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Blog do Paulo Sampaio

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Fake news: psiquiatra diz que, na crise, somos mais suscetíveis às mentiras

Paulo Sampaio

2025-10-20T18:04:00

25/10/2018 04h00

iStock

No vale-tudo da campanha presidencial deste ano, nada foi mais alardeado do que o fenômeno das fake news — as notícias falsas disparadas nas redes sociais. Mesmo quem não sabe o significado do termo em inglês passou a repeti-lo desenfreadamente. Para entender por que as pessoas mentem, e por que, ao mesmo tempo, tendem a acreditar em mentiras — especialmente em momentos de crise como a que atravessa o Brasil –, o blog conversou com psiquiatra Rodrigo Leite, chefe dos  ambulatórios do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo.

Leite afirma que "ser sincero o tempo todo não é factível". "Mas quando a mentira passa a prejudicar os outros, torna-se um problema." Segundo ele, o mitômano ou mentiroso patológico tem como principal característica a utilização indiscriminada deste comportamento para obter vantagens. Na entrevista abaixo, o psiquiatra explica que quando sentimos nossa estabilidade ameaçada, a chance de sermos manipulados (por mentirosos) é maior.

Blog – Por que as pessoas mentem?

Rodrigo Leite – A mentira tem, até certo nível, um papel social de coesão, de não magoar as pessoas ou de lidar com a ambiguidade da vida. Ser sincero o tempo todo não é factível. Mas quando a mentira passa a prejudicar os outros, torna-se um problema. Neste caso, o objetivo é manipular, obter vantagens, persuadir, convencer mediante fraude. O objetivo final acaba sendo o controle de pessoas ou situações de acordo com os próprios interesses.

Blog –  Por que sempre há pessoas dispostas a acreditar em um mentiroso?

RL – Os mentirosos apelam para emoções como medo, raiva, culpa — ou prometem ganhos e felicidade. Estas emoções ativam regiões cerebrais de recompensa e também nosso comportamento animal de auto-preservação. A realidade é sempre frustrante e aquém dos desejos. Fugir dela é atraente e diminui o mal estar de lidar com a incerteza da vida. Nosso cérebro foge do desprazer de sentir dúvida. Exige certezas, e os mentirosos a oferecem o tempo todo.

Blog –  Em momentos de crise, é mais fácil embarcar em mentiras?

RL – Nos momentos de crise social, entram em cena mecanismos cerebrais que nos remetem aos nossos ancestrais evolutivos, como os mamíferos inferiores e os répteis. O cerebro destes animais tem, essencialmente, a função de garantir autoproteção e sobrevivência. Quando existe uma ameaça a esta estabilidade, nosso cérebro tem dificuldade de refletir e acaba se deixando levar por pseudo-soluções fáceis ou interpretações mais simplistas dos problemas. A chance de ser manipulado é maior.

Blog – Existe conexão entre mentira e medo da frustração?

RL – Se a mentira for um auto-engano, a pessoa pode usá-la para fugir de frustrações da realidade. Neste caso , temos de diferenciar a mentira — um ato sempre consciente e voluntário —  da negação — que é um mecanismo de defesa inconsciente.

Blog –  A mentira pode ser tomada como um traço do caráter?

RL – Personalidades psicopáticas tem a mentira como um comportamento bastante atuante, mas a grande maioria da população mente desde as ditas "mentiras brancas" até as que envolvem prejuízo para si e para outros. É um comportamento socialmente generalizado e universal. A sinceridade e a transparência são metas desejáveis, mas nem sempre alcançáveis e, pior, nem sempre o que queremos ouvir e divulgar é, necessariamente, a verdade. A verdade é uma construção cognitiva que varia ao longo do tempo e nunca é absoluta. Depende das circunstâncias históricas e sociais e das motivações emocionais para ser definida como tal. A regra é que o que se entende como verdade varia muito de individuo para individuo e dependendo do momento. A verdade não é um consenso.

Blog – Quando o mentiroso acredita na própria mentira, o risco maior é para ele, ou para os outros?

RL – O risco é para si e para os outros. Mentirosos patológicos podem se envolver em dívidas, comprometer a reputação e trazer problemas legais, por exemplo.

Blog – Quando um mentiroso passa ser considerado patológico?

RL – São situações extremamente raras em psiquiatria. O mitomano ou mentiroso patológico tem como principal característica a utilização indiscriminada deste comportamento para obter vantagens sociais, econômicas e afetivas e que via de regra prejudicam outras pessoas. Entretanto, existem individuos que se casam ou se ligam a mitomanos, tamanho o potencial de manipulação e convencimento deles.

