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Histórico

"Tirei meu 1º marido do armário", diz criadora da revista gay G Magazine

Paulo Sampaio

30/08/2017 08h00

Ana Maria, em casa, com o shitzu Blog: “Às vezes ele é menino, às vezes menina” (Fotos: Paulo Sampaio/UOL)

O universo homossexual masculino já intrigava a empresária Ana Maria Fadigas, 71 anos, muito antes de ela criar a lendária revista gay G Magazine, no fim dos anos 1990. Seu interesse, digamos, original pelo tema foi despertado por um evento pessoal: “Meu primeiro marido era gay. Fui eu quem o tirou do armário”, diz ela, sem dar ao fato a conotação de bravata. Ao contrário: “A gente se gostava muito, foi um sofrimento insano.” O marido era o professor de história Jayme Camargo, com quem Ana Maria se casou no fim dos anos 1960 e teve dois filhos. Ela conta: “Um dia, eu disse a ele: ‘Eu já entendi, você é homossexual’. Como eu o amava muito e o sexo não era importante, nós ainda vivemos cinco anos juntos.” Durante esse período, lembra Ana Maria, o ex-marido trazia os namorados para apresentar a ela em casa. Se a experiência de compartilhamento parece generosa agora, pode-se imaginar naquele tempo, quando a televisão estava a 40 anos de mostrar o primeiro beijo gay em uma novela, e a militância homossexual era zero.

Ana Maria casou-se mais duas vezes, trabalhou muito, tornou-se vice-presidente da Editora Abril  — numa época em que o mercado editorial navegava em mar de almirante — e ficou muito bem financeiramente. Morava em uma casa grande, fora da cidade, tinha um séquito para ajudá-la com os filhos, motorista, jardineiro, vidão. Tudo ia muito bem, bem demais, e então, zzz,  ela sentiu falta de correr perigo. Com a desculpa clichê de que “não tinha mais para onde crescer”, ela deixou a editora e se associou a dois antigos companheiros de trabalho em um título chamado Sexy — que antes de se tornar uma espécie de catálogo de garotas de programa, era uma extensão da revista Interview, de entrevistas com artistas e personagens da alta sociedade. Mas aquilo não era suficiente. Ela queria algo “realmente diferente”: “E se eu começasse a tirar a roupa dos homens?”, pensou. E mergulhou de cabeça no inexplorado mercado editorial gay.

Famosos, nus e com o pênis ereto

Até houve tentativas amadoras anteriormente, mas nada que causasse a repercussão da G Magazine. No auge, a revista chegou a vender 150 mil exemplares, um número impensável para aquele segmento (de uma revista só).  A publicação era citada em programas como o do Faustão, o de Jô Soares, o de Gugu e o de Hebe Camargo. Cinco minutos de conversa com Ana Maria são suficientes para entender o sucesso da empreitada. Guerreira, obstinada, teimosa, ela não mediu esforços para atrair a atenção daquele público. “Eu não olhava para um pinto como o gay olha”, diz. “E nunca olharia. Eu achava que a foto deveria ser poética. Um erro. Tive de entender tecnicamente como funcionava o olhar do leitor alvo”, lembra.  “A Ana foi muito corajosa, pioneira mesmo”, lembra o produtor Klifty Pugini, que acompanhou todas as fotos. “Fazer a revista naquela época era uma loucura. Não havia esse respeito que se tem hoje, essa patrulha do politicamente correto.”

Muito destemida, Ana Maria Fadigas queria mais. A partir do quarto número, o diferencial da G Magazine passou a ser mostrar personagens famosos nus, com o pênis ereto — ou o mais próximo disso. Foi o que colocou a revista na boca do povo. Roqueiros, atletas, artistas, a capa tinha de ser no mínimo uma subcelebridade. Mateus Carrieri, astro de edições campeãs de vendagem, junto com Alexandre Frota, posou três vezes. Roger, do Ultraje a Rigor, teria frustrado a expectativa dos fãs, mostrando algo inversamente proporcional ao seu alegado Q.I. 172. “Ele mesmo fez graça disso. Quando a gente publicava não-dotados, vinha aquela enxurrada de cartas reclamando”, lembra Klifty. Em 120 edições, tiraram a roupa para a G Vampeta, Latino, Rubens Caribé, Tulio Maravilha, Davi Cardoso, o filho, Nico Puig entre muitos outros. Ana Maria, que nos tempos da Abril acompanhou muitas das negociações com as capas da revista Playboy, afirma que a conversa com os homens era mais direta: “Eles eram objetivos, não tinha exigência de comida sem glúten no catering.”

Tulio Maravilha, capa de novembro de 2003 (Reprodução)

Contrato anti-homofobia

Ela não participava das fotos. Só era chamada quando dava problema. Conta de um famoso que não conseguiu ter ereção na primeira sessão, nem na segunda. Pediu para chamar a mulher para socorrê-lo na terceira. “Ainda assim, não deu muito certo. Ficou démi-bombe (meia bomba)”, lembra ela, rindo, sem revelar o nome da figura. Duas prossibilidades: o jogador Tulio e Roger. “Nunca acompanhei esses ensaios, mas num caso assim eu precisava entrar para resolver, porque a questão era administrativa. Havia um cronograma, uma capa, cada dia custava dinheiro, não dava para adiar ad eternum.”

