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Histórico

Maridos heterossexuais assumem prazer em ser penetrados por cinta peniana

Paulo Sampaio

20/04/2018 16h44

A prótese da cinta peniana pode medir mais de 30 cm (Foto: iStock/UOL)

O primeiro pênis artificial que o empresário mineiro Marcos* adquiriu, 12 anos atrás, media 15 cm por 3 cm de diâmetro. Casado há 18 anos com a publicitária Camila, de 31, ele conta que hoje só se satisfaz com um instrumento de no mínimo 25 cm por 8 cm. Tanto ele como ela gostam de ser penetrados. "Eu fui jogador de futebol profissional, e convivi com muitos atletas bissexuais. Onde só tem homem, sempre acaba rolando sexo. No exército, é a mesma coisa. Mas eu nunca tinha experimentado nada do padrão da cinta peniana (popularmente conhecida como 'cinta caralho' ou 'cintaralho')", conta o empresário de 43 anos.

Aos 32, Marcos teve de se afastar do futebol por conta de uma lesão no joelho esquerdo. Na ocasião, Camila esperava um filho. "Foi uma gravidez de risco, e ela quase não podia se mexer. Para não me deixar sem sexo, teve a ideia de brincar no meu ânus. Eu sempre gostei de ser estimulado atrás. Primeiro, ela dava linguadas e enfiava de leve os dedos. E não fazia só para me dar prazer; ela gostava de me 'comer'. Passado um tempo, comprei a cintaralho", lembra. "No início, aguentava só um pouco, mas então ela passou a introduzir mais e mais."

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Camila se casou com Marcos de véu e grinalda, na igreja e com festa: "Tudo começou nos moldes tradicionais", conta ela. "Os experimentos no campo sexual aconteceram naturalmente, e o relacionamento foi ficando cada vez melhor." Na opinião dela, muitas mulheres se mostram preconceituosas quando se fala de homens que sentem prazer no ânus, por uma "questão cultural": "Não somos preparadas para esse tipo de situação. Muitas acham que, se o marido gosta de ser penetrado, é porque é viado."

Pousada liberal

Depois que a filha do casal nasceu, eles passaram a frequentar clubes de troca de casais fora de Belo Horizonte — para evitar conhecidos indiscretos — e encontros de praticantes do sexo livre em chácaras e sítios. As brincadeiras evoluíram. Camila passou a transar com outros homens e mulheres, Marcos idem.

Supõe-se que é preciso muita segurança no próprio casamento, para topar "dividir" o marido (e a mulher) com tanta gente — e também para se entregar intimamente a pessoas de ambos os sexos. Camila diz que se sente  "uma privilegiada".  "Eu e o Marcos falamos tudo um para o outro, não há segredos entre nós. Ele é mais que meu marido; é meu amigo, meu amante."

O casal está prestes a inaugurar uma "pousada liberal" em BH, com 10 apartamentos, piscina e pista de dança. "A ideia é organizar uma festinha por mês", diz Marcos, que frequenta com a mulher cerca de 10 grupos de casais no aplicativo whatsapp.

Mercado quente

De acordo com o site MercadoErotico.org, que reúne 11.253 empresas nacionais do ramo, o setor movimenta R$ 1 bilhão por ano. Nos últimos 12 meses, houve um crescimento de 20% nas vendas de acessórios para casais heterossexuais. As mulheres compram mais.

Pesquisa feita na semana passada com 2.298 casais héteros pela rede social de sexo e swing  sexlog.com, na qual Marcos e a mulher conheceram muitos de seus parceiros, revelou que:

  • 55,7% dos entrevistados têm vontade de experimentar a cinta peniana.
  • Em 77% dos casais nos quais os homens já sentiam prazer em ser estimulados no ânus, a penetração é feita com a cinta em ambos os parceiros;
  • Em 60% daqueles em que os homens nunca sentiram vontade, o pênis artificial é introduzido na mulher;
  • 57% compraram a cinta na loja,  43% pela internet;

Em relação a iniciativa de comprar a cinta — se foi do homem ou da mulher — o sexlog.com dividiu os dados por anos de relacionamento:

HomemMulher
Até 5 anos43%57%
Entre 5 e 10 anos55%45%
Mais de 10 anos58%42%
Mais de 20 anos60%40%

 

Constrangimento a princípio

Para o servidor público paulista Gustavo, 42 anos, o processo foi um pouco mais delicado que o de Marcos. Casado há 12 anos com Carla, uma secretária de 31, ele conta que já havia tido relações sexuais com travestis e sempre quis comprar uma cinta peniana — mas não sentia "abertura" para contar para a mulher: "No começo, quando eu tocava nesse assunto, ela ficava constrangida", lembra ele. "Mas aos poucos eu a convenci a experimentar acessórios mais leves, até que comprei um vibrador."

Carla acredita  que o constrangimento, em muitas mulheres, é maior que o preconceito: "Elas querem experimentar, mas ficam sem graça de admitir." No caso dela, houve necessidade de se "adaptar à novidade". "Sou bastante curiosa, mas isso não basta. Ambos precisam ter a mente aberta. Caso contrário, você não consegue manter o clima." Carla acha que, se não tivesse compartilhado com o marido as fantasias dele (que se revelaram dela também), seu casamento seria como milhões de outros. "Ele continuaria fazendo o que faz, só que sem me contar nada."

