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"Refugiados VIP" se reúnem em evento que ajuda brasileiros a migrar para Miami

Paulo Sampaio

16/03/2017 04h05

O empresário Rodrigo Aldana, 35 anos, e sua mulher, Vanessa Lerner, 29, viajaram de Montenegro até São Paulo especialmente para comparecer ao Miami Prime Expo —  evento criado para atrair brasileiros que acalentam o sonho de migrar para a Flórida. Montenegro fica a 55 km de Porto Alegre e tem 60 mil habitantes. Rodrigo foi ao Espaço Manacá, localizado em um casarão na Rua Estados Unidos, no nobre Jardim América, vestindo terno preto, camisa marinho, mocassins escuros e barba aparada máquina 2. Vanessa estava enrolada em uma pashmina pérola com o monograma da grife Louis Vuitton; usava calça skinny verde-bandeira e sapatos altos de bico fino com estampa de onça e spikes: "O vinil está de volta", disse, referindo-se ao material que reveste a parte de cima do sapato.

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Vanessa Lerner e Rodrigo Aldana: de Montenegro para a Flórida (Foto: Paulo Sampaio)

Como todos os frequentadores do MPE, que se realizou na terça e na quarta-feira, Aldana e a mulher assistiram a palestras sobre imigração, internacionalização de empresas, tributação e investimentos residenciais e comerciais: "Eu não penso em me mudar para Miami, eu vou me mudar para Miami", disse o gaúcho, muito determinado. Colocava entre os motivos que o levaram a tomar tal decisão a falta de segurança no Brasil, o clima da Flórida e a "brasilidade" (de Miami). Depois das palestras, todos eram encaminhados para uma espécie de drive-thru de corretores de imóveis, contadores, advogados e consultores instalados em nove mesas: "A ideia é minimizar o chamado pedágio para entrar no país", explica o empresário Daniel Ickowicz, filho do idealizador do evento, Leo Ickowicz, que mora em Miami há 26 anos e é dono de uma imobiliária. "Não temos nenhum interesse financeiro", garante Daniel. "Nosso negócio é consequência", diz ele, que colocou à disposição dos frequentadores da expo 15 corretores. Os valores dos imóveis vão de U$ 250 mil até "o céu é o limite", informa Leo. Ele pede ao blog para não incomodar os frequentadores do evento, "só os que quiserem dar entrevista", para não "expô-los": "Antes, eles não queriam aparecer por causa do caixa 2. Agora, o problema é a segurança", explica.

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Interessados em migrar para Miami passam pelo drive-thru de consultores (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Mestradinho

Nas palestras, as notícias sobre imigração não poderiam ser melhores. O "consultor imigratório" Leonardo Freitas informa que ninguém precisa ter uma empresa de U$ 100 mil, com no mínimo dez empregados, para conseguir se mudar para Miami. "Já fiz o processo de um colombiano que era dono de uma carrocinha de cachorro-quente e tinha U$ 35 mil." Ele afirma que o grau de instrução conta: "Quem aí tem MBA? Um mestradinho que seja?" Cerca de dez pessoas, em uma sala de 50, levantam a mão. "Pois é: vocês conseguem o visto de imigração hoje", afirma Freitas, segurando o microfone com um sorriso vitorioso.

Ele então diz que apenas 6% da população norte-americana têm tais especializações e que, no fim das contas, as dez pessoas que levantaram a mão valem mais do que a maioria dos nativos dos EUA. Mas não só aquelas dez. "Alguém sabe quem é Rodriguinho Pagodeiro?" Risos gerais. "Pois eu acabei de tirar o green card dele", continua Freitas, no auge apresentação. "Aí você pergunta: 'Como classificar um pagodeiro como alguém com 'capacidade extraordinária' (nomenclatura para designar uma ótima formação)? Simples: ele ganhou quatro discos de platina, seis de ouro e tem uma renda muito superior a U$ 2.738, que eles estabelecem para a categoria de cantor." Várias expressões de surpresa: "Vivendo e aprendendo", diz um mestrandinho.

Armani Exchange

De acordo com Leo Ickowicz, 400 pessoas frequentaram o evento, e 30 imóveis foram vendidos. "A grande vedete foi o empreendimento comercial. Temos aqui, inclusive, um consultor do Banco do Brasil que ajuda a montar o financiamento", explica. Leo acredita que os "aventureiros" do passado desapareceram. "As pessoas estão mais focadas."  O pano de fundo das mesas do drive-thru eram banners grandes, com imagens de arranha-céus futuristas rodeados por braços de água verde-esmeralda: "Quero morar em um lugar onde as coisas funcionam, onde a lei é cumprida", diz o empresário Adilson Tavares, 52, dono de uma empresa que importa instrumentos musicais da China.

Tavares usa camiseta branca e relógio quadradão Armani Exchange, calça Khelf ("compro tudo lá fora, menos jeans"), pulseiras de prata com detalhes em cristais Swarovski e, no dedo mindinho, um anel de ouro com uma insígnia de proteção "baseada na numerologia". Ele é casado, pai de quatro filhos e diz que pensa muito na segurança das crianças. "Eu tenho 'uma bebezinha' de 1 ano e três meses, sabe?, a educação lá é de outro nível. E tem a segurança, lógico. Já sofri sequestro relâmpago, minha mulher foi assaltada, a gente não pode mais andar em carro que não seja blindado." Morador do Alto da Mooca, na zona leste de São Paulo, ele conta que conhece a Flórida de alguns passeios: "Você me diz: 'Nenhum lugar é perfeito'. Verdade. Mas lá pelo menos eu sou livre para caminhar pela rua sem medo, entende?"

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Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.