Na verdade, ela viu um pelado sim. Mas foi sem querer. Ana Maria entrou inadvertidamente no camarim, quando Mateus Carrieri se preparava para posar. A equipe era composta só por gays, fotógrafo, assistente, produtor. Ela lembra de uma fotógrafa apenas, de quem prefere não dizer o nome porque a moça se separou do marido por causa da G. “Mas aí ela pediu demissão, o marido voltou. Tipo da coisa que eu não faria jamais!” De acordo com Klifty, houve um cantor que exigiu que a equipe de produção fosse composta só por homens heterossexuais — não queria nem mulheres nem gays. “Eu saí na hora das fotos”, lembra Klifty. “Pra falar a verdade, não fazia a menor questão de vê-lo pelado.” Obs: apesar de a capa de Latino ilustrar o post, Klifty afirma que o cantor em questão não era ele.

Latino: julho de 2000 (Reprodução)

No contrato com o famoso da capa, Ana Maria fazia questão de colocar por escrito que qualquer comentário homofóbico que ele fizesse na divulgação da edição, por exemplo, em programas de TV, incorreria em multa alta. “Eu me tornei militante da causa gay. Criei inclusive uma espécie de manual de redação para padronizar  alguns termos nos textos.  A sigla do vírus da Aids, HIV, nunca poderia ser escrita com maiúsculas.” Ana Maria era militante fazia tempo, só que antes a causa era outra. Na época da ditadura militar, nos anos 1970, ela chegou a ser presa. Foi libertada em seguida, mas Jayme, o marido, ficou dois meses na cadeia.

“Você precisa mesmo disso?”

A militância na G era realizada na base da solidariedade — já que não havia um movimento gay “oficial”. Naquela ocasião, ela contou com a ajuda de amigos homossexuais que torciam pelo sucesso da revista. Graças a um deles, publicitário, ela conseguiu publicar um anúncio de página inteira do Banco do Brasil. Isso, há quase 20 anos, era uma conquista. Entre os colunistas e colaboradores estavam João Silvério Trevisan, Glauco Matoso, Jean Wyllys, Vange Leonel, a advogada gaúcha Berenice Dias e Claudia Wonder. Como Ana Maria trabalhava de 12 a 14 horas por dia, não sobrava tempo para se chatear com o clamor dos preconceituosos, que a criticavam por “baixar o nível”. “Uma vez, uma conhecida minha, tida como intelectual, me perguntou: ‘Ana, você precisa mesmo disso? Pensa bem no que você está fazendo com a sua carreira.’ Um outro, também muito culto, aconselhou: ‘Ana, toma cuidado’.” “Só que eu me achava o máximo, meu ego não se deixava abater.” Houve caso de colaborador da G que assinou com pseudônimo para “não se comprometer”.

 

Número 100: entre os campeões de vendas, Alexandre Frota e Mateus Carrieri (Foto: Reprodução)

Bom. Ana Maria ainda tinha os filhos para administrar. Imagine-se o que era, para dois adolescentes que estudam em colégios exclusivos de SP, assumir, como ela lembra, que a mãe trabalha em uma revista que mostra homens de pinto duro: “Sempre fui clara com eles, dizia o que eu fazia, explicava que o trabalho da mãe deles era tão digno quanto qualquer outro. Mais tarde, levava inclusive meus netos pequenos para a redação. Eles ficavam no carrinho, no meio daquela pintarada”, ri.

Depressão, dor e o fim

O filho e a filha souberam que o pai era homossexual pelo próprio, quando tinham por volta de 20 anos: “Não tive coragem de me adiantar a ele (Jayme). Achei que seria uma invasão”, conta. Os dois reagiram relativamente bem, sem drama. Em compensação, segundo Ana Maria, a filha não sabia lidar com a G Magazine. “Engraçado, ela se tornou careta.” O segundo marido de Ana era um arquiteto que ela conheceu quando foi comprar uns móveis para a casa. Apesar de terem vivido dez anos juntos, ela fala desse período como se tivessem sido dez meses. “O sexo era bom, eu gostava dele, mas não tinha muito tempo para a vida de casada, trabalhava demais”, lembra. O terceiro também não teve muita expressão na vida dela, a não ser pelo fato de a haver abandonado em seu momento mais difícil.

Foi quando veio o debacle do mercado editorial, no fim dos anos 00, que, claro, atingiu a revista. Ana Maria conta que segurou a editora até onde pode, mas um dia precisou se desfazer dela — “foi uma punhalada no coração”. Cerca de dois anos antes, quando percebeu que estava perdendo no cabo de guerra, ela começou a sofrer de uma depressão que a levaria para a cama. O ponto culminante foi a descoberta de que o comprador da revista era um estelionatário — desaparecido até hoje –, que deixou dívidas impagáveis para ela,  referentes a contratos anteriores. Ana Maria fala do assunto com desgosto, mas ao mesmo tempo se percebe que a falência financeira não tirou dela o orgulho de desbravadora, o peso do lastro, a marca das conquistas.

De volta ao início do texto, só para finalizar, vale dizer que uma das pessoas que mais a ajudaram na depressão foi justamente o primeiro marido, Jayme Camargo, que permaneceu seu grande amigo até morrer — nove anos atrás.

 

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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