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Paulo Sampaio

Corrida por 'pílula do dia seguinte' do HIV movimenta hospital pós-Carnaval

Paulo Sampaio

15/02/2018 05h01

Vista do trio elétrico em um bloco que saiu no centro de São Paulo (Foto: Marcelo Justo/UOL)

No domingo de Carnaval, um amigo sugere que eu vá a um Centro de Referência e Treinamento de DST para saber como se dá a procura pela PEP, a Profilaxia pós-exposição ao vírus da Aids, também conhecida como 'pílula do dia seguinte' do HIV. "É o melhor momento para ir, a 'hora do rush"', acredita ele. Achei que de fato poderia encontrar casos emblemáticos. A ideia era observar o passo a passo no atendimento, ver como as pessoas chegam, tentar conversar com elas  — depois de me apresentar como jornalista, pedir o consentimento dos entrevistados e garantir anonimato —  e descrever o lugar.

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Planejei fazer a visita no dia seguinte, segunda-feira. A princípio, pensei em ir ao centro de referência da rua Santa Cruz, na Vila Mariana, zona sul, mas me informaram que não está aberto nos feriados. Sugeriram que eu fosse ao pronto-socorro do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na avenida Doutor Arnaldo, zona oeste. Calculava chegar entre 5h e 8h, quando a maioria das baladas estão terminando. Imaginei que seria o horário mais congestionado. Consultei outro amigo, infectologista, ele me disse que o raciocínio não é bem esse. "Em geral, as pessoas vão pra casa, dormem e acordam com os demônios sussurrando em seus ouvidos. O horário mais procurado é entre 10h e 14h."

"Bate a culpa"

Uma atendente no ps do Emilio Ribas confirma. "Tem de tudo, mas as pessoas chegam mais depois do almoço." Ela diz que os dias de maior movimento são os fins de semana e feriados: "Agora no Carnaval vem bastante gente", diz. Segundo essa moça, "em geral, o pessoal bebe, vai pra casa, apaga, e quando desperta bate a culpa". De fato, a frequência aumentou consideravelmente depois do meio dia.  No horário em que o blog permaneceu no local, entre 10h30 e 14h30, entrevistou 23 pessoas. Havia 19 homossexuais, 3 heterossexuais e um bissexual (não assumido). A reportagem não encontrou mulheres buscando a PEP.

A medicação junta três antirretrovirais: tenofovir, lamivudina e dolutegravir. De acordo com dados da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, o número de profilaxias distribuídas entre 2013 e 2017 aumentou quase 900%, indo de 2.006 para 17.653. Só no Emílio Ribas, que foi a unidade de saúde mais procurada, 3.420 pessoas fizeram o tratamento no ano passado, uma demanda por volta de 20% maior que a do ano anterior.

A maioria das pessoas que buscam a PEP, ou cerca de 70%, é de homens gays.  "A probabilidade de transmissão entre homossexuais é maior porque é o grupo onde há mais pessoas infectadas", diz a coordenadora adjunta do programa estadual de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST)-Aids, Rosa de Alencar Souza. Segundo ela, a taxa de gays infectados é de 20%, ante 0,4% entre heterossexuais.

Ambiente tranquilo

A caminho do Emilio Ribas, imaginei que os funcionários do pronto-socorro poderiam me impedir de fazer as entrevistas — o que não aconteceu. O ambiente estava tranquilo, e nenhuma das pessoas reagiu negativamente a minha aproximação. Ao chegar, recebi uma etiqueta para adesivar na camisa, atravessei uma catraca e segui à esquerda pelo caminho indicado por um segurança, até o pronto-socorro. Ali, eu deveria pegar uma senha em um dos três guichês disponíveis e aguardar o pré-atendimento de um médico que diria se a PEP é indicada no meu caso. Se sim, eu esperaria cerca de 20 minutos para pegar o medicamento. Todo o atendimento não leva mais que 1h. Evidentemente, eu apenas me informei sobre o processo, já que não pretendia atrapalhar o fluxo.

No guichê onde se adquire a senha, informam que aquele pronto-socorro atende "especialmente casos ligados a HIV", o que pode ir além da profilaxia pós-exposição ao vírus da Aids; e emergências relacionadas à febre amarela. Para saber quem estava ali apenas por causa da PEP, precisei abordar três pessoas antes de chegar a dois rapazes, de 29 e 27 anos, médicos, que foram com uma amiga. Apenas os dois buscavam a medicação. "A camisinha estourou", afirmaram. "Vimos quando já era tarde." No meio da entrevista, eles são chamados para buscar a medicação, que tem de ser iniciada no máximo até 72 horas após a exposição. É administrada durante 28 dias por via oral, e deve ser acompanhada por três meses pela equipe de saúde do centro ou pronto-socorro. De acordo com Rosa, esse retorno é bastante inferior ao desejado. "O número de pessoas que voltam é bem baixo."

