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De mulher-gato a Kim Kardashian, a história da empresária Sylvia Design

Paulo Sampaio

26/03/2018 04h00

O personal-stylist Rafael Menezes, 31 anos, assumiu há menos de um mês o desafio de "dar uma repaginada" na empresária cearense Josefa Adecilda, mais conhecida como Sylvia Design —e mais ainda como a mulher-gato dos comerciais da rede de móveis dela mesma. Menezes diz que pretende "quebrar o google". Significa que os seguidores de Sylvia Design nas redes sociais podem se surpreender. "A ideia é fugir do previsível", afirma. Trata-se de um projeto ambicioso, levando-se em conta o estilo coruscante da empresária. Ela não sai de casa sem cílios postiços, lentes de contato verdes e batom laranja. "A bicha não enxerga nada de longe", diz ela, referindo-se à miopia nos olhos.

A referência do personal-stylist para criar "uma nova Sylvia" é a socialite norte-americana Kim Kardashian, que está entre os perfis mais acessados do Instagram no mundo, com 108 milhões de seguidores. "É o sexy chique hoje", afirma Menezes, segurando um vestido Versace preto com detalhes dourados, no qual a voluptuosa Sylvia Design acabou não conseguindo entrar. "Esquece o Versace", diz ela, quando surge a ideia de vesti-lo para posar para as fotos. "Foca no Brás (região de comércio popular na zona leste de São Paulo)."

SD explica que, quando vai às compras, não se apega a marcas: "Desde que eu goste, a roupa pode estar no shopping JK ou na (rua) 25 de Março." Para as fotos, ela coloca um vestido assinado pela estilista Patrícia Nascimento, que, de acordo com informações do site da marca, produz modelos "singulares e luxuosos", que "envolvem a cliente em uma sintonia de exclusividade e poder".  No caso, é um vestido bordado com paetês, que tem um decote enviezado e uma fenda lateral. Por enquanto, o google não foi quebrado…

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Posando com um vestido de Patrícia Nascimento, em um dos sofás da loja vizinha ao Deic: "Esquece o Versace! Foca no Brás!"(Foto: Gabo Morales/UOL)

Dada a invejável autoestima de Sylvia Design — que fala de si na terceira pessoa, usando o nome e o sobrenome –, é bem provável que Rafael Menezes enfrente alguma dificuldade para convencê-la de que outra mulher pode ser uma referência melhor do que ela mesma. "Sou mais perua (do que Kardashian)", avalia a empresária, aventando uma possibilidade próxima do inimaginável. Um dos traços –além das curvas — em comum entre as duas é que ambas nasceram para ser imitadas, e não o contrário. "Onde Sylvia Design vai, todo mundo vai atrás", afirma ela, citando a loja que abriu há 15 anos em frente ao Deic (Departamento Nacional de Investigações Criminais), isolada de todos os redutos moveleiros da cidade: "Na época, o povo disse: 'Essa mulher tá doida'. Mas aí aconteceu o de sempre. Veio todo mundo para perto. É só você sair aí fora e ver a quantidade de lojas de móveis. Virou um polo!"

Em relação à alameda Gabriel Monteiro da Silva, o maior corredor de comércio de móveis e decoração de luxo do Brasil, no Jardim Paulistano, ela não se intimida: "Aquilo é pura ostentação, ninguém ali vende nada." Kim Kardashian que se cuide.

Simples, mas feliz

Empresária bem-sucedida, Sylvia Design gosta de contar a história da menina simples, mas feliz, que nasceu em uma família grande em um sítio chamado Cuncas, a mais de 500 km de Fortaleza, migrou sozinha para São Paulo aos 17 anos, e hoje, aos 46, comanda um complexo moveleiro que vende 8 mil ítens por mês: "Sempre tive o sonho de tirar meu pai da roça". Apesar de tê-lo realizado, seu Aristeu morreu sem vir a São Paulo para conhecer o império que a filha ergueu. São cinco lojas, 3 mil itens,  300 empregados e uma frota de 100 caminhões. "Não houve jeito de trazê-lo pra cá", lamenta.

