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Homens demoram a perceber câncer de mama porque não pensam na possibilidade

Paulo Sampaio

01/12/2019 04h00

Entre o final de 2016 e o meio de 2017, os médicos do plano de saúde que atenderam o vidraceiro Anderson Pereira da Silva, 41 anos, diziam que o que ele tinha era uma "possível íngua" e o mandavam para casa com uma receita de amoxicilina (antibiótico). Mesmo quando o nódulo no peito direito de Anderson estava "praticamente do tamanho de um limão", e ele sentia dores que o impossibilitavam de mexer o braço, os doutores insistiam no diagnóstico.

Por sua vez, o vidraceiro jamais aventaria a possibilidade de estar com um tumor na mama: "Eu nunca tinha ouvido falar de homem com câncer no peito."

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Mesmo com dores e um caroço do tamanho de um "limão" no peito, os médicos levaram um ano para diagnosticar o câncer (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Coisa de mulher?

Nenhum dos doutores teve a ideia de pedir um exame de ultrassom na região onde estava o "limão". Na época, a firma em que Anderson trabalhava foi a pique, ele ficou desempregado e perdeu o plano de saúde. Com muita dor, buscou atendimento no Hospital Geral da Pedreira, do SUS (Sistema Único de Saúde), na região centro sul de São Paulo.

Ali, enfim, fizeram um ultrassom, e o radiologista prenunciou tempos sombrios: "Tô vendo um negócio aqui meio grave. Já vi várias vezes isso aí, mas em mulher. Nunca vi em homem. Posso te dizer com certeza: é um câncer." Naquele momento, abriu-se na mente de Anderson "uma cratera escura e sem fundo".

Direto pra funerária

"Comecei a pesquisar o assunto na internet, só via palavras como  'diagnóstico tardio'; 'metástase'; 'foi a óbito'. Pensei: 'Vou comprar o caixão'. Liguei para um amigo que trabalha em uma funerária e contei o que tinha acontecido. Disse: 'Vou morrer, mano'. E ele: 'Ah, se liga, deixa de ser palhaço. Não vou nem dar ideia para você. Depois a gente conversa."'

Encaminhado a um posto de saúde, para se consultar com um mastologista, Anderson esperou mais sete meses para conseguir uma hora. "Quando você cai nos postos, aí ferrou, é esquecido mesmo", diz. Desesperado, ele pediu ajuda a uma agente comunitária de saúde da Prefeitura, que é sua vizinha e costuma fazer ronda na região onde mora, no Grajaú, zona sul. "Ela disse: 'Anderson, o médico não está passando no posto'."

Sem orientação

Até então, ele não tinha conhecimento da existência do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), onde ele deu esta entrevista, nem do AC Camargo Cancer Center, as duas principais referências no tratamento da doença. "Eu não sabia nem por onde começar, para onde ir, o que fazer. Eu não tinha certeza de nada, ninguém dava nenhuma informação nem mostrava um caminho."

Finalmente, depois que ele literalmente levantou a camisa e mostrou o caroço para a vizinha agente saúde, ela achou que deveria levar os exames para um clínico geral "dar uma olhada". Imediatamente, o médico mandou chamar Anderson, e o encaminhou a uma mastologista.

Pior dor da vida

A doutora perguntou: "Você aguenta fazer uma punção?" E o preveniu: "Mas é sem anestesia tá?" Anderson não sabia o que era uma punção, mas toparia qualquer coisa naquele momento, para aliviar o desconforto.

Foi então que ele enfrentou "a pior dor" que já havia sentido na vida ("e olha que eu já caí de moto; desloquei a clavícula duas vezes; rasguei o braço esquerdo com a queda de uma placa de vidro, o osso saiu do lugar, perdi o movimento da mão…").

Mais adiante, em outras duas punções feitas com anestesia, os médicos "ficaram bestas" quando souberam da experiência "a frio". Ele explicou: "A mastologista era legal, o problema é que o posto estava sem anestesia, e não havia previsão de chegar."

'Vai dar certo, pai'

O exame ficaria pronto em duas semanas, mas em dez dias o chamaram. Embora ninguém tenha adiantado o estágio do tumor, disseram que era "gravíssimo". Encaminharam-no ao AME (Ambulatório Médico de Especialidades) Dr. Geraldo Paulo Bourroul, uma entidade filantrópica que se dispõe a cooperar com o sistema de saúde pública federal, estadual e municipal (de São Paulo).  

Casado com uma policial militar, um filho de 11 anos, Anderson preferiu ir desacompanhado. "Chorei no caminho, queria estar sozinho. Mas antes falei abertamente sobre o assunto com meu filho, que tem uma postura de adulto e é meu grande companheiro. Mais tarde, ele me ajudou a tomar os remédios nos horários certos, quando eu estava grogue."

