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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Lésbicas de diferentes gerações conversam sobre o que mudou em 25 anos

Paulo Sampaio

28/08/2019 04h00

Vinte e cinco anos separam as vivências de Rita e Victoria, mas algumas efemérides, como a saída do armário para a família, ainda podem ser complicadas (Foto: Iwi Onodera)

A produtora Rita Damasceno assumiu que era lésbica em 1996, ano em que a atriz Victoria di Paula nasceu. Rita, 48, tinha 24 anos e já até namorava garotas, mas em casa ela continuou dizendo que aquelas moças eram suas "melhores amigas": "O engraçado é que surgiam várias melhores amigas, assim, do nada", diz ela, rindo. "É óbvio que eles tinham uma ideia do que estava acontecendo, mas ninguém comentava." Rita conta que, naquela época, a palavra lésbica tinha o peso de um palavrão: "Você não ouvia comentários elogiosos sobre ser lésbica. Aliás, lésbica? Que palavra era aquela? Que remédio era aquele?" Por conta do preconceito acirrado, ela frequentava guetos, se apaixonou platonicamente muitas vezes e teve receio de, ao se assumir, ser abandonada pelas amigas heterossexuais temerosas de serem "atacadas". Casada há 17 anos com uma empresária na área de logística, ela e a mulher adotaram há dois um menino. "Ser mãe é algo maravilhoso, que está me dando uma alegria imensa, mas eu vejo que só conseguiria dar conta de criar um filho com alguém que fosse parceira de verdade", diz.

Victoria fez 23 anos em abril, mora há um ano e meio com uma professora de dança de salão e afirma que "está" lésbica. Já havia beijado meninas e namorado meninos, mas diz que para assumir um casamento com a atual companheira precisou "desconstruir uma série de valores que eu trazia da educação e da criação em uma cidade do interior (Ibiracatu, MG)". No caso de Victoria, o verbo "estar" acabou se aproximando no "ser". Ela pensa nas palavras antes de falar, preocupada em não parecer ressentida com os homens — embora acredite que eles sejam machistas na busca da própria satisfação sexual: "Eu não descarto relacionamentos com quem quer que seja, mas precisei rever tanta coisa na reconstrução do meus valores (para assumir o casamento) que é difícil, pelo menos nesse momento, sequer pensar em fazer sexo com homens". Ela diz que, quando fazia com os namorados, "achava que o prazer era aquilo":  "Essa quebra de paradigmas, esse 'me entender' e a determinação de colocar os meus prazeres acima de tudo me levaram a ficar muito mais à vontade com o meu corpo. O sexo é muito melhor."

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O blog reuniu as duas mulheres para celebrar o Mês da Visibilidade Lésbica, que se comemora em agosto. O dia, para ser mais preciso, é amanhã, 29. Apesar das evidentes diferenças entre as duas gerações, especialmente no que diz respeito à extraordinária visibilidade que o movimento lésbico ganhou nos últimos dez anos, ainda há semelhanças surpreendentes nos enfrentamentos delas contra a discriminação e o preconceito. Tanto Rita quanto Victoria são ativamente feministas. "Todo mundo deveria ser, homens e mulheres", acham. As duas informam que quando falam de si, elas se referem a um grupo restrito de mulheres privilegiadas, que têm possibilidade de se colocar socialmente, de impor seus valores, sua orientação sexual e sua arte em ambientes que definem como 'bolhas'. Abaixo, os trechos da entrevista.

Rita Damasceno e Victoria di Paula: perrengues parecidos, mas em épocas diferentes (Foto: Iwi Onodera/UOL)

Universa — Como foi o primeiro beijo em uma mulher?

Rita — Ah, maravilhoso, eu já estava envolvida com produção de teatro, e a arte, naquele momento, foi muito libertadora. O beijo é algo muito importante, gente. É primeira manifestação de amor.

Victoria — Nossa, nem lembro!

Rita — Não lembra?

Victoria — Acho que foi em uma cena no teatro, eu tinha 15 anos. Foi muito bom, um beijo muito calmo, macio…

Rita – Putz, eu levei 21 anos para dar um beijo em uma mulher, e foi uma das coisas mais importantes da minha vida.

Universa (para Victoria) — E na vida real?

Victoria — Ah, foi em uma balada, acho.

Universa — Onde vocês conheceram as esposas?

Rita — Bom, nos anos 1990 as lésbicas se encontravam em guetos. Nas boates, nos bares só de mulheres e nas casas umas das outras. Eu me lembro que a primeira vez em que fui a uma boate dei de cara com uma vizinha. Imediatamente, fui até ela e disse: "Olha, eu não sou entendida não, viu?" (o termo era usado para camuflar as preferências sexuais de gays e lésbicas em ambientes ortodoxos). Conheci a Roberta, minha atual mulher, em uma boate. Eu estava tomando suco de laranja, ofereci um gole, ela disse: "Suco de laranja?" A gente começou a conversar, e estamos juntas até hoje.

