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Marcas de roupas se recusam a vestir apresentadora do 'Oscar' do pornô

Paulo Sampaio

01/08/2019 04h40

Natália Klein classifica seu estilo de roupa como "divertido" (Foto: Ricardo Borges/UOL)

Natalia Klein chega à entrevista vestindo uma saia plissada com listas nas cores rosa, preto, amarelo, verde e nude. Cropped pink. Sapato de verniz preto, de amarrar. Brincos cor de marfim, e arco preto com nó no alto da cabeça. A atriz, comediante e roteirista classifica seu guarda-roupa como "divertido".  Para apresentar no dia 6 a sexta edição do "Prêmio Sexy Hot", conhecido como o "Oscar" do pornô nacional, ela teve de providenciar roupas "divertidas" por conta própria, já que as marcas que normalmente a produzem se recusaram a fornecer o figurino, com receio de queimar o filme.

Klein comenta isso sem se queixar, "apenas para ilustrar o preconceito que as pessoas que trabalham nessa indústria sofrem". "Os indicados são profissionais que trabalham para uma demanda que existe, e essa é uma noite de consagração para eles. A galera se arruma, leva a família, ninguém que está ali quer assistir a uma cerimônia trash."

Ela lembra que no ano passado, ao receber o prêmio de "melhor diretora", Milla Spuk desabafou: "A gente não quer ser vista como coitadinha. Não estamos aqui por falta de opção, é uma decisão nossa."

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Um trote?

Pela primeira vez o "Sexy Hot" será apresentado por uma mulher. Nas três últimas edições, quem comandou a noite foi o cantor Leo Jaime. "Quando recebi o telefonema deles, me convidando, achei que fosse um trote.  Eu não me considero sexy", diz ela. "Mas aí, a pessoa no telefone começou a citar gente do meu relacionamento, de outros canais, e eu pensei: 'Cara, isso tá ficando muito específico'. Aos poucos, fui vendo que era sério, e achei incrível."

"Escolhemos a Natália por ser talentosa, e também porque ter uma mulher no comando do show tem um significado especial, que é o da representatividade feminina", diz Cinthia Fajardo, gerente de marketing do grupo Playboy do Brasil, que administra o canal.

Pela primeira vez, em seis edições, uma atriz apresenta o Prêmio Sexy Hot (Foto: Ricardo Borges/UOL)

Baixaria, não

Além de apresentar o "Sexy Hot", Klein escreveu o roteiro do show, que ela calcula ter em torno de uma hora e meia de duração. "Acho que me chamaram porque sabiam que eu não ia descambar para a baixaria. Procurei fazer algo equilibrado. A referência são as premiações gringas, com aquelas chamadas estilo 'E com vocês…' e 'E o prêmio vai para'…"

Na cerimônia, serão contemplados os melhores profissionais em 17 categorias, tais como "melhor atriz hétero", "melhor ator hétero", "melhor atriz trans", "melhor cena de ménage", "melhor cena de sexo anal", "melhor cena de sexo oral", "melhor orgia", "revelação do ano hétero", "revelação do ano homo", "revelação LGBT". Entre os finalistas estão Mia Linz, Giovana Bombom, Patricia Kimberly, Dread Hot, Elisa Sanches e os atores Loupan, Ed Junior e Alemão.

Jurada má

Conhecida especialmente pela série "Adorável Psicose", escrita e estrelada por ela, Natalia Klein se tornou pop quando encarnou a jurada malvada do "Prêmio Multishow de Humor": "Eu decidi ser a má, quando vi que ninguém queria ser. Todo mundo só quer like, essa é a verdade. O programa seria insuportável."

De qualquer forma, a ideia que ela faz de humor não tem muito a ver com "alegria"ou "felicidade". "Quem trabalha com comédia tem problemas psicológicos. Pode ver a quantidade de comediantes que se mataram ao longo dos tempos", observa. "Eu mesma não sou uma pessoa eternamente de bem com a vida, do tipo 'gratidão, sempre'. Frequentemente, acordo e digo: 'Puta que o pariu, mais um dia de merda!"'.

Rir e chorar

Ela acredita que, de uma maneira geral, o ator busca uma atenção que não teve na vida. Especialmente o comediante. "Ele usa o humor para transcender traumas, superar mágoas", acha. Apesar de dizer que não dá para comparar os estilos dos comediantes —  "já que cada um se vale da própria trajetória para construir personagens únicos" –, ela apresenta uma espécie de vício muito comum em todos: inserir no discurso tiradas inteligentes, em ritmo de comédia. O recurso do humor autodepreciativo aparece como um cacoete.

Sobre o próprio cabelo, por exemplo, que agora está louro e liso, ela conta que originalmente era cacheado: "Se você cruzar na internet as palavras 'cabelo' e 'escroto', aparece uma foto minha, quando criança. É que eu já falei muito sobre isso. Eu soube, inclusive, que foi referência para a composição da taxista que a Tatá Werneck faz em 'Vai que Cola"'.

