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Não levo estrelismo de atriz a sério, diz mais antiga figurinista da Globo

Paulo Sampaio

09/04/2019 05h00

Dina Sfat era a 'primeira atriz' da TV Globo, em 1973, quando entrou na sala do diretor Daniel Filho com um punhado de roupas do figurino da novela "Ossos do Barão" e colocou em cima da mesa dele: "Se sua mulher tiver coragem de sair na rua com qualquer uma dessas peças, então eu uso em cena", disse. Daniel conta que o episódio ficou conhecido. "A Dina era uma atriz muito inteligente, gostava de participar de todos os processos da produção, reivindicava as coisas sempre para melhorar. E também estava insatisfeita com o papel dela em 'Ossos do Barão'. Fazia uma mulher mais jovem, teve de lidar com isso."

O mais importante foi que Dina Sfat conseguiu convencer Daniel Filho a convidar a bem-nascida Marília Carneiro, dona de uma das butiques mais baladas da zona sul carioca, para ser figurinista da novela. Marília lembra: "Quando a Dina chegou ao Rio, de São Paulo, logo ficamos amicíssimas. Ela vinha do teatro e do cinema, não tinha estreado na TV e nem ficado rica ainda. Não estava preparada para o verão carioca. Convidei-a para passar o réveillon em casa, ela foi de lã. Fiz um guarda-roupa completo para ela ir à estreia de "Macunaíma"  (Joaquim Pedro de Andrade) em Veneza. Depois, ela se tornou uma estrela na TV, ficou rica, e eu, que nasci em berço de ouro, fiquei pobre. Mas sempre estivemos muito próximas."

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Dina Sfat (1938-1989), em "Ossos do Barão", primeira novela com figurino de Marília, e segunda da história da TV transmitida a cores (Foto: Arquivo Pessoal)

Elizabeth Taylor

A primeira conversa de Marília Carneiro com o diretor da Globo foi definitiva: "O Daniel me perguntou quanto eu queria ganhar. Eu respondi um valor x, nem me lembro mais quanto. Ele disse: 'Quem você pensa que é? A Elizabeth Taylor?' Eu falei que só iria por aquele valor, ele acabou me contratando." Os dois se tornaram amigos da vida toda. Daniel: "Fizemos novelas, seriados, filmes, foi uma experiência ininterrupta de bom gosto, atenção, dedicação. A Marília é uma grande amiga. Nos vemos pouco hoje em dia, mas nos amamos muito."

Até o advento Marília Carneiro na Globo, "quem vestia os atores era o pessoal das escolas de samba".  "Eles não sabiam nem onde ficava Ipanema. O figurino das novelas era espartano, feito na própria emissora", diz ela. Apesar de entender de moda, Marília não sabia nada de TV ("nem tinha em casa, eu era da turma que achava alienante") e talvez por isso acabou revolucionando a estética da teledramaturgia no Brasil. "Nunca tinha ocorrido a ninguém fazer essa conexão entre figurino de televisão e moda. Eu garimpava tudo nas butiques, chegava na emissora carregada de roupas e acessórios. Os atores me chamavam de sacoleira", diz.

TV, cinema e teatro

O reconhecimento de seu trabalho "veio em cinco minutos": "O sucesso foi muito rápido, porque eu dei a sorte de estar no lugar certo, na hora certa. O Artur da Távola, cronista da época, escreveu um texto sobre o meu trabalho com o título: 'Nasce Uma Estrela'." A colega Helena Gastal, indicada por Marília para integrar a equipe de produção dos seriados, conta que teve o privilégio de trabalhar com ela em inúmeras produções, dentro e fora da Globo.

"A versatilidade da Marília sempre me inspirou. Ela fazia cinema, TV, teatro, musical, drama, comédia, tudo. Veio para as novelas com uma linguagem cinematográfica naturalista, elegante, de vanguarda. Trabalhamos em parceria em musicais com a Gal e a Rita Lee; no longa 'Dama do Lotação', com Sônia Braga; na montagem do espetáculo 'Doce Deleite', com o Marco Nanini e a Marília Pêra, que foi um estrondoso sucesso nos anos 1980. E mais recentemente na minissérie 'Dalva de Oliveira', com Adriana Esteves e no filme sobre Villa Lobos, com Antônio Fagundes."

