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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Eleitores gays de Bolsonaro aprovam 'metáfora' de Damares

Paulo Sampaio

05/01/2019 05h00

"Eu acho que a ministra usou uma metáfora bem clara", afirma o estudante de direito homossexual Lucas Lopes, 21, eleitor de Jair Bolsonaro, referindo-se ao vídeo em que a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, aparece dizendo que "é uma nova era (no Brasil), e menino veste azul, menina veste rosa". A justificativa da "metáfora" foi usada pela própria Damares em uma entrevista no dia seguinte. Segundo Lopes, "a maioria não soube interpretar o que foi dito, mas ela está totalmente correta. Crianças devem ser tratadas como crianças, sem ideologia de gênero."

Advogada, educadora e pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular, Damares Alves tomou posse nessa quarta, 2, e já em seu discurso afirmou: "O estado é laico, mas essa ministra é terrivelmente cristã". Nascida no Paraná, ela migrou ainda criança para Sergipe, onde foi sexualmente abusada durante dois anos, a partir dos 6, por um pastor. Solteira, sem filhos biológicos, ela adotou uma indígena. Para Lucas Lopes, ela é "uma boa pessoa, uma boa ministra até agora".

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Damares Alves foi assessora parlamentar no gabinete do senador Magno Malta (ES), um dos principais aliados do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que, por sua vez, muito antes de ser candidato, já fazia declarações polêmicas sobre a homossexualidade. Algumas delas:

 "Não vou combater, nem discriminar, mas se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater."

"O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele."

"Sou preconceituoso, com muito orgulho." 

"90% dos filhos adotados (de homossexuais) serão homossexuais ou garotos de programa." 

"Só porque uma pessoa faz sexo com o órgão excretor, ela não merece lei de proteção (contra ações homofóbicas)."

"Seria incapaz de amar um filho homossexual; não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que meu filho morra em um acidente de automóvel do que apareça com um bigodudo por aí. Pra mim, ele vai ter morrido mesmo."

Lucas Lopes é fundador de uma página no Facebook chamada "Gay de Direita, Gay Direito", que já contou com 13 mil seguidores. Apesar da militância, ele diz que nunca foi a uma parada gay: "Não participei, nem pretendo participar. Acho completamente ridículo. O que você vê é simples e claramente promiscuidade, pessoas nuas, quase praticando o ato sexual na rua, isso quando não praticam. Minha opinião se resume a nojo!"

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O estudante de direito Lucas Lopes, 21, diz que "a maioria não entendeu a metáfora" (Foto: Arquivo Pessoal)

Para a presidente da APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo), Claudia Regina, a fala polêmica da ministra "é uma estratégia para desviar a atenção de questões trabalhistas, previdenciárias e da corrupção desse governo". "Eu nem perco meu tempo discutindo isso, porque acho que tirar as questões LGBT+ das pautas prioritárias do governo é muito mais grave".

Pauta homonacionalista

O professor de português Rommel Werneck, vulgo Febo, eleitor de Bolsonaro, concorda que há pautas mais importantes a serem observadas, mas tem outro ponto de vista. "Interessante falar mal de Damares e Bolsonaro, no instante em que o presidente afirma que vai negar o pacto da migração." Febo acredita que a comunidade gay tem "medo da migração desenfreada", porque acha que "pode mudar seu estilo de vida".

Segundo ele, criticar Damares e Bolsonaro é "hipocrisia". "A antimigração é uma pauta homonacionalista, assim como o armamento, o capitalismo e a aliança com Israel, que é única democracia do Oriente Médio, único país daquela região que respeita os direitos LGBT. "

Rommel "Febo" Werneck acha hipocrisia criticar a ministra, quando o presidente que a nomeou está envolvido com pautas homonacionalistas, como anti-migração e armamento (Foto: Arquivo Pessoal)

Politicamente consciente

O auxiliar administrativo Carlos Athila, 30, acredita que "as pessoas não procuram saber o conteúdo completo do que foi dito". "Elas se apegam apenas a expressões de efeito, como azul e rosa. É óbvio que a cor da roupa não quer dizer nada, mas a turma da lacração (que gosta de causar) resistente se apegou nisso."

Athila conta que elegeu Bolsonaro por convicção, e isso aconteceu porque ele se tornou "politicamente consciente". "Nunca existiu ditadura militar no Brasil; existiu um regime ou período militar muito elogiado pelas pessoas de bem que viveram na época, o regime que nos livrou do comunismo. Foi ruim para bandido e comunista", diz.

Ele conta que chegou a ter 16 mil seguidores em uma página no Facebook, mas deletou porque ficou com "preguiça" da perseguição que "o próprio Facebook exerce às páginas de Direita". "Isso estava atrapalhando o acesso das pessoas ao meu perfil."

Para Carlos Athila, "as pessoas não procuraram saber o conteúdo completo do que foi dito" Foto: Arquivo Pessoal)

Inidgnação seletiva

Em sua defesa da ministra, o autônomo Lucas Calhau, 30, apela para um argumento que ela mesma usou: "Engraçado é que a gente tem o 'outubro rosa', o 'novembro azul', o 'chá revelação' (os pais ficam sabendo do sexo do bebê em uma festa decorada nas cores azul e rosa, referentes ao masculino e o feminino) e ninguém parece indignado. Calhau acredita que "enquanto o ser humano for uma criança, deve ser respeitado como tal. Quando crescer, ele vai poder vestir a cor que quiser."

Para ele, "a indignação (em relação ao que Damares disse) é seletiva, só aconteceu porque a ministra faz parte do governo Bolsonaro". "Ela falou sobre muitos assuntos relevantes e importantes para a população, mas as pessoas só querem criticar."

Conteúdo e forma

O educador e militante LGBT+ Diego Oliveira acha que não se trata apenas de falar de assuntos relevantes, mas de saber como abordá-los: "Ela agora ocupa um cargo de muita visibilidade, é formadora de opinião, deveria tomar mais cuidado com o que diz, e com a forma como diz."

Na opinião de Oliveira, se a ministra se propõe a lutar pelos direitos das mulheres, como declarou, poderia apenas ter dito algo simples, por exemplo, sobre solidariedade a elas: "Todos os dias sabemos de casos graves de mulheres que são vítimas de violência doméstica. Não acho que seja o momento para usar metáforas. A ministra tem de se mostrar objetivamente disponível para as mulheres e levar a elas mensagens de coragem."

Lucas Calhau acha que a "indignação é seletiva", só de pessoas que não votaram em Bolsonaro (Foto: Arquivo Pessoal)

Gay, não, mulher

Apesar de pertencer biologicamente ao sexo masculino, a designer de roupas Monique Borges não se considera transexual, nem mesmo homossexual, e sim mulher. Ela afirma que interpreta as palavras da ministra com muita "simplicidade": "Cada um tem o seu papel na sociedade. O homem faz o de homem, a mulher, o de mulher. Eu optei por ser mulher, fazer o papel de rosa. Foi isso que a ministra quis dizer."

Por acreditar em apenas dois "papeis", Monique não gosta de ser tratada como gay: "Não me encaixo nessas siglas. Eu vivo como mulher, eu penso como mulher, sou casada, tenho minha independência. Todo mundo me respeita da maneira que eu sou, na minha família, entre os meus amigos. Você tem de cumprir com êxito o papel ao qual você se prestou."

Monique Borges não gosta de ser chamada de transexual, nem tampouco homossexual: "Sou mulher, faço o papel do rosa" (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.