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Em 'live', psicóloga fala sobre como se relacionar com o dinheiro do marido

Paulo Sampaio

09/06/2019 05h00

O flyer da psicóloga Carol Kherlakian no Instagram (Foto: Reprodução)

Falante, disponível, leve — pele hidratada, cílios lubrificados, cabelos lisos e obedientes –, a psicóloga Carol Kherlakian tem se dedicado incansavelmente a mostrar a suas pacientes casadas que elas não devem se sentir culpadas por não trabalhar fora. O que parece torturar essas mulheres é não saber "como se relacionar com o dinheiro do marido". "Elas se cobram o tempo todo, e acabam trabalhando exageradamente na administração da casa, para compensar."

Em uma live de cerca de 30 minutos, na quinta-feira passada, a psicóloga explica que esse comportamento tem reflexos em toda a família. "O resultado é que ela tende a ser mãe 'demais' e a criar os filhos dependentes, o que na maioria dos casos atrapalha a autonomia deles até para cortar uma fruta", observa.  

Segundo Carol, a cobrança leva algumas dessas donas de casa a fazer as contas para se convencer de que seu trabalho vale o que ela gasta do salário do marido: "Quando se casam, elas se colocam na posição de empregada. Somam o que gastariam se não estivessem cuidando de tudo. Os R$ 2 mil da babá, outro tanto do motorista (para levar às atividades das crianças), da arrumadeira etc."

Ciência da felicidade

Casada há dez anos com um advogado, Carol está com 37 e tem duas filhas pequenas, de 5 e 2. Há três anos, a família se mudou de Alphaville para Chicago, nos Estados Unidos, onde ela se especializou em "psicologia positiva". "No final da década de 90, o (ex-presidente da American Psychological Association) Martin Seligman levantou uma questão muito importante: segundo ele, a psicologia estava indo muito bem no que se referia a estudar problemas e patologias, mas havia deixado de lado os estudos do que dava certo. Muito pouco se sabia sobre emoções como gratidão, otimismo, esperança, bondade, curiosidade, resiliência, perdão, compaixão, alegria", acredita ela, que acabou migrando com família para Orlando, por conta do trabalho do marido.

Graças a Martin Seligman, diz Carol, "a ciência da felicidade se tornou matéria nas mais importantes faculdades americanas, como Harvard e Yale, e, por diversas vezes, foi campeã de alunos inscritos". Procurado pelo blog, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) não quis se manifestar sobre o assunto.

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Na live, a psicóloga se mostra falante e disponível; tem a pele hidratada, os cabelos lisos e obedientes; ela fala da importância de ter um bom relacionamento com o dinheiro do marido (Foto: Reprodução/UOL)

Vovós resolvidas

Com 11.600 seguidores na rede social, Carol disse ao blog que a culpa por não trabalhar fora é um problema que aflige 90% das mulheres de sua geração: "Nossas mães eram muito mais bem resolvidas. Elas iam cuidar dos filhos e da casa, e acabou! Não tinha esse stress de achar que estavam gastando o que não era delas."

Na live, a psicóloga encoraja as mulheres de sua geração a encarar o casamento como uma "sociedade". "Não interessa se os dois se casaram na igreja ou apenas juntaram as escovas de dentes. O importante é entender que o dinheiro não é só dele, é de ambos, e que, assim como o marido gasta para crescer profissionalmente (com MBA, pós-graduações, reciclagens), e com lazer, a mulher também precisa, como funcionária da administração da casa, investir em cursos ("como ser uma ótima mãe"), e também treinar seu pilates, dar suas voltas pelo shopping e — por que não? — fazer suas comprinhas, ir ao cabeleireiro, e tomar drinks com as amigas.  Isso tudo fará dela uma mulher mais leve, feliz, e, assim, uma mãe muito melhor", acha.