A extraordinária determinação de Sylvia a fez minimizar os perrengues que enfrentou ao chegar na cidade grande. Ela conta, por exemplo, sem sinal de mágoa, que foi roubada por uma companheira de quarto no primeiro dia em que se hospedou em uma pensão em Pinheiros, bairro de classe média na zona oeste de São Paulo: "Eu voltei do trabalho exausta, doida pra tomar um banho e me esticar na cama. Quando vi, ela tinha levado tudo, inclusive minha mala. No outro dia, não tive dúvida, abri um crediário em uma loja na Teodoro (Sampaio) e comprei um enxoval novinho: vestidos, tops, calcinhas fio dental, e fui trabalhar feliz da vida."

Muito desenvolta, Sylvia Design chega para a entrevista "modelando". Um metro e setenta de altura, 102 cm de coxas malhadas, 112 cm de quadril e 97 de seios turbinados, ela caminha a passos largos dentro de um short branco com amarrações laterais, uma camiseta regata de seda amarela e sapatos altíssimos com saltos transparentes: "O acrílico está de volta", informa. Por causa da estatura e do porte, Sylvia se considera "uma cearense diferenciada". "Sou descendente de índios por parte de minha avó materna. Era para eu ser baixinha, buchuda e com os peitos caídos."

A mulher-gato da Raposo

Apesar de ser uma vendedora de sucesso há décadas, a verdadeira ascensão de Sylvia Design ao estrelato se deu há cerca de 11 anos,  quando ela se vestiu de mulher-gato para se tornar garota-propaganda de sua própria grife de móveis. Caracterizada como a personagem do lendário seriado Batman, ela aparecia em um outdoor próximo da filial da Rodovia Raposo Tavares e também na fachada das lojas. "Foi um divisor de águas na história da marca", conta Sylvia Design, que desde então virou uma figura folclórica. Àquela altura, ela já havia se vestido de Emilia, a boneca de pano do Sítio do Picapau Amarelo; de Mulher Maravilha, a super-heroína do seriado norte-americano estrelado por Linda Carter; e de Maria Bonita, a companheira de Lampião, o rei do cangaço. Nessa ocasião, ela chegou à loja da Raposo montada em um jumento. "Aumentamos nossas vendas em 5.000%", diz o diretor comercial Marcelo Cleber, 43 anos, há 15 o braço direito dela.

Mulher-gato no recamier: um divisor de águas na imagem da marca Sylvia Design (Foto: Gabo Morales/UOL)

A loja da Avenida Zaki Narchi, onde ela recebeu o blog, tem 3.500 m2 e disponibiliza uma variedade grande de mobiliário. Oferece um "mix de estilos", com móveis para todos os bolsos: "Ainda tenho sofás de R$ 2 mil, porque quero atender a velhinha que sempre comprou aqui e que chega de metrô", explica Sylvia. Já o "recamier vitoriano" branco com detalhes dourados em que ela posou paramentada de mulher-gato sai por R$ 14.900. Os móveis mais caros em geral são os mais chamativos. Perto do recamier há uma mesa de jantar para dez pessoas com tampo de vidro tonalizado de preto, cadeiras da mesma cor e pés ornados com floreios laminados em ouro de R$ 23.800.

Pegadinha clássica: em uma das mesas de centro, está um livro "oco" onde se lê "VALENTINO". A capa do livro é a tampa de uma caixa forrada de feltro. A mesa fica ao lado de um tonel estilizado cor de laranja, com a inscrição Hermès, e outro, branco, onde está escrito Chanel. Espalhados na loja, há dorsos masculinos, femininos, equinos e caninos. "Sempre escolhi as peças pessoalmente, mas com o tempo consegui  uma equipe que sabe mais ou menos o meu gosto", afirma Sylvia Design. "Já trabalhei muito de domingo a domingo, hoje me dou ao luxo de chegar mais tarde, só às 10h30. Agora, quero ter qualidade de vida."

No centro da loja, o chão de vidro cobre um aquário de carpas com 5 mil litros de água. Logo ao lado, repousa uma pantera esculpida em ferro negro. Marcas das pegadas do felídeo, feitas com tinta, marcam o vidro.