Victoria — Eu dava aula em uma escola, em que a irmã dela era coordenadora. Ela me mostrou uma foto de uma menina no celular e disse: 'Você não quer conhecer minha irmã? Olha que linda!' Eu respondi, de brincadeira: 'Nossa, é mesmo. Essa aí eu assumia na família'. Aí, um dia, ela apareceu na escola, eu a conheci. Só que eu não queria ficar com ela. De jeito nenhum. Não tinha atração. Mas um tempo depois a gente ficou, e depois do primeiro beijo eu me apaixonei. Estamos juntas desde então.

Rita — Bem mais prosaico.

Universa — De uns tempos pra cá, em ambientes ditos esclarecidos, um número considerável de mulheres heterossexuais tem revelado que experimentou sexo com lésbicas e que foi incomparavelmente melhor do que com homem.

(As duas riem, aparentemente familiarizadas com esse tipo de comentário).

Rita — Eu estou há 17 anos com a mesma mulher e acho incrível perceber o quanto isso melhora a cada dia. E o quanto a gente é amante, sem deixar de ser parceira.

Victoria —  Até assumir que  estava apaixonada por uma mulher, precisei de um tempo para desconstruir todos os paradigmas que estruturaram a minha formação desde criança. Esse 'me entender' e e a determinação de colocar os meus prazeres acima de tudo me levaram a ficar muito mais à vontade com o meu corpo. O sexo tem outra qualidade, claro.

Universa — Isso só é aplicável no sexo com mulheres?

Victoria– Com os homens…Ai, meu Deus, como falar isso de uma maneira não vulgar. Bom: é muito raro encontrar um sexo hétero que não seja machista.

Universa — O que seria um sexo machista?

Victoria– Que satisfaz o homem. Homem gozou, acabou ali. Isso é muito difícil.

Rita – (Concordando) Você está dizendo que é difícil encontrar um homem que não caia nisso…

Victoria– Pois é, e também tentando não cair no estereótipo do "o homem não presta". Não tem necessidade de ser agressivo…

Universa — Até ter sexo com uma mulher, você nunca relaxou?

Victoria– Eu achava que sim. Que estava tendo uma experiência maravilhosa. Foi quando eu transei com a minha namorada pela primeira vez. Você se reinventa a cada toque, coisa que não tem com os homens.

Universa — Muitas mulheres heterossexuais reclamam do comportamento dos homens: dizem que eles não lhes dão atenção, que são egoístas na cama e machistas nas atitudes. Aí, sempre aparece alguém, não necessariamente lésbica, para sugerir uma relação com outra mulher. Uma reação comum é: "Deus me livre, você quer que eu passe o resto da minha vida discutindo relação!? Mulher é um bicho pegajoso, ciumento, chato."

Rita — E também tem aquelas que dizem: "Ah, se for para ficar com mulher, tem que ser com a Angelina Jolie." Não entenderam nada. É muito mais profundo.  Eu tenho na Roberta a minha melhor amiga, a melhor mãe para o meu filho. É uma sorte encontrar alguém para caminhar, assim, junto.

Victoria– Na TPM é complicado.

Universa — Foi difícil assumir a namorada para os pais?

Rita — A primeira namorada que eu apresentei em casa foi a Roberta. Eu tinha 31 anos. Mas aí já era tarde para ter conflito. Eu basicamente comuniquei.

Victoria — Não posso dizer que levei tanto tempo quanto a Rita, até porque a noção de tempo, com a internet, mudou. Mas minha cidade tem 8 mil habitantes, fica no interior de Minas. Ouvir que eu era sapatão não foi a melhor coisa do mundo para a minha mãe. Eu dei um tempo para ela respirar fundo, depois voltei e as coisas se resolveram.

Universa — No passado, chamar uma lésbica de sapatão era ofensivo

Rita — Sim, era. Um palavrão.

Universa – Aparentemente, o termo ganhou conotação política

Victoria — É uma maneira de dizer, "sim, eu sou isso mesmo" e deixar o agressor sem palavras. Ele vai me ofender como, se eu mesma já estou dizendo que sou sapatão? É preciso criar algum impropério novo.

Universa — Você diz que é sapatão. Isso vale até quando?

 Victoria — Não sei, eu não gosto de rótulos.

Universa (para Rita) — Com você foi mais definitivo…?

Rita – Na hora que eu decidi que eu era sapatão, eu era sapatão. Embora, eu também acreditasse que a pessoa não tinha de ter rótulo…

Universa — Você passou a maior parte da sua vida casada com uma mulher..

Rita — Sim, e praticamente desde criança eu me senti atraída por mulher. Eu era um garoto. Só não via quem não queria. Mas hoje, se você é uma menina com jeito de garoto, ou vice-versa, isso não te restringe a experiência amorosa. Ao contrário, você pode explorá-la de uma maneira muito mais diversa.

Victoria — É…a gente tá falando de um grupo de pessoas, uma 'bolha'.