O garoto sempre disse: "Vai dar certo, pai!"

Era só um carocinho…

Por aqueles dias, trabalhando como pedreiro em uma obra, Anderson sentiu uma forte dor na coluna, se desequilibrou e caiu no chão. "Os colegas me levantaram, me encostaram em um cantinho, eu voltei ao AME." Descobriram então que ele estava com metástase na axila. O médico disse que ali não havia mais recursos para continuar a tratá-lo. E o encaminhou para o Icesp.

Em abril de 2018, depois de se consultar com uma oncologista do insitituto, ele foi submetido à nova bateria de exames. Os resultados apontaram metástases na axila, coluna, sangue e fígado. Àquela altura, o tumor, muito agressivo, estava encostando no osso, e uma eventual  cirurgia apresentava riscos de sequela: "Eu  poderia ficar com o movimento do braço comprometido", conta.

Ele se lembra perfeitamente do dia em que ouviu "aquela bomba". "Os médicos foram fantásticos, disseram que hoje há tratamentos avançados, e que havia muitos recursos." Eram por volta das 18h quando Anderson tentou digerir a notícia junto com um sanduíche que comeu na cantina do instituto, enquanto tentava se convencer de que "não estava tão ferrado assim".  Ao mesmo tempo, não parava de pensar: "Putz, era só um carocinho no peito…"

Eis a questão

A atenção que recebeu no instituto resultou em uma significativa recuperação no estado físico e psicológico de Anderson. Ele ainda sente dores, mas diz que seu estado geral é incomparavelmente melhor. "Fiz quimio, radio, as metástases estacionaram, os médicos dizem que estou indo bem."

A pergunta que não quer calar: "De que forma  um paciente como ele pode evitar a via crucis percorrida durante um ano e ir direto a especialistas que não tomarão um tumor maligno como íngua, nem farão punção sem anestesia?"

A assessoria do Icesp explica que, por causa da grande demanda de pacientes, seria impossível atender todo mundo. É preciso estabelecer prioridades. À frente estão os casos muito graves e os pacientes que moram em regiões próximas do hospital.

Parece irônico, mas Anderson foi "salvo" por estar entre os casos gravíssimos. Não mora perto, nem pode se queixar de gastar duas horas e meia para chegar ao instituto (e de vomitar várias vezes até chegar em casa, depois das sessões de radioterapia). Apesar de tudo o que passou, ainda tem de reconhecer que, diante da precariedade da saúde pública disponível, ele é um privilegiado.

Palavra de especialista

Anderson topou posar para foto sem camisa, mostrar o rosto e dar depoimento porque acredita que pode ajudar muitos homens que estejam na mesma situação em que ele se encontrava há três anos. De toda forma, a atitude de aparecer "de peito aberto" publicamente é tida como rara entre os pacientes de câncer de mama.

A oncologista Laura Testa, chefe do grupo de onco-mama do Icesp, afirma que "os homens se sentem constrangidos de se expor, porque é uma doença que remete à feminilidade". "Nas salas de espera, praticamente só há mulheres. Os cuidados são todos voltados para elas. Eventualmente, eles não se sentem acolhidos", explica.

Pequeno notável

Laura diz que, no Brasil, há 60 mil casos de câncer de mama por ano e, desses, 1% são homens. Assim, é normal que o paciente sequer considere a possibilidade, e leve tempo para associar os primeiros sintomas à doença. Ainda assim, afirma a médica, "não faria sentido propagar a necessidade de se pedirem exames preventivos, como a gente faz com as mulheres".

Ela garante que, apesar de mais raro, o tumor no homem "aparece mais". "A mama masculina é muito pequena, então qualquer pequena alteração é facilmente notada." Laura diz que o principal sinal é uma nodulação atrás do mamilo, ou perto da axila.  "O homem que conhece o próprio corpo vai perceber que há algo estranho. Enquanto na mama de uma mulher um nódulo de 1cm facilmente passa despercebido, na dele faz diferença."

No fim, tudo se resolve

Quando a cirurgia de retirada do tumor é indicada, nem sempre é possível preservar o mamilo  —  exatamente porque a mama é muito pequena. Laura explica que é normal que o homem se sinta intimidado ao expor o peito sem mamilo, especialmente quando está em ambiente público, mas garante que o tamanho da cicatriz diminuiu muito com a tecnologia: "Como no caso da mulher, existe a possibilidade de reconstrução."

Por último, mas não menos importante, a médica afirma que, diferentemente de tumores como o da próstata ou bexiga, o da mama a princípio não afeta a sexualidade do paciente — a não ser durante o tratamento.

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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