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Paulo Sampaio

Parte das pacientes considera a anorexia um 'estilo de vida', diz psicóloga

Paulo Sampaio

05/03/2018 04h48

A psicóloga clínica Rogeria Taragano, supervisora do atendimento ambulatorial em Anorexia Nervosa do Hospital das Clínicas, falou ao blog sobre a formação nas redes sociais de grupos de que fazem apologia dos transtornos alimentares e chegam a estabelecer uma "competição doentia pela magreza". Apesar da possibilidade de interagir na rede, que de certa forma é uma novidade, Rogéria diz que o perfil da paciente não mudou. Mas em função do momento social, segundo a psicóloga, boa parte delas segue se considerando "normal". "Continuam achando que a doença é um 'estilo de vida', uma opção pessoal e não uma condição psiquiátrica, uma doença grave que requer ajuda". Abaixo, trechos da entrevista com a psicóloga.

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Duas amigas leais: anorexia e bulimia (Foto: captura de tela)

Blog – Antes do advento das redes sociais, a anorexia e a bulimia eram, pelo que se noticiava, vividas de maneira solitária — as pessoas que sofriam de uma das duas (ou de ambas) não faziam a menor questão de divulgar. Era algo que, inclusive, se escondia. O que levou essas meninas a mudar o comportamento?

Rogéria Taragano —  O isolamento social é uma característica da doença, ou muitas vezes uma de suas consequências, já que tais pacientes vão enfrentando gradativamente cada vez mais problemas para conviver socialmente. Muito do convívio social envolve comida, celebração… Estas pacientes não gostam de eventos que envolvam comida, isso causa ansiedade para elas. Elas têm rituais, rotinas alimentares que costumam ser rígidas, gostam de comer somente o quê/quanto consideram que devem e tem medo da observação e da perda de controle diante dos outros. Além disso, muitas têm outros quadros psiquiátricos, depressão, por exemplo, e isso faz com que queiram ficar cada vez mais em casa, isoladas, sozinhas. Vão deixando de conviver com amigos, familiares, reduzem as atividades sociais e acadêmicas. O contato através das redes sociais passa a ser uma possibilidade de relacionamento com outras "iguais" que dividem as mesmas ideias e dificuldades, e práticas, muitas vezes na condição do anonimato, ou através de perfis construídos, não necessariamente os verdadeiros. São canais usados principalmente como fonte de troca de práticas para a perda de peso, métodos compensatórios para emagrecer. Além disso, algumas das pacientes, por características de personalidade, têm prazer em exibir seus quadros de desnutrição, fotos dos corpos muito emagrecidos, além de ter satisfação na comparação com outras pessoas na mesma condição. Estabelecem uma competição doentia, mesmo que virtual, pela magreza.

Blog – É mais complicado tratar desses casos agora, que há grupos de meninas anoréxicas e bulímicas que se apoiam nas redes? Foi preciso criar novas estratégias para lidar com a paciente?

RT –  Não acho que tenha ficado mais difícil por causa dos grupos, mas é mais uma variável a ser trabalhada e nesse caso o caminho é colocar o tema na pauta das discussões, no trabalho terapêutico tanto individual como grupal. Tratar tais casos sempre foi e continua sendo um desafio em termos de manejo clínico. São necessários vários profissionais, de diversas especialidades, apoio familiar e principalmente a vontade do paciente para melhorar. Não existe um medicamento que trate o transtorno alimentar diretamente, somente as comorbidades (outras doenças psiquiátricas associadas). Durante todo tratamento tentamos fazer com que as pacientes deixem de ser "monotemáticas", ou seja, desenvolvam outros interesses de vida, outros repertórios de respostas, de vivências, que saiam do foco exclusivo da comida/corpo.

Blog – Trata-se de um "novo perfil" de paciente, ou é o mesmo, porém com novas possibilidades de expressão?

RT – Acho que é o mesmo perfil, com esta variação em função do momento social em que vivemos. Uma boa parte das pacientes se acha "normal" mesmo quando já muito desnutridas e já apresentando perdas cognitivas, prejuízo pessoal e social, complicações clínicas. Continuam achando que a doença é um "estilo de vida", uma opção pessoal e não uma condição psiquiátrica, uma doença grave que requer ajuda, tratamento como qualquer outra. Aquelas que ainda conseguem perceber que se trata de uma doença, que preservam este lado saudável que lhes permite entender que elas já foram diferentes e podem voltar a ser, estas costumam ter uma melhor resposta ao tratamento, com uma recuperação mais rápida.

Blog – Conversei com uma menina de 16 anos que integra um grupo de 52 correligionárias no whatsapp. Ela diz que tem 1,57m de altura e 47 quilos, mas sua meta é chegar nos 40. Diz que sempre ouviu que "a gente deve se amar como é, então eu me amo assim".  Outra menina informa na foto grande de abertura do perfil que "a melhor forma de vomitar é de pé e dobrando o tronco para que se forme um ângulo de 90 graus entre a boca do estômago e as pernas. Isso vai gerar pressão e fazer o vômito sair mais rápido".

RT – Para muitas pacientes, infelizmente a "identidade anoréxica ou bulímica" cola, ou cai muito bem. Vem a preencher um espaço do ponto de vista pessoal e emocional que ainda não tinha sido preenchido. As questões de baixa autoestima, autocrítica muito exagerada, perfeccionismo clínico, são aspectos que costumam estar na base dos transtornos alimentares. A autoestima tende a estar quase que totalmente amparada na aparência física/peso

Blog – Sempre tive dificuldade de conseguir pacientes de anorexia que me dessem entrevistas. Agora, não só me dão entrevistas, como falam sem reservas. Pode comentar.

RT – Acho que dar entrevistas, expor as práticas através dos perfis é uma maneira de tentar influenciar outras pessoas, buscar seguidores e reforçar a própria crença de que elas estão corretas na forma de pensar e agir e que a família, a equipe de tratamento e a própria ciência, estão errados ao classificar o quadro como doença. Mas infelizmente, é claro que não se trata de quem está certo ou errado. Elas próprias, durante o tratamento vão se conscientizando e se declaram extremamente infelizes, comentam suas perdas pessoais ao longo da doença e o quanto vai ficando muitas vezes extremamente difícil sair da condição em que entraram. São quadros que trazem muito sofrimento emocional, tanto para os pacientes como para os familiares. Mas é importante dizer que uma boa parte destas pacientes consegue se recuperar e voltam a ter uma vida saudável, voltam a trabalhar, estudar, namorar, ter filhos. Quanto mais cedo se inicia o tratamento, melhor o resultado.

Blog – Uma vez que essas meninas agora se expõem nos aplicativos e redes sociais, infere-se que ficou mais fácil para os pais delas conversarem abertamente sobre o assunto. Elas não poderiam negar, como no passado, já que se falam disso abertamente na rede?

RT – Teoricamente sim, desde que os pais conheçam/tenham acesso ao que publicam os filhos. Não é o que observo no dia-a-dia. Apesar dessa divulgação que vc citou, a maioria dos pais demora muito tempo para perceber o problema, muitas vezes quando notam algo procuram profissionais que também ainda estão pouco acostumados a diagnosticar tais transtornos e muitas vezes passam-se anos até que se faça o diagnóstico correto para início do tratamento.

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Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.