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Chinesa trans realiza fantasia e posa nua em uma das avenidas mais movimentadas de SP

Paulo Sampaio

30/06/2017 08h00

A chinesa posa com a falsa-seringueira, que fica em frente ao Batalhão da Polícia Militar e à Igreja Messiânica (Foto: Arquivo Pessoal)

Faz pelo menos 30 anos que a chinesa trans Liao Tao Ming, 52, flerta com uma enorme falsa-seringueira (Ficus elastica) plantada na rua Sena Madureira, vizinha à casa em que morou quando era mais jovem, na zona sul de São Paulo. "Eu sempre imaginei mil cenas com aquela árvore." Há alguns dias, Ming teve oportunidade de realizar uma de suas fantasias mais recorrentes daquela época. Posou nua, abraçando a Ficus elastica bem na hora do rush. A rua é uma das mais movimentadas da Vila Mariana, e a árvore fica em frente ao 12º Batalhão da Polícia Militar e da Igreja Messiânica Mundial do Brasil. "Fazia 10 graus, um frio horrível, mas eu estava feliz. Vivo bem nos extremos."

Há sete anos Ming assumiu sua nova identidade, mas rejeita a definição de "mulher em corpo do homem". "Eu não nasci querendo ser mulher nem nunca pensei em ser. Eu era fraco, queria ser normal. Até onde eu pude, fiz tudo para parecer homem. Raspava a perna lisa para estimular o crescimento dos pelos, engrossava a voz e fazia esportes rústicos. Minha primeira lipo foi uma ginecomastia, porque tinha peitinho e queria me livrar daquilo."

Da medicina ao agenciamento de modelos

Enquanto estava ocupada em forjar um comportamento masculino, Ming ignorou a parte sexual de sua vida. "Só fui perder a virgindade aos 27 anos, com um homem." Àquela altura, já tinha se formado em medicina, feito residência em cirurgia plástica e desistido de tudo. Ainda em Taipé (capital de Taiwan), onde nasceu, viveu até os 4 anos e mais tarde voltou para fazer a residência, começou uma bem-sucedida carreira de agente de modelos: "A princípio, eu trabalhava com gente que estava na prateleira, meio esquecida, aguardando uma oportunidade. O Oriente era um mercado novo na época. Levei para a China e o Japão o (Reynaldo) Gianecchini, a Alinne Moraes, a Fernanda Lima, a Renata Maranhão, muita gente."

"Ming me ajudou a realizar o sonho de ser modelo fora do Brasil", lembra Alinne. "Fechamos um contrato ótimo, com passagem e hospedagem, em uma agência muito reconhecida no mercado de Tóquio. Ainda batalhou para que minha mãe estivesse comigo do início ao fim da viagem, o que é muito importante para uma modelo jovem."  Gianecchini conta que deve a Ming sua primeira viagem internacional. "Eu o conheci no comecíssimo da minha carreira, ele me convidou para fazer umas fotos, ficaram superbonitas, falou do mercado da Ásia, disse que podia me levar, eu fui." Giane passou três meses na China e, depois, seguiu para o Japão. "Foi uma experiência bem interessante. A China é um país difícil, uma cultura bem diferente. Eu não comia direito, a agência começou a reclamar que eu estava emagrecendo, enfim, uma solidão, mas o saldo foi positivo. O Ming é um querido, me deu essa oportunidade e foi sempre muito profissional."

Liao Tao Ming e o amor pela falsa-seringueira  (Foto: Arquivo Pessoal)

Chinese Botero

Ming dá entrevista na sala de cerca de 80 m² do sobrado onde mora, que fica muito próximo à árvore das fotos. Nas paredes, há desenhos grandes de figuras femininas roliças, os quais ela classifica de chinese Botero. Um espelho de cerca de 2 m por 1 m encostado na parede reflete duas orquídeas grandes acomodadas em um vaso de cerâmica sobre uma mesa de madeira instalada no centro. Ela oferece vinho, champanhe, cerveja. São 16h. "Vodca?" Long neck na mão, costas eretas, ela está sentada em uma cama grande estilo daybed. "Entre 30 e 40 anos, eu era, ou tentava ser, um gay macho. Usava jeans Diesel, camisa social e jaqueta militar. Mas numa comunidade onde o tamanho do pênis tem um valor enorme, a sexualidade de um oriental é praticamente desconsiderada. Eu não existia, era invisível."

Tatuagens por todo o corpo

Não foi para ficar visível que ela tatuou mais de cem desenhos no corpo. O primeiro, uma borboleta nas nádegas, serviu para apagar a sequela de um bullying. Ming tinha acabado de entrar na faculdade quando três veteranos do sexto ano a fizeram permanecer sentada em um bloco de gelo seco até que sua pele ficasse em carne viva. Hoje, a borboleta foi mimetizada no meio das tatuagens que cobrem não apenas as nádegas, mas seu tronco, braços, pernas, pés e mãos. Só de ninfas, são 11. Na parte interior dos braços, ela homenageou as pessoas mais queridas com a representação de seus nomes em mandarim. Entre um e outro, há pássaros, flores e desenhos tribais. "Tá todo mundo aqui", diz ela, referindo-se a família, amigos e entidades.

