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Não consegui ver vídeo até o fim, diz jovem filmada em abuso sexual com 3

Paulo Sampaio

26/07/2019 04h00

"Descobri que era eu no vídeo pela tatuagem nas costas", diz P (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Às 4h da madrugada do último dia 20 de julho, a pressão arterial da aposentada Vitorina Barrada "foi a 26". "O açúcar chegou a 600", diz ela. Pouco antes, uma amiga de Vitorina havia ligado para alertá-la sobre a divulgação nas redes sociais de um vídeo em que sua neta de 22 anos aparecia nua, em uma cena de sexo com três rapazes. Nas imagens, a jovem  está abaixada, enquanto dois deles a penetram por trás e riem muito. Em seguida, ela é vista praticando sexo oral em um deles.

Mãe de um garoto de 4 anos, a moça trabalha no comércio do tio em Cordeiro, cidade serrana de 21 mil habitantes a 190km do Rio. Pretende prestar concurso para ser policial militar. Dado o constrangimento que agora enfrenta na cidade e nas redes sociais, ela preferiu não revelar a identidade. Autorizou a colocar apenas a inicial de seu nome — P.

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Cerveja batizada

Vitorina, que criou a neta, é convocada para participar da entrevista concedida por P no escritório da advogada dela, Valeria Melo, localizado na rua principal de Cordeiro. A mãe de P mora em uma cidade vizinha, e o pai saiu de casa. Valéria é sua tia. De acordo com a versão contada ali, tudo teria acontecido uma semana antes da divulgação do vídeo, na madrugada de sábado 13, durante a "Festa dos Carecas".  Realizada tradicionalmente nessa época do ano, a festa se estende por três dias na Praça da Matriz de Cantagalo, cidade a 7 km de Cordeiro. Oferece shows gratuitos, gincanas e brincadeiras para as crianças e barracas de comes e bebes.

P. teria começado a passar mal depois de tomar um gole de cerveja do copo de um dos rapazes que aparecem no vídeo, o qual, segundo ela, tem conta no comércio de seu tio (a advogada dela pede para não citar o ramo do comércio). "Nunca imaginaria que pudesse haver alguma coisa na cerveja. Nós o conhecemos já faz tempo. Naquela tarde, ele tinha ido pagar a conta do mês", diz.

Visão embaralhada

Pouco depois de ingerir a bebida, P. conta que passou a enxergar com pouca nitidez e sua visão ficou "embaralhada". Então, um dos rapazes se ofereceu para levá-la em casa. "Eu disse que não precisava, mas estava zonza, sem energia. A partir daí, não me lembro de mais nada."

Ao acordar, no dia seguinte, ela diz que sentiu apenas um desconforto e um leve sangramento. "Não dei importância porque estava para ficar menstruada", explica.

Pela tatuagem

P. afirma que tomou conhecimento do vídeo por uma amiga, na manhã do sábado, 20. Àquela hora, Cordeiro inteira repercutia o assunto. "A princípio, eu disse 'Gente, não sou eu!' (as primeiras imagens mostram apenas as costas de uma mulher branca). Não podia ser! Mas então eu me reconheci pela tatuagem. E depois, pelo rosto. Não consegui assistir ao vídeo até o fim. Fiquei tão chocada que parei no meio."

Entre os cordeirenses que receberam o video estava o tio e patrão de P, Gabriel Farssura, 30. "Um colega me ligou dizendo que precisava me mostrar um negócio, mas estava sem graça", conta ele. "Na hora em que eu assisti ao vídeo, estava fora do comércio. Voltei correndo e quase bati nela. Aquilo não é da índole da nossa família." Quando ele quis saber de P o que tinha havido, ela conta que chorou muito.

Desde a divulgação do video, segundo Farssura, muitos motoristas reduzem a marcha quando passam em frente ao estabelecimento da família, e olham para dentro. O comerciante diz que acredita na sobrinha, mas não teve como evitar que uma parceira dele pedisse o afastamento da jovem do trabalho. Em um dos negócios, eles lidam com crianças. "Não foi exatamente uma demissão. A coordenadora alegou que seria complicado, nesse momento, justificar a presença de P ali."