Nível alto de exigência

Como no caso de Marcos e Camila, a vida sexual de Gustavo e Carla, que tem dois filhos de 12 e 4 anos, se tornou "muito mais ativa". Além de conhecer muitos adeptos do swing, eles se tornaram usuários de acessórios como as bolinhas tailandesas (que se introduzem no ânus e vagina) e o anel peniano (que aperta o membro na base e segura o sangue, mantendo a ereção por mais tempo). "Vejo muitos casais 'tradicionais' que estão junto há tanto tempo quanto a gente, e não transam há meses, às vezes há mais de um ano", diz Gustavo.

Ele reconhece que, por outro lado, o fato de ter experimentado tantas alternativas elevou seu "nível de exigência" em relação ao sexo.  Afirma que uma transa 'tradicional' (executada apenas com o instrumento que Deus lhe deu) não o satisfaz mais. Para dar uma ideia, o pênis de sua cinta tem 22 cm, e ele o considera "mediano". Lembrando que, no caso do acessório, está sempre rijo.

Só sexo?

E se houver envolvimento afetivo com terceiros? "É um risco ", diz Gustavo. "Maior para o homem, porque a mulher tende a se envolver, ou querer uma continuidade. Para nós é mais fácil fazer apenas sexo." A propósito, todos os casais entrevistados garantem que só fazem sexo protegido, por maior que seja o número de parceiros envolvidos.

E por que Gustavo precisou contar para a mulher a respeito de sua atividade sexual extra-conjugal? Ele diz que não se tratava de uma questão de fidelidade, mas de lealdade. "Hoje, somos cúmplices. Não há risco de traição, porque fazemos juntos. E por incrível que pareça, nosso relacionamento ficou muito mais saudável."

Modelos e valores

O preço da cinta peniana pode variar de R$ 20 até mais de R$ 120 reais. Líder no mercado brasileiro e latino americano, a fábrica de acessórios eróticos Hot Flowers, localizada em Indaiatuba (cidade a 100km de São Paulo), vende 5 mil ítens mensais e confecciona sete modelos de prótese, que variam não só de acordo com o tamanho (de 15cm a 25cm) mas também na apresentação.

Há desde a cinta sem a prótese (que o cliente escolhe à parte e encaixa em um plug), até as com vibrador. E ainda os extensores penianos, que também variam de tamanho e o usuário usa como uma capa sobre o próprio membro.

Observação: embora a Hot Flowers não fabrique próteses maiores do que 25 cm, há modelos de até 31 cm no mercado.

Pouco prático

A empresária Lia, 61, e o aposentado Adalberto, 60, não consideram a cinta peniana prática. O modelo deles tem três "vetores": a prótese e dois pinos. A prótese vai no ânus de Adalberto, e os pinos no ânus e na vagina de Lia. "Prefiro fazer na mão", diz Lia, e mostra uma foto de seu pulso enterrado no centro das nádegas do parceiro. "O problema da cinta com três pinos é que você não consegue manter tudo dentro e, ao mesmo tempo, fazer o movimento. Um dos pinos, ou a prótese, acabam saindo", diz ela.

Lia, Adalberto e a cinta, em um café no centro de São Paulo: "pouco prática" (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Lia é casada há 35 anos, e Adalberto é separado há 7 de uma mulher com quem viveu por 25 anos. Cada um tem uma filha; a de Lia tem 35 anos, a de Adalberto, 14. Ele conheceu Lia há 12 anos em um chat de sexo na Internet. Embora os dois não façam esforço para esconder (nem divulgar) suas práticas, tanto a ex-mulher de Adalberto quanto o marido de Lia não sabem do relacionamento deles  — ou preferem não tocar no assunto. Muito menos do "alcance" de suas experiências.

A dupla pratica sexo a dois, a três e a mais, e não rejeita praticamente nenhum tipo de demanda.  Suas experiências vão muito além da cinta peniana — que acabou sendo "descontinuada" nas relações deles, por absoluta inadequação. Adepta do sadomasoquismo, Lia mostra uma foto de suas nádegas muito avermelhadas, no momento em que outra mulher a espanca de chicote em uma festa no interior.

Os dois se definem como heteroflexíveis. Transam com pessoas de ambos os sexos, sendo que quem faz a triagem dos parceiros em potencial, na maioria das vezes, é ele. "Não tenho paciência para essa parte", diz Lia. "Quero tudo mastigado." Ambos afirmam que nunca se apaixonaram por seus parceiros eventuais. "Às vezes, no meio da bagunça, alguém troca um olhar mais demorado com você, e é gostoso, mas fica nisso", conta Lia.

É pique, é pique

Pelo que se verificou na conversa com os três casais entrevistados nesta reportagem, as festas sexuais fechadas estão em alta. Todos responderam que preferem frequentar sítios, chácaras ou mesmo casas alugadas do que clubes de swing (troca de casais) propriamente ditos.

Por sinal, Adalberto alugou a suíte master de um motel em São Paulo para comemorar seus 60 anos  no sábado, 21, em grande estilo. Resta desejar a ele um feliz aniversário, e seja o que Deus quiser. É pique, é pique!

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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