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Histórico

Criado em novembro, grupo virtual 'Bolsolteiros' tem mais de 5 mil membros

Paulo Sampaio

02/06/2019 04h00

Imagem da página inicial do grupo "Bolsolteiros (Oficial)" (Foto: Reprodução/Facebook)

O garçom põe na mesa um prato com uma montanha de batatas fritas cobertas com queijo, bacon e molho ranch.  Do alto, escorre uma espécie de estalactite amarelada, que os comensais desfazem com as mãos e colocam aos punhados na boca. Um patrulheiro da correção política diria que o prato só não é mais extravagante que a conversa travada à mesa entre seis integrantes do grupo virtual de relacionamento "Bolsolteiros". Criado em novembro no facebook, já conta com 5.600 membros em todo o Brasil.

"Sinto saudades do tempo em que os pedreiros mexiam com a gente na rua, sem correrem o risco de irem presos por causa disso", diz a advogada Carolina Lopes, 40 anos, separada, sem filhos. Para ela, uma das grandes qualidades do 'bolsolteiros' é permitir que os integrantes digam o que lhes vier à cabeça, sem policiamento, e riam de piadas tidas hoje como impróprias. "Nos anos 90, o mundo era mais divertido", acredita. Embora o assunto "política", por norma, esteja proibido no grupo, Carolina diz que se sente mais tranquila em saber que ali não vai topar com "esquerdopatas" nem feministas.

"Eu abomino o feminismo", diz ela. "Pra mim, o homem é provedor, e a mulher, cuidadora. Ela gera vida, é mais fraca. Até acho que se deva buscar a igualdade entre os gêneros, mas apenas em termos de direitos civis. Nós já temos uma proteção especial da sociedade, dentro do que nos cabe: licença maternidade, Lei Maria da Penha etc."

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Da esq. para a dir., Juliana, Carolina, Rodrigo, Luciano e Ana; ao centro, a montanha de batatas fritas coberta por queijo, bacon e molho ranch (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Nada de nudes

O "Bolsolteiros (Oficial)" surgiu por iniciativa da assistente social carioca Elaine Cristina de Souza, 43 anos, solteira, um filho de 5. Ela conta: "Um dia, eu estava em um grupo pró-Bolsonaro do facebook, e me veio a ideia de criar o dos solteiros. Como vi que tinha uma porção de entusiastas, fiz uma enquete para criar o nome, e a história acabou se tornando um sucesso. Hoje, há participantes até de fora do país", comemora.

Ao pedir para entrar no grupo, o pretendente deve responder a três perguntas: 1) Você votou no Bolsonaro? 2) Você é solteiro (a)? Por favor, seja honesto (a) na resposta 3) Você tem mais de 21, certo?

A fim de proteger os bolsolteiros de um eventual "golden shower", Elaine impôs como regra o respeito aos membros e moderadores/administrador, e proibiu terminantemente postagens de:

  • imagens de crianças;
  • palavrões, ofensas e palavras obscenas;
  • conteúdo sobre violência;
  • prints de conversas pessoais;
  • cunho sexual, religioso, político;
  • futebol;
  • fotos de nudez, seios e/ou decotes; bolsolteiras de lingeries, bolsolteiros de cuecas, roupas de banho ou sem camisa;
  • números de telefone e/ou links de grupos de whatsapp;
  • propagandas de qualquer natureza

Atualmente, segundo ela, o número de homens é ligeiramente superior ao de mulheres (veja gráficos abaixo).

Levantamento das cidades atingidas pelo 'bolsolteiros' (acima); e os países (abaixo)

 

Percentual de homens e mulheres, por idade, no grupo (Foto: Reprodução)

 

 

 

A assistente social Elaine Cristina de Souza, 43, fundadora do grupo 'Bolsolteiros (Oficial)' (Foto: Arquivo Pessoal/UOL)

Vertente paulista

Os três homens e três mulheres entrevistados pelo blog fazem parte da vertente paulista do grupo, batizada de "Bolsolteiros VPR" (ou 'vem pro real', um apelo para sair do virtual), composta por mil integrantes. Segundo Carolina, muitos desses membros deixaram o grupo "oficial" porque, como ela, consideravam as regras muito rígidas. "A liberdade de expressão aqui é maior. Até pessoas de outros estados têm nos procurado", conta.