Por temperamento, a empresária jamais admitiria uma avaliação de seu negócio que fosse menos que o máximo: "Somos a loja que mais vende móveis por metro quadrado no Brasil". Por metro quadrado? Marcelo Cleber explica que para obter o resultado basta dividir a área das lojas pelo número de ítens vendidos. De acordo com essa matemática, a Sylvia Design está à frente de "todas as empresas de móveis do país". Segundo a empresária, inclusive dos grandes varejos, como Casas Bahia e Magazine Luiza.

Porre de Botox

Boa de marketing, Sylvia Design percebeu o potencial de suas declarações extravagantes ("gente, pelo amor de Deus, não fotografa a mulher-gato de costas porque a calça tá com um furo no cu") e transformou-se em uma espécie de caricatura de si mesma. O personagem é autossustentável, já que o exagero faz parte da caracterização: "Não bebo, não fumo, não uso droga nenhuma. Meu único vício é o Botox; tomo verdadeiros porres", afirma.

A liberdade de poder dizer o que pensa vem junto com a informação de que nunca dependeu de ninguém. Trata-se de uma mulher autopatrocinada.  Tudo o que conquistou na vida, diz ela com muita firmeza, foi sozinha. Conta que chegou a trabalhar com parentes, mas não deu certo. "Prefiro dar a vara para eles pescarem." A única remanescente é a irmã Giovanna, cujo nome na certidão de nascimento é Cícera Genecilda. O rebatismo foi obra de Sylvia Design: "O povo nem saberia dizer esse nome: tivemos de dar o 'pulo do gato' com ela também", afirma.

Rainha do Porsche

Dona de uma cobertura de 350 m2 em Santana, bairro da zona norte de São Paulo, Sylvia Design tem orgulho de dizer que banca inclusive os presentes que ganha: compra suas próprias joias, abastece seu bem fornido closet ("ainda não descobri se ele é pequeno, ou se eu tenho muita roupa") e se intitula a "rainha do Porsche". "Agora tenho um Mercedes porque o valor do IPVA é quase a metade." O marido, Alexandre Araújo, é um comerciante de carros "que tem a loja dele totalmente separada". Os dois estão casados há 22 anos e, segundo ela, se completam: "Eu sou o vinho, e ele, a água." E ai daquele que trocar as bebidas. O casal tem um filho chamado Alexandre Jr., que, assim como o pai, não dá entrevistas: "Eles não aparecem na mídia", determina ela.

Antes de Alexandre, que é pernambucano, ela namorou por quatro anos um descendente de japoneses ("não deu certo, as ferramentas eram pequenas") e um médico paraguaio com o qual ficou três anos. Conheceu o marido no forró: "Eu era mais feinha, então ele não precisou fazer muito esforço". SD conta que recebeu uma criação na qual não se admitem casamentos que não sejam para sempre. Seus pais foram casados por 66 anos, e suas cinco irmãs subiram ao altar virgens: "Eu fui a única danadinha que pulou a cerca", diz ela, que perdeu a virgindade com o "japonês", aos 17.

Loucaaaa

Além de Rafael Menezes, ela mantém um maquiador exclusivo há 15 anos. Alexandre Coelho, 40 anos, vai a sua casa todos os dias, de domingo a domingo, para "acordar seu rosto".  Coelho é seu amigo pessoal, admirador e coadjuvante nos comerciais da loja. Durante a sessão de fotos, ele a acompanha aos gritos: "Loucaaaa", diz, espalmando com os braços erguidos. "Taca photoshop! kkkk". O maquiador explica que, no dia a dia, Sylvia Design não gosta de "maquiagem carregada": "Faço uma 'pele' (base neutra), uso um delineadorzinho, coloco os cílios e o batom alaranjado (ela não usa outro)".  O cabelo é comprido, negro e levemente enrolado nas pontas, graças ao babyliss; as sobrancelhas desenhadas emolduram os olhos verdes: "Acho que eu assusto os homens", diz Sylvia, quando pergunto se ela é muito assediada (paquerada). "Eles morrem de medo de chegar perto. Ontem mesmo tinha um garoto de uns 25 anos no bar em que eu fui, que ficou com a mão gelada só de se aproximar de mim. Quando me cumprimentou, disse: 'Sylvia Design, eu nem acredito que estou te conhecendo. Que honra.' Eu respondi: 'Imagine, garoto, pare com isso, eu sou uma mulher como outra qualquer."

Não custa avisar.

 

 

 

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Paulo Sampaio