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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Ele dizia que não era daqui, lembra mãe de jovem que tomou 200 comprimidos

Paulo Sampaio

11/09/2019 04h00

Em 2002, foram cem comprimidos tarja vermelha. Uma lavagem estomacal salvou o surfista, skatista, tatuador, barman, DJ e paraquedista Wagner Oliveira, então com 23 anos. Onze anos mais tarde, no final de 2013, aos 34, Wagner tentou algo mais radical. Atirou-se do nono andar de um prédio. O corpo se chocou contra o teto de uma van estacionada na calçada, e ele sobreviveu de novo.

"Meu irmão tinha uma compleição muito forte", lembra a advogada Roberta Oliveira, 36 anos. "Quando o resgate veio buscar o corpo, não só ele estava vivo como falou normalmente com os paramédicos. Eu cheguei ao hospital, e ele estava brigando com a enfermeira porque queria que ela ligasse o ar-condicionado."

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Estoque de remédio

Wagner era forte, mas não imortal. Isso finalmente ficou provado no dia 14 de março de 2014, quando ele ingeriu mais uma overdose de medicamentos. Desta vez, foram 200 comprimidos tarja preta, que o levaram a engasgar com o próprio vômito enquanto dormia.

Atendido no hospital Miguel Couto, no Rio, ele sucumbiu à intoxicação. Roberta conta que o irmão conseguia os comprimidos no SUS, onde os médicos davam receitas para períodos longos e, como nem sempre o paciente seguia a prescrição, havia muitas caixas acumuladas em casa.

Com a mãe, a prima, Lizandra, e Roberta (de short branco), em 2007 (Foto: Arquivo Pessoal)

Tratamento robusto

Para quem nunca enfrentou histórias de suicídio na família, ou entre amigos, pode parecer estranho que alguém tente se matar mais de uma vez. Mas Wagner não é um caso isolado. De acordo com o psiquiatra Rodrigo Martins Leite, do Hospital das Clínicas de São Paulo, "as estatísticas indicam que 30% a 60% das pessoas que cometem suicídio (dependendo da população pesquisada) fazem mais de uma tentativa". "O período entre uma tentativa e outra encurta em 10% a 15% dos casos. E o risco aumenta, até que a pessoa alcança o êxito letal."

Em pacientes recorrentes, diz o médico, "o tratamento terapêutico deve ser mais robusto".

Tragédia anunciada

Na conversa com Roberta e a autônoma Isabel Cristina Oliveira, 58,  mãe de Wagner, depreende-se que o histórico do surfista sugeria um desfecho trágico. As demonstrações de afeto em geral vinham acompanhadas de anúncios cifrados de que ele não pretendia estender muito sua existência. "Meu filho dizia que não pertencia a esse mundo, que não era daqui", lembra Isabel. "Eu nunca consegui imaginar meu irmão  mais velho", diz Roberta.

Elas concordaram em dar entrevista por conta do "Setembro Amarelo", campanha de prevenção ao suicídio criada em 2015 por iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Drogas, o gatilho

Segundo Roberta, os médicos do SUS diziam que Wagner sofria de uma "esquizofrenia leve" e que o gatilho desencadeador da doença foram as drogas, que ele passou a consumir na adolescência. Outro fator agravante foi ter uma família disfuncional. Wagner não contava com o acolhimento do pai, um barbeiro de comportamento individualista, que vivia imerso no trabalho.

Muito antes de  o adolescente se revelar um "adicto", a relação dos dois já era complicada. "A falta de suporte familiar e social agrava muito a doença. Pode ser decisivo para desfechos trágicos", diz o psiquiatra Rodrigo Leite.

Roberta, com a mãe, no dia da entrevista: "Ele precisava de adrenalina o tempo todo" (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Devido peso

Mãe e filha isentam o pai de responsabilidade direta no suicídio do filho, e dizem que sua intenção não é buscar culpados –apenas dar o devido peso a cada personagem da história. As duas moram em Pirassununga, no interior de São Paulo, onde Roberta passou a viver com o noivo, que é militar da Aeronáutica. No Rio para visitar amigos, elas estão hospedadas no Leme e marcaram um encontro com o blog em um café naquela vizinhança.