Camisinha "velha"

Além do casal de médicos, vários entrevistados citaram rompimento da camisinha. "Pegamos o preservativo nosso no hotel, estava com o prazo de validade vencido", afirma um casal homossexual de engenheiros argentinos que veio passar o Carnaval em SP. Eles contam que levaram um rapaz para fazer sexo a três no hotel e que "sucedió una fatalidad". Munidos de um seguro de viagem, os dois foram primeiramente a um hospital particular, mas receberam a informação de que ali não se administrava a PEP. E os encaminharam para o pronto-socorro do Emilio Ribas. "Não queremos correr o risco."

Os pacientes aguardam em uma sala de cerca de 30 metros quadrados, onde estão instaladas 17 cadeiras de plástico rígido branco. A parte superior das paredes é envidraçada. Apesar de sempre haver assentos vagos, muitas pessoas preferem aguardar do lado de fora, sentadas em uma mureta baixa que separa a rampa de acesso a ambulâncias e um terreno grande com árvores.

Troca de casais

Nessa parte externa, abordo um homem que anda nervosamente de um lado para o outro, inclusive em direção à catraca da saída, como se estivesse indeciso entre ficar e ir embora.  Trata-se de um publicitário de 42 anos que na madrugada anterior foi a um clube de swing — troca de casais —  com uma amiga, e fez sexo desprotegido com uma desconhecida. "Estava ela e o marido. Ele tinha a fantasia de ver a mulher transando com outro. O que me preocupou foi que ela não fez questão de usar camisinha", diz. O publicitário se considera "paranoico" em relação a doenças sexualmente transmissíveis: "Já liguei para uns três amigos. Um deles diz que transou com uma mulher soropositiva, que estava menstruada, e não pegou."

Ali perto está um universitário de 24 anos, mestrando, que aguarda o atendimento com o pai. Conta que se expôs em uma relação desprotegida com uma menina que ele não conhecia. Parece sério, amuado. Na verdade, tudo aconteceu na segunda-feira antes do Carnaval, e ele procurou um centro de referência sem comentar com a família. Agora, estava retornando por causa dos efeitos colaterais: "Meu fígado explodiu", afirma ele, sem energia. Segundo Rosa de Alencar Souza, "as reações indesejáveis na PEP podem ser maiores do que no tratamento de quem já está infectado".

Dor de cabeça e enjoo

O site do Ministério da Saúde informa que os efeitos colaterais mais comuns são dor de cabeça, enjoos e diarreia. Aconselha-se, em todo caso, que não se interrompa o uso dos medicamentos. "Procure imediatamente o serviço de saúde para buscar orientações."

Prestes a fazer uso da PEP pela segunda vez, um universitário de 25 anos, aluno do quinto ano de medicina, fala com propriedade dos efeitos colaterais. "O Ritovanir pode dar intolerância gastro-intestinal, e o Atazanavir, icterícia", diz. (Ambos são alternativas a quem não pode tomar o Dolutegravir). Ele conta que recorreu a PEP pela primeira vez "porque a camisinha saiu". Foi no início do ano passado, e ele procurou o Seap (Serviço de Extensão ao Atendimento de Pacientes HIV/Aids) de Pinheiros, na zona oeste. Desta última vez, ele sentiu uma agulhada no braço quando estava em um no bloco (de Carnaval). Diz que não se expõe a riscos. "Nunca faço sexo sem camisinha", afirma.

Para quem leu sobre o aumento (de 40%) de soropositividade entre jovens na faixa etária dos dois acima, parece surpreendente que eles procurem os centros de referência e treinamento de DST-Aids por vontade própria. Pergunto ao mestrando se ele comentou com a parceira: "Ela não ficou preocupada", conta. Por sua vez, ele diz que se arrependeu muito (de ter feito sexo sem camisinha) e que "foi um aprendizado".

Pênis com pênis

A cerca de seis cadeiras dali está um professor de 32 anos que frequenta festas de sexo promovidas mensalmente por um casal heterossexual na Freguesia do Ó, zona noroeste de São Paulo. "Chegam a ir 50 pessoas, de todas as orientações sexuais, e tudo é permitido." A última foi no sábado de Carnaval.  O professor é mais um que se define como "neurótico" em relação as DST: "Uso preservativo inclusive com minha namorada, e nunca fazemos sexo oral. Ela tem nojo, eu respeito."

Na festa da Freguesia do Ó, porém, ele diz que se relacionou ao mesmo tempo com um homem e uma mulher, e que em determinada altura ela juntou as glandes dos pênis dos dois. "O do cara estava soltando aquela secreção (lubrificante pré-jaculatório), e ele é soropostivo", conta o professor, que não se define como bissexual. "Sou heterossexual. Não faria sexo com homem. Ele estava com a menina, não comigo."

