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Histórico

Em fórum conservador, Eduardo Bolsonaro cita importância de ser cara de pau

Paulo Sampaio

13/10/2019 04h00

Tutelado por conservadores americanos de raiz, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) se sentiu muito à vontade na última sexta-feira (11) para dividir todo o seu conhecimento acadêmico sobre história, política, filosofia e até jornalismo. Eduardo foi um dos coordenadores da primeira vinda ao Brasil da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), que tem 40 anos de tradição nos EUA e atraiu cerca de 1.800 pessoas ao auditório do Hotel Transamérica, na zona sul de São Paulo.

Dos Estados Unidos, vieram o presidente da União Conservadora Americana, Matt Schlapp, que organiza a CPAC; e a criadora do movimento Lone Conservative, Kassy Dillon. Segundo estimativa do vice-presidente do PSL, Antônio Rueda, o partido desembolsou R$ 800 mil pelo evento, o que deu a Eduardo Bolsonaro tranqüilidade para nadar de braçada.

Enquanto a plateia, composta em sua maioria por estudantes de movimentos conservadores de todo o Brasil, gritava "lindo!" e "mitinho", os convidados americanos elogiavam a "iniciativa" do palestrante e seu "incrível carisma".  Ainda por cima, elogiavam em inglês: quem poderia duvidar do que eles estavam dizendo?

Veja também:

 

Eduardo Bolsonaro cita Olavo de Carvalho em palestra (Foto: Paulo Sampaio)

Seguindo Olavo

Logo no início, Eduardo citou uma frase do influencer Olavo de Carvalho que acabou pautando toda a palestra. "O Olavo diz: 'O poder da ação individual é enorme, desde que você tenha cara de pau de agir'."

Depois de afirmar que "a esquerda reescreveu (como quis) a história recente do Brasil", Eduardo Bolsonaro seguiu o ditame de Olavo de Carvalho e passou a contar sua própria versão. Foi muito didático:

"Vou fazer um breve resumo aqui, desde o tempo do Karl Marx até a eleição do Jair Bolsonaro. O Karl Marx, ele sintetizou as ideias comunistas, fez o manifesto, e depois, no início do século 20, o que começou a acontecer? 1917, revolução Bolchevique na Rússia; 1949, temos Mao Tsé-Tung, na China; 1959, Fidel Castro; e depois, em 1964, seria a vez do Brasil, se não fossem o povo nas ruas e os militares, com muita coragem.

"De 1964 a 1985, a esquerda chama de Ditadura Militar. Só que os militares chegaram ao poder não foi colocando o pé na porta."

Muitos aplausos e gritos de "uhu!". Na conexão de Eduardo Bolsonaro com a plateia de jovens apoiadores, algo remete à atmosfera da novela infanto-juvenil "Malhação". Ele seria um professor de história surfistão, brother.

Animado com a ovação, o palestrante pega embalo: "Que golpe [de 1964] é esse? Que ditadura é essa, em que você podia sair do Brasil e voltar quando bem entendesse? Que ditadura é essa que não tira as armas do povo? Nunca passou pela cabeça de um militar tirar as armas dos brasileiros."

Pérolas filosofais

Na parte da plateia reservada aos convidados, logo à frente do palco, a produção de pérolas filosofais é intensa: "Só fruta gostosa leva pedrada", acha a empresária cearense Elany Leão, a propósito das críticas à família Bolsonaro.

Elany veio direto de Miami para a conferência, junto com o pai, a mãe e a irmã. "Você precisa ver a reação dos americanos, quando a gente diz que votou no Bolsonaro. Eles ficam empolgados. Dizem: 'Oh Yeah! Bolsonaro, agora o Brasil entra nos trilhos'!!"

A respeito da indicação de Eduardo pelo pai para ser embaixador nos EUA, a família Leão tem a mesma opinião: "Só seria nepotismo se ele não tivesse competência para ocupar o cargo, como outros que estiveram no mesmo posto [não citam nomes]."

Segundo os Leão, "desfrutar de influência com o presidente mais poderoso do mundo não tem preço". "Ser o filho da pessoa que desfruta dessa influência é uma bênção. Agora, imagina se essa pessoa [que desfruta…] é o presidente do nosso país. Eles [os americanos] vão abrir as portas para todos nós empresários brasileiros dispostos a empreender!", acredita Elany.

