Blog do Paulo Sampaio

Histórico

Gloria namora há seis anos Marcela, que no dia a dia é Marco

Paulo Sampaio

18/06/2017 04h00

A empresária Gloria J*, 45, havia saído de um casamento de 20 anos quando conheceu seu atual namorado, Marcela. Até ali, Gloria não tinha notícia de homens que gostam de usar vestidos, sapatos de salto, joias femininas e maquiagem — tudo isso sem perderem a atração que sempre sentiram pelas mulheres, e só por elas.

Os especialistas os classificam como crossdresser (numa tradução livre, trocador de trajes). “É muito mais uma questão de gênero do que de sexualidade”, explica Gloria.  No dia a dia, Marcela atende por seu nome de batismo, Marco, e trabalha com manutenção de edifícios em Pirassununga, cidade a cerca de 200km de São Paulo. Divorciado, 55 anos, pai de três filhos, avô de quatro netos, sua especialidade é resolver problemas de hidráulica, elétrica, entupimento de gás e conservação de fachada.

Marcela (loira) e Glória: “Questão de gênero não é sexualidade”(Foto: Divulgação)

Diferentemente da travesti e da drag queen, Marco é um crossdresser que não sente atração por outros homens. Diz que jamais lhe passou pela cabeça se submeter à cirurgia de mudança de sexo. “Se eu fosse gay, estava ferrado”, diz. “Eles buscam uma figura masculina, não um homem que se veste de mulher.”

Primeiro beijo

Gloria e Marcela se beijaram pela primeira vez em uma festa fetichista. Ela foi levada por uma amiga. Virou frequentadora depois que perdeu o receio de ser espancada ou amordaçada à força (“o próprio cartaz da festa era assustador”). Ironicamente, ela diz que nos meses seguintes experimentou tudo (cera de vela quente na pele, algema, amarração, couro).

O dia beijo: “Eu fui ao fumódromo, cruzei com a Marcela e senti vontade de passar a mão nos pelinhos loiros do braço dela.  ‘Só isso?’, ela perguntou. E nos beijamos. Foi muito bom.”  Gloria conta que, “como ainda não sabia a diferença entre sexualidade e gênero”, precisou perguntar a Marcela se ela era um homem gay, ou não. Ela explicou que sua identificação era apenas com o gênero, e eles engataram namoro.

Desde então, Gloria sai com Marcela e vai pra cama com Marco. “Visualmente, prefiro a Marcela. O Marco não se cuida, põe qualquer roupa, é muito desleixado. Mas sexualmente meu relacionamento é com ele.”  Um dos passatempos prediletos do casal é comprar roupas no brechó Capricho à Toa, no Sumaré, zona oeste de São Paulo. Marcela, segundo Glória, nunca leva menos de duas horas para ficar pronta — vestida e maquiada.

Revelação em rede nacional

O casamento de Marco havia durado 30 anos quando seu lado crossdresser saiu do armário não só em Pirassununga, mas no Brasil todo — em rede nacional.

“Eu estava cheio de me esconder, de manter aquilo como um segredo apenas entre mim e minha mulher. Só que houve um desgaste, o respeito foi acabando. A cada briga, ela dizia:  ‘Vou contar para os seus filhos quem você é!'”.  Um dia, Marcela perdeu a paciência e o resto de medo que tinha, e deu uma entrevista ao programa CQC contando tudo.  “O casamento acabou, mas aliviei a alma.” Em casa, ele enfrentou mais dificuldade de aceitação por parte das filhas, hoje com 37 e 34 anos, do que do filho, de 32. “Mesmo com meu filho não é um assunto fácil, converso mais com minha nora, mas ele não mudou nada em relação a mim. Eu sinto que ele me respeita até mais.”

Gloria é mãe de um garoto de 20, que foi sendo apresentado aos poucos a Marcela. Hoje, lida bem com a madrasta.

Bullying

Antes do fim do casamento, Marco era dono de um restaurante que, ao contrário do que ele imaginou, não faliu por causa do escândalo. “O movimento até aumentou. As pessoas tinham curiosidade de me conhecer”, conta ele, rindo. “Muita gente ficava olhando pra mim, olhando, então eu ia lá e dizia: ‘Quer fazer alguma pergunta? Sem problema, eu respondo.'”

O técnico em manutenção de edifícios diz que jamais sofreu bullying. Ou melhor, nunca esteve disposto a sofrer. “Eu acho que o bullying depende muito da importância que você dá a ele.” Os comentários o divertem:  “Um dia, na Cinelândia (centro do Rio), me perguntaram pelo Ronaldinho, em alusão àquela história das travestis. Eu achei muita graça.”

No período em que ficou só, entre o fim do casamento com a primeira mulher e o começo do relacionamento com Gloria, Marco conta que Marcela era assexuada. “Eu saía, mas pensando só em me divertir, sem expectativa nenhuma. São poucas as mulheres que encaram um crossdresser numa boa.” Embora reafirme que não atrai os gays (homossexuais assumidos), ele conta que frequentemente é abordado por homens identificados com o estereótipo do heterossexual (que o interessam menos ainda). “Cansei de receber cantada de cara casado, machão, pai de família.  Nada mais providencial, para viabilizar o desejo deles, do que um homem vestido de mulher. Desse jeito, eles conseguem acreditar que a transa não é tão homossexual assim.”

*o nome da companheira de Marco é fictício: ele não se incomoda em aparecer, mas ela prefere o anonimato

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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