Blog do Paulo Sampaio

Histórico

"Mesmo sem droga, passava 48 horas acordado", diz MC Sapão, antes de baile na Rocinha

Paulo Sampaio

19/06/2017 11h36

No caminho da Barra da Tijuca para São Conrado, na zona oeste do Rio, MC Sapão, 38, puxa da garganta um bramido gutural  que faz o Renault Duster estremecer. “Eu sei canta-aa-aa-ar..”, entoa. É uma frase do funk que o consagrou, 15 anos atrás. O carro do funkeiro é um Dodge Journey, mas está no conserto, e então naquele sábado ele usa um alugado para ir ao show que fará na Rocinha, tida como a maior favela do Brasil, com cerca de 70 mil habitantes. Residente em um condomínio de apartamentos de luxo na Barra, ele agora procura uma casa para mudar-se. “Dinheiro não para na minha conta. Entrou, saiu”, diz ele, quando se pergunta se o filho de uma “família de baixa renda”, como se define, ficou rico.

Alessandra, mulher de Sapão, a promoter Carol Sampaio e o funkeiro

Vão junto no carro sua mulher, Alessandra, 35, com quem tem quatro filhos, e um casal de compadres. “Hoje o funk tá concorrido, tem muita gente no mercado, superproduções”, diz Sapão. “Quando eu comecei, gravava minhas músicas em um karaokezinho, ou numas fitas cassete da minha mãe, por cima das trilhas das novelas. Aí, era um perrengue para convencer um DJ da comunidade a ouvir e tocar.”

“Total boy”

Isso faz mais de 15 anos. De lá pra cá, ele foi preso por fazer apologia às drogas e à violência, passou oito meses na cadeia, foi solto. Em março de 2003, a mãe morreu no colo dele, vítima de um ataque cardíaco. Sapão, que ganhou esse apelido porque era gordo e tem olhos grandes, emagreceu mais de 50 quilos nos últimos anos: foi de 170 kg para 118 kg (em 1,83 m); deixou de ser dependente químico (“usava tudo quanto é droga”) e agora faz exercício para manter o peso e ajudar no controle da diabetes tipo 2.

Ele é uma das atrações do Baile da Favorita, organizado pela promoter Carol Sampaio, que tem bom trânsito na juventude dourada da zona sul do Rio. O próprio funkeiro afirma que a festa é frequentada por uma classe média abastada: “Total boy”, define.  Jeans rasgados, camiseta preta, casaco de couro com pele, chapéu, óculos escuros e um anelão no formato de sapo adornado com pedras que lembram marcassitas, ele diz. “Sou meio vaidoso, meio ogro.”

Michael Jackson

Sua atitude está próxima do que no Rio chamam de “marrento” — mas só para uso externo. Faz o tipo grandão empoderado, que gosta de assumir o controle das situações e de se impor com todo mundo que está em volta. Não é pra levar muito a sério. Logo ele coloca Michael Jackson para tocar, “I Like The Way You Love Me”, e o ogro cai por terra. “Sou muito intenso”, ele diz. “Mas já fui pior. Mesmo sem droga, passava 24, 48 horas acordado.”

A chegada à quadra da escola de samba Acadêmicos da Rocinha, onde será o show, é cercada de fãs. “Olha, o Sapão!”, dizem uns, sem parar de tirar fotos. Outros pedem selfies. Sem ofuscar o brilho do marido, Alessandra é uma presença ostensiva ao lado dele. Uma espécie de troféu, que Sapão carrega com o maior zelo. Loira, popozuda, toda trabalhada no brilho, ela usa uma segunda pele bordada com pedrarias vermelhas. Saltão. “Essa roupa é de um estilista que eu estou divulgando”, explica ela.

Molho golfe

Sapão, Alessandra, o casal de compadres e os quatro músicos que os acompanham atravessam a quadra da escola na diagonal, a caminho do camarim. Lá há músicos, produtores, amigos e um grupo de bailarinas já paramentadas para entrar em cena, com microshorts, tops justos e meias finas pretas até o meio das coxas. A sala de cerca de 20m² tem paredes descascadas, chão revestido com cerâmica branca rajada de verde claro, mesas de plástico vermelhas, um espelho trincado e um aparelho de ar condicionado sem a grade da frente, cujo fio está ligado direto na tomada. Em uma mesa redonda colocada num canto, há pratos com salgadinhos: bolinhas de queijo, quibes, minichurros, sanduichinhos de presunto e queijo, ovos de codorna com molho golfe e frutas variadas. Sapão oferece algo para beber.