Ficando cascuda

O ator que faz comédia é tratado por Klein com especial reverência. Para ela, é mais difícil fazer rir — e quem tem esse talento, vai bem em qualquer outro gênero. "Se você pega humoristas no Brasil e no mundo, percebe que todos fazem drama muito bem. Até porque atualmente é fácil chorar. No drama você tem recursos que ajudam, um fundo musical, a edição. Agora: se você pega um ator dramático, e coloca para fazer comédia, fodeu. A possibilidade de ficar bom é muito pequena."

Diante da maneira imprudente com que emite opiniões extravagantes, infere-se que Klein não está muito preocupada com a opinião dos outros. Errado. Ela afirma que uma bordoada certeira lançada contra ela nas redes sociais a faz remoer meses. As piores críticas, para ela, são as pessoais. "Já fui mais suscetível. Se, por exemplo, alguém comentava que eu estava mais gorda, eu revidava. Tipo: 'Você, querido, tá maravilhoso'!. Mas gente vai ficando cascuda. A verdade é que, hoje, se alguém diz que eu ficava melhor ruiva, eu entendo que é a preferência da pessoa."

Rainha do pedaço

Dona de inúmeros pontos de vista, Natalia Klein tem muito a dizer sobre o mundo que a cerca e faz isso copiosamente. É como se o tempo disponível nunca fosse suficiente para ela expor suas considerações. E isso, desde pequena: "No prédio em que eu morava na infância, as crianças se juntavam para fazer umas pecinhas de teatro, eu cuidava do figurino, do cenário, eu dirigia, eu mandava em todo mundo. Tinha muita vontade de falar sobre coisas. Não de ouvir histórias, mas de contar as minhas histórias", lembra.

A respeito das críticas que alguns humoristas veteranos fazem sobre os da geração dela, Klein diz que consegue entender. "É compreensível que eles se mostrem ressentidos quando alguém diz que estão velhos, ou antigos, e não servem mais.  E isso, quando são lembrados. A memória das pessoas no Brasil é muito ruim. Mas eu também acho que, às vezes, quem já fez muito sucesso resiste a entender o que está acontecendo. Alguns não querem nem tomar conhecimento."

Set absurdo

Klein conta que, ao fim do "Prêmio Multishow de Humor", quando produziram uma "fábrica de talentos", ela orientou uma dupla de atores que se mostrou muito anacrônica. "O set deles era absurdo, algo que não acontece há 20 anos. Tipo a boate, as pessoas, os diálogos. Eu perguntei: 'Gente, há quanto tempo vocês não vão a uma boate? Esses tipos que vocês querem retratar não existem mais'."

Em relação aos astros consagrados que, receosos de perder os holofotes, tentam desqualificar os mais jovens — dizendo, por exemplo, que eles sequer montaram Tchekhov ou nem sabem quem é Stanilavski –, Klein acha uma estupidez. Mas enxerga dois extremos: "Tem os que pensam assim, e também os que acham que não precisam ler livro nenhum. Outro absurdo."

Erro inconcebível

Tanto quanto a maioria dos profissionais do mercado audiovisual, Natalia Klein lamenta profundamente os cortes que o governo pretende efetuar no setor. O presidente Jair Bolsonaro anunciou há três semanas que pretende extinguir a Ancine (Agência Nacional de Cinema): "Não posso admitir que, com o dinheiro público, se façam filmes como 'Bruna Surfistinha"', justificou.

Natália: "Até onde eu sei, a Ancine é uma empresa que dá lucro, gera emprego, oportunidades. O governo não está fazendo caridade. Fechar a agência não prejudica só o ator, mas a figurinista, o câmera, o técnico de som, de luz, o editor, a mulher que serve o catering para a equipe, uma infinidade de gente."

Em breve, dramédia

Mau humorada, porém otimista, Klein acredita que é possível fazer o espectador de TV embarcar em histórias não tão estereotipadas: "Nosso grande público, o de novela, é extremamente moralista. Eles esperam que as histórias tenham elementos óbvios. As pessoas boas agem dessa maneira, as más, daquela. Para você ousar, fazer algo diferente, tem de arriscar a audiência. Mas eu acredito que, se for bem feito, a gente pode desenvolver um pensamento crítico nas pessoas. E elas vão passar por esse processo sem nem saber. Ninguém precisa ser didático nem dar lição de moral."

Seu próximo projeto nesse sentido é o roteiro de uma dramédia, que ela está produzindo para um canal de streaming. Klein explica que, diferentemente de uma tragicomédia, que mistura o trágico e o cômico na mesma proporção, "a dramédia é um drama com uma pitada de comédia". Ela dá exemplos de séries norte-americanas que exploram o gênero: "Crazy ex-girl friend", sobre uma mulher que reencontra um ex-namorado de adolescência e larga tudo para segui-lo; e "Desperate Housewives", que trata da vida aparentemente perfeita de quatro donas de casa neuróticas.

Para servir de referência à Natalia Klein, tinha de ter "crazy" e "desperate" no título.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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