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Histórico

Manifesto progressista de Manuela D'Ávila tem trilha de 50 anos atrás

Paulo Sampaio

17/04/2018 05h00

Cerca de 400 pessoas estiveram ontem no Teatro Oficina, em São Paulo, para prestigiar o manifesto de lançamento da pré-candidatura da gaúcha Manuela D’Ávila à Presidência da República, pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O encontro mostrou que as esquerdas ali reunidas são muito bem intencionadas. Buscam a defesa da democracia, a igualdade entre os cidadãos, a justiça para todos, uma melhor distribuição de renda, o combate ao preconceito de raça, cor, orientação sexual, e a necessidade de reformas estruturais na educação e na saúde. O programa do partido é definido como “progressista”.

Mas então colocam para tocar na vitrola “Roda Viva”, a música título da peça que Chico Buarque de Hollanda escreveu há 50 anos e que virou símbolo de resistência à ditadura militar. Logo depois, alguém sobe ao palco para cantar Belchior: “Você não sente nem vê/Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/Que uma nova mudança em breve vai acontecer/E o que há algum tempo era novo jovem/Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer.” Ninguém parece ouvir a música com atenção. Repetem-se os versos em voz alta, numa grande corrente de emoção.

A “mudança em breve” foi anunciada por Belchior em 1976.

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Militantes no Teatro Oficina (Foto: Carine Wallauer/UOL)

Companheiro & caminhada

Uma das apresentadoras do evento anuncia que vão passar um vídeo gravado especialmente para o manifesto “por um grande artista da MPB”. Adivinha? “A música foi composta há 48 anos”, diz a moça, em tom de suspense. “Tem os seguintes versos: ‘Apesar de você, amanhã há de ser outro dia’.”  Será? Melhor mudar o disco.

Pra quem está com mais de 50 anos, o show-ato manifesto tem o seu romantismo. Aquela boina vermelha combinando com a echarpe, os cabelões encaracolados, os tricôs coloridos, as saias batique, o vocabulário (“companheiro”; “caminhada”; “camarada”; “guerreiro”; “guerrilha”). Mas então vem a pergunta: por que a esquerda tem de estar sempre associada ao que aconteceu no século passado?

Nas mensagens de vídeo, figuras como a cantora Beth Carvalho e a atriz Tássia Camargo hipotecam solidariedade a Manuela. Ótimo. Cadê Anitta? Como sair dos 3% das intenções de voto, sem atrair o público que consome “a nova MPB”? É legal saber que os artistas nos anos 1970 tinham de compor letras cifradas, para “dar o recado” e, ao mesmo tempo, escapar da patrulha militar. Mas a história agora é outra.

Travesti não é mulher trans

Quem faz as vezes de mestre de cerimônia é a atriz Renata Carvalho, 37 anos, que se define como  travesti. Ela ficou famosa por encenar o polêmico Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, no qual “Cristo volta nos dias de hoje como uma travesti”. “A Manuela foi assistir ao espetáculo e disse que mudou a vida dela”, conta.

Renata se impacienta quando o blog pergunta: “Travesti é o mesmo que mulher trans?”. Ela fala alto que a travesti (“a puta, a excluída”), a mulher trans (“a aceita”) e a mulher cis (“a de verdade”) transitam no mesmo “fenótipo de gênero”.  E que uma proposta de governo progressista depende fundamentalmente desses três exemplares: “A política sempre foi dominada pelo homem cis branco. Só que toda mudança vem da mulher, amor, isso é histórico. A mudança é feminina e preta.” Renata não sabe dizer se ela mesma é comunista.

 

Renata Carvalho, a mestre de cerimônias (Foto: Carine Wallauer/UOL)

Musa a contragosto

O manifesto estava marcado para as 18h30, mas Manuela D’Ávila chegou cerca de uma hora depois ao Teatro Oficina, “um lugar lindo, representativo da liberdade de expressão”. Alta, branca, cabelos lisos mantidos em um corte assimétrico, Manuela veste uma calça preta, uma camiseta cinza onde se lê “liberdade” e um blazer azul puxado para o roxo. Pergunto se ela sofre patrulha por usar colar de pérolas em um ambiente tido como espartano. Ela diz: “Se uma bijuteria que simula pérolas agride alguém, eu sugiro que se busque algo realmente ofensivo nas propostas anti-Brasil dos outros candidatos.”

E continua: “Sempre vão usar minhas características contra mim. Eu já fui chamada de musa por todos os jornais. Eu queria ser musa do (poeta Mario) Quintana (1906-1994). Mas foi a Bruna Lombardi.” Infere-se pelo discurso de Manuela que uma mulher comunista-feminista deve ser reconhecida apenas por sua luta. Século passado?

