Blog do Paulo Sampaio

Histórico

Sem a paixão do início, mulher percebe que o pé do namorado é 'um horror'

Paulo Sampaio

12/01/2018 08h00

Esse texto é uma ficção baseada em fatos reais

O namoro da estudante de antropologia Amélia J. e o músico José Ednaldo P. já ia completar um ano, quando em um dia de sol no sertão de Camburi, no litoral norte de São Paulo, à beira de uma cachoeira, ela pensou: “Nossa, como eu nunca me dei conta? O pé dele é um horror!” Mais do que uma constatação estética, era um sintoma de que a paixão de Meméia havia chegado ao fim. Apesar de ser o mesmo desde o início do relacionamento, o pé de Dadinho tornou-se visível. Até então, para a estudante, o músico que tocava nos barzinhos da Vila Madalena e Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, era “um talento a ser revelado para o grande público”; o ser preguiçoso de hábitos sedentários era  “uma alma linda”, e o sujeito de higiene precária, um “gênio rebelde”.

Foto: Getty Images

De acordo com o chefe do Gender Group do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Luiz Cuschnir, “a paixão é um estado especial, um processo emocional único, cujos envolvidos sempre estarão sujeitos a ‘contaminar’ sua percepção do mundo que os rodeia, assim como a própria auto-avaliação (do que utilizam para se vincular a essa paixão). Isso interferirá na imagem que estará representada visualmente para a pessoa.”

Relevando o pé

Dadinho não tinha ideia de que a intelectual criada no nobre Jardim Paulista, admiradora incondicional das letras dele e sua ouvinte mais fiel, já não o enxergava com o filtro generoso da paixão. E isso parecia realmente preocupante, já que, segundo Cuschnir, os filtros utilizados pelas mulheres nesse “estado especial” podem ser mais potentes que os dos homens. “Há uma tendência de as mulheres relevarem, no primeiro momento, o aspecto físico e se basearem na própria carência afetiva para enxergar no outro os aspectos emocionais que elas consideram importantes em um companheiro.”

A possibilidade de um homem se dar conta de que o pé da namorada é feio, depois de um ano de relacionamento, é bem reduzida. De acordo Cuschnir, “muitas vezes ele avalia a mulher pelo visual logo de início, e já têm critérios de exclusão fortíssimos baseados nisso.”

Pernas cruzadas, mente confusa

Muito remotamente, Dadinho sentia que o humor da antropóloga andava esquisito. Mas nem passava por seu coração egóico que o problema fosse com ele. Atribuía a desentendimentos dela com a mãe; as duas nunca se deram bem.

O músico continuava mostrando suas novas canções para a namorada, dedilhando o violão com as pernas cruzadas e os pés…. “Ai, Dan, sabe quando você começa a sentir ‘nojinho’?”, abriu-se Meméia com sua melhor amiga, a atriz Dandara Estrela Kaiowáa, que por sua vez engatara com o diretor Ubiratan Caju, de um espetáculo experimental chamado “Arapuca”. “Amiga, isso é fase”, opinou Dandara, sem muita paciência. “Relacionamento não é fácil.”

A segurança de Dadinho em relação ao amor de Meméia só piorava a situação. Ela se sentia constrangida de terminar o namoro. O conflito consigo mesma aumentou. As perguntas pipocavam em sua mente confusa. Ela queria “entender o processo”; se julgava leviana, imatura, injusta. Se não estava apaixonada por outro, se não desprezava Dadinho “como ser humano”, se “ainda existia respeito”, o que a teria levado a querer terminar tudo?  “O amor acabou”, pensava. Mas parecia pouco.

Preguiça de DR

Segundo Cuschnir,  talvez tenha faltado a Mémeia autoconhecimento. “A pessoa encontra motivos inexistentes para se ligar, muito em função da sua necessidade de ter alguém. E ela pode não perceber de que jeito está fazendo sua escolha.”