Com Patrícia Pilar, nos bastidores da minissérie "Ligações Perigosas"(Foto: Arquivo Pessoal)

Cabelo curto e choro

Durante os anos em que reinou absoluta, quando as produções eram menores, Marilia Carneiro mandava e desmandava no guarda-roupa da emissora, inventava moda e era seguida pelo Brasil todo, em uma época em que uma novela dava 80% de audiência no Ibope. Em Dancin' Days (1978), vestiu Sonia Braga de calça de cetim vermelha, bustiê, sandália alta e meia de lurex, e "viralizou"; em Brilhante (1981) improvisou um lenço no pescoço de Vera Fischer, para disfarçar um corte de cabelo curto que não agradou o público: outra febre; em Rainha da Sucata (1990), foi a vez do cabelo preso com um laçarote no personagem de Regina Duarte.

Sob orientação de Marília, Elizabeth Savalla cortou os cabelos bem curtos para fazer o papel de Malvina, na primeira versão de Gabriela, em 1975; "A Beth chorou, mas no fim adorou, porque foi um dos maiores sucessos da carreira dela." (Foto: Arquivo Pessoal)

Figurinista & psicóloga

Em 45 anos de convivência com astros de todas as grandezas, Marília Carneiro passou a conhecer tanto de figurino quanto de psicologia. "O ambiente na TV é muito competitivo, a disputa é grande. Imagine o que é vestir mulheres lindas, permanentemente preocupadas com a própria imagem. E a câmera é muito injusta, engorda, aumenta. Para lidar com tanto ego, muitas vezes eu tive de engolir o meu próprio", conta.

As histórias de estrelismo são incontáveis. "Uma vez eu entrei no camarim, e uma atriz veternana estava picotando com uma tesoura o vestido que eu tinha separado para o personagem dela. Eu disse: 'Xi, não tem outro, não.' Virei as costas e fui embora."

Em outro momento, ouviu de uma mais jovem: "Hoje eu acordei sem gostar dessa cor…" Diz Marília: "Uma atriz que faz isso, sem se dar conta de que está quebrando todo o esquema de produção, não pode ser levada a sério."

Marília é do tempo em que a Globo reservava à estrela da casa um camarim só para ela. "A Yoná Magalhães, por exemplo, tinha um camarim enorme, enquanto o resto do elenco se espremia em outro."

Sion e Cinema Novo

Marília Carneiro nasceu em Botafogo, zona sul do Rio, filha de um banqueiro e uma dona de casa, e estudou no colégio Sion. "Detestava", lembra. Ela conta que "papai também não gostava daquela coisa de freiras francesas, achava retrógrado, mas mamãe era dondoca, considerava importante". A única irmã, Maria Lúcia (que adotou o sobrenome do ex-marido, o cineasta Gustavo Dahl), também era envolvida com cinema e arte. Atriz bissexta e escritora, foi coadjuvante em novelas, filmes e chegou a escrever crônicas para o prestigiado Jornal do Brasil. As duas cresceram na Avenida Atlântica, em um apartamento que elas venderam depois da morte dos pais para o presidente (Artur da) Costa e Silva, o segundo do período da Ditadura Militar. "Gastamos o dinheiro todo. Hoje, somos remediadas", diz.

Em dois casamentos, Marília teve três filhas. As duas primeiras com o diretor de fotografia Mario Carneiro, da turma do "Cinema Novo",  que foi seu marido por sete anos. Na ocasião, ela teve uma experiência como atriz no filme "Capitu", de Paulo César Saraceni. "Eu era muito bonita. Tem foto para comprovar." Mas logo entendeu que preferia os bastidores: "Percebi que ficar atrás das câmeras era muito mais poderoso. Você faz o que quer com aqueles personagens."

Como Capitu, no filme de Paulo César Saraceni (Foto: Arquivo Pessoal)

Protagonista do mal

A terceira filha ela teve com o ator Roberto Bonfim, com quem foi casada por dez anos. E aí surgiu uma nova questão. Bonfim fazia um tipo fortão-acolhedor, moreno de raiz, que arrebatava corações em todos os escalões da TV Globo. "Ele era mulherengo mesmo, não tinha jeito. Chegou a ter um caso com a protagonista de uma novela em que eu assinava o figurino. Agi com o maior profissionalismo. O que eu ia fazer, vestir a mulher de macaca?"

