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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Determinado, ele foi o único homem trans em concurso de beleza masculino

Paulo Sampaio

04/09/2019 04h00

Primeiro homem trans de que se tem notícia em Resende, cidade de 126 mil habitantes a 146 quilômetros do Rio, o operador de máquinas Bernardo Rabello, 24 anos, acumula outros pioneirismos. Ele foi o primeiro candidato trans inscrito na etapa carioca do concurso de beleza masculino Mister Brasil; é também o primeiro operário trans entre os mais de 100 mil funcionários da fabricante de pneus Michelin na América Latina (segundo informaram a ele na própria empresa); e ainda criou o primeiro grupo LGBTQI+ de sua cidade, com foco em transição. 

Apesar da determinação, Bernardo conta que quando desfilou de sunga no concurso sentiu "vergonha e medo": "Mas eu sabia que não estava ali mais por mim, mas por vários outros meninos que têm o mesmo sonho que o meu. Me senti muito bem depois".

Não foi classificado, mas pretende voltar a concorrer em 2020. "Ele é bem resolvido, determinado, torci para que ficasse entre os finalistas. Merecia. Mas eu não fazia parte do júri", diz o produtor executivo do Mr RJ, Marcelo Haidar. Com 1,70m, o candidato diz que levava desvantagem por estar abaixo da altura média dos concorrentes.

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De sunga, no desfile do concurso Mister Rio de Janeiro CNB (Foto: Aloha Photo Club)

Vestiário masculino

Na indústria de pneus, Bernardo trabalha na operação de cinco máquinas que produzem aro trançado: "Não é um trabalho que exige força de homem. Muitas mulheres operam, sem problemas", diz ele. O blog tentou falar com a assessoria da empresa, mas não obteve resposta.

O departamento de recursos humanos providenciou para o novo funcionário um crachá com seu nome social e adaptou o vestiário masculino com portas nos boxes. Bernardo reconhece que, logo que chegou, houve um certo constrangimento com os colegas. 

"No começo, foi difícil para os dois lados. Era diferente para mim estar num ambiente com muitos homens, mas, ao mesmo tempo, ali me senti eu mesmo. Para eles, bom, a verdade é que eles nem ligaram. Muitos até me ajudaram a encontrar o meu armário. Uns e outros talvez tenham curiosidade [a respeito do corpo], mas a maioria não liga para o que sou e todos da fábrica me respeitam. Preconceito vai existir em todo lugar. Cabe a nós saber lidar. Sempre fui firme e a empresa não tolera desrespeito."

Entre os colegas de trabalho na fabricante de pneus Michelin (Foto: Arquivo Pessoal/UOL)

A Transição

A intenção de fazer a transição existia desde criança, mas não com esse nome. Se Bernardo vivesse em um meio social mais flexível –como o garoto John Jolie-Pitt, filho de Angelina Jolie e Brad Pitt que começou a tomar bloqueadores de hormônios aos 11 anos, para evitar a puberdade feminina –, talvez não tivesse levado 22 anos para iniciar a hormonioterapia. "Aos quatro anos, eu já me identificava mais com o corpo dos meninos. Gostava de usar as roupas do meu avô, de imitá-lo em tudo o que fazia", conta.

Criado a partir dos 8 anos pelo segundo marido de sua mãe, a quem considera seu pai, Bernardo conta que chegou a ficar de castigo quando se assumiu lésbica. "Mas meus pais logo perceberam que nada podiam fazer para mudar a minha orientação sexual. Ao mesmo tempo, o assunto começou a aparecer mais e mais na mídia, e eles foram perdendo o medo do preconceito."

O subtenente Demetrius Moreira, 44, padrasto de Bernardo, lembra: "No começo, quando ele tinha uns 14 anos e foi dizer para a mãe que gostava de meninas, eu não aceitei. Não queria nem conversa. Até que eu percebi que não era opção, era algo que ele não poderia controlar. Lembro-me de um dia em que ele me ligou, pedindo que fosse buscá-lo na escola. Estava no 1º ano do 2º grau. Disse aos coordenadores que estava passando mal. Quando nos encontramos, ele começou a chorar. Contou que as meninas na sala o estavam chamando de sapatão".

Sorrisão no rosto

A mãe dele, a autônoma Viviane Rabello, 43, diz que a filha sempre foi uma menina fechada, infeliz em relação ao gênero que lhe foi atribuído ao nascer e à orientação sexual. "Hoje, ela é uma pessoa muito mais alegre, vive com um sorrisão no rosto."

