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'São muitos casos, 8 escolas me procuraram', diz psicóloga do Bandeirantes

Paulo Sampaio

26/04/2018 15h44

O acolhimento é o primeiro passo para adolescentes que têm de conviver com suicídio de colegas (Foto: I-stock)

Oito escolas procuraram a psicoterapeuta Karina Okajima Fukumitsu, 47 anos, desde que ela  começou a dar treinamento a orientadores, professores e funcionários do Colégio Bandeirantes, em São Paulo, onde no mês passado dois adolescentes se mataram em menos de 15 dias. As oito instituições queriam contratá-la para desenvolver o mesmo trabalho. "São muitos casos. Nunca me chamaram tanto para dar palestras", espanta-se ela, que há 25 anos trabalha com prevenção e posvenção de suicídio.

Karina atribui muito de seu interesse pelo tema ao fato de ser filha de uma mulher que tentou se matar várias vezes: "Eu mesma evitei algumas", diz. A propósito, ela conta que eliminou a palavra "suicida" de seu vocabulário: "É estigmatizante, a pessoa (no caso de sobreviver) vai ser apontada o resto da vida. Vira referência." Karina afirma também que não se deve usar a expressão "cometer um suicídio" e nem, no caso de a morte se consumar, tratar o ato como um "suicídio bem sucedido". "Cometer é um verbo ligado a pecado ou a crime, e obviamente não se trata de nenhum dos dois. É sofrimento", diz. "E um suicídio nunca deve ser tratado como uma conquista."

Na entrevista abaixo, ela compara o impacto que o suicídio de um aluno provoca na escola a um tsunâmi. Diz que, antes de qualquer tentativa de "colocar em ordem" o ambiente, é preciso recolher os escombros. Acolher, orientar e também legitimar o ocorrido. "Reconhecer que existe um caos." Segundo Karina, a alternativa de associar o suicídio a questões religiosas ("Foi a vontade de Deus"; "Deus sabe o que faz"; "Deus resolveu que era a hora dele") é o pior caminho.

Blog – Você diz que, depois dos dois casos do Colégio Bandeirantes, já recebeu telefonemas de oito escolas procurando ajuda. Parece um número expressivo. O que tem causado essas mortes? Existe um componente geracional?

Karina – Também. O que eu observo nos adolescentes é uma grande desarmonia relacional. Eles se escondem no virtual, e se comunicam muito mal pessoalmente. Mas o suicídio é algo multifatorial. Os principais fatores são a ambivalência (a pessoa não quer morrer, ela só quer viver de outro jeito; ou não quer se matar, mas matar aquilo que provoca o sofrimento); impulsividade (quando existe pouca resistência à frustração, e uma necessidade imediata de "resolver" o problema); comunicação interdita (dificuldade de expressar a dor).

Blog – Existe alguma providência a tomar em termos físicos, na sala de aula, em relação ao lugar que o adolescente ocupava?

Karina – Isso é algo que os colegas de turma vão decidir, após o reconhecerem  o caos e recolherem os escombros.

Blog – Qual a possibilidade de preservarem a cadeira vaga?

Karina – Vai depender de como eles vão olhar para a dor. Foi uma surpresa. O suicídio é sempre uma morte inesperada.

Blog –  Até em casos de depressão?

Karina – Uma coisa não está necessariamente ligada à outra. Basicamente, uma pessoa que se suicida está querendo se comunicar e não consegue. Existe um pedido de socorro.

Blog – Alguns especialistas afirmam que a pessoa que se atira da janela costuma se arrepender segundos depois. Dizem isso por relatos dos sobreviventes.

Karina – Não é algo que se possa generalizar.

Blog – Quem se descontrolou mais com os casos do Bandeirantes, os pais ou os filhos?

Karina – Ambos. É como eu disse, o caos.

Blog – Qual a possibilidade de o "tsunami" deflagrar nos alunos e pais questões psicológicas que vão além do ocorrido, ou que não têm nenhuma relação com os suicídios. Existe o risco de uma catarse coletiva. Como lidar com isso?

Karina – A gente escuta, mas tenta minimizar esses impactos. E tira o foco do resto.

Blog – Houve outros casos de suicídio (tentativas) no colégio?

Karina – Não tenho essa informação. Mas sempre há. Em todo lugar.

Blog – Em algum momento você fará contato direto com os alunos?

Karina – Por enquanto, marcamos palestras com os pais. São quatro, em duas semanas. Em 20 minutos, as vagas foram preenchidas.

Blog – O que se pode fazer para prevenir contra o suicídio?

Karina – Tratar os eventuais transtornos psiquiátricos; reduzir o acesso aos métodos suicidas (arma de fogo, veneno, corda); tentar o máximo possível estimular a comunicação com o filho (no caso do adolescente). Existe um grande problema relacional.

Blog – E quais os próximos passos?

Karina – Eu estou elaborando um programa de posvenção com a escola. Terminada a fase de acolhimento e legitimação do caos, a gente vai cuidar das sequelas, ou das consequências do impacto.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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