No VPR, a quantidade de mulheres em relação aos homens é maior do que no grupo nacional. Está na proporção de 70% para 30%. "Sempre há mais mulheres sozinhas do que homens", acham Carolina e as duas outras "bolsolteiras" sentadas à mesa — a terapeuta Juliana Lemos, 39, divorciada, um filho, e a empresária Ana Hidalgo, 39, solteira (o noivo morreu em um desastre de automóvel), sem filhos.

Aparentemente, gays e trans não entram nas estatísticas. Segundo o trio, "até tem alguns, mas em número muito pequeno". Elas conseguem se lembrar vagamente de dois ou três casos. Falam do cabeleireiro Agustin Fernandez, um clássico quando se trata de citar um homossexual que apoia o presidente Jair Bolsonaro.

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Disputa por bolsolteiro

Apesar de as entrevistadas garantirem que "a convivência no grupo é leve", há registro de pelo menos um caso de disputa pela posse de um  bolsolteiro. Aconteceu com Juliana. Ela conta: "Eu estava em um bate-papo com várias pessoas, quando uma menina disse, se dirigindo a mim: 'Ô, coleguinha, para de me atravessar!"'

As três afirmam que ninguém ali está "desesperado" para arrumar um namorado ("é mais para dar risada junto"), mas, caso a intenção seja desenvolver um romance, elas acham que quem deve tomar a iniciativa  — inclusive no primeiro contato virtual — é o homem: "O papel dele é saber desenvolver uma conversa, faz parte da conquista."

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Sabe o empoderamento?

O empresário Rodrigo Arisa, 42, três ex-mulheres, três filhos, diz que conta com  dois predicados preciosos em suas investidas com as mulheres: o "cavalheirismo" e a "pegada" (ou "a ternura e o tesão"). Dando uma mostra da técnica que utiliza na abordagem das bolsolteiras, Arisa alardeia que a maior parte delas é independente, boa profissional e articulada: "Sabe o tal do empoderamento? Elas aqui não precisam ficar falando disso, porque já são pessoas realizadas no que fazem e  seguras de seus atributos".

Para o analista de sistemas Luciano Evaristo Guerche, 47, divorciado, dois filhos, a necessidade constante de "mostrar empoderamento" acabou comprometendo o relacionamento da mulher com o homem. "É difícil conviver com uma pessoa que precisa se afirmar o tempo todo", acha. Carolina faz um aparte: "Eu já ouvi história de homem que saiu com feminista e quis pagar a conta, no restaurante, e ela começou a gritar na mesa".

Ao centro, de branco, o radialista Pedro Luiz Ferreira da Silva, administrador do grupo; da esq. para a dir., Luciano, Carolina, Rodrigo, Juliana e Ana. Eles integram a vertente paulista do grupo 'Bolsolteiros', que conta com 1 mil solteiros eleitores de Jair Bolsonaro (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Hahaha

De acordo com o regulamento do grupo nacional dos bolsolteiros, a regra mais importante (não necessariamente a mais obedecida) é: "Está proibido o ingresso de pessoas casadas ou em relacionamento sério".

"Hahaha", riem os entrevistados. "Não dá para controlar isso", afirma o radialista Pedro Luiz Ferreira da Silva, 52 anos, administrador da vertente paulista. "Parto do pressuposto que todos obedecem à norma. Mas sempre tem infiltrado. E mulher também, viu!?" Embora ninguém esteja proibido de realizar conquistas seriais, com direito a sexo casual ("vai de cada um"),  Silva estabeleceu para si uma regra: "não ficar na pegação". Ele explica que "é uma questão de credibilidade".

"As pessoas vêem o administrador como um líder e, sabe como é a mulherada, vai te queimando, te queimando, até que aquela áura de poder que você construiu cai por terra." Separado, uma filha de 18, Silva conta que aprendeu a lição em um grupo de relacionamento ainda maior, o "AAA" (Amigos Apresentam Amigos), de 4 mil pessoas, que frequentou anteriormente. "Infelizmente, tem muita gente problemática, depressiva. É preciso muita psicologia para resolver as crises."

