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Versão pornô de 'La Casa de Papel' ganha 'Oscar' do sexo explícito

Paulo Sampaio

08/08/2019 04h00

Natália Klein, Paulinho Serra e os vencedores da sexta edição do Sexy Hot (Iwi Onodera/UOL)

Com a experiência de quem trabalha com filmes pornográficos há 19 anos, o ator e diretor Fábio Silva, 41, achou que estava na hora de criar enredos para as cenas de sexo. De um tempo pra cá, ele resolveu se dedicar ao "pornô com historinha". Diz que "dá um pouco mais de trabalho", mas não pode se queixar do resultado. Na terça-feira (6), quando se realizou a sexta edição do Prêmio Sexy Hot, considerado o 'Oscar' da categoria, ele levou seis troféus — incluindo o mais cobiçado, de "melhor filme hétero". Silva ganhou com uma versão da série espanhola "La Casa de Papel" intitulada "La Casa de Raquel".

"A personagem principal, interpretada por Soraya Carioca, é uma ricaça que tem a casa invadida por marginais e se vê refém deles. Ela faz tudo para se livrar dos caras, mostra os peitos, transa com os homens, com as mulheres, faz oral, anal, sem saber que o que eles querem é um pendrive com um arquivo valiosíssimo. O filme é igualzinho ao primeiro episódio da Casa de Papel, você viu?"

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O diretor Fabio Silva, ganhador de seis troféus, chega ao prêmio Sexy Hot (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Valeu, porra!

A festa da premiação reuniu cerca de 300 pessoas em um espaço de eventos na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Com roteiro e apresentação da atriz Natália Klein, teve ainda a participação dos comediantes Paulinho Serra e Maurício Meirelles; da cantora Valesca Popozuda; das atrizes Carol Marra e Antônia Fontenelle; da transformista Tchaka e do empresário André Fisher. O Sexy Hot deste ano contemplou 17 categorias, entre elas "melhor diretor" , "melhor ator hétero"; "melhores atrizes hétero e homo"; "melhor cena de sexo oral"; "melhor de sexo anal"; "melhor orgia"; "melhor cena de dupla penetração".

Para receber os prêmios, os concorrentes subiam em uma passarela que dividia a plateia em dois blocos. A maior parte deles era econômica nos agradecimentos: "Não sou de falar muito, só queria dizer que, para chegar aqui, eu vi muita gente se fodendo!", disse o aplaudidíssimo Fábio Silva. Vencedor em duas categorias ("ménage" e "orgia gang bang") Vinny Burgos citou a audiência doméstica com carinho: "Minha família toda tá assistindo, caralho!" Loupan, o "melhor ator hétero", foi temático: "Obrigado a todos, porra!". Jack Kallahari, outro vencedor na categoria "orgia gang bang", disse: "Esse é o filme mais fácil de produzir. Junta uma galera e faz uma suruba."

Saltão e lamê vermelho

Ao meu lado está a carioca Elisa Sanches, 37, que concorre em quatro categorias — anal, oral, gang e ménage. Muito ansiosa, ela conta que era garota de programa e passou a atuar em filmes para adultos há apenas dois anos ("para esquecer uma pessoa"). Por isso, se sente extremamente realizada. "É muito gratificante ter conseguido tantos troféus (na premiarão do ano passado, ela ganhou três), em tão pouco tempo", diz.

Elisa conta que mora no Méier, subúrbio do Rio, e tem uma filha de 20 anos que "não sofreu preconceito (por ter uma mãe que fazia programa e se tornou atriz pornô)". "Eu não a exponho", afirma a ela, que tem peitos, nádegas e bochechas muito turbinados, está com um vestido de lamê vermelho e sensualiza para fotos em cima de um sapato dourado de saltos altíssimos.

Nossa conversa é interrompida duas vezes, sempre por motivos nobres. A primeira, quando a chamam para receber o prêmio por "melhor anal"; a segunda, por "melhor cena de orgia".  Em ambas as ocasiões, o mulherão coruscante contrasta com a voz sussurrada: "Obrigada, gente".

Elisa Sanches e seus dois companheiros de cena, Eduardo Lima e Vinny Burgos, recebem o troféu por "melhor anal" (Foto: Iwi Onodera/UOL)

A pílula azul

A maior parte dos atores usa Viagra para fazer as cenas. Não que eles sofram de disfunção erétil.  O ator Alemão, de 27 anos, que só contracena com a própria mulher, conhecida como Dread Hot, diz que o medicamento "ajuda a manter a ereção em cenas longas, e a retardar a ejaculação". Ganhador de dois troféus — "ator revelação hétero" e "melhor sexo oral" –, Alemão conta que Dread Hot está prestes a contracenar pela primeira vez com outro homem. Ele revela que é ciumento e que está se preparando psicologicamente para enfrentar o momento: "Quando ela transou com outras mulheres, já senti um ciuminho".

Os dois recebem muitos convites para transar a três, mas não aceitam — nem juntos, nem, muito menos, separados. A menos que fosse uma "proposta indecente", como a do filme de Adrian Lyne (1993), em que um magnata pergunta se a mulher do outro toparia transar com ele por 1 milhão de dólares. Nesse caso, bem, os olhos de Alemão brilham: "Por esse valor, qualquer um toparia!"

Orgasmo político

A monumental Dread Hot, 23 anos, 1,81m de altura, usa uma calcinha preta coberta apenas por uma engenhoca elaborada com correntes finas, interligadas, que deixam o corpo à mostra. Conta que trabalhava em uma agência de publicidade e sempre teve preconceito em relação ao cinema pornô, até que descobriu que "podia mudar muito a cabeça das pessoas". "Minha relação com o filme pornô é bem política."

