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"Não consigo mais chorar quando alguém morre", diz irmã de Mércia Nakashima

Paulo Sampaio

05/02/2018 05h00

O assassinato brutal da advogada Mércia Nakashima, em maio de 2010, provocou um trauma tão profundo em sua irmã, Cláudia, que ela diz que não consegue mais chorar quando alguém morre.  "Tenho muitas crises de pânico, choro sem mais nem menos, mas nunca mais derramei uma lágrima com morte, por mais próxima que seja a pessoa", diz Cláudia, que também é advogada e tinha 29 anos à época do crime. No dia 10 de junho de 2010, mais de duas semanas depois do desaparecimento de Mércia, seu o corpo foi encontrado no fundo de uma represa de Nazaré Paulista, município a cerca de 50km Guarulhos. Acusado de tê-la atingido com um tiro no queixo e, depois, empurrado o Honda Fit dela até que o carro afundasse completamente na represa, o policial aposentado e advogado Mizael Bispo, ex-namorado da vítima, foi condenado em 2013 a 20 anos de prisão.

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Com o irmão, Márcio, e a mãe, Janete, no dia do julgamento de Mizael (Foto: Diego Calvo)

Desde que Mércia deixou a casa da avó no domingo, 23 de maio, depois de um almoço de família, e nunca mais apareceu, Cláudia foi submetida a testes de resistência emocional inimagináveis. O que se seguiu ao assassinato de sua irmã remete às ficções mais aterrorizantes sobre crimes. Na terça-feira, quando ela esteve na delegacia com o irmão, o empresário Márcio Nakashima, para registrar um boletim de ocorrência, "ninguém deu muita importância"."O delegado tratou o desaparecimento da minha irmã como 'mais um'. Algo sem novidade", lembra.

Desamparados, os dois procuraram a imprensa para ver se conseguiam divulgar o caso e, quem sabe, ter a atenção polícia. Em um primeiro momento, a pauta não atraiu ninguém. "Não quiseram saber", diz. Acontece que naquela mesma semana um homem chinês foi esfaqueado em um supermercado de Guarulhos, e um repórter de TV apareceu para fazer a cobertura. Márcio Nakashima soube do caso porque era dono de uma funerária e tinha contato com funcionários do Instituto Médico Legal (IML). "O Márcio correu para ver se convencia o repórter a fazer uma matéria", lembra Cláudia.

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O repórter, que apresentava um programa vespertino sensacionalista, se interessou. "Ele gravou uma entrevista com o Márcio e, quando foi ao ar, toda a imprensa veio atrás." A presença constante de jornalistas na porta da casa de Cláudia e de seus familiares, naquela época, não a incomodava. Ao contrário: "Sou muito grata ao trabalho deles."

Sem comer nem dormir

Mesmo com todo o aparato da mídia, ainda levou tempo até que achassem o corpo de Mércia.  Por conta própria, Cláudia também foi atrás da irmã. Se embrenhou obcecadamente em matagais, terrenos baldios e estradas que iam dar em ermos que ela nem sabia que existiam. "Eu estava completamente fora de mim, desesperada, não comia nem dormia." Embora estivesse quase sempre acompanhada de amigos ou voluntários, ela conta que Márcio e seu marido tentavam segurá-la em casa, com receio do que ela pudesse encontrar. "Eles chegaram a trancar a porta e levar a chave", lembra.

Dezoito dias após o desaparecimento de Mércia, a polícia descobriu onde tudo aconteceu. Quer dizer: quem de fato chegou ao local do crime foi Márcio Nakashima. Seguiu a pista dada por um pescador que frequentava o mesmo barbeiro que ele. "O homem comentou  no salão que estava pescando na represa e ouviu gritos na margem oposta. Percebeu que havia um carro de farol aceso que foi empurrado em direção à água", lembra Claudia. "Pensou que fosse alguém tentando dar um golpe no seguro."