Blog –  Como tratá-los?

RL – O tratamento depende do desejo do individuo em mudar seu comportamento, o que via de regra, é muito raro. O tratamento principal é a psicoterapia.

Blog –  É possível detectar um mentiroso compulsivo já na infância?

RL – Dificil detectar na infância por conta do "faz de conta" e das fantasias infantis que são parte do desenvolvimento psicológico do ser humano. Este processo é fundamental para que na vida adulta tenhamos a capacidade de distinguir fantasia de realidade. Ele desenvolve nossa capacidade de pensar e compreender cenários de forma isenta e com certo grau de ceticismo.

Blog –  Qual o limite entre mentira e fantasia?

RL – Fantasias são produtos do inconsciente, e a mentira é um comportamento social criado pela vontade do individuo. As fantasias são parte da nossa vida psíquica normal, desde que não prejudiquem o individuo ou terceiros.

Blog –  Até que ponto a fantasia é saudável?

RL – Enquanto temos o desejo de voar por uma janela dentro de nossa mente, sem pular da mesma, a fantasia está sob controle e pode ser uma metáfora de uma busca por liberdade. Outra coisa é confundir essa fantasia com uma necessidade concreta. Aí, corremos risco. Fantasias são símbolos e metáforas da mente, assim como os sonhos. Querer concretizá-los é sempre um desejo humano, desde que isso não envolva riscos individuais e sociais — o que passa a ser prejudicial. Na psicose, existe essa confusão entre fantasia e realidade. Nesse caso, temos um quadro que necessita tratamento específico.

Blog – A campanha do candidato Jair Bolsonaro é acusada de disparar fake news nas mídias sociais. Por sua vez, boa parte do eleitorado dele diz não acreditar no noticiário dos meios de comunicação tradicionais, alegando que são fake news. Nesse caso, por mais que não possamos considerar a mentira algo positivo, ela parece ter favorecido o candidato duplamente.

RL – As fake news, por trazerem um conteúdo de emoções como medo, indignação e surpresa, ativam sistemas cerebrais com mais eficiência do que a mídia tradicional, que traz evidências. É uma guerra de neuromarketing. O candidato se beneficiou tanto da publicidade positiva quanto da negativa, comprovando a máxima "falem mal, mas falem de mim". Em momentos de tensão social, o cérebro interpreta a realidade de modo a rejeitar a dúvida, a incerteza e o ceticismo. A certeza, mesmo que equivocada ou fruto de má fé, alivia o desconforto psíquico das pessoas.

Blog – A eleição parece ter acirrado ânimos nas mídias sociais. Tanto no facebook quanto no instagram, é possível detectar comportamentos bélicos, agressivos e descontrolados, em pessoas que nunca se envolveram com política, e que, sabidamente, mal conhecem o currículo dos candidatos.

RL –  O ódio e o extremismo capturam a atenção do cérebro com mais eficiência do que mensagens postivias ou brandas. Estes sentimentos deixam todos em estado de alerta e isto se associa à manutenção do estresse coletivo. A falta de curiosidade intelectual e do ceticismo –fundamentais para se refletir sobre determinado assunto, sem se deixar levar por paixões extremadas ou manipulações — potencializa a futebolização do jogo político. O maniqueísmo é um mecanismo da mente infantil que separa com muita precisão o bem do mal, o certo do errado e a verdade da mentira. Este processo cognitivo está fadado ao fracasso na percepção da complexidade da realidade e impede o diálogo e o consenso.

Blog – A mentira nas redes sociais não é um fenômeno novo. Há pessoas que se apresentam irreconhecíveis, em fotos editadas com filtros e photoshop, e currículos melhorados — e isso parece normal naquele contexto. Até que ponto a incorporação dessa mentira — que passa a ser a verdade para aquelas pessoas — é nociva para a saúde mental?

RL – O campo das repercussões das mídias sociais na saúde mental ainda é pouco estudado. Evidências mostram associação com depressão, ansiedade e alterações de sono. Ao que parece, há uma atuação diferencial entre as mídias. O youtube teria uma atuação positiva para a saúde mental, por trazer entretenimento e informação de acordo com o interesse do usuário. Já o facebook e o instagram estimulam o individualismo, a competição e a inveja, que acentuam a solidão e o sentimento de exclusão em algumas pessoas. A mentira ou o mascaramento do individuo nos perfis podem trazer prejuízo de auto-estima e sofrimento emocional naqueles que se sentem em desvantagem social neste processo de comparação.O detox digital e o uso racional das mídias sociais são uma pauta urgente.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.