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Histórico

Evento na Assembleia de SP concede título de 'imortal' a subcelebridades

Paulo Sampaio

30/10/2019 11h17

Prestes a se tornar imortal, a coach de estilo e palestrante Kristhel Byancco estava muito emocionada na cerimônia promovida na terça-feira (29) pela Academia de Ciências, Letras e Artes de São Paulo (Aclasp) na Assembleia Legislativa de SP. "Nunca pensei que fosse ficar tão nervosa, quase caí do meu salto Labutã (Louboutin)", disse ela, levando a audiência às risadas, pouco antes de assumir a "cadeira de Georgia Gomide" (1937-2011).

Criada em 2015 pelo escritor e poeta Roberto Ferrari, 62 anos, a entidade elegeu 40 patronos para homenagear "pessoas de mérito intelectual indiscutível". "Podem ser médicos, atores, advogados ou celebridades ('elas também desempenham importante papel social')", diz ele.

A escolha dos patronos foi feita por Ferrari mesmo. Além de Georgia Gomide, os assentos levam os nomes de gente como Tom Jobim (1927-1994), Raquel de Queiroz (1910-2003), Monteiro Lobato (1882-1948) e Anselmo Duarte (1920-2009), entre outros. Ao ocupar um assento, o homenageado galga a imortalidade.

O próprio Ferrari, que se apresenta como "grande defensor da cultura", escolheu para si a cadeira de Vinicius de Moraes (1913-1980). "Em oito anos, escrevi 16 livros e tenho mais de 15 prontos no computador, além de 150 antologias poéticas", afirma ele, atestando inegável profusão intelectual.

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Roberto Ferrari: 16 livros e 150 antologias poéticas em oito anos (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Barriga de Aluguel

Ex-atriz, Kristhel Byancco lembra que interpretou a lendária dançarina Luz del Fuego no teatro, no fim da década de 1980, e participou do elenco (de apoio) da novela "Barriga de Aluguel", em 1990, no papel de Daysi. Afastou-se do "mundo artístico" porque, segundo conta, sucumbiu aos apelos de um fã que se tornou seu marido — o empresário Ricardo Rique.

"Eu estava descendo a escadaria do hotel Méridien, no Rio, quando fui interpelada por um homem que disse: 'Você é a mulher mais linda que eu já vi'. Conclusão: eu me apaixonei, começamos a namorar, nos casamos e, depois do final da novela, ele disse: 'Agora você vai parar'. E parei, para acompanhá-lo em um grande sonho, que era ser deputado na Paraíba."

O termo de posse da imortal Kristhel Byancco (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Beleza extraordinária

Em seu discurso de agradecimento, Kristhel, 57, disse que estava muito feliz por "ter como patrona essa atriz maravilhosa, fantástica (Georgia Gomide)". "A história dela tem tudo a ver com a minha. Onde essa mulher passava, as pessoas paravam para admirar sua beleza extraordinária…"

E completou: "O meu muito obrigado a todos, inclusive àqueles que bateram a porta na minha cara, dizendo que eu não iria vencer! Pois, olhe, Brasil! Eu estou sendo empossada na academia de letras!!"

Kristhel Byancco, à direita, e a banqueteira baiana Marta Góes (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Aclasp, um orgulho

A cerimônia de posse dos homenageados ocorria na casa de Ferrari, na Granja Viana, zona sul de São Paulo, até que recentemente migrou para o auditório Paulo Kobayashi da Assembleia, que tem capacidade para cerca de 300 pessoas. Isso se deu graças à generosidade do deputado estadual Campos Machado, que está no oitavo mandato e é presidente do PTB-SP. Sua assessoria diz que é praxe entre os parlamentares disponibilizar os auditórios da assembleia para solenidades. "Como grande apoiador da cultura, o deputado nos ofereceu o espaço para a cerimônia de posse", explica Ferrari, que acumula os postos de imortal e presidente da Aclasp.

O deputado Campos Machado afirma que "a Aclasp é uma referência e um orgulho para a cidade de São Paulo". "Eu parabenizo a entidade por este importantíssimo evento que enaltece a cultura brasileira", diz.

Seleção de imortais

Para fazer a seleção dos imortais, Roberto Ferrari conta com a inestimável ajuda de uma "diretora de relações públicas" chamada Zaine Assaf. E também de seu vice-presidente, Jamil Hassan, e do primeiro-secretário, Edvaldo Rosa. A reportagem tentou saber de Zaine qual o critério adotado na escolha dos homenageados, ela disse que estava muito ocupada.

Por sorte, apareceu Marly Lamarca ("meu nome é como o do guerrilheiro haha"), que é presidente municipal do PTB Mulher e assessora de Zaine para assuntos aleatórios. "A gente escolhe [os imortais] entre amigos famosos e queridos do povo de São Paulo", explica Marly, que também é assessora da empresária da noite Lilian Gonçalves. Marly tornou-se imortal no último evento da Aclasp, quando ocupou a cadeira da patrona Cecília Meireles (1901-1964). "Fiz faculdade de letras, e Deus foi maravilhoso reservando pra mim um lugar na academia…".

