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Autoteste 'sigiloso' e gratuito de HIV está disponível só para homens em SP

Paulo Sampaio

16/05/2018 05h00

Imagem: iStock

No fim de semana passado, resolvi me submeter ao autoteste ‘sigiloso’ de HIV distribuído gratuitamente para homens que fazem sexo com homens (HSH) em cinco pontos* da cidade de São Paulo. O  resultado sai em cerca de 30 minutos. A iniciativa faz parte da pesquisa “A Hora é Agora” realizada pelas três esferas do governo, em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma agência do departamento de saúde norte-americano.

De acordo com a assessoria do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids (CRT-DST/Aids), com quem eu falei, a pesquisa deve ajudar a levantar o número de pessoas que nunca fizeram o teste, traçar o perfil delas e saber os lugares mais acessados para buscar o kit.

Código alfanumérico

O projeto tem ainda a intenção de auxiliar homens que se sentem constrangidos de fazer o teste em laboratórios ou postos de saúde, nos quais é preciso se identificar (no autoteste, a pessoa é representada por um código alfanumérico). E também para diagnosticar os que vivem com o HIV mas não sabem. No Brasil estima-se que esse número é algo em torno dos 112 mil.

Não me encaixo em nenhum dos dois casos. Realizei o procedimento apenas para saber como era e relatar no blog. Uma amiga que também pretendia fazer o teste se sentiu frustrada quando soube que a pesquisa só abrange os HSH. “Mas isso é discriminação”, disse. No CRT, explicam que os homens que se relacionam com homens integram o grupo em que a taxa de infecção mais cresce no Brasil.

Informa-se ali que aproximadamente 20% dos gays estão infectados, ante 0,4% dos heterossexuais. Pelas categorias de exposição, observou-se no período de 2010 a 2015 uma tendência expressivamente crescente de casos HIV positivos entre os HSH, em  uma velocidade de 402 casos novos/ano. Com relação à idade, observa-se que as maiores taxas de detecção em homens concentram-se entre jovens de 20 a 24 anos; os casos foram de 30,8 para 79,4 por 100 mil hab/ano entre 2010 e 2015. Jovens de 25 a 29 anos apresentaram TD de 35,9 e 70,5 casos por 100 mil hab-ano no mesmo período.

Posto móvel do Arouche, um dos cinco que distribuem o kit do autoteste (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Beijar pode?

O autoteste é feito por via oral, através da coleta do fluido encontrado na região da gengiva que fica próxima da bochecha (acima e abaixo da arcada dentária). Usa reagente colorimétrico dourado de proteína A e IgG anti-humano de cabra. A precisão no resultado é de 99,3%, segundo estudos clínicos feitos nos EUA. Um modelo com outra tecnologia é comercializado desde agosto em farmácias, por valores que vão de R$ 60 a R$ 70.

Primeira pergunta: se o vírus pode ser detectado em uma amostra de saliva, isso significa que é possível contrair no beijo? “Não”, responde a gerente da área de prevenção, Ivone de Paula. “O teste é feito com o fluido oral, não com saliva. Nele, o que se detecta é o anticorpo — um sinal evidente de que a pessoa tem o vírus. A eventual presença do vírus na saliva é em quantidade ínfima, insuficiente para o contágio.”

Passo 1

O processo não é complicado, mas exige um mínimo de interesse e de perícia. O primeiro passo é acessar o site, no endereço ahoraeagora.org/spNa página inicial, há um vídeo do passo a passo do procedimento e um teste com práticas sexuais (sexo oral, oral-anal ativo, passivo, anal ativo e passivo) para calcular o risco de a pessoa já ter sido contagiada. Quem quiser ir direto para o autoteste, deve clicar em “Teste-se: a hora é agora” e, em seguida, “Pegue seu teste gratuitamente em um posto de distribuição”.

Na sequência, há um termo de consentimento e um questionário de multiplaescolha com 21 perguntas simples, como “idade”; “sexo”; “já fez o teste?”; “deu positivo alguma vez?”; “quantas vezes nos últimos seis meses você foi o parceiro passivo sem usar camisinha?”; “quantas foi o ativo sem usar camisinha com um parceiro homem sabidamente HIV positivo?”; “usou drogas estimulantes?”.

