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Histórico

Biógrafo dos Trapalhões diz que mulher de Renato Aragão tenta obstruir obra

Paulo Sampaio

29/09/2019 04h00

O diretor Rafael Spaca, de "Trapalhadas sem Fim", diz que Lilian Aragão tentou obstruir e censurar o documentário (Fotos: arquivo pessoal e Greg Salibian/Folhapress)

Desde o ano passado produzindo o documentário "Trapalhadas sem Fim", sobre o grupo "Os Trapalhões", o diretor Rafael Spaca afirma que sofreu ameaças de processo e tentativas de obstrução da obra por parte de Lilian Aragão — mulher do líder do grupo, Renato Aragão. Baseada em uma pesquisa de quase dez anos, segundo Spaca, com 64 entrevistados e 90 horas de decupagem, a produção do documentário teria levado Renato e Lilian a recear revelações comprometedoras.

"Tentei falar com o Renato muitas vezes, nunca consegui. Até que, em março, a Lilian me mandou um e-mail informando que eu não estava autorizado a realizar um documentário sobre os Trapalhões", diz o diretor. "Só que eu não dependo da autorização dela. É uma obra jornalística, não de ficção."

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Apesar de a mensagem estar assinada pela RA Produções, empresa de Renato Aragão, Spaca afirma que "é Lilian quem coordena a tentativa de obstrução do documentário". Para provar, ele encaminhou ao blog mais dois e-mails. O primeiro foi enviado por ele à assessora de Xuxa, Tatiana Maranhão, em 3 de maio deste ano, solicitando uma entrevista com a apresentadora, que participou de cinco filmes do grupo ("O Trapalhão na Arca Noé", de 1983; "Os Trapalhões e o Mágico de Oróz", 1984; "Os Trapalhões e o Reino da Fantasia" 1985; "A Princesa Xuxa e os Trapalhões", 1989; "Xuxa e os Trapalhões em O Mistério de Robin Hood", 1990, já sem Zacarias).

Desautorização em negrito

Tatiana não se recorda da mensagem. Disse ao blog que recebe muitos e-mails e que não seria possível lembrar-se de todos. Quando desconhece o remetente, como no caso de Spaca, encaminha a mensagem para os "canais oficiais". "Antes de submeter o assunto a Xuxa, eu checo sempre com as pessoas que trabalham com o artista, para ver se elas sabem do que se trata. Devo ter feito isso com a produção do Renato", diz Tatiana.

Três dias depois de enviar a mensagem a Tatiana, Spaca recebeu um e-mail da RA Produções, assinado por Lilian Aragão, desautorizando mais uma vez a realização do documentário, agora em negrito.

Objetivo honesto

Por sua vez, o advogado da RA Produções, José Roberto de Castro Neves, pediu a Spaca que lhe enviasse trechos do material produzido, para avaliá-los antes da edição. Segundo Castro Neves, "o objetivo honesto de Renato Aragão era garantir a entrega ao público da informação verdadeira". "De forma legítima, o Renato Aragão, hoje um senhor de 84 anos, com notórios serviços prestados à sociedade, deseja apenas conhecer o conteúdo de acusações e críticas que lhe são feitas".

O advogado disse ao blog que Spaca havia se comprometido, por telefone, a mandar o material, e que depois mudou de ideia.

Spaca afirma que jamais se comprometeria a enviar trechos do documentário para que o advogado os avaliasse. "Isso não existe, é um absurdo. Na verdade, o Renato tomou conhecimento de que eu estava me aproximando de gente que não faria relatos favoráveis a ele. A gente sabe dos nossos esqueletos. Ele percebeu, pelas pessoas que foram entrevistadas, o que vem por ai. Mas o documentário é agridoce, não foi feito para detonar ninguém", garante.

Coisa de admirador

Ex-funcionário do Serviço Social do Comércio (Sesc) em Santo André, no Grande ABC, e depois em Santo Amaro, região sul de São Paulo, Rafael Spaca afirma que começou sua pesquisa por curiosidade. "Era coisa de admirador, de fã mesmo. Dividia meu tempo entre o trabalho, e assuntos que realmente me interessavam."

A partir da pesquisa, ele resolveu entrevistar técnicos que trabalhavam nos filmes, para escrever algo sobre o grupo. "Eu assistia em DVD e, no fim, quando vinham os créditos, eu congelava a imagem, anotava os nomes e procurava os caras. Parti do zero mesmo."

Plano de saúde de Dedé

O trabalho rendeu o livro "O Cinema dos Trapalhões — Por Quem Fez e Por Quem Viu", que tem cerca de 500 páginas e vendeu 5 mil exemplares. "Na ocasião, quando houve a noite de autógrafos no Rio, o Dedé [Santana] dividiu a mesa comigo. Mais: escreveu uma carta me recomendando às pessoas [para o documentário]. Depois, não quis falar porque depende financeiramente do Renato, que é quem paga o plano de saúde dele."