Veja também:

Os assentos das primeiras filas foram reservados para os acadêmicos (Foto: Paulo Sampaio)

Parte financeira

Quanto custa ser homenageado?

Ferrari: "O diferencial da Aclasp é que, ao contrário das outras entidades culturais, que só visam o lucro, nós abrimos mão da parte financeira. Cobramos apenas uma pequena taxa de R$ 500 para a medalha, o diploma e o fardão."

Além dos imortais, há homenageados "mortais", que só recebem medalha e diploma.

30 mortos-vivos

O fardão dos empossados é preto com bordados dourados. Desde 2015, Ferrari calcula ter imortalizado cerca de 30 pessoas. A cerimônia de terça-feira foi a quarta de 2019. Desta vez, tomaram posse sete celebridades. Cada um dos homenageados é convocado a vir nas próximas solenidades, gerando assim uma espécie de pirâmide de imortais.

No colegiado das "artes cênicas", além de Kristhel Byancco, foram empossados a atriz Luciana Vendramini, 48, na cadeira da patrona Cleyde Yaconis ("Ela fez minha avó na novela Vamp"), e o ator Daniel Satti, na de Anselmo Duarte.

Luciana Vendramini no discurso de posse na academia (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

100 livros por ano

No colegiado de "ciências jurídicas", foi imortalizada a advogada Bruna Policicio, especialista em direito eleitoral; tomou o assento do patrono Olavo Bilac (1865-1918), que, por sua vez, é membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupa a cadeira do patrono Gonçalves Dias.

"Sou leitora fanática, leio pelo menos 100 livros por ano", disse Bruna, entre lágrimas.

Em "ciências médicas", a homenageada foi a dermatologista Luciana Passoni ("Meu marido sabe o quanto eu estudo"), na cadeira da psiquiatra-patrona Nise da Silveira (1905-1999).

O chef português Manuel Gonçalves assumiu o assento do patrono Fernando Pessoa (1988-1935), pelo colegiado "artes culinárias" ("Devo tudo a meu pai e a Roberto Leal") . A jornalista Jo Ribeiro ("ciências da comunicação") sentou-se na cadeira da poeta simbolista Gilka Machado (1893-1980).

O presidente da Aclasp, Roberto Ferrari (sentado, de óculos), ladeado pela diretora de relações públicas, Zaine Assaf, o vice-presidente, Jamil Hassan, e o primeiro-secretário, Evaldo Rosa; atrás, os sete imortais empossados na terça-feira (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Auditório do Silvio

Entre os que levaram apenas diploma e medalha, estavam o ator Oscar Magrini, 58 anos, que interpretará Noé na próxima novela da TV Record, "Genesis"; e a atriz carioca Izabella Bicalho, 47, que foi Narizinho no seriado "Sítio do Pica Pau Amarelo" e, mais recentemente, fez carreira em musicais em São Paulo.

O apresentador Dudu Camargo, 21 anos, do SBT, brincou com a audiência, dizendo que mais parecia o "auditório do Silvio". Dudu afirmou que o verdadeiro merecedor da sua homenagem foi quem o capacitou para ela: Jesus. "Amém", vários disseram.

Oscar Magrini posa com o diploma, entre Marly Lamarca e Zanie Assaf (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Processo artístico

Outra diplomada, a cantora Cintia Camilly entoou à capela um trecho de "I Have Nothing", imortalizada na voz de Whitney Houston (1963-2012).

A chef e banqueteira baiana Marta Góes, que tem também um camarote no Carnaval de Salvador, foi muito festejada. "Ela está trazendo para São Paulo, em 2020, o afoxé Filhos de Gandhi", disse o decorador Marcelo Borges, conterrâneo de Góes. Junto com o sócio, Arthur Athayde, da MA Interior Design, Marcelo também foi diplomado. Ele lê no visor do celular um breve agradecimento, enquanto Arthur segura o diploma:

"De 2015 para cá, abrimos asas e saímos da nossa amada Salvador para voar mais alto em terras paulistanas, trazendo o belo para as casas através do nosso processo artístico."

O tenor Jean William dá uma canja operística (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Fica o convite

Oscar Magrini foi recebido com muito afeto por Zaine, que informou que da próxima vez ele será imortalizado. "Já fica o convite." "Ô, querida, obrigado", disse o ator.

O alfaiate Alexandre Mendonça, homenageado com o diploma de "mérito excelência profissional" pelos 32 anos em que faz camisa sob medida, encurta os agradecimentos: "É difícil dizer alguma coisa depois do Oscar Magrini".

Zaine Assaf comunica a Oscar Magrini que, da próxima vez, ele não receberá apenas medalha e diploma, mas será também imortalizado (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Salve poetinha!

Os organizadores declaram a cerimônia encerrada, e o público começa a dispersar, quando Roberto Ferrari saca do bolso um poema escrito por ele em homenagem a seu patrono. Chamou-o "Ao Poetinha".

Com cinco estrofes, o poema começa com "Poetinha camarada, pessoa iluminada, escreveste teu nome na poesia e na música" e termina com "Vinicius, Vinicius/Através da tua poesia/Viajo através de um mundo de emoções e sentimentos/Salve poetinha!!"

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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