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Paulo Sampaio

Empresas falam em diversidade mas não dão um tostão, diz ONG da parada gay

Paulo Sampaio

21/05/2018 05h00

 

Renato Viterbo: "As multinacionais criam grupos internos de diversidade para dizer que têm uma política Lgbt, mas quando você pede patrocínio, não dão nada" (Foto: Ilton Rogério/i-Stock)

"A C&A chama a Pabllo Vittar pra fazer comercial, lança coleção de roupa com o nome dela, mas jamais nos ajudou com patrocínio", queixa-se o vice-presidente da Associação da Parada LGBTI+, Renato Viterbo, 50 anos.  "É o marketing de guerrilha. Promovem a drag porque tá em evidência." A 13 dias da 22ª. edição da parada, que no ano passado reuniu 4 milhões de pessoas, Viterbo conta a dificuldade de angariar dinheiro para o evento, que custaria, em condições ideais, R$ 5 milhões. "A gente conseguiu R$ 1,4 milhão, o evento é feito no osso. Precisei vir a público neste ano para dizer que os jogos nacionais da diversidade, que existem no mundo todo e nós promoveríamos pela segunda vez, foram cancelados."

Viterbo diz que "as multinacionais falam em diversidade, criam internamente um grupo 'pride' (orgulho), mas só para dar a sua cota de correção política".  Segundo ele, até aparecem propostas de fazer "ações" na parada, mas parte-se do princípio que quem agrega são eles, e não o evento. "O Google, por exemplo, propôs colocar os 80 funcionários do grupo pride deles com camisas da empresa, no meio do público, sem dar nada em troca." Algumas empresas, diz Viterbo, praticam o chamado "marketing da emboscada": "No ano passado, a Absolute colocou uma porção de balões com o símbolo da marca sobre a multidão, sem nos consultar. O fiscal deveria ser o governo. Mas você acha que eles vêem isso?"

O município colabora com o equivalente a R$ 1,5 milhão, em infra-estrutura. O prefeito sempre aparece para acenar do trio. "Além do ganho político, eles lucram na economia. Calcula-se que 20% do público da parada são turistas que vêm de fora de São Paulo. No ano passado, isso representou a entrada de R$ 60 milhões na cidade, em Imposto Sobre Serviços (ISS). O equivalente a doze vezes o que precisamos para levantar o evento."  Segundo Viterbo, a empresa que presta infraestrutura para o evento, todos os anos, é a SP Eventos, uma autarquia da própria Prefeitura. O empresário diz que as coisas não melhoraram no governo de João Dória Jr., conhecido pelo trânsito entre os maiores empresários do país e por defender o investimento da iniciativa privada. "Ele não pode vir, tinha prometido acompanhar a filha em uma viagem que deu a ela de aniversário."

Blog – Como vocês fazem a captação de recursos para a parada?

Renato Viterbo – A gente bate na porta das empresas. Neste ano, visitamos 120.

Blog – E o que eles disseram?

Viterbo – Que não tinham dinheiro. Hoje em dia, as grandes multinacionais criam grupos internos de diversidade, ou 'pride', para dizer que têm uma política LGBT. Pega bem. Mas quando se pede para colaborar em um evento que reúne 4 milhões de pessoas, ninguém dá um tostão. Tratam como se fosse uma carrocinha de cachorro-quente. Fecham as portas.

Blog – Não dão nadinha?

Viterbo – Temos dois patrocinadores grandes, a Uber e a Skol, o resto é colaboração minguada. A Natura fez um comercial lindíssimo no ano passado, abordando a diversidade, e quando fomos conversar, disseram que o budget de 2017 estava fechado. Agora, vamos chegar antes do começo de 2019, pra ver se dá certo. A Bayer propôs fazer uma "distribuição de abraços". Sem pagar nada.  Nós ganharíamos só o "gesto bonito".

Blog – Quanto vocês precisam para levantar o evento?

Viterbo – Em condições ideais, R$ 5 milhões. Mas não chegamos nem a R$ 1,5 milhão.

Blog – Como vocês gastam o dinheiro?

Viterbo – O evento é grandioso, a programação dura um mês. Tem o ciclo de debates, o de leituras dramáticas, uma mostra de cinema, a festa do prêmio cidadania e respeito à diversidade, a feira cultural e a 'cãominhada', no Anhangabaú. São 18 trios elétricos, nós bancamos 16. Neste ano, a gente precisou cancelar os jogos nacionais da diversidade. Não havia como fazer. A Prefeitura nos dá R$ 1,5 milhão, mas em infraestrutura. Posto policial, pessoal para segurança, gradeamento, banheiro químico.

Blog – Por que vocês não tentam arrecadar dinheiro entre os próprios participantes, fazer um crowdfunding?

Viterbo – No Brasil, a parada é considerada um "carnaval fora de época". Com todo respeito ao Carnaval, que eu gosto muito, isso tira a conotação política do evento. Nos Estados Unidos, a sociedade participa ativamente das paradas, se organiza. Tem o bloco do Corpo de Bombeiros, o dos Policiais, de diversas corporações. A própria comunidade gay se sustenta. Nós aqui temos 12 milhões de desempregados. Embora se registre um crescimento no número de travestis e trans que alcançaram o ensino superior completo e pós-graduação, a maior parte deles ainda é considerada "população vulnerável". Muitos dos que têm dinheiro não se envolvem, preferem gastar com outras coisas. Nós não temos maturidade política nem cultural para isso.

Blog – Como a associação se sustenta?

Viterbo – Com o que sobra do dinheiro arrecadado. Somos pequenos. Temos um departamento jurídico, uma assessoria de imprensa e um setor de contabilidade. Nossa sobrevivência é impressionante, se você compara com a de uma empresa familiar pequena. Somos muito maiores e gastamos muito menos.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.