Ali, ganharam de presente um retrato de Wagner assinado pelo artista plástico Igor Tavares. "Eu conheço a família há muito tempo", diz Igor, que trabalhou em um espetáculo de teatro com Roberta. "O Wagner era um cara supervivo, falante, esportista, mas sempre teve questões psicológicas", lembra.

Roberta e Isabel, com o artista plástico Igor Tavares e o retrato de Wagner (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Tédio e paraquedas

Roberta explica que o irmão "precisava de adrenalina o tempo todo, caso contrário  ficava entediado". "Ele só via graça em praticar esportes, se fosse se arriscando. No fim, começou a saltar de paraquedas. Mas era caro. Cada salto, R$ 500. Ele não podia  fazer sempre. De qualquer maneira, nada garantia a ele uma felicidade permanente."

Segundo Isabel, a empolgação do filho "raramente durava muito", e então ele buscava outra atividade. Se nada aparecesse, Wagner procurava estímulo nas drogas.

Que drogas?

As duas chutam algumas possibilidades, falam em maconha, mas, por serem leigas no assunto, não sabem precisar o quê, exatamente, ele fumava, tomava ou cheirava. Isabel conta que os médicos acreditavam que ele tenha tido contato com cocaína e até com crack. "A gente nunca soube a dimensão que isso tomou, porque ele saía de casa sem dizer para onde ia e voltava dias depois, já sóbrio."

Festeiro, Wagner ia a raves e voltava "meio sujo", segundo Isabel. Em determinado momento, entusiasmou-se com a ideia de ser DJ. Chegou a tocar em festas e a ganhar dinheiro com isso, mas logo abandonou o projeto. Autoindulgente, segundo elas, "ele gostava de dinheiro, mas queria que viesse sem esforço". O relacionamento com amigos, bem, não havia um grupo fixo, muito menos um melhor amigo: "Era basicamente a turma da droga".

Isabel, Wagner e Roberta, em Porto Alegre, nos anos 1980 (Foto: Arquivo Pessoal)

Esperto e convincente

Consultas a psiquiatras eram sumariamente rejeitadas por ele, que nos períodos de depressão queria ficar dormindo. Roberta se lembra de uma única vez em que Wagner sofreu um surto psicótico e, então, foi internado. Mas fugiu da clínica e as convenceu de que não precisava daquilo. "Ele era muito esperto, e nós queríamos acreditar que estava bem", dizem.

Considerado "meio galinha" pela irmã, ele não costumava se apegar às namoradas. "Era muito bonito, carismático, alvoroçava as meninas. Ele gostava delas, mas não amava", explica Roberta.  Em compensação, adorava cães. Tinha um da raça bull terrier ("Igual a ele, fortão, mas com um coração enorme") e um pugg, que morreu faz pouco tempo. "O pugg era cego e por isso mesmo Wagner o escolheu no canil onde ele fora criado."

O bull terrier Bolotha, hoje com 10 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Muita gente na sala

Os últimos três meses de vida, no verão de 2014, ele passou deitado em uma maca adaptada na sala do apartamento da família, no Leme, recuperando-se da queda do prédio. Nessa ocasião, o pai já não morava com eles, mas estava desempregado, então Isabel o acolheu enquanto ele não arrumava trabalho. O barbeiro fez um espaço para si no jardim de inverno, instalando uma cortina na divisão com a sala. "A presença do meu pai ali não favoreceu a recuperação do Wagner. A gente tentou evitar que ele viesse, mas, ao mesmo tempo, não podíamos deixá-lo na rua."

Na ocasião, Roberta havia terminado o noivado com o homem com quem mais tarde se casaria, e estava "bastante confusa". Começou a namorar outro, "que era bem desajustado". "Não tanto quanto meu irmão, mas tinha problemas", lembra. No apartamento repleto de seres em conflito, ainda circulava a fisioterapeuta que tratava da recuperação de Wagner.

Ele logo entendeu que a sequela em sua perna direita, reconstituída graças à instalação de vários de pinos, seria definitiva. A possibilidade de seus movimentos ficarem comprometidos, de acordo com Roberta, era grande. E, assim, adeus skate, adeus surfe, adeus paraquedas… Adeus, adrenalina. Adeus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.