casado, sem filhos (“só gatos”), Gonçalves mora em Jaú, a cerca de 300 km de São Paulo, e diz que começou a pesquisar o verdadeiro formato da Terra em 2015. Hoje, tem “99,9% de certeza” de que ela é plana.

O grosso de sua investigação foi feita em redes sociais “do Brasil e de fora”, onde ele tomou conhecimento de que as fotos da Terra produzidas pela Nasa (agência espacial americana) não seriam reais, e sim resultado de uma sobreposição de muitas imagens. Desde então, algumas perguntas o intrigaram: “Por que o homem não foi de novo à Lua, se a tecnologia hoje está tão mais avançada? Por que outros países não foram? Por que os EUA têm essa hegemonia?”

No discurso de boas vindas ao evento, ele solta uma saudação em tom de hip hurra!: “A FlatCon veio para ficar! Esse processo era necessário! Hoje conquistamos definitivamente nosso espaço merecido! Sejam bem-vindos!” Antes de chamar o primeiro palestrante, ele anuncia um número musical com o baiano Douglas Souza, que “canta até em alemão” e compôs uma canção chamada “A Terra é Plana”.

A letra:

Eu sei, já escalei montanhas/ eu vi o outro lado/ e o outro lado é só um lugar onde a gente não foi/hmmm/humm/hmmm/O mundo é plano e sem fronteiras/é campo aberto/abri meus olhos e finalmente enxerguei/que isso não vai mudar/até que o tempo acerte o seu lugar

(…)

Vão dizer que eu fugi da escola/mas que bobagem/foi justamente após concluir que eu despertei/ainda há muito a questionar/até que nas bordas do mundo meu canto eu possa ecoar/Eu sei que isso não vai parar/Mas até segunda ordem/Sou plano e vou continuar.

Palmas Uhuhuhu!!

Tudo truque

De uma maneira bastante infantil, quase divertida, os palestrantes parecem acreditar que há algo de subversivo em suas ideias terraplanistas. Como um grupo de garotos envolvidos em descobertas científicas no porão da casa de um deles, todos se mostram empenhados em superar os demais em suas elucubrações científicas, filosóficas, políticas e religiosas.

Talvez pelo caráter lúdico do encontro, uma das formas mais utilizadas para negar o formato esférico da Terra é a pictórica. Além de citar as fotos divulgadas pela Nasa, o advogado e youtuber Gilberto Assef, 40 anos, 37 mil seguidores no canal “Terra Plana Reloaded”, afirma que não existem registros de imagens confiáveis da existência real de foguetes e astronautas.

“Ninguém jamais viu um foguete deixando a Terra. Com mais ou menos 1 minuto de filmagem, eles cortam e colocam computação gráfica”, garante.

Veja também:

Cordinha na nuca

Em relação aos astronautas, Assef não tem dúvida de que “tudo era feito em estúdio”. “Eles colocavam uma cordinha na nuca dos caras e puxavam para o alto, para dar a impressão de que estavam flutuando”. “É sério, mano.”

Assef questiona ainda a existência do sistema solar: “Não se pode afirmar que o Sol é composto primordialmente de hidrogênio e hélio. Isso não passa de uma especulação sem fundamento. Não seria possível colher dados de um objeto celeste ao ar livre, a supostos 150 milhões de quilômetros de distância. Para conseguir isso, seria preciso um laser com 300 milhões de watts de potência, algo inconcebível.”

Ao defender que o homem nunca esteve na Lua, o advogado Gilberto Assef lembra que “ninguém jamais viu um foguete deixando a Terra”: “Com mais ou menos 1 minuto, eles cortam a imagem e colocam computação gráfica” (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Pratictioner em PNL

O blog tentou repercutir a convenção de domingo com “globolóides”, mas não obteve sucesso. Dos três cientistas do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo) consultados, dois não quiseram se manifestar (um alegou que “terraplanistas não são assunto para astrônomos, mas para psicólogos e sociólogos”) e o terceiro disse que estava ocupado. 