Dois mergulhos

Como já havia aparecido muitas testemunhas que não levaram a nada, era difícil convencer as autoridades a acreditar em mais uma. Mas Márcio Nakashima insistiu para que o Corpo de Bombeiros mandasse uma equipe até o local indicado pelo pescador. No primeiro mergulho, os bombeiros não encontraram nada. Já iam indo embora, mas Márcio os convenceu a procurar um pouco mais: "Vocês não querem tentar um pouco para lá?", indicou com a mão para a esquerda, instintivamente. Os bombeiros então, só para constar, desceram de novo ao fundo da represa; desta vez, tocaram em algo rígido, que logo se constatou ser a capota do Honda Fit. Mas por enquanto era só o automóvel. O corpo de Mércia foi encontrado depois, ali perto. Ela tinha 28 anos.

Márcio fez bem em tentar segurar Claudia em casa. Mércia não estava "apenas" morta. Quando o cadáver dela foi trazido à superfície, o cenário era horripilante. O rosto estava desfigurado não só pelo efeito do tiro que atingiu seu maxilar, mas também pelo tempo que permaneceu sem vida debaixo d'água. Os peritos concluíram que ela não morreu ao receber o tiro, mas por afogamento.

Para alguém que conhecia tão bem a irmã, como Cláudia, e sabia que ela não saía de casa sem estar minimamente maquiada e de saltos altos, aquilo era especialmente assustador. "Eu não consegui chegar perto. Estava destruída, sem chão, como se estivesse solta em queda livre", lembra.

As irmãs Nakashima, no dia do casamento de Claudia (Foto: Arquivo Pessoal)

Namoro turbulento

Na investigação do caso, as suspeitas contra Mizael Bispo emergiram antes do corpo de Mércia. Desde o começo, segundo Cláudia, ele se esquivou de ajudá-los nas buscas. Tinha uma boa justificativa: para todos os efeitos, o namoro dos dois havia terminado. Só que não. Apesar de Mércia ter colocado um ponto final no relacionamento, os dois continuaram a se ver, sem que ninguém soubesse. Esse era um dos pontos incongruentes entre eles: ela queria escondê-lo, ele queria exibi-la. "Ela não o assumia, enquanto ele a usava como um troféu", diz o assistente da acusação, Alexandre de Sá Domingues. Isso feria ainda mais o amor próprio de Mizael, 12 anos mais velho que Mércia: "Era sabido que ele se sentia socialmente 'inferior' a ela."

A situação tornou-se ainda mais complicada uma vez que, ao romper com Mizael, Mércia desfez a sociedade profissional com o ele. Surgiram problemas financeiros. "Ela começou a perceber que ele não estava prestando contas da parte dela nas causas em que os dois trabalharam juntos", lembra Claudia. O ex-policial se sentia cada vez mais excluído da vida dela. Seu ciúme começava a tomar proporções doentias. O auge foi quando Cláudia pediu à irmã que a representasse em uma audiência do sindicato onde trabalhava, e Mizael encasquetou que o presidente da entidade tinha um caso com Mércia. Isso foi menos de uma semana antes de ela desaparecer…

Mércia com a mãe, Janete, em Piracaia, onde a família tem um sítio: "Minha mãe passou muito tempo sem ir pra lá, porque fica em um braço da represa de Nazaré Paulista", diz Cláudia (Foto: Arquivo Pessoal)

Álibis derrubados

Os álibis citados por Mizael Bispo em seus depoimentos foram sistematicamente contestados, ou derrubados por provas consistentes. Ainda acharam sangue em um par de sapatos recolhidos na casa dele, além de fragmentos microscópicos de uma alga de água doce idêntica à que se encontra na represa. Ao rastrear as chamadas telefônicas feitas por Mizael no dia em que Mércia desapareceu, a polícia descobriu que ele havia realizado 16 ligações para o vigia Evandro Bezerra da Silva, apontado como seu cúmplice. Evandro fugiu para Sergipe quando acharam o corpo de Mércia. Capturado, ele acabou relatando a emboscada que atraiu Mércia para a represa. Na ocasião, disse que sofreu tortura para que confessasse o crime. Foi condenado a 18 anos de prisão.

Por sua vez, quando depôs na polícia, Mizael não fez questão de disfarçar seu temperamento explosivo diante da imprensa. Ao negar que tinha feito tantas ligações para Evandro, ele se envolveu em um bate-boca com o delegado Antônio de Olim, da Delegacia de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP), na presença de vários de jornalistas. Mais tarde, quando teve prisão preventiva decretada,  permaneceu foragido de dezembro de 2010 a fevereiro de 2012.

