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Blog do Paulo Sampaio

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"Sofri um massacre", diz funcionária de Doria que despertou ira feminista

Paulo Sampaio

2021-03-20T19:05:00

21/03/2019 05h00

A DJ Pietra Bertolazzi se tornou a polêmica do momento nas redes sociais, graças a ataques indiscriminados ao feminismo e às feministas (Foto: Fernando Moraes/UOL)

A DJ Pietra Bertolazzi, 33 anos, diretora de projetos do Fundo Social de São Paulo, anda se queixando de que foi vítima de um "massacre". Detratora do feminismo, ela criou para si um personagem que só as redes sociais são capazes de promover com tanta irresponsabilidade  — o da garota polêmica. Já faz um tempo, Pietra passou a postar as teses mais improváveis para desmerecer o movimento em defesa dos direitos das mulheres. Elas reagiram enfurecidas.  "Por favor, nos ajude a denunciar a pessoa que ocupa esse cargo público", disse uma. "Você é uma patricinha ignorante, não sabe o que está dizendo!", afirmou outra.

Em sua controversa argumentação, Pietra chegou a compartilhar o post de uma correligionária que insistia em demonstrar estatisticamente que as maiores vítimas da violência doméstica são os homens; em outra publicação, listou os motivos pelos quais ela acha que não deve nada ao feminismo. 1) "O movimento pelo direito ao voto feminino começou com o baiano conservador cristão César Zema, no governo de Getúlio Vargas." 2) "A mulher sempre pode trabalhar, desde que o mundo é mundo." 3) "Nunca existiu no Brasil uma lei que proibisse uma mulher de estudar", e assim por diante, até o 6.

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À esquerda, os números do feminicídio; à direita, os motivos pelos quais Pietra não deve nada ao feminismo (Foto: Reprodução)

100% do bem

Aparentemente, as ideias de Pietra Bertolazzi não combinam com o papel que ela se propõe a desempenhar no Fundo Social. No começo do ano, ela assumiu ali a coordenação de uma escola de beleza, estética e bem estar. "Cuido da autoestima de mulheres em situação de rua, transexuais e presidiárias. Vou a (penitenciária feminina de) Tremembé duas vezes por semana", conta ela, em entrevista exclusiva ao blog. Diz que está realizada: "Eu sempre quis dedicar 100% do meu tempo para fazer o bem."

O problema agora é convencer os inúmeros desafetos a acreditarem em suas intenções. O estrago foi grande. A promotora Gabriela Mansur, fundadora da página "Justiça de Saia", passou em Pietra uma pesada descompostura: "A sua opinião e análise dos dados está totalmente equivocada. Além disso, esses dados são antigos, de 2014. Atualmente, há novos dados que você, por trazer o debate à tona, deveria saber. Mas se você quiser, te atualizo: ontem, enquanto você estava almoçando, 536 mulheres foram espancadas por seus companheiros no Brasil. Ontem, enquanto você estava assistindo um capítulo de novela, 45 meninas menores de 14 anos foram estupradas no Brasil."

Ataques irados partiam de todos os lados: "Gente, você sabe ler estatística? Proporcionalmente, o número de assassinatos contra mulheres é maior, uma vez que representa 40% dos crimes contra as mulheres. Aliás, qual é a sua fonte?"  A resposta da DJ do bem veio em forma de bullying.

Resposta a uma leitora indignada

Argumento enviesado

"A Pietra é muito competente", acha a primeira-dama do estado, Bia Doria, presidente do conselho do Fundo Social. Um abaixo-assinado publicado pela rede Avaaz pediu o desligamento da DJ do fundo, mas Bia diz que não há a menor possibilidade. "Nunca cogitamos isso. Ela está indo muito bem."

O presidente do Fundo Social, Filipe Sabará, 35 anos, usa um argumento um tanto enviesado para resguardar a funcionária. "Recebo uma petição (abaixo-assinado) de mulheres que defendem mulheres, pedindo para tirar emprego de outra mulher. Não faz sentido", diz. Ele não leva em conta que Pietra, por sua vez, desmereceu o movimento em defesa das mulheres, que afirmam que ela forjou uma estatística e reduziu a quase nada uma luta de décadas.

Quem mais, senão ela?