Divertida, rápida, envolvente, Marília só deixa de sorrir ao contar que perdeu a filha mais velha em um desastre de automóvel, quando a menina  tinha 27 anos. "Foi o pior momento da minha vida", diz ela, sem prolongar a recordação. A filha deixou um neto, hoje com 30 anos: "Estou indo para Tóquio no fim do mês, para o casamento dele", diz ela, muito animada. As outras duas filhas deram a ela mais três netos. "Adoro filho, neto, e em todas as fases, bebê, criança, adolescente, pode me mandar que eu dou conta."

Nervoso de estreante

Marília persegue a perfeição incansavelmente. O maior sintoma disso é que, a cada novo trabalho, ela se sente "nervosa como uma estreante": "Agora, por exemplo, comecei a achar que tinha exagerado na roupa da Cláudia Raia em' Verão 90'. Em determinado momento, me pareceu algo entre o (cineasta espanhol Pedro) Almodóvar e a (personagem interpretada por Regina Duarte em "Roque Santeiro") Porcina. Conversei com o diretor, ele me disse: 'Manera', eu maneirei."

Apesar de sempre se mostrar empenhada, ela diz que sabe entender quando a coisa emperra. Chamada para fazer o figurino do filme "A Grande Arte", de Walter Salles Jr, ela conta que os dois se estranharam desde o início: "Quem me chamou não foi ele, foi alguém da produção. Me disseram depois que quando ele soube, reagiu com um 'Ih, é gente de TV'. Eu me senti muito infeliz o tempo todo, até que propus a ele, com toda elegância, deixar a produção. Ele entendeu, eu me retirei."

Com Fernanda Montenegro, nos bastidores da série 'Nelson (Rodrigues) por ele mesmo', exibida no Fantástico (Foto: Divulgação)

Zero royalties

No dia da entrevista, Marília Carneiro está toda de preto, com um par de tênis branco ("um toque carioca") e um lenço estampado para "quebrar o traje monocromático". Imagina-se que, como figurinista da emissora mais poderosa do País, ela deve ganhar muita roupa: "Nada. E com a crise, piorou." Marília se queixa de que no Brasil tampouco é possível a uma profissional como ela exigir royalties sobre tudo o que criou: "Meu trabalho pertence a Globo. Se eu morasse nos Estados Unidos, estaria milionária."

Em seus compromissos sociais, ela diz que sim, costuma ser muito observada — e até patrulhada —  por fashionistas que esperam ver nela o look mais incrível da festa. "Mas eu dou mais importância ao conforto do que a adequação": "Uma vez, no verão, eu saí de shortinho branco em São Paulo, e o amigo paulista que estava comigo me perguntou: 'Você está louca?' Eu respondi: 'Não, eu estou com calor"'.

Depois do almoço, em um restaurante nos Jardins, zona oeste de São Paulo (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Venceu Miami

Politicamente, ela anda "indignada com o que está acontecendo no Brasil": "Dizer que a Ditadura não existiu é um acinte. Eu mesma acolhi muitas vezes na minha casa amigos que tiveram problema com a repressão simplesmente por escrever ou filmar obras consideradas impróprias pelos militares."

Esteticamente, ela define a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições como uma passagem de extremo mau gosto: "Assisti à posse com atenção. E me deu muita tristeza. Ganhou Miami, Barra da Tijuca, Igreja Evangélica", lamenta.

Perto do fim da entrevista, Marília Carneiro sente um frio na barriga semelhante àquele que a acomete antes das estreias. Só que o motivo, agora, é que ela acha que falou "demais". "Quero só ver o que vai sair nessa matéria. Eu abri meu coração, fui legal com você", diz ela, aplicando sem nenhuma cerimônia o golpe baixíssimo da chantagem emocional. Mas logo relaxa e, do alto de seus 79 inacreditáveis anos, arremata com toda dignidade: "Ah, foda-se, não tenho nada a perder."

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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