Manuela D’Ávila e o colar de pérolas simuladas (Foto: Carine Wallauer/UOL)

Encontro metafórico

O deputado Jean Wyllys, do PSOL, sobe ao palco e dedica um discurso carinhoso a Manuela. Conta que os dois se encontram metaforicamente em uma ponte cultural que une duas nações do Brasil, o Rio Grande do Sul (o estado natal dela) e a Bahia (o dele); dois sexos, o masculino e o feminino; e duas orientações sexuais: a hétero e a homossexual. Diz que Manuela se revelou uma amiga de verdade. Canta “Ela e Eu”, de Caetano Veloso (1979), em homenagem à candidata:   “Há flores de cores concentradas/Ondas queimam rochas com seu sal/Vibrações do sol no pó da estrada/Muita coisa, quase nada/Cataclismas, carnaval/Há muitos planetas habitados/E o vazio da imensidão do céu/Bem e mal e boca e mel/E essa voz que Deus me deu/Mas nada é igual a ela e eu.”

 

Jean Wyllys dá um abraço apertado em Manuela D’Ávila, depois de cantar “Ela e Eu” (Foto: Carine Wallauer/UOL)

A cantora Ana Luisa entoa uma versão sofrida do Hino Nacional, com a voz firme e, ao mesmo tempo, embargada. Ao final, abraça o pianista Luiz Felipe e chora. Em seguida, canta a emblemática “Cálice”, escrita por Chico Buarque e Gilberto Gil e censurada pelos militares. “Como é difícil acordar calado/Se na calada da noite eu me dano/Quero lançar um grito desumano/Que é uma maneira de ser escutado/Pai, afasta de mim esse cálice, pai/Afasta de mim esse cálice/De vinho tinto de sangue.” E lá se vão 45 anos.

Eduardo Suplicy, Celso Amorim, Fernando Pimentel, entre outros, fazem pequenos discursos de apoio à candidata, elogiando a mulher jovem mas desde sempre envolvida com os princípios de liberdade, igualdade e luta; exortam a união das esquerdas e defendem a soltura de Lula.

Lurian, a “filha de Lula”, é a militante mais ovacionada da noite. Sobe ao palco, conta a história de um garoto de 9 anos que ela encontrou em um comício do pai no interior: “Eu quis saber o que uma criança fazia ali. Perguntei a ele. Eu era mais uma pessoa no meio da multidão. Sem saber que o Lula é meu pai, o garotinho respondeu: ‘Porque ele mudou a minha vida e a da minha família’!” A militância grita: Uhu! Lula! Lula!

Salve Leci!

A cantora deputada Leci Brandão é chamada. “Vamos receber uma mulher negra, defensora do povo socialista, Leci guerreira da pátria brasileira, Deus a abençoe, proteja e ilumine.” Os militantes a saúdam: “Salve Leci!” Ela surge com os cabelos pintados de vermelho, cor da bandeira do partidão, e leva o sambinha “Cidadã Brasileira”, a música mais recente da noite (1990).

A letra fala de uma mulher com um grande ideal, “que sempre foi retaguarda, mas vai pra vanguarda de modo viril”; ela é “a esperança no futuro do Brasil e fez amor com ternura com uma doçura de uma fêmea guerreira”.

Leci guerreira da pátria brasileira (Foto: Carine Wallauer/UOL)

Leci fala de Manuela como “uma companheira jovem, ativista, que eu acompanhei em diversas caminhadas”. Diz que os camaradas e companheiros ali reunidos são guerreiros, não baderneiros: “Tô vendo gente aqui de todas as etnias, todas as orientações, tô vendo  Jandira Feghali, minha companheira de luta..”

Para provar que é guerreira de nascença, Leci se declara “filha de ogum e iansã”. Enfim, Leci esgota todos os recursos linguísticos de uma militante clássica de esquerda.

Alhures…

Lá fora, o vendedor de pimenta em conserva Eduardo Figueiredo, 52, que é homossexual e morador de rua, pergunta o que está acontecendo no teatro. Depois de saber, ele conta que já foi candidato a vereador (abaixa o tom de voz) pelo PT do Rio, mas cometeu “um erro”. “Resolvi lutar pelos direitos dos homossexuais. Ali eu me lasquei todo!” Teve 266 votos.

Aproveitando a “presença da mídia”, ele diz  que gravou um disco com o maestro  Ivan Paulo. “Ele morava no quinto andar, eu no sexto do mesmo prédio, em Copacabana. Eu não sabia que ele era tão considerado, até vê-lo na TV. Você não o conhece? Ele é famosíssimo! Trabalhou com o Roberto, a Rosemary. Eu o procurei com a proposta de gravar o disco, ele topou na hora. ” Figueiredo dá uma cantarolada, diz que a letra é dele. “É bossa-nova, um  tributo ao Rio de Janeiro”. Enfim, outra viagem. Mas a música é de 2009.

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O vendedor de pimenta e cantor de bossa nova Eduardo Figueiredo (Carine Wallauer/UOL)

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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