Spaca aciona no celular uma gravação que prova que Dedé, que mora em Itajaí (SC), foi chamado "às pressas" por Renato no Rio. (O documentarista pediu pra não publicar a gravação, para não comprometer a fonte). "Ele [Renato] ligou do Rio, chamando o Dedé para uma conversa, disse que mandaria as passagens. A partir dali, não consegui mais o depoimento dele."

Procurado pela reportagem, Dedé não respondeu à mensagem.

Heróis de infância

O documentarista afirma que sempre teve os Trapalhões como "heróis de infância" e nunca pensou em produzir algo sensacionalista. Mas à medida que avançava no trabalho, "uma entrevista foi puxando outra, e a gente (a equipe) acabou sabendo de coisas que nunca imaginou".

Entre os entrevistados estão Baiaco (dublê de Renato por mais de 30 anos), Roberto Lee (elenco de apoio e assistente de direção), Ferrugem (ator), Selma Lopes (ex-mulher de Zacarias) e José Lavigne (diretor do programa).

A Lista dos famosos inclui a atriz Regina Duarte ("a primeira a ser contatada"), que participou do filme "O Cangaceiro Trapalhão" (1983); Caetano Veloso; Fagner e Aguinaldo Rayol. Como o material é extenso, Spaca diz que sua intenção é exibi-lo em uma série de cinco capítulos: "Tem muita coisa legal, que eu não queria perder", diz ele, que negocia com emissoras e canais independentes.

Drogas, sexo e Marge Simpson

Há depoimentos sobre "puxadas de tapete" ("não era o roteirista do programa quem fazia a divisão das piadas, mas o próprio Renato, que deixava as melhores para ele mesmo"); sobre a relação de "um dos Trapalhões" com drogas; sobre um diretor do programa que assediava sexualmente as moças que faziam elenco de apoio; sobre o desconforto de Renato quando o chamavam de Didi, e também a história de um caso extra-conjugal dele durante a filmagem de "O Trapalhão no Planalto dos Macacos", com a continuísta: na ocasião, ele ainda era casado com a primeira mulher, Marta; sobre a bissexualidade de Zacarias — Selma Lopes, que hoje tem 91 anos e dubla a personagem Marge Simpson do desenho animado norte-americano, aparece em rara entrevista:

"A princípio, ela ofereceu muita resistência, mas então a gente foi até o estúdio onde ela dubla, no Rio, e a convencemos a falar", lembra Spaca. "Sobre a bisexualidade do Zacarias, Selma disse que, com ela, ele sempre funcionou muito bem. 'O que ele fez depois de mim, não me interessa', disse."

De acordo com outros depoimentos, Zacarias se envolveu com alguns homens, diz Spaca, incluindo "um rapaz que tinha problemas com álcool e que ele acolheu em casa e bancou". Há também relatos sobre a morte pouco divulgada de Zacarias, em decorrência da Aids. "A Globo quis pagar o tratamento dele nos Estados Unidos, mas ele recusou porque era espírita e preferiu fazer um tratamento alternativo."

Macaco, viado e cachorro

A história mais representativa da conduta de Renato Aragão, segundo Spaca, foi contada pelo roteirista Victor Lustosa, do filme "O Trapalhão na Arca de Noé" (1983). Naquela ocasião, um perfil de Aragão publicado pela revista Veja revelou que o patrimônio dele era incrivelmente maior que o dos outros componentes do grupo. O desgaste causado pela matéria culminou na separação do grupo. Ressentidos, Dedé, Mussum e Zacarias se afastaram de Renato.

A produção da "Arca de Noé" foi mantida, mesmo depois de Lustosa argumentar que, sem os três, estava difícil sustentar o roteiro. Em resposta, Aragão teria dito: "Faz o seguinte: no lugar do Mussum, coloca um macaco; do Zacarias, um viado; e do Dedé, um cachorro."

Do livro ao documentário

Quando soube da pesquisa e do livro de Rafael Spaca, a produtora Sara Silveira, que trabalhou com o cineasta Carlos Reichenbach, sugeriu a ele que produzisse um documentário.  Spaca gostou da ideia. "Pensei: vou fazer'."A princípio, eram apenas o documentarista e o diretor de fotografia Alex Costa, que foi apresentado por um amigo em comum e acreditou no projeto, de graça.

Diz Costa: "Fazer cinema no Brasil — documentário ou ficção — é uma prova de amor. O apoio que a gente teve até 2018 está em escassez completa. Nessa fase conturbada para a cultura, é extremamente importante que os profissionais da área se unam e apostem em obras independentes, para que o audiovisual não caia no ostracismo. Eu acreditei no projeto do Spaca como fã dos 'Trapalhões', e tenho muito orgulho de ter participado."

Entalado na garganta

A partir de março último, o documentário recebeu a valiosa adesão de Atilio Bari, apresentador do programa "Persona em Foco", da TV Cultura, que entrou como produtor. "O que me levou a abraçar o projeto foi o fato de focalizar artistas populares, geralmente subestimados pela intelectualidade, e a abordagem séria que o Spaca propunha, como profundo conhecedor da trajetória do grupo", afirma.