Júri televisionado

Graças especialmente à exploração midiática do caso, seu julgamento foi o primeiro da história do judiciário brasileiro a ser transmitido ao vivo pela TV. O advogado de defesa Samir Haddad Jr. afirma que a influência na mídia no caso "foi um massacre que culminou nesse júri televisionado para todo o Brasil". "Eu sempre fui contra essa transmissão, mas fui voto vencido na equipe de defesa e o próprio Mizael era a favor", lembra.

Mizael Bispo foi condenado por homicídio triplamente qualificado (motivo fútil; emprego de meio cruel e ocultação de cadáver). Defesa e acusação apelaram da sentença. Em junho do ano passado, quando se julgou a apelação, desembargadores da 12ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo mantiveram a condenação, mas aumentaram a pena para 22 anos e oito meses. Citaram a "dissimulação" de Mizael em atrair Mércia para represa, "recurso que impossibilitou a defesa da vítima".

Em janeiro último, a defesa recorreu de novo. "Entendemos que tanto no julgamento do júri, como no da apelação houve nulidades e erros", afirma Haddad. Ele agora apela nos tribunais superiores: "Entramos com recurso especial no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e extraordinário no Supremo Tribunal Federal". Por sua vez, o assistente da acusação afirma que "a defesa tenta anular o julgamento, mas nesse recurso não se discutem as provas, apenas questões de direito que já foram analisadas pelo Tribunal de Justiça de SP e rechaçadas."

O julgamento de Mizael Bispo (à dir), em 2013, foi o primeiro do Brasil a ser transmitido ao vivo

E-mail anônimo

Os acontecimentos continuaram a triturar impiedosamente os nervos de Cláudia, com direito a picos de crueldade. Apesar de ter conseguido se preservar na represa, quando acharam Mércia morta, isso não foi possível quando ela abriu inadvertidamente um e-mail anônimo com as fotos do corpo feitas pela perícia.  "Se aquelas imagens fossem de alguém que eu não conhecesse, já seriam apavorantes. Agora, imagine, eram da minha irmã. Naquele momento, eu senti um misto de angustia, por não poder voltar no tempo e impedir que os dois se conhecessem; culpa, por não ter previsto o que estava para acontecer; e pânico, de imaginar tudo o que ela sofreu até morrer", diz. "Isso retorna sempre à minha cabeça. Vem junto com ódio, tristeza, dor, e uma incontrolável tremedeira interior.."

Cláudia, entre uma prima, Priscila, e Mércia (Foto: Arquivo Pessoal)

Além de tentar resolver as sequelas psicológicas, Claudia ainda teve de enfrentar os estragos ocasionados pela tragédia em sua saúde física. Com tudo o que passou desde o dia 23 de maio, seu  organismo sofreu uma baixa imunológica tão grande que sucumbiu a uma doença inflamatória infecciosa chamada pielonefrite, que compromete os rins.  "Eu não sabia, mas, por causa da infecção, a pílula anticoncepcional deixou de fazer efeito", lembra.  Dois meses depois de enterrar a irmã, ela descobriu que estava grávida.

Gestação solitária

Além de não ter a menor estrutura para enfrentar uma gestação, Cláudia precisou assumir a criança sozinha. "Meu marido não queria filhos nem teve maturidade para entender a situação. Ele só pensava em curtir a vida", lembra. O casamento naufragou. Ela se afastou do trabalho, não tinha energia para se levantar da cama.  No quarto mês de gravidez, estava pesando 43kg. "Precisei tomar antibiótico para combater a infecção, passava o dia inteiro com acesso aplicado no braço", lembra. Quando sua filha, Mayara, hoje com 6 anos, nasceu, ela estava com 52 quilos.

Por tudo isso, Claudia considera Mayara um milagre da sobrevivência. "É uma criança alegre, inteligente, falante, a parte da família que não carrega a marca da tragédia." Por sua vez, ela vive para a menina. Solteira, diz que as poucas possibilidades de relacionamentos que apareceram foram com homens que não queriam nada sério e não corresponderam às suas expectativas.

Relativamente resignada, ela afirma que a Claudia que saiu de casa em busca da irmã, em maio de 2010, nunca mais voltou.  "Muito de mim morreu junto com a Mércia. Nunca mais eu consegui ser plenamente feliz."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.