Mães exaustas

Uma das teclas em que Carol mais bate é justamente a da "felicidade": "Na maioria das vezes, o marido que ganha bem vive uma autocobrança constante por melhoria no próprio desempenho, que a mulher tende a 'comprar' para ela. E, em vez de relaxar, usufruir do que ele pode proporcionar, ela arranja mais trabalho. Algumas, quando vêem que os filhos estão crescendo e que o trabalho está diminuindo, engravidam de novo. Parece que só ficam bem quando estão exaustas."

Diante dos exemplos citados por Carol, o blog pergunta se ela fala a algum segmento específico da sociedade. Por e-mail, a psicóloga diz que não: "Eu gosto de atingir todos os tipos de camadas sociais. O meu intuito é levar informação de qualidade para o máximo de mulheres e famílias possíveis."

 Judô ou caratê?

Para mostrar o valor do trabalho da mulher em casa, a psicóloga argumenta que "o planejamento do futuro de uma família não tem preço"."É ela que vai decidir se a criança estuda em uma escola bilíngue, se cursa inglês ou faz  intercâmbio; se faz judô ou caratê; se vai ao médico A ou ao B, e se é necessário consultar uma segunda opinião."

Marido e mulher são sócios, repete Carol. E questiona: "Como é que esse homem ia sair para trabalhar, se tivesse de atender cada uma das demandas domésticas? Ele precisa ter tranquilidade para focar nos negócios, atender os clientes. E consegue isso porque sabe que tem a esposa segurando as pontas."

Presidente da Coca-Cola

Em determinado momento, para alívio das mulheres que administram o lar, Carol revela que a culpa atormenta também "as mães que vão para o mercado de trabalho". A cobrança, nesse caso, é por achar que a atenção que dão aos filhos e à casa não é satisfatória.

"Já ouvi relatos de executivas bem-sucedidas que, depois de dar a luz, se sentiram culpadas e voltaram para casa para cuidar do bebê. O problema é que muitas não se adaptam porque, no trabalho em uma empresa, o sucesso está atrelado ao desempenho, e é recompensado. Na maternidade, existe um ser com vida própria que nem sempre responde com prontidão ao que você arduamente tenta ensinar. A verdade é que é muito mais fácil trabalhar e ganhar dinheiro do que ser mãe."

Oi, sogrinha!

Em sua cruzada para produzir provas de que não existe nada mais honroso que a maternidade, Carol compara: "Como o trabalho do presidente da Coca-Cola, que está administrando a produção de um produto que faz mal à saúde, pode ser mais valorizado do que o de uma mãe?"

Enquanto fala, a psicóloga saúda a "sogrinha", que a assiste, e dá boas vindas aos homens interessados na questão feminina. "O André está dizendo que a esposa tem trabalhado part time (meio período) e tem dado certo." Ótimo, diz a psicóloga, "se for por vontade dela, e não por culpa, é muito saudável".

Quem é feliz?

Já que ambas as mulheres — a que trabalha fora e a que não — enfrentam a culpa, a pergunta que não quer calar, segundo Carol, é: quando a mulher está feliz? Ela mesma responde: "Só nas redes sociais, onde tudo é ficção. Uma vida que não existe. Ninguém acorda bem todo dia; nem todo marido manda flores semanalmente, nem todo filho come brócolis".

Carol está no Instagram, em uma live, afirmando que as redes sociais vendem personagens fictícios. A psicóloga, ela mesma, utiliza o que chama de "ciência da felicidade" para falar a seus seguidores. Parece contraditório. Ela explica que sua intenção é mostrar para as pessoas que a comparação com modelos irreais só levam ao sofrimento. "Enquanto acreditarmos que a vida daquelas mulheres é como aparece nas fotos, e nos compararmos com a ficção, vai ser difícil ser feliz. Um dos pontos que mais trabalho na psicologia positiva é a gratidão pela vida que temos, e não pela grama mais verde do vizinho. "

Carol, grávida da segunda filha, com a primeira e o marido, em foto nas redes sociais (Foto: Instagram/Carol Kherlakian)

 

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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