Era a terceira vez, desde a madrugada de sábado, que o professor ia ao Emilio Ribas em busca da PEP: de acordo com ele,  "os médicos informaram que não havia indicação." Ele conta que retornou no dia seguinte, queixando-se de dor de cabeça, mal estar, frio à noite. De novo, saiu dali sem o medicamento. Mesmo assim, estava de volta…

Desinformação e neurose

Ao que parece, a "neurose" surge principalmente quando há desinformação sobre as formas de contágio. "O programa tem se empenhado em ampliar a discussão sobre o que é prática de risco, o que não", diz Rosa de Alencar Souza. Ela explica que "é preciso ter o contato sexual efetivado".

Com uma lista de postos de saúde que dão o resultado do exame de HIV  "na hora", um técnico de câmara de cinema de 30 anos conta que uma parceira eventual dele apresentou muito sangramento naquela manhã, e isso o preocupou: "Ela mora no exterior e adiou a viagem de volta por causa da hemorragia. Como não está no período menstrual, procurou um pronto-socorro", disse. Ele queria saber se era possível fazer o teste de HIV e obter o resultado antes de se submeter a profilaxia. "Não vou tomar remédio à toa", diz.

Rosa Souza afirma que, "em condições ideais de procedimento, o teste é aplicado em todas as pessoas que buscam a PEP". "Apesar da janela imunológica de três meses (período de incubação do vírus), pelo menos se saberá se a pessoa foi infectada antes disso."

Contato com sangue e dúvida

Depois de pegar a senha, um engenheiro ambiental de 25 anos diz que está na dúvida: "Não sei se vão me dar PEP." Ele conta que na noite anterior, ao fazer sexo oral em um rapaz, viu uma gota de sangue no pênis do outro: "Procurei algum ferimento no local, ou fissura, mas não tinha nada." Diz que já conhecia o parceiro, mas muito pouco. "A gente já se encontrou umas cinco vezes, para transar, não sei nada da vida ele." Seria a segunda vez que o engenheiro se submeteria à medicação de prevenção contra a infecção do HIV.  Na primeira, a camisinha estourou.

Ele diz que não fez sexo com mais ninguém no Carnaval. "Devo ter beijado umas 20 bocas, mas herpes a gente resolve com Aciclovir", acha ele, referindo-se a um medicamento.

Maiores riscos

A prática que oferece mais risco, segundo a coordenadora Rosa Souza, é o sexo anal desprotegido entre homens. Exatamente o caso de um maquiador de 38 que se descuidou na madrugada de sexta pra sábado. "Na hora H, ninguém falou em camisinha."  "Nunca tinha visto o cara na vida, conheci pelo aplicativo (de busca de sexo). Pior é que a gente sabe o que pode acontecer, mas simplesmente se deixa levar pelo momento."  O maquiador  põe a culpa na "carência". "Queria encontrar uma pessoa para namorar, e não ficar com muitos. Acho que o descuido tem a ver com depressão e autoflagelo."

Caso venha a contrair o vírus, o maquiador diz que sua maior preocupação não é a saúde, mas "a questão social". "Moro em uma cidade pequena, o preconceito é muito grande", diz ele, abaixando o tom de voz.

O maquiador foi ao Emilio Ribas com um amigo veterinário de 30 anos, que fez sexo na balada. Tinha tomado alguma coisa? "Sim, um ecstasy. Mas sabia o que estava fazendo", afirma. "A camisinha estourou." O veterinário conta  que namorou três anos um rapaz soropositivo e que não sabe como seu exame sempre deu negativo. "Nós continuamos fazendo sexo porque nenhum dos dois sabia que ele estava com o vírus", diz.

Repetição do teste

No meio da rampa de acesso a ambulâncias, está um casal que namora há oito meses. O mais velho é analista jurídico e tem 28 anos; o mais novo, de 19, trabalha em um call center. Não usam preservativo desde o começo do relacionamento. O de 19 diz que na semana passada se submeteu uma bateria de exames em um hospital particular, e o encarregado de entregar o resultado sugeriu que ele repetisse o de HIV. "Viemos porque o hospital não realiza o 'exame rápido'. Estamos muito apreensivos", diz o mais velho, que afirma ter feito o exame há duas semanas. "Deu negativo."

A alguns metros do casal está um rapaz desempregado de 26 anos, que aguarda com o namorado soropositivo, um bancário de 30, para saber se terá indicação de PEP. Os dois estavam transando quando o preservativo do bancário se rompeu. "Eu estou mais preocupado que ele", diz o soropositivo. "Ele nem sabia o que é PEP."

Chegou a tempo de aprender.

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Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.