Família Leão, cearense: em Miami e Orlando, quando você diz que votou no Bolsonaro, eles ficam empolgados. Dizem: 'Oh, Yeah, Bolsonaro!' (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Mal informado

Neuma Leão, a mãe, afirma que o repórter está mal informado quando diz que o Nordeste é um reduto de eleitores do PT: "Imagine! Nas passeatas da (avenida) Beira-Mar de apoio a Bolsonaro, você não conseguia andar, de tanta gente. Suas fontes não são boas. Pare de assistir a Rede Globo, ler a Folha e ouvir a CBN."

A responsabilidade de todas as pedradas na fruta gostosa é atribuída à imprensa, instituição atacada sistematicamente pelo atual presidente da República, que em sua última investida a chamou de "fétida" e afirmou que "a Folha desceu às profundezas do esgoto". Eduardo Bolsonaro gasta quase metade de seu tempo de palestra tentando desqualificar jornalistas, em particular Guga Chacra (GloboNews), Carlos Andreazza (O Globo e Band News), José Maria Trindade (Jovem Pan) e Reinaldo Azevedo (Folha e BandNews), que ele anunciou como "a cereja do bolo": "O que a gente faz com eles? FARMEME [Faz meme]. HAHAHAHAHA"

Pelas tantas, Eduardo usa em sua explanação a teoria da "espiral do silêncio", da qual Jair Bolsonaro seria vítima. De acordo com o palestrante, o eleitor do presidente, com medo de apanhar na rua ao declarar seu voto, prefere não se manifestar.

Ao dar um exemplo prático de como funciona a espiral, Eduardo viaja (até os Estados Unidos): "Se você fala em uma universidade americana – não sei se isso ocorre nos EUA –, mas, enfim, se você fala que é Trump e toma porrada, as pessoas vão ficar com medo de ir com a camisa do Trump para a faculdade, de expressar sua opinião. Isso acaba se revertendo no voto silencioso."

Vermelhos e azuis

A culpa desse medo generalizado seria do noticiário.

"Existem jornalistas vermelhos, que são a maioria de esquerda, e os azuis, que podem flertar com o liberalismo, mas não vão arriscar o emprego". A tese é do  administrador do Burke Instituto Conservador, Wagner Lima, 37 anos, de São José dos Campos, que vende livros em uma banca à entrada do auditório do hotel. "Os azuis se fingem de vermelhos para manter o emprego."

Lima vende obras que  "dão voz àquilo que foi obnubilado pela academia". Ao lado de uma pilha de livros de Olavo de Carvalho, ele lamenta a ignorância dos pedagogos:  "Você fala em Mario Ferreira dos Santos, maior filósofo brasileiro, ninguém sabe quem é. Os caras não sabem quem é Michael Oakeshott!"

Muito imbecil

Será mesmo que os conservadores que elegeram Jair Bolsonaro conhecem o pensamento de Michael Oakeshott? "Claro que nesses 52 milhões que votaram no presidente tem muito imbecil."

A culpa de boa parte dessa imbecilidade, de acordo com Lima, é dos autores da Constituição de 1988, que é "comunista", "brizolista", "foi feita para ninguém entender". "Os militares entregaram a educação para os socialistas."

Para ele, "quando um jornalista da GloboNews diz que o bandido é vítima da sociedade, ele aprendeu isso na faculdade". "Está arraigado na cabeça dele há 40 anos."

(Em sua fantasia a respeito do funcionamento de uma redação, Lima acredita que o jornalista vermelho é um ser autônomo. Escreve e fala tudo o que quer. O azul  precisa se fingir de vermelho, já que todos os jornalistas do Brasil, inclusive os editores e os redatores-chefes, aprenderam na faculdade a serem vermelhos. Mas então, quem demitiria o azul disfarçado de vermelho? O dono azul da empresa? Mas não foi ele que contratou o editor e o redator-chefe vermelhos?)

Wagner Lima, do Burke Instituto Conservador, de São José dos Campos, levou livros para vender: "Conteúdos clássicos, obnubilados por pedagogas" (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

O conservador, em tópicos

Confuso, busco alguém que possa me esclarecer sobre o que é, afinal, ser conservador no Brasil. O catarinense Lucas Campos, 33 anos, que se apresenta como  personal trainer e professor de história da filosofia, desova uma frase em tom de decoreba: "Conservadores se pautam pela filosofia grega, o direito romano e a moral judaico cristã". Ele fala um pouco sobre a tríade, mas não alcanço.