Rita — Sim, lógico. Mas existe pelo menos essa possibilidade de fluidez, de trânsito pelas experiências. Eu acho essa liberdade sensacional. Eu acredito nas mesmas coisas. Nunca tive a atitude das lésbicas clássicas dos anos 1980, 1990. Eu dizia que o amor vinha antes do sexo, que você podia amar homens e mulheres. Só que, na época, sair do armário era uma decisão para a vida. Então, havia uma patrulha entre as próprias lésbicas. Elas me diziam:  "Mas você gosta de mulher! Tá é querendo dar uma de moderna!"

Victoria –– Eu acho legal essa liberdade que a minha geração dispõe, mas tem de dar uma relativizada. Uma coisa é você ser livre e dizer: 'Imagine, eu não tenho problema nenhum em namorar uma mulher'. Só que, aí, em outro momento, você está namorando uma mulher, completamente apaixonada, e por mais que isso pareça supernormal na nossa 'bolha' de amigos — eu não gosto dessa palavra, porque eu não tenho que colocar que isso não é normal –, você sente falta de ter com quem conversar no ambiente familiar, onde estão suas principais referências. 

Rita –– Isso é difícil. Mas ainda assim, a influência da mídia, todos esses casais de gays e lésbicas que você vê nas novelas, isso ajuda a dar visibilidade. Chega aos lugares mais remotos do país. Na minha época, você não se via na TV. E quando se via, não era bonito. Tinha sempre o estereótipo.

Victoria– Sim. A mídia, por um lado, facilitou muito as coisas para a nossa geração. A informação chegou pra mais gente e, querendo ou não, está transformando a sociedade. É visível que nós estamos ocupando mais espaços. Eu não preciso ir a uma balada onde só tem lésbicas para interagir. Posso ir a qualquer barzinho.

Universa — Vocês já foram assediadas por homens?

As duas– Sim

Victoria Todos os dias.

Universa — Isso contribuiu na decisão de ser sapatão?

Ambas – Não

Victoria –Mas faz a gente se apaixonar cada vez mais por mulheres. Por outro lado, existe algo que eu particularmente odeio, que são as mulheres que reproduzem atitudes machistas. Vêm pra cima, fazem a mesma coisa. Não é só porque virou lésbica que é uma santa.

Rita– Isso tem muito. Como se fosse o pior do homem. Mas comportamento machista é diferente de ter um biotipo masculino.  Porque a mulher pode ser masculina e ser incrível.

Victoria – Uma caminhoneira, né? Como o pessoal fala, pejorativamente. Minha namorada tem o estereótipo da mulher masculina. As roupas dela são de menino — não gosto de usar essa expressão, porque roupa é roupa, não tem sexo — desde pequenininha.

Universa — Vocês vão à marcha lésbica?

Victoria – Sempre (ela mostra o símbolo do feminismo tatuado no pulso)

Universa — Acha que o lesbianismo está ligado ao feminismo?

Victoria– Não. Nada a ver. Antes de ser lésbica, tem que ser feminista. Eu  assumi esse movimento, que não é, como muita gente pensa, o contrário do machismo. O  machismo é uma ação, não um movimento. O feminismo me faz defender a mulher em todo o patamar que ela estiver. Sendo ela lésbica, ou não, sapatão, caminhoneira. Eu quero estar com mulheres, defendendo um propósito que é viver, acima de qualquer coisa.

Rita – Isso se chama sororidade. Mas todo mundo deveria ser feminista. Homens e mulheres.

Universa (pra Rita) — Existe diferença entre o feminismo da sua época e o de hoje?

Rita –  Vou dizer uma coisa: eu me entendo feminista há muito pouco tempo. Minha conexão com o feminino é recente. Apesar de lésbica, apesar de minoria, eu posso te dizer que isso só entrou na minha vida há 4 anos. Especialmente com a maternidade.

Universa — Vocês percebem raiva de homem em algumas feministas?

Victoria– Tudo em excesso faz mal. Existem extremistas em todos os lugares.

Rita– Na minha bolha, eu não vejo isso. No macro, acho que tem de tudo. Somos humanos.

Victoria– Acho que a parceria entre duas mulheres se fortalece porque elas têm de enfrentar muita coisas juntas. Só de passar de mãos dadas na rua, outro dia, a gente levou uma garrafada de água.

Universa — Historicamente, gays e lésbicas nunca se frequentaram.  Os comportamentos eram muito diferentes, o humor, os interesses, as conversas. Eles gostavam de dançar, elas de música ao vivo.

Rita — Tinha isso sim.  Falavam que o ambiente das lésbicas era um bar, um violão e um sapatão. Isso me incomodava, porque eu gostava de estar com os meninos. O melhor amigo gay da 'sapa' sempre ia junto com ela para o barzinho. Tinha aquele pensamento: 'O menino que acompanha a amiga sapa no bar é como ela, gosta de namorar e supostamente desenvolve relacionamentos estáveis e duradouros'.

Universa — Ele seria um "sapo"?

Rita– kkkk

Universa — Hoje, ainda existe essa separação entre gays e lésbicas?

VictoriaNossa, não. Eu acho que não. Hoje você vai pela afinidade, não interessa a orientação sexual.

 

 

O Guest Urban Hotel gentilmente cedeu o espaço para a produção das fotos.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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