“As pessoas falam em ‘comunidade científica’, mas não existe consenso. Quem é o chefe dela? A igreja católica tem o Papa”, polemiza Anderson Neves, 49 anos, que se apresenta como  “administrador de empresas com formação em contabilidade, e também patictioner em PNL (programação neuroliguística)”.

Neves usa esta última especialização para afirmar que “a comunicação por meio da fala, das palavras e símbolos pode programar a mente das pessoas” e, assim, a maior parte da humanidade estaria se recusando a reconhecer que a Terra é plana por acreditar que isso não passa de “teoria da conspiração”. “Ninguém quer se identificar com conspiradores. Então, muitas pessoas não estão interessadas em saber nem do que se trata. Mas tudo o que falam sobre teoria da conspiração é uma fraude. Temos vasta documentação para provar que a Terra é plana”, diz ele, sem apresentar nada muito concreto.

Neves usa a neurolinguística para revelar a “teoria da conspiração” e vai até Pitágoras para desqualificar a comunidade científica (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Pausa para cafezinho

No saguão do teatro, enquanto um grupo de curiosos rodeia o youtuber Gilberto Assef para assistir a suas evoluções geofísicas, o administrador de empresas Carlos Gênova, 56, joga para o alto (sem medo) a lei da gravidade: “É  uma teoria que eles usam para justificar tudo. Agora, me diz: como é possível a gravidade segurar trilhões de litros de água na Terra, enquanto uma gaivota passa voando lá em cima, levinha?”

Em outro canto, o empresário digital Felipe Pinheiro, 33, diz que está “aberto à verdade”. “Não sou radical. Eu sou skatista, mas posso pegar onda, tá ligado?”

Ao citar sua desconfiança sobre a ida do homem à Lua, a química Silvia Sabrina, 33 anos, acaba expondo muito mais a precariedade do serviço prestado pelas operadoras de celular. “Como é que o presidente dos Estados Unidos conseguiu falar pelo telefone com um astronauta na Lua, nos anos 60, e eu muitas vezes não tenho sinal para falar para o interior de São Paulo com o meu celular?”

Só Jesus na causa

Agora, Jean Ricardo chama para se apresentar o especialista em sistema de localização (GPS) Flávio de Carvalho, 59 anos, também conhecido como “evangelista Flávio”.  Ao blog, ele se define como cristão apostólico (“não acredito que Jesus é Deus, nem que vou morar no Céu depois de morrer”) e associa o formato (plano) da Terra a sua religião. Diz que o assunto está intimamente ligado à “polarização que assola o mundo em todos os campos”.

A polarização representa o joio e o trigo; os bodes e as ovelhas; a treva e a luz; o bem e o mal. É profética. Jesus vai voltar como rei soberano, instituir um governo central e destituir todos os outros da Terra.”

Tem que aceitar

Para haver salvação, segundo evangelista Flávio, só há um caminho a seguir. “Ou você aceita que a Terra é plana, como produto do Criador, ou fica com a teoria do caos, que dispensa a necessidade Dele.”

Com isso, automaticamente o evangelista põe a salvo todos os terraplanistas. “Só serão destituídos os maus, os desobedientes, os corruptos. Se Jesus os mantiver no poder, vai continuar essa porcaria que está.”

Evangelista Flavio recomenda que se aceite que a Terra é plana, sob pena de ser destituído do Planeta pelo Criador (Foto: Ricardo Sena/Divulgação FlatCon)

Biquíni e PhD

Sobe ao palco a enfermeira dublê de youtuber Priscila Bandeira, 37 anos, que conta com “mais de 100 mil inscritos” no canal Prisca Coco. “Eu falo de tudo, não só de terraplanismo. Falo de praia, de biquíni..”

Na convenção, Prisca Coco trocou o biquíni pela obscura história de uma estudante tunisiana (“não sei se é egípcia, dá uma olhada nisso”) chamada Amira Kharroubi, que teria feito um doutorado (“ou PhD, não tenho certeza”) sobre Terra Plana e afrontado a comunidade científica internacional. “A Nasa cassou o trabalho dela, e não se soube mais do paradeiro de Amira”.