O celibato de Silva terminou pouco antes da criação do "VPR Bolsolteiros". Ele conta que, na época, havia se tornado "um soldadinho do Bolsonaro" ("eu ficava 24 horas no celular, fazendo campanha, principalmente depois que o presidente levou a facada") e, com isso, atraiu a atenção de uma paulista radicada em Florianópolis, que já o conhecia do AAA. Quatro anos mais velha, "duas filhas moças", ela se mudou para o sul "porque já estava com a vida resolvida". Silva prefere não exibi-la na matéria, mas mostra com orgulho a foto de uma loira rejuvenescida, sorridente, e diz: "Bonita né?"

Mulheres de 50+

O administrador trouxe consigo para o encontro o sócio Robinson Cicotoste, 53 anos, que não é bolsolteiro, mas votou no capitão e também participou do AAA. Cicotoste parece falar com conhecimento de causa sobre mulheres na faixa etária entre os 50 e os 60 anos — que, segundo os integrantes dos "VPR Bolsolteiros", é a mais populosa do grupo:

"Muitas delas estão saindo de casamentos de 30, 35 anos, com problemas de autoestima, e perderam a noção de como se portar à noite. Então, na primeira balada, elas colocam umas roupas cafonas, você não sabe se cumprimenta ou pede a bênção. A partir da segunda, elas já entendem o código, vão melhorando. O legal do grupo é que possibilita essa reintegração".

Balanço final

Os seis integrantes do "VPR Bolsolteiros" afirmam que, desde a formação do grupo, pelo menos quatro casais se formaram. Entre os entrevistados, nenhum desenvolveu "relacionamento sério". Carolina conta que o mais perto que chegou disso foi com um advogado dois anos mais velho, esportista, com quem se encontrou três vezes: "Conversamos em uma quinta, e ele me chamou para um café no sábado. Pessoalmente, era até melhor do que eu imaginava. Mas então vimos que não tínhamos afinidades totais.."

Totais?

"Não, nada a ver com sexo, nem chegamos a isso. É que ele praticava esportes, e eu sou uma preguiçosa."

'Não deixo no vácuo'

Juliana está em vias de se encontrar pessoalmente com um bolsolteiro 15 anos mais novo que ela, de Brasília, com quem tem falado virtualmente há 4 meses. "A maior parte dos caras que me chamam no inbox está na faixa dos 20 aos 30", diz. Os homens à mesa afirmam que as mulheres são muito mais assediadas que eles. Elas confirmam: "Recebo umas dez solicitações de amizades por dia", diz Juliana.

Segundo afirma, responde a todas ("não deixo ninguém no vácuo"), mesmo quando o bolsolteiro desrespeita as regras: "Já recebi nudes de saída, antes de um 'oi'. Expliquei que não era assim que funcionava: 'Aqui não é Tinder', disse."

Da filosofia bolsolteira

No dia da entrevista, Rodrigo Arisa parecia muito animado com a perspectiva de aplicar seu "cavalheirismo" e sua "pegada" no encontro com uma moça de quem se aproximou virtualmente há uma semana. Ele conta: "O pessoal propôs um jogo virtual. Definir com uma palavra ou frase as fotos postadas das pessoas. Eu nem a conhecia. Mas escrevi alguma coisa pertinente, que transmitiu algo bom."

Ele ensina: "O humor é muito importante nessa aproximação: às vezes, com uma brincadeira, você diz verdades…" Ó.

Luciano e Ana permanecem invictos.

Quem sabe no próximo encontro "real" do grupo eles não se empolgam por um amigo virtual. O administrador Silva já promoveu dois eventos assim, em bares das zonas sul e leste de São Paulo. Este último reuniu 50 pessoas, um recorde.  "O grupo inteiro está convidado, mas como há pessoas dos mais diferentes lugares da cidade, dividimos os encontros por zonas."

E haja psicologia para lidar com as crises existenciais dos bolsolteiros! "Você não sabe o trabalho que dá", diz Silva, sem se queixar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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