Pulo algumas cadeiras, chego à juíza de direito aposentada Silvia Mariozi, 57 anos, que integra um movimento chamado "Articulação Conservadora". Com a autoridade de quem tem 15 mil seguidores, Silvia divide o conservadorismo em três tópicos. "Primeiro, temos a vida como um bem maior. Somos contra o aborto. Meu corpo, minhas regras, não! O corpo é dela, mas o do feto, não!"

Silvia fala em um tom suave, que constrasta com a firmeza de seus princípios: a favor da posse de arma, e do porte, ela apoia a legítima defesa. "Nós somos judaico-cristãos por princípios fundantes da nossa civilização, a ocidental, e por isso contra o suicídio. Não posso ser covarde a ponto de colocar nas mãos de um terceiro a responsabilidade sobre a minha vida." 

Segundo tópico

Versa sobre o direito à herança, à propriedade privada e à liberdade de expressão. A respeito da herança, que de certa forma se liga às duas outras, Silvia explica que serve para "valorizar os elos intergeracionais". "Eu preciso do meu background civilizador para ir adiante. Não vou jogar fora o bebê junto com a bacia."

No caso de um miserável cujo background intergeracional foi interrompido pela fome, a falta de saúde, as tragédias familiares, Silvia diz que: "Cada um tem a sua base de civilização judaico-cristã: nossa herança não é só dinheiro, é cultura."

Próximo tópico: O descarte do que ela chama de "pautas de modismo". Quais seriam? "Ideologia de gênero, sexualização da criança, bandidolatria e vitimismo da esquerda."

Com 15 mil seguidores no facebook, Silvia Mariozi despreza a modinha da bandidolatria (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

5 mil anos de civilização

Nesse ponto, Silvia discorre sobre a diferença entre ser reacionário e conservador. O primeiro, diz, quer o passado de volta. O outro, dá valor ao que já foi pesquisado, testado pelas civilizações ao longo dos séculos: "Se a gente sabe, depois de 5 mil anos de civilização, que o banditismo é nocivo, então não vai defender bandido porque é modinha." 

Para ela, "crime é opção". "Caso não fosse, a maioria na cadeia seria de pobres." 

E não é? Muitos, ainda, cumprindo excesso de pena, ou até condenados "por engano"?

A juíza: "Por que eles não procuram a defensoria? Eu não sei como é que funciona, não é minha área…"

Nada a declarar

Jovens do Movimento Conservador se agrupam para fazer uma foto. Pergunto a Edson Salomão, um dos coordenadores, o que ele achou do vídeo em que Bolsonaro pede a um apoiador para "esquecer o PSL" e diz que Luciano Bivar, presidente da sigla, está "queimado". Salomão diz: "A melhor pessoa para falar sobre isso é ele próprio."

Faço a mesma pergunta à universitária Lidia Mara, 24 anos, coordenadora do Direita Minas, ela responde: "Não posso julgar. Como falo em nome do movimento, minha opinião isolada não tem valor. Enquanto grupo, o que posso dizer a gente vai aonde o presidente for."

Integrantes do movimento conservador posam para foto: nada a declarar (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Chanel legítima

Eduardo Bolsonaro diz que "o Brasil vai chegar ao fim do ano sem um único escândalo de corrupção". Ali perto, na segunda-fileira da plateia, entre os convidados VIP, a empresária mineira Walkyria Freitas, 45 anos, concorda com tudo o que o deputado diz. Depois de afirmar que foi a primeira mulher do estado de Minas a apoiar Jair Bolsonaro, em 2014, Walkyria conta que soube de sua primazia pelo então deputado federal Marcelo Alvaro Antônio (atual ministro do Turismo): "Ele gravou um vídeo agradecendo muito o meu apoio."

Marcelo Antônio do laranjal??

A empresária Walkyria Freitas se orgulha de ser a primeira mulher de Minas a apoiar Bolsonaro: "O deputado Marcelo Antônio fez um vídeo agradecendo"(Foto: Paulo Sampaio)

Aparentemente, Walkyria não ouve a pergunta. Repito. Ela diz: "Confio muito no Bolsonaro. A imprensa está acabando com ele."

A mineira posa para a foto meio de lado. Além de ter orgulho do presidente e de Marcelo Antônio, ela também tem de sua bolsa: "É Chanel legítima! Eu sou capitalista!"

A culpa é da imprensa.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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