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Homem com vagina diz que deixou de ser mulher trans reorientado pela fé

Paulo Sampaio

27/10/2019 04h00

Para tudo que Sabrina quer descer!

Depois de fazer a transição de gênero, alterar o nome social e se submeter a duas cirurgias de redesignação sexual, o administrador paulistano Robert Diego de Paula, 33 anos, resolveu "voltar as origens". Ele explica: "A princípio, criou Deus os céus e a terra, e viu Deus que o mundo era bom. Perfeito. O homem, a partir da criação, tem de viver na sua função original. Precisa entender que foi feito para a alegria e a perpetuação da espécie."

Desafortunadamente, Robert não pode seguir os desígnios perfeccionistas de Deus, já que agora tem uma vagina, mas não um útero. Está impossibilitado de procriar: "Quando digo 'homem', falo da espécie humana em geral. Individualmente, eu me privei da possibilidade de reproduzir, como tantas pessoas que o fazem por escolha própria. Isso não quer dizer que a função original mudou. Uma cadeira que tinha quatro pernas e, de tanto uso, perdeu uma, não perdeu sua finalidade original".

O marceneiro que recupera a cadeira, no caso do ser humano, é Jesus. Para isso, Ele conta com a ajuda de seus seguidores. Robert considera a expressão "cura", em relação ao homossexual, "estranha". Prefere "reorientação". "Essa pessoa precisa mudar sua ótica antropológica, para se enxergar como ele é, e recuperar seu fim específico, o da reprodução", acredita.

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Sabrina, em 2010, três meses depois de se submeter à cirurgia de mudança de sexo; e o administrador Robert Diego, na quarta-feira passada (Fotos: Arquivo Pessoal/Paulo Sampaio/UOL)

Adeus, Sabrina

Filho do meio de uma família de cinco irmãos criados apenas pela mãe, Robert conta que fez a transição de gênero aos 15 anos, quando passou a usar peruca, vestido e salto alto. Diz que não sofreu preconceito em casa. "Eu frequentava a igreja (Batista) desde os 7 anos, mas ali eu abri mão. Era inconciliável." Aos 16, modelou o rosto, os seios e o corpo com silicone, e começou a se prostituir.

Aos 18, mudou-se para a Europa. Aos 22, em uma vinda ao Brasil, deu entrada na papelada para alterar o nome. Escolheu Sabrina, "porque foi o que veio na hora". Faltava o principal: "Me olhar no espelho e nunca mais vê-lo [o pênis]". Aos 24 anos, fez a primeira cirurgia de redesignação sexual, em Bangcoc, na Tailândia. Repetiu aos 26, na Espanha, "por questões estéticas, para ficar mais bonita". Nas duas, gastou cerca de R$ 100 mil ("contando os dias internado, a recuperação e o tempo que eu fiquei sem trabalhar").

Aos 27, às vésperas de se casar com um italiano em Roma, desistiu. O noivo era um amigo, não um amante: os dois moravam juntos mas não havia relacionamento sexual. De acordo com Robert, o italiano era separado da mulher e alimentava um amor  platônico por Sabrina. "Em coisa de dois dias, eu deixei tudo aquilo para trás", lembra.

Qual a explicação?

"Sempre tive no coração questionamentos sem resposta. Queria saber o que é a eternidade. Descobrir o que vem depois. Diante do infindável, não vou me preocupar com os 80 anos [que pode viver]."

Mas se os questionamentos sempre existiram, por que chegar ao ponto de fazer a cirurgia?

"Era um sonho tão profundo que ofuscou a realidade. Quando se concretizou, a vida ficou sem sentido. Eu me perguntava: 'E agora?' É que nem aquela doideira do casamento, que a mulher passa a vida sonhando em usar o vestido de noiva e, quando acontece, ela vê que não era nada de tão grandioso. A vida é assim."

Sabrina na Sicilia, em 2013, dias antes de abandonar a ideia de se casar; já de volta, Robert reorientado pela fé (Fotos: Arquivo Pessoal)

Confusão de criança

Apesar de já na infância não ter se identificado com o gênero que lhe foi atribuído biologicamente (masculino), Robert hoje não usaria o termo "identidade de gênero" para definir o papel social que uma pessoa escolhe desempenhar (masculino, feminino, ambos ou nenhum deles). Prefere usar "ideologia de gênero", já que acredita que a discussão sobre o assunto é permeada de valores e ideias.  "[No começo de setembro] O Dória mandou recolher uma cartilha escolar por que dizia lá que a identidade de gênero não é definida pelo sexo biológico. Ele estava certo! Qual a base científica disso?" (Uma semana depois, a Justiça determinou que o governo devolvesse as cartilhas nas escolas).

Se Robert não concorda com o conceito de identidade de gênero, como explicar o caso dele próprio (que se reconhecia como menina desde muito pequeno)? Ele diz que pode ter sido uma confusão de criança. Alego que pode não ter sido. Pelo sim, pelo não, ele afirma que quando alguém aparece com "dúvidas", ele ajuda a esclarecê-las.

Um exemplo:

"Outro dia, um adolescente de 19 anos me procurou dizendo que vivia uma confusão. Amava a namorada, mas pensava em deixá-la para assumir um relacionamento gay. Propus conversarmos e, durante esse tempo, o deixei livre para pensar. Até que ele disse: 'Robert, te ouvindo, eu vejo que há possibilidade de continuar com a minha namorada'. Pois ele está com ela e vai se casar, feliz. Eu pergunto: esse menino reprimiu o desejo homossexual dele? Não. Ele só viveu aquilo como se fosse real."

Robert cita a escala de Kinsey, que define o comportamento sexual de acordo com uma gradação que vai de 0 a 6, sendo 0 o mais heterossexual, e 6, o mais homossexual: "Um homem que transou apenas uma vez com outro pode ser considerado homossexual?", pergunta.

