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Em ato, parente diz que responsável direto por chacina tem nome: João Doria

Paulo Sampaio

09/12/2019 05h00

O som estridente da música evangélica, emitido por duas caixas instaladas à frente das quatro fileiras de cadeiras de plástico branco, reforça a imagem da desolação. Lideranças da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, promoveram ontem um ato ecumênico em memória dos nove jovens mortos pela polícia no baile funk DZ7. Na madrugada de domingo, 1º de dezembro, durante uma operação da Força Tática (grupamento especial de patrulhamento ostensivo) da PM, frequentadores do baile foram encurralados pelos policiais, brutalmente agredidos e abandonados sem socorro adequado. Os nove mortos tinham idades entre 14 e 23 anos.

O ato reuniu cerca de 100 pessoas e sete religiosos — um monge beneditino, quatro frades franciscanos, um pastor evangélico e um médium kardecista.

"Não se apaga fogo com gasolina", diz o frei franciscano Almerino, da Ordem dos Frades Menores (OFM), que em sua fala recorreu ao Livro do Êxodo, do Antigo Testamento, para recriminar duramente a ação da polícia com os jovens, e repudiar a injustiça dos "faraós" com os menos favorecidos.

"Nem toda ordem é justa. Se alguém der ordem para matar, não obedeça. Se der ordem para comprar armas, não compre. Eu fico imaginando o absurdo, se esses 5 mil jovens [estimativa do número de frequentadores do baile], se eles tivessem obedecido às ordens de um faraó de hoje, eles estariam todos com uma metralhadora na mão. Já imaginou o que aconteceria numa situação dessas?"

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Cristina, mãe de Denys Guilherme, que tinha 16 anos: "O que fizeram com os nossos corações foi uma atrocidade; eu escuto a voz do meu filho todos os dias"(Foto: André Porto/UOL)

Pegos pelo VAR

A versão que a PM divulgou foi a de que os policiais estavam em uma operação chamada pelo governo de "Pancadão" (uma referência a bailes funks clandestinos) quando, ao se aproximar de Paraisópolis, foram recebidos a tiros por ocupantes de uma moto. Na perseguição, os supostos bandidos teriam entrado no baile para se misturar aos frequentadores, sem, contudo, parar de atirar. Os policiais então chamaram reforço e invadiram o baile. Na confusão, teriam pisoteado e matado nove inocentes, porque afinal não poderiam perder de vista os bandidos.

Ocorre que no mesmo dia circularam nas redes sociais vídeos feitos na comunidade que mostram os policiais em pleno exercício da violência gratuita. Tudo aconteceu na Viela do Louro e na Três Corações, duas passagens paralelas que não têm mais de cinco metros de largura e saem da Rua Ernest Renan, onde se realizam os bailes. Desesperados com a ação abrupta dos policiais, que apareceram de um lado e do outro da rua, os jovens se refugiaram nas vielas — mas foram cercados de dois lados.  "Não tinha para onde correr", diz um morador da Ernest Renan, que estava no baile e foi ao ato ecumênico. 

Mas e os bandidos de moto? "É mentira!", revolta-se o rapaz. "Isso não existiu!"

A Viela dos Louros, onde os jovens foram encurralados e mortos (Foto: André Porto/UOL)

A impunidade manda

"O b.o. [boletim de ocorrência] quem faz são eles [a polícia]", afirma José Marcelo da Silva, o presidente da Ação Comunitária Nova Heliópolis, liderança da favela onde um homem morreu na mesma noite, em outra ação da polícia. "Você vê claramente no vídeo que não houve conflito, ninguém atacou os policiais, muito ao contrário: eles chegaram batendo. Eles fazem isso porque sabem que vão sair impunes. A corporação manda para a parte administrativa, e em alguns meses eles estão na rua de novo."

O blog tentou falar com a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública do Estado, mas não a encontrou por telefone nem obteve resposta à mensagem enviada pelo aplicativo WhatsApp.

Corações despedaçados

Ao falar no ato, o tio de uma das vítimas afirmou: "O responsável direto pela chacina aqui em Paraisópolis tem nome: João Doria", referindo-se ao governador do Estado. "E, depois, o secretário de Segurança Pública e a polícia. Isso não pode ficar assim, a gente não pode deixar passar mais uma vez. Essa chacina não matou apenas nove pessoas, mas destruiu a vida de muitas outras. Pelo menos 100 parentes e amigos agora estão com o coração despedaçado com o destino desses meninos."

Duas horas depois de lamentar as mortes nas redes sociais, no dia 1º, o governador João Doria apoiou a polícia na ação. No evento da filiação do ex-ministro Gustavo Bebiano ao PSDB do Rio, Doria disse que "hoje, São Paulo tem uma polícia preparada, equipada e bem informada" e ainda que "a segurança em São Paulo se faz com com seriedade, com planejamento, com estruturação, com inteligência para permitir a ação preventiva do crime, com respeito aos policiais".

Só que os vídeos das agressões viralizaram, e ficou complicado para o governador reafirmar as boas intenções da segurança pública. Na quarta-feira, 4, depois de uma manifestação organizada pela comunidade até o Palácio dos Bandeirantes, parentes das vítimas e moradores exigiram uma reunião com Doria. Na ocasião, foi criado um comitê externo de acompanhamento, integrado por familiares, pelo Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana) e pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Genocídio higienista

"O Doria sempre foi claro no que ele pretende. A Operação Pancadão é genocida, higienista, atende a determinados setores da sociedade que não gostam do barulho, da música, do comportamento desses jovens", diz a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP), presente ao ato. "Ao mesmo tempo, Paraisópolis é a região da cidade onde há mais jovens, proporcionalmente, e você não vê um Céu, um espaço de convivência, de referência, nada. É lógico que eles vão para as ruas."

De acordo com a gestão do atual governo, a "Operação Pancadão" tem o objetivo de "garantir o direito de ir e vir do cidadão e impedir a perturbação do sossego".

Sâmia não tem dúvida de que as vítimas do domingo, 1º de dezembro, foram "emparedadas" em uma ação consciente da polícia. "Eles consideram esses jovens um incômodo que deve ser eliminado."

Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, afirmou que pretende entrar com uma ação civil pública para conseguir investimentos em cultura e educação nas comunidades dos nove jovens mortos — que tinham vindo de outras regiões da cidade. "Se não houvesse o mesmo problema lá, eles não viriam para cá", diz. 

O universitário Danylo Quirino Salvador, irmão de Denys Henrique, uma das vítimas, e a mãe: a imagem da dor (Foto: André Porto/UOL)

Dor de irmão

Em um dos momentos mais pungentes do ato, o universitário Danylo Quirino Salvador, 19 anos, que passou a maior parte do tempo com uma expressão apática, chora descontroladamente ao falar do irmão Denys Henrique, uma das vítimas.  Diz que vai perseguir a Justiça até o fim."Ele tinha 16 anos, cursava o ensino médio e trabalhava com limpeza de estofados."

Estudante do 4º período de geografia na USP (Universidade de São Paulo), Danylo é coordenador de um movimento de educação popular chamado Emancipa, que oferece cursinho de pré-vestibular a jovens da periferia. O movimento é bancado pelos próprios voluntários. Ele conta que tem ainda dois irmãos, uma de 8 anos, e que todos foram criados só pela mãe.

Ao afirmar que não vai ter paz enquanto o responsável pela morte de seu irmão não for punido, ele corrige: "Sinto que eu nunca vou ter paz."

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Paulo Sampaio