Disposta a “rever a relação”, Meméia partiu para uma DR.  Mas a preguiça de Dadinho emperrou o processo. “Gata, você tá fazendo tempestade em copo d’água”, ele dizia, sem parar de dedilhar o violão. Tentou improvisar uma música com o nome dela, o que em outros tempos funcionava, mas não rolou.  Ela associava o pé do músico ao ser looser que ela agora via nele. E aquela indolência.. Não, ela não tinha mais nada a ver com ele.

Um ser abduzível

Até ali, Meméia achava que a continuação ou não do namoro dependia apenas dela. Não levou em conta que Dadinho era um ser fluido, passivo, abduzível. E assim naturalmente, enquanto ela resolvia se dava um tempo ou não, seu namorado foi enfeitiçado pela tocadora de atabaque Britta E., uma sueca que se apaixonou pelo Brasil quando passou uma temporada no litoral norte da Bahia, e agora morava em São Paulo. Durante algum tempo, ele manteve um romance paralelo com Britta. E teria continuado, se um dia Meméia não houvesse flagrado o “pé horroroso” dele entrelaçado à perna cabeluda da sueca na cama em que até ali era território apenas dos dois (pelo menos era o que ela achava).

O quê??

Instantaneamente, como em uma animação infantil, o pé de Dadinho se transformou.  De horroroso passou a “fofo”; despertou em Meméia o desejo de tratar dele. Presa pelo demônio do ciúme, ela não conseguia mais ver mais os defeitos do namorado. Tentava recuperar o ‘nojinho’ que sentia por ele, mas não conseguia. Precisava urgente ver o “o verdadeiro Dadinho”!

Djavan

Retrospectivamente, Meméia agora lembrava dos olhares cheios de cumplicidade que seu namorado lançava na direção de Britta, enquanto os dois tocavam num barzinho intimista da Vila.  Sim, a sueca passara a fazer parte da banda dele, a convite do próprio.  Encarando os olhos claros dela, Dadinho cantava Djavan: “Se acaso anoitecer, do céu perder o azul. Entre o mar e o entardecer, alga-marinha vá na maresia. Buscar ali um cheiro de azul. Essa cor não sai de mim. Bate e finca pé. A sangue de rei. Até o sol nascer amarelinho..”

Meméia chafurdava no lodo escuro do desespero. Tentou buscar “elementos para entender” o que acontecia com ela mesma, enquanto procurava manter a tranquilidade. Não queria passar recibo do baque, embora considerasse essa preocupação um sintoma de “imaturidade”. “Foda-se! Eu quero mais é gritar, chorar, colocar isso pra fora!”  Mas o máximo que ela conseguiu dizer na hora do flagra foi: “Tudo bem, eu não quero atrapalhar vocês..” E Dadinho: “Meméia, eu…” Ela: “Dadinho, você não precisa explicar nada. Nossa relação já estava mesmo esgarçada..” Ele só pensava em dar um jeito de adiar o momento: “A gente precisa conversar”, arriscou. “Eu te procuro.”

Vestidinho puído

Sem saber o que dizer, nem mesmo em sueco, Britta colocou uma roupa e foi preparar um café na cozinha. Usava um vestidinho com estampa floral que ganhara em troca de uma apresentação em um bar de Trancoso; Meméia se sentia “tão por baixo” que achou o vestidinho da outra, mesmo estando puído, mais charmoso que o seu da Farm.

Pensar que ela tinha ido na casa de Dadinho justamente para pedir um tempo ao namorado. E agora, o músico coçava distraidamente o dedão do pé, por baixo do lençol, enquanto dedilhava “uma canção de amor”. E então, “rolou um insight”. Meméia percebeu que ela, para ele, “era nada”; e que aquilo tudo, para ela,  era só uma cena. Seu pensamento foi catapultado para um encontro que marcou com sua turma do cinema. Eles iam comemorar o aniversário de um roteirista em um clube de samba. Na ocasião, Victor M, seu melhor amigo, a apresentou ao irmão do namorado dele, Jairo, que tocava numa banda de jazz. Pior que ela nem olhou para o pé de Jairo…

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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