Sabará defende que "rede social é vida pessoal dela". Afirma que o que as pessoas postam no virtual não tem a ver com seu desempenho profissional. Não considerou  que o instagram, o twitter e o facebook são ferramentas de trabalho tão poderosas que praticamente elegeram o presidente Jair Bolsonaro — candidato de Pietra.

Ele explica que mede o trabalho de suas colaboradoras "pelo que elas fazem, não que pelo que falam".  "Não existe ideologia quando a gente se refere a mulheres em situação de vulnerabilidade", diz. "A Pietra criou a primeira escola de capacitação profissional para detentas. Se ela não defende mulheres, quem defende? Com certeza, não são as pessoas que estão atrás do I-Phone atacando. Nunca recebi uma oferta de trabalho das mulheres que a criticaram", diz Sabará, que acha "uma coisa injusta tachar a menina de DJ".

Indignado, ele dá um desconto a Pietra pelo fato de ela ser mãe (de uma menina de 5 meses): "Li uma série de comentários reduzindo a Pietra à profissão dela. Ela teve uma atuação como DJ, mas é mulher, esposa, mãe, que também atuou como voluntária no cuidado de mulheres que são consideradas minoria da minoria." O currículo de Pietra é ainda mais extenso: no passado, quando era casada com o também DJ Mario Veloso, participou com ele do reality show Power Couple, da TV Record, no qual oito duplas de sub-celebridades passavam por provas para testar até que ponto um conhecia o outro. Pietra e Veloso logo foram eliminados.

 

 

Entre os compartilhamentos de Pietra, estão o texto da professora de inglês Thaís Azevedo, que comunga a máxima antifeminista "cansei de tanto mimimi"; e o discurso da ex-feminista extremista Sara Winter (atualmente antifeminista extremista) atacando a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) , a quem Bolsonaro disse que não estuprava porque era feia

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Gero e Valet

Uma das postagens mais polêmicas de Pietra mostra duas grandes amigas dela, Fernanda Lara e Stella Jacintho, na estação Capão Redondo do metrô, periferia de São Paulo, com as inscrições: "Ñ tem valet?"(alusão a manobristas VIP); e "Podia ter um Gero aqui" (referência a um restaurante frequentado pela elite da cidade). Ambas são funcionárias do Fundo Social (Lara acompanha a entrevista com Sabará) e também lidam com "mulheres em situação de vulnerabilidade".

Parece incoerente. Mas rede social não interessa, faz parte da "vida pessoal delas". Stella socorre a amiga: "Toda essa história é uma pena, pois tira o foco do trabalho sério que é feito no fundo, levantando uma bandeira que faz parte de uma grande confusão de interpretação."

Bolsonight

Politicamente, Pietra se diz "de direita". Eleitora de Jair Bolsonaro, ela foi DJ em uma festa que comemorou a vitória do presidente chamada Bolsonight, promovida pelo empresário Enrico Celico (também notório criador de polêmicas nas redes).

Apesar de afirmar que tem muitos amigos homossexuais ("meu tio morreu de Aids nos anos 1990, e minha mãe sempre conviveu com gays, recebia os amigos em casa"), ela desconhece os princípios homofóbicos do presidente da República. Não tinha ideia, por exemplo, de que Bolsonaro já fez declarações como:  "Seria incapaz de amar um filho homossexual; não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que meu filho morra em um acidente de automóvel do que apareça com um bigodudo por aí. Pra mim, ele vai ter morrido mesmo."

Pietra insiste: "Você conhece o Agostini? Ele é maquiador, gay, e um dos maiores apoiadores do Bolsonaro." Ela acha "cedo" para avaliar o novo governo.

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A DJ diz que ouviu falar pela primeira vez de Jair Bolsonaro "quando começaram as polêmicas em torno do (deputado pastor Marco) Feliciano sobre a cura gay, que não era exatamente isso que ele queria dizer…" Não?

Mudamos de assunto para Damares Alves, a ministra do azul e rosa. Pietra acredita na teoria da "metáfora mal entendida". "Infelizmente, as pessoas interpretaram o que ela disse como quiseram. Eu tive uma menina agora, é algo cultural, decorei o quarto dela de rosa. Particularmente não gosto de rosa, mas é uma coisa embutida no nosso subconsciente."

Enfim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.