Ela diz que escolhe os filmes que faz e só aceita aqueles em que aprova o acabamento. "Dá para ficar muito legal", garante. Nascida no interior, Dread passou a adolescência em Santos, onde começou a namorar Alemão. Os dois ingressaram na indústria pornô juntos. Ela conta que perdeu alguns amigos, que ficaram indignados, mas ganhou outros: "Foi bom, eu pude separar o feijão podre, do bom", acha ela, cujo primeiro filme foi feito com uma webcam. Chamava-se "5 para 1": "Nada a ver com suruba. Os cinco participantes disputavam um baseado".

O casal Alemão e Dread Hot só têm atuado em dupla, e apenas em filmes do gênero "pornô gourmet" (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Pornô "gourmet"

Outra que aderiu ao "pornô gourmet" foi a atriz pansexual Mayana Rodrigues, 33 anos. Ela conta que sua carreira se divide em "antes de 2009 e depois". "Eu era puta em Minas e me mudei para São Paulo em 2004 para seguir carreira. Só que no dia em que eu cheguei, conheci uma atriz pornô que me levou para filmar, e fiquei cinco anos no mainstream. Então, fiz um filme esteticamente diferente, mais bem cuidado, iluminação, figurino, fotografia, edição, e tive muitos orgasmos verdadeiros, como nunca antes nos filmes tradicionais."

Em função disso, Mayana fez um curso de cinema para dirigir vídeos pornô e se especializou em BDSM ("bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo"). Hoje, faz menos filmes, mas é "muito mais realizada". Na vida pessoal é "top". No guarda-chuva do BDSM, "top" é a pessoa que manda (em inglês, o ativo); e bottom, a que obedece (passivo). "Tenho uma bottom em casa, que me obedece no sexo e ainda faz faxina, arruma as camas e cozinha."

A atriz e diretora Mayanna Rodrigues se descobriu no pornô alternativo, onde, segundo diz, chegou a orgasmos verdadeiros, "como nunca antes" (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Reconhecimento 'lá fora'

Ali perto está atriz Mia Lins, 27 anos. Há dois anos na indústria do vídeo de sexo explícito, ela diz que já participou de mais de cem cenas. Mia usa um vestido frente única branco e bem ventilado. Na parte de cima, o pano é suficiente apenas para cobrir parte dos seios preenchidos com 400 ml de silicone. A de baixo é adornada com  uma fenda na lateral que vai das nádegas até o tornozelo. Ela não veste calcinha nem sutiã.

Sem lamentar, Mia diz que "os produtores europeus valorizam o seio sem silicone". "Eles gostam da mulher o mais natural possível", diz a atriz, que está indo para a Hungria filmar.  Segundo ela, o mercado internacional dá preferência a cenas feitas sem camisinha.

Uma cena, US$ 1.800

Em relação a doenças sexualmente transmissíveis, ela diz que não há o que temer.  "Todos os atores são obrigados a fazer uma bateria de exames antes de gravar." Ela pega o celular na bolsa, e mostra a lista (HIV DNA PCR; HIV 1-2, Elisa Combo; Syphiles Seridia TPHA, PRP; Hepatitis C, B; Chlamydia PCR; Gonorrheae PCR).

De acordo com Mia, apenas duas produtoras nacionais oferecem aos atores a possibilidade de fazer as cenas sem preservativo (que são melhor remuneradas). Fabio Silva diz que "a tendência é isso aumentar, porque o mercado internacional está fazendo pressão". De acordo com ele, o cachê normal de um ator varia entre R$ 600 e R$ 1.200, por cena. Sem preservativo, pode subir até 25%. "Nos EUA, eles pagam U$ 1.800 por uma cena sem preservativo". 

Mia Linz, que fez carreira nos EUA e Europa, conta que lá os seios naturais (sem silicone) são mais valorizados, assim como o sexo sem camisinha; ela mostra a lista de exames que faz antes de filmar uma cena (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Ex-patinho feio

Para Patrícia Kimberly, 35 anos, vencedora na categoria "Melhor Atriz Homo" ("Amarradas e Dominadas"), nada disso importa. Muito emocionada, ela conta que o cinema pornô resolveu um problema de bullying que a perseguiu por toda a idade escolar. "Eu era o patinho feio, ninguém olhava pra mim. Quando a gente brincava de 'Verdade ou Desafio', os meninos não queriam me beijar. Era um castigo para eles."

Segundo Kimberly, o filme de sexo explícito a levou a ser desejada por todas aquelas crianças malvadas. Ela se orgulha de ter erigido, em 14 anos e mais de 400 cenas, uma carreira sólida: "Meu corpo esteve em muitos cartazes nos cinemas do centro, fui capa de revista, de DVD. Todo mundo que me desprezou pode ver na tela grande como eu sou atraente. Duvido que em casa eles tenham mulher que faça tudo o que eu faço na cama", desafia.

Ex-patinho feio, Patrícia Kimberly ganhou como "melhor atriz homo" (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Medo de Kid Bengala

Independentemente do profissionalismo com que faz as cenas, Patrícia Kimberly diz que gosta muito de sexo. Mas revela que transar com atores bem dotados "não é prazeroso". "Fiquei muito preocupada quando tive de filmar uma cena com o Kid Bengala (ator com um alardeado pênis de 23 cm). Passei a noite sem dormir, pensando no estrago que ele faria", lembra ela.

Casada pela primeira vez há dois anos, Patrícia reconhece que "não é fácil encontrar um homem que aceite se relacionar com uma atriz pornô". "Mas eu tenho aquele japonezinho ali, ó (ela aponta). Ele me ama, me sustenta, me dá força, o que mais eu posso querer?"

Patrícia Kimberly e o marido André, o "japonezinho" que a sustenta: "Sexo com homens dotados não é prazeroso"(Foto: Iwi Onodera/UOL)

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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