Kit autoteste

O questionário pode ser respondido em cerca de dois minutos. Ao fim, eles enviam um código alfanumérico que serve para identificação na hora de pegar o kit no posto — e para informar o resultado (coisa que eu nunca consegui, por falha técnica). Os dispositivos vêm em uma caixa que mede 17 cm de comprimento por 13 cm de largura e 8 cm de altura. Dentro da caixa estão um folheto explicativo, dois cartuchos conjugados de plástico contendo uma espátula, um frasco com o líquido reagente e um suporte para apoiá-lo.

O kit do autoteste (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

De acordo com orientações contidas no folheto — um pouco extenso, na minha opinião –, a espátula deve ser arrastada na direção da gengiva, de uma extremidade à outra, uma vez só. Em seguida, deve ser mergulhada no líquido contido no frasco, que a essa altura deve estar apoiado no suporte de plástico. O prazo dado para o resultado é de 20 minutos a 40 minutos.

O procedimento (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Positivo ou negativo?

O resultado do teste aparecerá na outra extremidade da espátula, onde há um pequeno marcador vertical. Uma linha vermelha ao lado do “C” (controle) significa que foi negativo (não reagente). Duas linhas ao lado do “C”e uma ao lado do “T” (teste), configuram positivo (reagente). Nesse último caso, o CRT orienta que se faça um teste confirmatório. Também indicam um telefone para apoio psicológico.

O resultado do teste convencional, único disponível no começo da epidemia, nos anos 1980, saía em cerca de quinze dias. Esse modelo ainda está disponível, mas hoje há duas possibilidades de “teste rápido”: feito com fluido oral e com sangue.

Quem não é parte do público-alvo da pesquisa (caso da minha amiga) pode fazer o teste para o HIV em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS) de São Paulo e nos 26 serviços da Rede Municipal Especializada (RME) em ISTs/AIDS da capital. goo.gl/p5en2C

O resultado em 22 min, 30 min e 40 min (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Também em Curitiba

A primeira cidade em que se implementou o autoteste foi Curitiba, onde há quatro anos se verifica a aceitabilidade pela população. Em São Paulo, o procedimento foi lançado há pouco mais de um mês e está em fase de experiência de logística (postos de atendimento mais procurados, acessibilidade, distribuição).

Optei pela unidade móvel do Largo do Arouche, que fica aberta aos sábados, entre 19h30 e 22h. Ao chegar, meu kit não estava disponível. Imaginei que talvez eu não tivesse colocado o “/sp” no fim do endereço. Muito solícito, o encarregado pediu outro teste na hora — em circunstâncias normais, o prazo para a entrega do kit, depois da solicitação, é 24s.

Devo confessar que, por preguiça ou tendência a déficit de atenção, pedi auxílio a minha amiga do terceiro parágrafo para me ajudar a realizar o teste. Enquanto ela monitorava o marcador e tirava as fotos, aproveitei para voltar ao posto e saber quantas pessoas haviam ido lá buscar o autoteste. “Sete, eu incluído”, ele contou. Soube disso por volta das 22h, horário em eles encerram o atendimento.

Em suma, foi tranquilo — embora eu nunca tenha conseguido informar o resultado (não reagente), por algum problema técnico no site. Por enquanto, estou fora da estatística.

* Locais de dispensação do autoteste:

Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo (CRT-DST/AIDS)
R. Santa Cruz, 81 – Vila Mariana
De segunda a sexta-feira, das 8 às 18h.
Centro de Testagem e Aconselhamento Henrique de Souza Filho (CTA Henfil) 
R. Líbero Badaró, 144 – Centro
De segunda a sexta-feira, das 8 às 18h.
Unidade Móvel ONG ” BARONG” 
Largo do Arouche – Centro.
Às 6ª feiras e sábados, das 19 às 22h.
Unidade Móvel Projeto “Quero Fazer” 
Largo do Arouche – Centro
Aos domingos, das 15 às 19h30
Centro de Referência da Diversidade (CRD)
R. Maj. Sertório, 292 – República,
De segunda a sexta-feira, das 14 às 21h.

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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