Também não foi a ineficácia de sua versão "gay macho" que a levou à transição. "Foi o amor", resume. A história é, como ela mesma diz, "um capítulo à parte" de sua vida. Ming já estava entrando nos 40 quando foi chamada por amigos que se vestiam de mulher para ir a uma festa à fantasia. "Não achava a menor graça naquilo. Eu olhava para eles e dizia: 'Tira essa calcinha, vocês não têm vergonha!" No dia da festa, porém, ela entrou na brincadeira. E gostou. Pegou um vestido e uma peruca na loja de bugigangas da mãe e… surpresa! "Fui agarrada por um vizinho logo na saída de casa. Ele não me reconheceu". Em pouco tempo, seu guarda-roupa estava abarrotado de calcinhas, vestidos, saias, tops, sapatos de salto, rasteirinhas, bolsas, acessórios e joias.

Foi assim que um dia ela se apresentou em um site de relacionamento a um jovem quase 20 anos mais novo. "Ele era heterossexual e curioso, como tantos outros, mas nesse eu vi graça." Ming estava apaixonada, e a princípio foi correspondida, mas o interesse do rapaz desvaneceu. Em seu desespero, ela fez tudo para reconquistá-lo, sem sucesso, até que lhe ocorreu a ideia de radicalizar. Afinal, pensou, se o garoto havia se atraído quando ela estava "vestida de mulher", porque não eternizar o personagem? Mas a cirurgia para colocar silicone nos seios não rendeu o amor de volta. Ela tampouco pensa em mudança de sexo, mas diz que o personagem que criou agrada cem vezes mais que o invisível do passado. "Continuo não atraindo os gays discretos, mas em compensação sou muito assediada por heterossexuais. Justamente aqueles que os gays discretos mais desejam. Irônico, não?"

Tao Ming (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

"Não quero ser o Bruce Jenner"

"Conheci o Ming de jaqueta, jeans e boné. Um dia, depois de passar quase dez anos sem vê-lo, tomei um choque. Ele apareceu em uma convenção de modelos em Brasília usando vestido, salto e maquiagem. O engraçado é que, como o conheço há muito tempo, ora a trato por 'ele', ora por 'ela'", diz o chef Marcelo Salem, 46, que cozinhou recentemente em um jantar oferecido por Ming a um grupo de sete amigas do Colégio Bandeirantes, um dos mais prestigiados de São Paulo, onde todos cursaram o ensino médio.

O ex-aluno deve voltar em breve ao colégio, como palestrante. Vai falar sobre diversidade, drogas, bullying. "Eu não quero ser o (ex-atleta transexual) Bruce Jenner (que antes de fazer a transição, casou-se três vezes, uma delas com Kris Jenner, mãe da socialite Kim Kardashian)". Bruce, a mulher e os filhos de ambos protagonizaram um reality show muito popular, o "Keeping up with the Kardashians". Para Ming, Jenner teve todo acesso à mídia, mas não soube conduzir o programa porque não tinha uma ideia consistente a respeito da transexualidade. "Usou isso apenas como apelo publicitário."

Cardápio para todos os gostos

Durante o jantar, as amigas que conheceram Ming ainda garoto a chamam naturalmente no feminino — e a colocam nas alturas: "É a pessoa mais generosa que eu conheço", diz a dentista Elaine Ferez, 51. O assunto da "transformação" é recorrente. A médica Thaís Yamanishi, 52, melhor amiga dos tempos de escola, lembra que sequer suspeitava que Ming fosse gay: "Passávamos tantas horas conversando no telefone que meu pai dizia: 'Você vai acabar casando com esse chinês'."

O jantar é servido na mesa da cozinha, que tem mais de 1 m de altura por 2,5 m de diâmetro e é formada por duas meias-esferas convexas de resina, uma voltada para baixo, outra para cima. "É o yin e o yang", diz Ming, referindo-se aos dois conceitos opostos da filosofia taoista. O cardápio, para todos os gostos, tem moqueca de camarão, risoto de funghi, carne louca, farofa de soja crocante, lentilha e cuscuz. A engenheira de alimentos Tânia Nakajima, 51, que trabalha na confeitaria Amor aos Pedaços, trouxe um bolo de creme com morangos para a sobremesa. "A Ming me surpreende pela resistência, pela sustentabilidade. A vida já é tão complicada quando a gente prefere a transparência", diz a arquiteta Lícia Aihara, 52, que chegou com uma torta de chocolate.

Os comensais se divertem com as histórias da amiga. O modelo mineiro Fernando Diniz, 35, que mora em Nova York e está em São Paulo a trabalho, pede a Ming que conte a do velório do pai dela. Todos riem de antemão. "Eu estava toda de preto, fiz um coque discreto e enfaixei o busto para escondê-lo. Acontece que minha mãe, louca, resolveu velar o corpo durante quase três dias. Minha barba já estava até aparente. Lá pelas tantas, um conhecido da colônia se aproximou da gente e perguntou: 'O que houve com o Ming? Não pode vir?' Eu levantei a mão e dei um tchauzinho pra me identificar." Uma das habilidades de Ming, e possível recurso de sobrevivência, é rir dos próprios infortúnios. Ninguém diria, ao vê-la no centro das atenções do jantar com as amigas, que ela enfrenta um momento particularmente melancólico. "Eu acordo e, antes do café, já bebo um gole de cerveja. Pronto. É o suficiente para conseguir respirar fundo."

Ming se define como "exagerada, inconstante, totalmente bipolar", diz que já gastou muito dinheiro com droga ("usava para conseguir sobreviver nas festas"), mas hoje quer "distância do social".  "Meu momento mais feliz atualmente é no meu quarto, na minha cama, assistindo a MasterChef." Isso ontem, às 16h. Hoje, ela pode estar planejando uma nova viagem para Nova York, para a Polônia ou para a China.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Paulo Sampaio