Eu: Pode ser considerado hétero?

Ele: "Por que não? Eu jogo esse homem no 6, ou mostro a ele que o 0 está mais próximo?"

Glamourização do trans

Robert acredita que atualmente a transgeneridade está glamourizada e que muitos adolescentes dizem se identificar com o gênero oposto só para fugir do padrão, sem apresentar nenhum histórico de conflito. "Hoje, uma pessoa que sequer tem uma aparência feminina diz: 'Eu quero mudar de nome'. Vai ao cartório e passa a ser uma mulher na certidão. Então, a nossa luta [dos transexuais] de muitos anos pra transicionar, conquistar o direito de mudar de nome e de sexo foi banalizada. Isso é assustador!"

Parece contraditório. Se Robert se sente indignado com a banalização da luta de tantos anos para conquistar seus direitos, então por que a própria Sabrina deixou pra trás "em coisa de dois dias" todos os obstáculos que venceu em anos?

Ele acredita que "seguia no caminho errado". E apela para provas científicas:  "Um psiquiatra assinou um laudo em que atesta que não existe transexualidade em mim. Ele não pode ser muito direto porque, se fosse, estaria derrubando tudo o que estudou até hoje." Robert não mostrou o laudo.

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Barulho da carroça

Politicamente, ele se diz "liberal na economia, conservador nos costumes", adotando o discurso dos eleitores de Jair Bolsonaro, em quem votou.

Pelo que deixou claro até agora em relação a homossexuais, Bolsonaro reprova a conduta de Robert até aqui – a do transexual que se prostituiu na rua e agora é um homem com vagina. Robert: "Eu tenho uma forma de enxergar diferenciada. Não vou no barulho de carroça. Acho que a sociedade se julga cheia de moral e bons costumes, mas aquilo não é realidade. Uma hipocrisia."

Pelo menos, é sincero

O que o atrai na abordagem de Bolsonaro é a "espontaneidade". "Ele tem aquele estilão carioca, fala o que pensa. Pelo menos, é sincero."

Apesar de se identificar com o estilão do presidente, Robert diz que não é "bolsominion". Explica que Bolsonaro é o que mais se aproxima de sua ideologia. Ele ataca o que chama de "lula-petismo" e afirma que o PT é constituído de fanáticos. "Eles dão mais abertura [em termos de costumes], mas obviamente querem algo em troca. Tudo é calculado.Pensam assim: como serei beneficiado adotando um comportamento liberal?"

A repulsa ao PT "não é de agora": "Posso te mostrar o facebook da Sabrina, ela foi à passeata pelo impeachment da Dilma em Roma."

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Futuro islâmico

Robert tem convicção de que a sociedade ainda vai "buscar a moral de volta". "E pode escrever", diz, "ela só vai conseguir isso de forma objetiva através do islamismo. Se prepare, os muçulmanos vão governar o mundo."

De acordo com ele, "quando o domínio massivo do mundo era cristão, as pessoas achavam que nós estávamos impondo a nossa visão das coisas". "Agora, veremos os progressistas se enforcando com seus ideais de igualdade. Alguém que não respeita nada disso vai pisoteá-los", diz, em tom profético, enquanto dá mais uma mordida em um bem fornido sanduíche de presunto, queijo e maionese, no pão francês.

"A Europa já está quase lá. Em 20 anos não vai existir mais França. Ali, a taxa de natalidade de muçulmanos é 2,6, e a de não muçulmanos, 1,6". "Minha visão é apocalíptica: o mundo buscou a não-moralidade, agora vai ter o que merece."

Autodefinido homem

Hoje, Robert se define "homem".

Namora mulher?

"Não."

Diz que não faz sexo há seis anos, desde que abandonou a ideia de se casar. "Mas não tenho disforia de gênero." (Disforia, no caso, é um transtorno de humor causado pela insatisfação de uma pessoa em relação ao gênero atribuído a ela biologicamente).

Pretende manter-se celibatário até a morte? "Quem pode afirmar o que vai acontecer no futuro?"

Robert agora se define como homem, mas diz que o futuro é uma incógnita (Fotos: Arquivo Pessoal)

Ex-homem trans

Como será que Robert imagina uma eventual parceira?  "Talvez eu possa encontrar uma mulher que foi homem trans, ou uma ex- lésbica que não se importa de ficar com um homem que fez a cirurgia." Em ambos os casos, falam-se de mulheres reorientadas.

Em um ambiente novo, onde ninguém sabe que ele é um homem com vagina, Robert diz que não se preocuparia em avisar a uma candidata a namorada. "Nada disso é um problema. O que me me angustia muito mais é o relacionamento em si. Eu acho relacionamento um porre".

Luto da homossexualidade

Robert Diego explica que hoje vive o "luto da homossexualidade". "Sabe quando uma pessoa morre, e você sente aquela saudade? Durante uma semana você chora muito; durante um mês você fica acabado, durante um ano ainda existe aquela dor. Mas então ela vai ficando cada vez mais longe, a saudade para de doer e tudo vira lembrança. Essa é a sensação de uma pessoa que foi reorientada. No começo doeu, mas depois ficou tão distante…"

Depois de onze anos afastado de Jesus, Robert agora frequenta a primeira igreja batista de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Conta que passou por algumas cirurgias para retirada do silicone do corpo ("faria mais umas") e que  recuperou legalmente o nome de batismo. "Já tinha saído a determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) que autorizava a mudança de nome em cartórios, mas eu fiz questão de entrar na Justiça. Se eu quiser voltar a ser Sabrina, aí eu vou ao cartório e mudo de novo. Porque é uma palhaçada, né?"

 

 

 

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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