Prisca Coco está emocionada. Parece aflita: “Gente, eu espero de todo coração que ela esteja em um bom lugar!”

Todos: “Simmm! Ela merece! Viva Kharroubi! Injustiçada!”

Para a enfermeira e youtuber Priscila Bandeira, é muito mais simples acreditar que a Terra é plana. (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Trilhões de galáxias

Já no camarim, em conversa com o blog, Prisca Coco explica que escolheu ser terraplanista “porque é muito mais simples, fácil de entender e lógico”.  Ela se espanta com a quantidade de informações que a Terra em formato esférico engendra: “Gente, são trilhões de galáxias, zilhões de anos luz, isso foge à compreensão de qualquer ser humano normal.”

E chuta o balde: “Ninguém aqui é Einstein!”

 

 

 

 

 

 

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Hoje eu toco em uma vagina que não é a minha, diz parceira de homem trans http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/10/pela-1a-vez-toquei-em-outra-vagina-diz-parceira-de-homem-trans/ http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/2019/11/10/pela-1a-vez-toquei-em-outra-vagina-diz-parceira-de-homem-trans/#respond Sun, 10 Nov 2019 07:00:05 +0000 http://paulosampaio.blogosfera.uol.com.br/?p=22478 Há sete meses, a assistente social Diana Luiz, 33 anos, iniciou uma experiência inteiramente nova em sua vida. Em abril, ela começou a ser relacionar com o fotógrafo trans Pedro Emanoel Lopes, 18 anos, que tinha acabado de fazer a transição para o gênero masculino: “Eu me envolvi, senti desejo, aconteceu”, diz ela. “Foi a primeira vez em que toquei uma vagina que não fosse a minha.” (A transição de gênero não implica necessariamente na  cirurgia de redesignação sexual, popularmente conhecida como “operação de mudança de sexo”).

Diana nunca havia tido um parceiro tão mais novo. Mãe de uma menina de 15 anos, ela era pouco mais do que uma adolescente quando engravidou da filha. Seu relacionamento mais longo não foi com o pai dela, mas com outro homem cis  — identificado com o sexo atribuído a ele no nascimento: os dois ficaram juntos por nove anos, até 2018.

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Diana teve com Pedro uma experiência inteiramente nova: “Eu me envolvi, senti desejo, aconteceu”  (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Trans e travestis

Ela e Pedro se conheceram no ambulatório trans de Niteroi, um serviço que completa um ano no fim do mês e é uma experiência pioneira entre os municípios do Rio — o estado oferece atendimento específico no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e complemento no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (Iede). Em Niteroi, uma equipe composta por endocrinologista, psicólogo e assistente social  atende às populações de trans (homens e mulheres) e travestis, uma vez por semana.

Diana é a assistente social e também coordenadora do serviço. Explica que ali se trabalha com hormonioterapia, atenção clínica, pré e pós operatório — não se realiza a cirurgia de redesignação sexual. Nos atendimentos, eles partem do gênero autodeclarado de quem chega. “Respeitamos a subjetividade, estamos preocupados principalmente com o acolhimento”, diz.

Atração à primeira vista

Entre os cerca de 180 atendimentos realizados no primeiro ano do ambulatório, estava Pedro Emanoel, que frequentou o serviço durante poucos meses. “Tenho um plano de saúde, vou ao endócrino por lá. Não queria ocupar a vaga de alguém que precisasse mais do que eu” diz ele. O período de frequência foi curto, porém intenso, graças a Diana,  por quem ele diz ter sentido atração à primeira vista: “Eu congelei quando a vi, não conseguia dizer nada. Fiquei ‘passado’ com o envolvimento dela no ambulatório, o foco no serviço”, lembra ele.

Embora tenha deixado claro sua atração por ela (“eu ficava vermelho, nervoso, sem fala”), Pedro não via retorno. “Eu pensava: ‘Tô zerado'”, lembra. O episódio que os aproximou foi a recusa de um farmacêutico em vender o medicamento da hormonioterapia, mesmo com a apresentação da receita médica. “Foi uma atitude claramente transfobica”, diz ele. Na ocasião, apesar de Pedro não frequentar mais o ambulatório, Diana o acudiu. “Nunca me senti tão feliz em ser discriminado em uma farmácia”, brinca ele.

