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Bailarino gay usa vestido para provar que roupa não tem a ver com gênero

Paulo Sampaio

15/01/2018 08h00

Disposto a provar que "um vestido não faz alguém ser homem, mulher, homo ou hétero", o bailarino Sergio Amarante, 24 anos, criou um projeto em que produz performances de dança e arte alternando comportamentos masculino e feminino. Criado a partir de conflitos relacionadas à homofobia, o projeto se chama Amarante e associa o sobrenome de Sérgio às expressões "amar" e "ante".

Sérgio se define como um "gay cis", o que, de certa forma, é um contrassenso. Na moderna nomenclatura dos gêneros, cis (de cisgênero) é aquele que se identifica com seu sexo biológico de nascimento. Homem = a masculino; mulher = feminino.Pelo que o bailarino afirma, ele seria bi-identificado, uma espécie de "comum de dois gêneros": "Eu não me forço a nada. Dependendo da minha vontade, eu saio de terno, ou de saia e cropped. "

Dinheiro dos Brigadeiros

O projeto é solitário, artesanal e itinerante. Bancado com o dinheiro dos brigadeiros que vende no salão da mãe, Sérgio vai a um lugar previamente pesquisado na Internet, arma sua pequena parafernália audiovisual e faz a performance. Normalmente, conta com a ajuda do namorado ou de algum amigo para fotografá-lo, ou filmá-lo. O resultado do registro ele posta nas redes sociais. Já esteve em vários estados do Brasil, no Uruguai, na Argentina e na Califórnia.

O bailarino sabe que se impôs uma tarefa inglória. Há duas semanas, em uma visita do projeto a Belo Horizonte, ele teve de sair às pressas de uma feira livre, para fugir das "reações". "Eu estava com meu namorado e apareceu uma mulher perguntando, muito inocentemente, qual era o tecido do meu vestido. Em seguida, ela já estava querendo saber se nós éramos namorados. Depois, se eu era a mulher da relação. Em pouco tempo, nós estávamos cercados por um grupo de oito pessoas que gritavam: 'É mulher!' 'É viado!"'

Pela natureza provocativa do projeto, Sergio já sai de casa preparado para o pior ("tenho amigo que já teve de morder a guia porque estava de vestido"), mas no caso de BH ele esmoreceu: "Chorei de domingo a terça. Aquilo fugiu do meu controle."

Teoria Queer

A não-identificação com nenhum gênero "socialmente construído" (ou, seja todos) está associada ao ideário da chamada "teoria queer", para a qual classificações como "homem", "mulher", "gay", "travesti", "lésbica" são igualmente anômalas.

Sergio, em dois momentos do mesmo ensaio (Foto: Arquivo Pessoal)

O bailarino afirma que já foi mais revoltado em relação à homofobia, mas conseguiu canalizar sua raiva  para o projeto. "Na escola, muitas vezes eu era apontado como o gay, filho da lésbica. Mas não cheguei a sofrer bullying, porque corria para o meu grupo de amigos maloqueiros." (A cabeleireira Elaine Amarante, mãe de Sérgio, assumiu uma relação com uma mulher na mesma época em que ele beijou pela primeira vez um garoto. Pouco antes, o bailarino havia perdido o pai. "Ele sacava o caminho que eu estava tomando e tentou me dar uma cortada. Mas ao mesmo tempo me chamava de 'filho homo"', lembra).

Idealista, tinhoso, muito seguro de suas intenções, Sérgio explica que o Amarante pretende "confundir as pessoas mesmo".  "Não estou levantando bandeira, nem militando, apenas testando reações." Para combater a desinformação, ele diz que  busca produzir algo refinado. "Não quero que me encarem apenas como uma bicha de vestido."

 

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Paulo Sampaio