Em relação ao segundo filho, de 10 anos, que teve com o subtenente, Viviane diz que o menino nasceu quando Bernardo estava com 15 anos.  "O Demetrius Jr. tinha 1 ano quando minha filha se assumiu lésbica e trouxe a primeira namorada para apresentar em casa. Pouco depois, veio a transição, e a gente explicou que a irmã dele se sentia um menino."

Assim, como o caçula convive com Bernardo desde muito pequeno, ficou mais fácil para ele assimilar a mudança de gênero do irmão do que para os pais. "Logo que o Bernardo escolheu um nome social, o Demetrius Jr. nos corrigia: 'Mãe, não é mais Yasmim, é Bernardo".

Aos 12 anos, voltando da escola; e com a mãe e o irmão, Demetrius Jr., depois da transição (Foto: Arquivo Pessoal)

Bem 'passável'

Bernardo ainda não se submeteu à mastectomia (retirada do seios) e à histerectomia (do útero), mas é algo que pretende fazer logo. Considera uma questão de saúde, mas também acredita que isso o deixará mais confortável em relação ao próprio corpo. "O que mais me incomoda são os seios. Gosto de ficar sem camisa e, nessas ocasiões, sinto como se eles não fizessem parte de mim. Menstruação também sempre foi horrível, mas está resolvido desde a hormonioterapia. Parei de menstruar no primeiro mês."

No jargão trans, Bernardo é o que chamam de "passável". Vestindo camisa, "passa" por homem cis. Tanto que, apesar de ter desfilado de sunga no concurso, chamou a atenção do agente de modelos Sérgio Mattos pela beleza. "Eu me aproximei do Bernardo no camarim, a gente começou a conversar e aí ele falou que estava no momento dele de transição. Eu pensei: 'Transição?'. Nem me toquei. Ele é bonito, tem mercado. E uma determinação impressionante."

Eu masculino

Bernardo situa sua estreia "oficial" no gênero masculino em novembro de 2017, pouco depois de começar a terapia hormonal. "Na ocasião, tive a oportunidade de trabalhar vendendo hambúrguer na zona sul do Rio, e sempre que os clientes me confundiam com um menino eu gostava. Me sentia bem ao perceber que havia criado um 'eu' masculino."

Será que, depois da transicionar, a identidade masculina adquire um caráter pleno, ou ainda resta um sentimento de incompletude? "Ser homem vai muito além de possuir um órgão genital masculino, barba, voz grossa. Tem mais a ver com o que você sente. A testosterona fornece características masculinas, mas existem homens trans que não podem passar pela terapia por questão de saúde, e nem por isso são menos homens. Eu me sinto um homem completo, mesmo não tendo feito, ainda, nenhuma cirurgia masculinizadora. Estou bem comigo mesmo".

Entre os dezenove concorrentes do Mr. RJ (Foto: Aloha Photo Club)

Cara de nojo

Procurado por muitos adolescentes de Resende que têm dúvidas sobre transição, Bernardo fica satisfeito de poder ajudá-los: "Criei o primeiro grupo LGBTQI+ da cidade para levar orientação, inclusive a parentes, sobre o assunto. O grupo tem apoio de especialistas em transgeneridade e sexualidade. Fico muito feliz em poder ajudar as pessoas e mostrar para elas que é possível transicionar e, por isso, estou aqui".

Para Bernardo, é muito importante ter sido a ponta de lança no ambiente social em que vive, e poder encorajar quem talvez nunca saísse do armário. "Sofri muito bullying na escola por ser 'diferente'. Quando entrava no banheiro feminino, as meninas me olhavam com cara de nojo ou ficavam assustadas por eu estar ali. Tinha dificuldade de fazer trabalhos em grupo e ter amigos."

Ainda em transição, Bernardo Ribeiro toma hormônio mas ainda não fez mastectomia nem histerctomia (Foto: Aloha Photo Club)

Sempre que pode, Bernardo fala da própria história, para mostrar a quem está no armário que é possível ter uma vida sadia. "Tive minha primeira experiência sem camisa na praia. Não foi fácil, mas era algo que eu precisava fazer, não só por mim. Eu quero poder ver mais meninos trans sem camisa por aí. Mais meninos trans em Concursos de Beleza. Todo lugar em que eu vou e vejo que posso tirar a camisa, eu tiro, para as pessoas se acostumarem a ver um homem trans. Acredito que, assim, quando outros quiserem fazer o mesmo, será menos doloroso." 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.