Discriminado pelo farmacêutico, que não quis vender o medicamento da hormonioterapia, Pedro apelou para Diana (Foto: Pedro Emanoel/Arquivo Pessoal)

Filme chinês cabeça

Naquele mesmo dia, ele a levou ao ponto de ônibus, olhou-a nos olhos, deu “uma xavecada”,  mas nada aconteceu. Pouco depois, tomado de coragem, ele a convidou para assistir a um “filme chinês cabeça”. No escurinho do cinema, sua mão caranguejou até à de Diana. Forjando um receio adolescente, ele disse que “estava com vontade de fazer uma coisa”, mas não sabia se podia. Ela disse: “Faz, ué”. Rolou o primeiro beijo. Cerca de uma semana depois, Pedro a convidou para almoçar em sua casa, fez uma “super” macarronada à bolonhesa, e, depois da sobremesa, os dois acabaram na cama.

“Eu não sabia como ia reagir. Porque a gente foca a genitália, né? Nós fomos ensinados assim”, diz Diana, a respeito da primeira vez. “Curiosamente, foi muito prazeroso. Eu não imaginava que minha vagina fosse tão calorosa. Na verdade, eu era muito equivocada, não me masturbava, não fazia nada.”

Antes de revelar a sua turma na escola que era homem trans, Pedro adaptou a frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Não se nasce homem; torna-se homem” (Foto: Pedro Emanoel Lopes/Arquivo Pessoal)

Tesão lá em cima

Para Pedro, foi mais tranquilo. “Sabe como é começo de relação, o tesão vai lá em cima. Eu não queria deixar aquilo passar, então combinamos mais ou menos uma data.” No dia da macarronada, ele ainda morava com sua “mãe transfóbica”, mas tudo aconteceu no horário em que ela estava trabalhando.

“Eu gostava de andar sem camisa, nunca tive peito mesmo. Um dia, minha mãe disse que não queria mais aquilo, por causa dos vizinhos. Eu falei que não estava nem aí para os vizinhos. Ela disse: ‘Na minha casa, você não vai andar sem camisa.’ Eu saí.”

Com o pai, que se separou da mãe quando Pedro tinha 4 anos, houve um mal entendido. “Eu disse a ele que era homem, ele respondeu: ‘A gente sabe, sempre percebeu isso’. Só que ele pensou que eu estava me declarando lésbica, não trans. Então, precisei usar o método das caixinhas. Em uma eu coloquei o gênero, em outra, a sexualidade. No fim, ele entendeu.”

Simone de Beauvoir

Na escola, a professora de sociologia apresentou à turma a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), e citou uma de suas famosas frases: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Pedro, que via na mestra uma aliada, aproveitou para fazer a adaptação da frase para o seu caso. “Pensei que servia pra mim também: não se nasce homem, torna-se homem.”

“No dia seguinte, eu cheguei na sala de aula, fui lá na frente e disse: ‘Preciso conversar com vocês”.  E falei que era homem. Foi muito emocionante. De repente, 50% da turma chorando, teve um abraço coletivo, eu fiquei em estado de êxtase.”

Mãe “barata de igreja”

Na casa de Diana, a mãe cristã protestante dela, “barata de igreja”, não gostou nadinha da notícia. “Quando ela soube que homem trans tem vagina, ficou louca”, conta.

Já Camilly, a filha, “gostou pelo lado da identidade de gênero, porque é bissexual”. “Ela é militante, tem maior compreensão das nuances da vida”, diz Diana. Em compensação, a menina “teve dificuldade com a diferença de idade (entre Diana e Pedro)”. “Ela não aposta na relação não. E se um dia achar um problema, vai falar. Vai dizer que ele está sendo babaca, estúpido, imaturo.”

