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"Prefiro ser engraçada do que coitada", diz modelo negra criada em orfanato

Paulo Sampaio

15/12/2019 04h00

A história da modelo baiana Adriana Quintiliano, 30 anos, tem todos os elementos para despertar aquele indefectível coitadismo que a parte equivocada da militância adora cultivar –por puro preconceito. Negra, pobre e órfã, ela chegou a ser adotada, foi devolvida ao abrigo, saiu aos 18 anos, morou em muquifos (nas palavras dela), viveu um relacionamento abusivo e só há pouco tempo parou de contar os tostões que ganhava trabalhando como estátua viva no Pelourinho e no Campo Grande, centro de Salvador.

"Prefiro falar disso tudo de forma engraçada, para não parecer uma coitada", diz ela. De tão desencanada, a princípio Adriana perguntou se a entrevista era para falar de mulheres carecas. "É porque eu raspei a cabeça?" Sim, o presente para ela é muito mais importante.

Editorial para um trabalho de faculdade: "A entrevista é para fala de mulheres carecas?" (Foto: Arquivo Pessoal)

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Caminho pedregoso

Ainda bebê, Adriana foi encaminhada a um abrigo, já que sua mãe, vítima de uma doença mental, revelou-se incapaz de criá-la. No abrigo, o sonho de ser adotada por uma família rica e feliz só foi realizado na pré-adolescência, quando ela convenceu a direção do lugar a levá-la a um programa de TV. Quem sabe alguma família que a visse não se interessaria em assumi-la como filha. "A ideia foi minha", conta ela, alegremente.

Apareceram duas ou três famílias. O juizado determinou que ela fosse morar com uma em que houvesse "irmãs" da sua faixa etária. Fizeram uma festança no abrigo, para comemorar o momento alvissareiro. Menos de dois meses depois, a família mandou Adriana de volta. "Fui devolvida", diz ela, mais realista do que lamurienta. "Houve um problema de ciúme com as meninas da família."

De azul, aos oito anos, com os irmãos de abrigo (Foto: Arquivo Pessoal)

De branco, à esquerda, na escola (Foto: Arquivo Pessoal)

Na comemoração dos 15 anos, com a madrinha, Tati, depois de ser devolvida ao abrigo: "Eu queria muito uma festa de debutante, minha madrinha fez pra mim!" (Foto: Arquivo Pessoal)

Observação importante

Apesar de a palavra abrigo nem sempre estar associada a um lugar quentinho e acolhedor, Adriana diz que não pode se queixar do local onde viveu. Administrado por cristãos presbiterianos, amparava 25 crianças que frequentaram escolas particulares, como bolsistas, e que até hoje se chamam de irmãos. Ela foi parar ali porque sua mãe já havia passado no lugar.

"Quando o órfão faz 18 anos, não pode mais permanecer no abrigo. Num primeiro momento, eu fiquei com quatro irmãos que moravam em um quartinho minúsculo", conta ela, meio que de passagem (ou sem tempo para fazer render o instante ruim).

De estátua viva, na Praça do Campo Grande, em Salvador  (Foto: Arquivo Pessoal)

Desaforo, não

Àquela altura, a pequena órfã havia se transformado em uma mulher deslumbrante, de 1,74 m, 49 quilos e muita disposição para a aventura.

Namorou homens e mulheres, viveu um relacionamento abusivo com um agressor que quebrou um banco em sua cabeça, trabalhou como estátua viva no Pelourinho e no Campo Grande, foi garçonete no mesmo restaurante em que descascava batatas e lavava louça, converteu-se em babá e trabalhou em butique.

Levou alguns calotes de patroas que queriam uma escrava, não um funcionário remunerado. "Eu não sou fácil, não levo desaforo pra casa", informa. E se o relacionamento (afetivo) não está bom, mesma coisa: "Termino numa boa."

Posando para um fotógrafo israelense, na Casa Castro Alves  (Foto: Lisandro Suriel)

Não teve jeito

Por força do hábito, eu quis transformá-la em uma pessoa minimamente amargurada –e assim ter mais uma "incrível história de superação" para postar. Acontece que a entrevistada não colaborou. A musicalidade de seu sotaque, o tom meio avoado com que contou as partes mais barra-pesadas de sua vida, e a risada curta e intensa entre um relato e outro afugentaram qualquer sentimento de misericórdia.

Ao final do telefonema, digo a Adriana que considero seu depoimento tão contundente quanto o de milhões de órfãos no Brasil, peço a ela que me entenda, me despeço e desligo.

Como assim??

Inconformada, ela passa a me mandar mensagens dizendo:  "a minha história é de superação, sim", "tive uma vida difícil, passei fome, fui agredida pelo namorado…"

Ensaio na Estação da Luz, São Paulo (Foto: Fernando Gomes)

Autocomiseração zero

Eu acho divertido, não pelos fatos (trágicos) em si, mas pela maneira com que ela tenta me sensibilizar. Nitidamente, a própria Adriana não dá todo esse peso àquelas passagens ruins, e muito menos atribui a elas o poder de interferir nos seus planos de sucesso.

Com uma energia aparentemente inesgotável, ela conta que terminou a faculdade de design, fez um curso de corte e costura e agora, além de posar como modelo comercial, pretende trabalhar nos bastidores da moda. Claro: escrever uma biografia. Ah, verdade, depois de inúmeras experiências com ficantes de ambos os sexos, ela deu uma estabilizada em um relacionamento com um "homem maduro". "Só gosto de mais velhos", revela. Conta que está com o maduro há dois anos.

O que, no caso dela, soa uma eternidade.

Comercial da marca de sorvete Cubana (Foto: João Regis)

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Paulo Sampaio