Tarde demais

Os três rapazes que aparecem no vídeo — de 30, 23 e 20 anos — disseram na polícia que não drogaram P. Sustentaram que tanto o sexo quanto a filmagem foram consentidos por ela. Afirmaram ainda que não era sua intenção divulgar o vídeo, mas o celular de um deles foi roubado. Segundo contaram, a divulgação teria sido obra do ladrão.

De acordo com a advogada de P, o exame toxicológico deve ser feito em um prazo de três dias depois da ingestão de drogas, caso contrário perde a precisão "Já havia passado uma semana." Valéria diz também que, como não houve agressão, o exame de corpo de delito não serviria como prova. "Para haver estupro, não é necessário ameaça nem violência". Ela conta ainda que sua cliente fez o teste de HIV e doenças sexualmente transmissíveis, "mas o resultado não saiu ainda".

Dois dos três jovens têm passagem pela polícia, por lesão corporal em decorrência de violência doméstica e por tráfico de drogas. Um deles é apontado na cidade como deficiente intelectual. O delegado Robson Pizzo, do 154º Distrito Policial, de Cordeiro, disse que não havia elementos para pedir a prisão provisória deles. "É preciso ouvir mais testemunhas e esclarecer alguns detalhes para que o Ministério Público possa embasar a denúncia."

Sem dois lados

Um dos jovens trabalha em uma distribuidora de galões de água que recebeu pedidos para que não o mandassem mais fazer as entregas. No vídeo, o rapaz está usando uma camisa azul com o logotipo da distribuidora. "Demos férias a ele", diz o dono da empresa, Mateus Mattos, 22 anos. "Embora eu não coloque a mão no fogo por ninguém, acredito no que ele conta."

Mattos é filho do advogado que assumiu a defesa de seu funcionário. "A advogada da menina chamou toda a mídia para contar a versão dela, e a opinião pública está acreditando. Eu acho que a gente tem de ouvir os dois lados", diz ele. Procurados pelo blog, os advogados dos três rapazes — incluindo o pai de Mattos — não quiseram se manifestar, nem permitiram que seus clientes falassem.

Mil solicitações

Até excluir seu perfil do facebook, no início da semana, P calcula ter recebido cerca de 1 mil solicitações de amizade. Nos aplicativos Instagram e Whatsapp, surgiu uma avalanche de mensagens de apoio a ela e também de repúdio. De acordo com Valéria, a maior parte dos agressores eram mulheres. "Eu, como tia, não entendo. Elas deveriam estar solidárias."

"Se essa menina foi realmente estuprada, que eles paguem por isso. Mais (sic) se ela está alegando estupro para se safar dessa vergonha, que DEUS possa mostra (sic) a verdade, pois não há nada em oculto que não seja revelado", postou uma.

"Dopada? Senhora, uma pessoa dopada geme da forma que estava gemendo e faz sexo oral da forma que estava fazendo?", escreveu outra.

"Como é que uma menina estuprada por três homens só começa a se lembrar disso uma semana depois, quando divulgam o vídeo da cena? Ela não sentiu nada estranho no dia seguinte?", perguntou uma terceira.

Para o delegado Pizzo, qualquer que seja a argumentação, "não justifica um vídeo que mostra três homens adotando uma postura perversa em relação a uma mulher, de maneira jocosa, irresponsável, leviana". Pizzo explica que os três jovens podem pegar até 31 anos de cadeia. Se ficar provado que houve estupro de vulnerável (no caso, alguém que estaria sob efeito de droga, ou fora de consciência), a pena é de 8 a 15 anos de cadeia + 2/3 por estupro coletivo: 25 anos de pena máxima; produção do vídeo: 1 ano; divulgação: 5 anos.  

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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