Sapão no Baile da Favorita. “Total boy”, diz o funkeiro sobre o público do lugar

Castor de Andrade

Alguém me diz que não estou autorizado a cobrir a festa, e me pede para guardar o bloco de reportagem e circular com discrição pelos ambientes da festa. Sugere que eu assista ao show do camarote, no andar de cima. Subo. Ali, os “total boy” se fazem acompanhar de funkeiras estilizadas, que vestem roupas justas, curtas, decotes vertiginosos e saltos altos. Fazem agachamento com as pernas abertas, requebram e jogam os pés alternadamente para frente, levando minibolsas Chanel, ou Prada, no ombro. O preço dos ingressos varia de R$ 120 a R$ 180.

“É um baile de rico dentro da favela”, diz Eliana Torres, autointitulada lobista. Ela diz que foi casada com Fernando de Andrade, como se esse nome remetesse a uma personalidade internacional. “É o filho do Castor, do bicheiro. Tenho dois filhos com ele. Mas isso faz parte do passado, não quero nem falar desse assunto”, afirma ela, sem muita convicção. Eliana conta que os filhos estudam em escola britânica, mas nem por isso ela se considera rica. “Aqui tem a nova high society… Você sabe que de tempos em tempos muda tudo, né? Agora, pensa, o que é ser rico hoje em dia? Mesmo aqui em cima (no camarote), tem gente que perdeu muito dinheiro. O Lula fodeu todo mundo”, acha. Para dimensionar sua “network”, ela diz que circula “nas classes A, B, C, D”.

Assim como algumas moças da classe A e B, Eliana Torres toma um ventinho com o rosto voltado para os ventiladores de parede do camarote. Ela usa short curto que deixa suas pernas musculosas à mostra, top e salto. Nenhuma roupa de marca. “Não vou desperdiçar um sapato Louboutin numa festa em que a gente pula em cima da mesa; acaba sujando.” Ela diz que não pode garantir a autenticidade das grifes das bolsas e sapatos dos frequentadores do camarote. “Nem as paulistas estão usando o legítimo mais”, afirma.

Clássicos do funk

Pouco depois da 1h, Sapão entra em cena. Com total domínio do palco, ele vai e vem por uma passarela que avança na plateia, e interage com o público. Toca sucessos da vida toda, emenda trechos de “clássicos do funk” e leva a audiência ao delírio. De acordo com uma produtora do MC, a quadra tem capacidade para 3 mil pessoas. Está abarrotada. “Isso é só começo, galera. Essa merda vai até as 6h!”, diz.

A galerista paulista Marcela (ela prefere não dizer nome completo nem a idade), que está em uma espécie de camarote dentro do camarote, isolado por faixas, classifica os circunstantes do andar de cima como “gente diferenciada”. “Eles são excêntricos, vai!” A excentricidade residira no fato de “estarem à vontade em um espaço tão popular”: “Isso não existe em lugar nenhum, só no Rio. Acho bárbaro!”

Em sua primeira vez na Favorita, a relações-públicas curitibana Isabel Fernandes, 28, está achando o público “bem ousado”. “Em Curitiba, as pessoas jamais lotariam um espaço assim para dançar funk. Mas neeem…”.

“Essa festa é maravilhosa”, diz a DJ Pati Ramiro, 38. “Agrega valor à comunidade, valoriza, divulga. As pessoas que antes tinham medo de vir pra cá ficam sabendo que é seguro, tem gente legal.”

Desilusão amorosa

Pati está com o argentino Alejandro Jayme, 56, apresentado por seu assessor de imprensa como o “guru das celebridades”.  Jayme prefere não citar nenhum cliente, “para não expor as pessoas”. E então, ele lança um olhar enigmático para o repórter, que havia dito que mora há 30 anos em São Paulo, e o desmente: “Não são 30 anos, são 25 (pausa). Você deixou o Rio depois de uma grande desilusão amorosa. Mudou-se para São Paulo para esquecer.” O guru parece aguardar alguma expressão de reconhecimento, pela adivinhação, mas infelizmente não é possível satisfazê-lo.

A respeito da Favorita, Alejandro Jayme exalta a “integração de todas as classes”. “Nessa festa, não importa etnia nem condição monetária. Todo mundo se mistura.”

Todo mundo, assim, os “total boy”.

O show de Sapão acaba, mas a festa ainda vai longe. E ele também. Conta que dia 4 de julho embarca para Nova York para conversar sobre trabalho. “Os Estados Unidos são outro mundo, ninguém precisa ser famoso para ficar milionário. Eles dão valor ao artista de verdade. O anônimo lá tem helicóptero!” Big Frog, como se apresenta no exterior, diz que no passado gravou no Canadá com o músico D-Snow (Diogo Neves). Lembra que, na ocasião, já chegou anunciando o motivo da visita: “Hi niggers, I’m here for the money. Big Frog is in the house.” Ele mesmo traduz: “E aí, negrada, tô aqui pelo dinheiro. Sapão tá na área.” Got it? Sacou?

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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