Encantada com o tema

Há até pouco tempo, o foco de Diana eram apenas as políticas públicas de enfrentamento da violência contra mulher. Mas então ela foi chamada para trabalhar na implantação do ambulatório, e se descobriu encantada com o tema. “Tive contato com a literatura e me envolvi muito com essa população. Hoje, meu bonde é trans. Minhas amigas, meus amigos, a pessoa com quem eu me relaciono.”

Ela conta que acabou de apresentar uma monografia na PUC-Rio, na qual identifica a violência sócio-institucional nos dispositivos de saúde, e faz uma reflexão sobre o acesso dos trans e travestis à atenção básica. “Eles não têm  garantia de que não vão sofrer preconceito, transfobia, discriminação.”

Trans total

Ao pegar o bonde trans, Diana supostamente afastou-se da comunidade dos  heterossexuais cis. Como eles regiram? “Enfrento ‘ressalvas'”, diz ela. “Alguns amigos dizem: ‘Tem gente que atende a população trans, é amiga da população trans, namora a população trans e quer ser trans’.”

Ela afirma que não tem a menor intenção de excluir os héteros cis de sua vida. “Não existe isso. Dá na mesma ser hétero cis, gay cis, desconstruído ou orientado, porque tudo é um produto social. Compreedendo a diversidade de gênero do outro e a orientação sexual, não existe problema.”

Gosto de pênis

Será que, depois de se relacionar com um homem trans, a ideia de fazer sexo com um heterossexual cis parece banal ou sem graça? “Não. Eu gosto do homem cis. Inclusive eu falo isso pra o Pedro. Ele me pergunta se eu sinto falta do pênis. Digo a verdade: não sinto falta, mas gosto de pênis.”

Diana reconhece que o comentário o incomoda. “Ele fica passado, sim, mas é uma questão dele, não minha. Eu não posso dar conta da expectativa, do conflito do outro. Até porque eu nem estudei psicologia.”

Por sua vez,

Pedro diz que volta e meia o tomam por um homem gay cis (identificado com o gênero biológico). “É que eu adoro rebolar a raba. Um dia, em uma balada, um garoto sentou no meu colo e começou a me alisar. Eu disse: ‘Meu anjo, acho que você não entendeu. Eu sou hétero.’ Ele ficou muito desapontado.”

Pedro afirma ainda que, depois do tratamento com testosterona, ele passou a se sentir “atraído por falos”. “Mas não do homem cis”, explica. “Da mulher trans.”

Só um abraço

A maioria dos frequentadores do ambulatório é homem trans, como Pedro. O serviço fica em um prédio que abriga vários outros dispositivos de saúde. “Ainda  estamos em fase de capacitação de profissionais, mas como a demanda é muito grande, já começamos a atender”, explica Odila Curi, chefe do Departamento de Supervisão Técnico-Metodológica (Desum). No dia em que o blog visitou o ambulatório, treze pessoas estiveram lá. “Tem gente que viaja horas para vir até aqui, e pede apenas um abraço”, diz a psicóloga Roberta Labriola.

Da equipe, Diana é a mais empolgada. Fala sem parar sobre os mecanismos sociais que fazem a população trans refém. “A sociedade controla essas pessoas, diz o que elas devem ser, o lugar que devem ocupar, o código que devem cumprir.”

Com Bryan Henrique, um dos homens trans que buscaram o ambulatório no dia em que o blog esteve lá (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

A dimensão do sofrimento

Tomada de emoção, ela pergunta se o blog já teve vivência com a população trans: “Você já convidou uma travesti para jantar em sua casa? Para beber alguma coisa em um bar? A galera tem uma vivência de enfrentamento fantástica. O corpo deles é político. Com toda a discriminação no mercado de trabalho, a dificuldade de acesso à saúde, à educação, essa população se mantém com a identidade que faz bem para ela, que traz paz.”

Diana não gosta de dizer que foi necessário um “ajuste” para efetivar seu relacionamento com Pedro. “No mundo real, o que eu preciso é compreender o sofrimento do outro. Os entraves, a dimensão desse sofrimento.”

Para ela, a sobrevivência dessa população se deve, em parte, ao fortalecimento conquistado no próprio flagelo: “São pessoas que sabem o que é perder. A vivência com eles é rica por isso.” 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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