Bari conta que "alguns depoimentos mostrarão uma face menos generosa, mais mesquinha, no relacionamento entre o Renato e os demais membros do grupo". "Fomos surpreendidos por revelações que começaram a brotar, sem que jamais tivessem sido provocadas por nós, e que pareciam estar entaladas na garganta das pessoas. Tudo poderia ser rebatido ou explicado pelo Renato. Porém, apesar da nossa insistência, ele preferiu não só não nos atender, como ainda nos ameaçar."

Contudo, Bari afirma que "nada irá diminuir a admiração que nós e o público  temos por eles". "Com todas as crises, problemas e rupturas, eles ainda são o mais importante grupo de humoristas que o Brasil já teve."

Banco Boa Vista

Com a entrada de Bari, diz Spaca, o documentário teve um ganho enorme. "A gente conseguiu passar quase um mês no Rio, depois de fazer uma pré-produção, e localizamos uma porção de gente legal. Inclusive o gerente da conta da empresa DeMuZa, de Dedé, Mussum e Zacarias, no Banco Boa Vista."

Quem localizou foi o produtor carioca Gabriel Gontijo, nova aquisição da equipe. "Eu me lembrei de um repórter que trabalhou comigo na (rádio) Tupi chamado Alberto Brandão, que no passado tinha sido gerente da conta deles no banco e contava altas histórias. Ele supertopou falar. Lembrou de como o Dedé era gastão, como o Mussum esbanjava com festas e algo mais, e como o Zacarias sempre foi o mais centrado. Os dois, aliás, frequentavam o mesmo centro espírita."

Sem Bonifácio

Gontijo é testemunha da interferência dos Aragão na produção do documentário. "Um dos que não quiseram falar foi José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Eu estava marcando as entrevistas, e quando liguei para o escritório dele, fui barrado já pela secretária. Ela perguntou: 'Esse é aquele documentário que não tem a autorização do Renato? Daquele Rafael Spaca?' Eu não tive alternativa, a não ser responder que sim. Ela disse: 'Ele já está sabendo, e não vai falar não'."

O blog tentou falar com Boni, sem sucesso.

Material valiosíssimo

Spaca está tranquilo em relação a seu trabalho. "O material que nós produzimos é valiosíssimo. Não é sempre que você encontra no Brasil um documentário investigativo, independente. Normalmente, é chapa branca. Se o cara faz um documentário sobre a Anitta, por exemplo, ela é maravilhosa, diva, musa.  Meu trabalho é jornalístico, de pesquisa, não há crime algum ali. Eu não tenho medo do Renato, da Lilian, nem de advogado medalhão."

A advogada Maristela Bassi, professora de direito internacional da propriedade intelectual da Universidade de São Paulo (USP), afirma que Spaca não tem mesmo o que temer: "O material jornalístico produzido é dele, não pertence a mais ninguém. O documentário pode ter inclusive reprodução de pequenos trechos da obra [dos Trapalhões], e até de episódios maiores, desde que se dê o crédito. É claro que existe a possibilidade de enfrentar um processo, mas vai ser por puro capricho, e a outra parte vai perder", garante.

'Guerra' no Instagram

Para fazer registros do documentário, Rafael Spaca criou uma página no Instagram (@trapadoc), no que foi seguido recentemente por Lilian Aragão com  @trapalhoes_verdadeiro. "Claramente, ela quer dar a entender que a minha página é mentirosa, e desqualificar o meu trabalho. O pior é que ela se empenha nisso, mas sou capaz de apostar que não sabe tanto quanto eu sobre os Trapalhões. Eu a desafio inclusive para um duelo."

Na página de Lilian, entre outros, há um depoimento de Dedé Santana. Spaca: "É nítido o constrangimento de Dedé naquele vídeo. Renato pagou as passagens só para ele levantar sua bola mais uma vez. Quanto à Cirene, qual foi a última vez que Renato a convidou para ir em sua casa antes desse episódio? Ele vai convidar o Baiaco, o Roberto Lee, o Ferrugem, a Selma Lopes e o Lavigne também?"

Outro lado

Contatada pelo blog, Lilian respondeu por e-mail que não iria se manifestar "além do que já foi informado por nossos advogados, conforme abaixo":

"Atualmente, o Renato Aragão se dedica a fazer um registro de sua trajetória artística. Em função disso, ele, até mesmo para cumprir obrigações contratuais, não irá se manifestar sobre outros trabalhos, não autorizados, que tratem de sua vida.

Infelizmente, há, no mercado, pessoas que alegam ter autorização do Renato Aragão para falar dele, o que, contudo, não corresponde à verdade.

Como homem público, o Renato Aragão respeita quem queira tratar de sua história, desde que isso seja feito com ética, correção e rigor na apuração dos fatos. Se houver acusações levianas ou falsas, serão, obviamente, tomadas as medidas pertinentes."

Não é o fim

Ao que parece, Lilian ainda pode ter bastante trabalho. O próximo projeto de Rafael Spaca é escrever uma "biografia em primeira pessoa" dos Trapalhões. Para tanto, pretende usar as "aspas" dos integrantes do grupo publicadas em mais de duas mil revistas pesquisadas. "Eles mesmos vão falar de si."

 

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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