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Duplo preconceito: "Não tenho duas cores, eu sou negro", diz modelo

Paulo Sampaio

20/11/2019 04h00

Apesar de a Sociedade Brasileira de Dermatologia estimar que mais de 2 milhões de pessoas têm vitiligo no País, frequentemente o modelo negro Akin Cavalcante, 36 anos, precisa recorrer ao didatismo para explicar aos desinformados que ele não está "tentando ser branco". Nem que tem chances de conseguir "50% de cota na universidade pública".

Nos textos que publica sobre o assunto no Instagram, ele parte do beabá: "O vitiligo não é cor nem etnia. A pele não fica branca, mas perde a pigmentação. O vitiligo não altera a identidade racial das pessoas, já que todas as características e traços étnicos ficam preservados. Uma pessoa que nasceu negra e tem vitiligo continua sendo negra, e uma pessoa que nasceu branca e tem vitiligo continua sendo branca. O mesmo ocorre com albinos, cuja ausência de pigmento na pele é total, mas a gente consegue identificar facilmente pelos traços raciais os que são de origem branca ou negra."

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O vitiligo apareceu quando Akin tinha 18 anos e percebeu um ponto de despigmentação ao redor da boca (Fotos: Augusto Wyss e Henrique Falci/Divulgação)

Orgulho e preconceito

Especialistas afirmam que o vitiligo não é contagioso e não traz prejuízos à saúde do corpo, mas costuma causar transtornos de ordem psicossocial — pela alteração estética na fisionomia do paciente. O tamanho das lesões varia, assim como o local onde aparecem. O tipo de vitiligo de Akin é o mais comum — classificado como "não segmentar ou bilateral", aparece principalmente nas mãos, pés e cotovelos, e pode se espalhar pelo rosto.

Apesar do impacto que a doença causa na aparência, Akin considera o preconceito racial mais opressivo do que a discriminação em função do vitiligo. "Você pode me achar feio, por causa da despigmentação, e me rejeitar pelo meu aspecto — ainda que eu fosse branco. Mas o preconceito de raça discrimina o negro socialmente, tenta desqualificá-lo no ambiente de trabalho, na fila do banco, no pronto-socorro, enfim, nas mais diversas situações."

Identidade forte

Hoje, Akin reconhece que não pode reclamar de falta de oportunidade profissional. O mercado nunca valorizou tanto a diferença. "Diversidade é a palavra da hora", diz. "Antes, a nossa imagem era usada para chocar. Hoje, ela cria identidade para as marcas." Ele conta que já há um filtro que reproduz manchas no rosto da pessoa fotografada, para que ela tenha o aspecto de um paciente com vitiligo.

O estilista Leo Bronk'S, da Cavalera, conta que 80% de seu casting na  última edição da Fashion Week, incluindo Akin, era formado por negros, modelos com idade ou altura fora do padrão para passarela, plus size, estreantes que jamais haviam tido contado com a moda, homens e mulheres trans, e um albino.

"Nosso conceito se resume em duas palavras: resistência e versatilidade", diz Bronk'S. "É assim que achamos que se deve reagir a problemas e frustrações. Se não formos habilidosos o suficiente para driblarmos situações contrárias ao nosso planos, estaremos sempre sujeitos às imposições sociais. Seremos como querem que sejamos."

Cada um na sua

Bronk'S, que é negro, afirma em letras garrafais que não pretendeu preencher COTAS. "Em contrapartida, o impacto no desfile foi grande, especialmente em comparação ao que apresentamos na coleção anterior. Desta vez, os modelos usaram as peças como quiseram, e puderam expressar sua identidade livremente."

Modelo tardio, Akin iniciou a carreira em 2017, aos 34, quando jovens de um coletivo negro chamado Mooc entraram em contato com ele pelo Facebook, para perguntar se interessava participar de um comercial de cerveja. Sociólogo de formação, com direito a três anos de estudos na França, ele sonhava em ser diplomata.

Eu, modelo?

Akin conta que a baixa autoestima e o temperamento retraído, ambos consequência do duplo preconceito, o fizeram reagir assustado à proposta de fazer o comercial. "Imagina, logo eu? Não gostava nem de fazer foto caseira. Eu queria sempre me esconder", lembra. Não teve jeito. Ele acaba sendo sempre o que mais aparece. Já nesse primeiro comercial, de cerveja, sua imagem viralizou.

"O comercial explorava o colorismo, com 14 modelos de várias cores, numa espécie de degradê. Os primeiros spoilers da campanha eram de uma foto em que eu aparecia entre duas modelos. Essa imagem foi vista em vários países e também nas comunidades de vitiligo. Aconteceu um boom nas redes sociais."

Entre as modelos Sue Cardoso e Leticia Bonchristiano, na primeira imagem comercial veiculada, de um anúncio de cerveja: boom nas redes sociais (Foto: Divulgação)

Valorização da diferença

Pedro Bittencourt, 23 anos, agente de Akin, explica:  "Aqui na (agência) Rock, a gente parte do princípio de que ninguém é igual. O Akin é um modelo negro, que tem vitiligo. Então, nossa missão é mostrar para a publicidade o homem que ele é. Do mesmo jeito que mostramos o loiro ou a plus size. Quando o produtor do casting de um comercial pede um homem negro entre 30 e 40 anos, eu mando o Akin."

Segundo Bitecourt, "Akin é muito requisitado justamente por que passou a ser muito visto". "Sem contar que é fotogênico, carismático e sabe trabalhar em conjunto. Além da missão da própria Rock, ele tem a dele, que é afinada com a da agência."

Preta, Anitta e Lexa

Talvez por não ter investido desde sempre na carreira de modelo, como tantos jovens, Akin mostra que tem plena consciência do que a exposição representa, e aproveita a visibilidade para empunhar bandeiras contra o preconceito e a discriminação:

"Acredito que o papel do modelo pode ser bem mais importante do que caminhar de lá pra cá em uma passarela, ou posar para fotos. A indústria da moda tem usado a diversidade de uma maneira oportunista, superficial, sem a menor pesquisa. Eles entendem que existe um movimento globalizado e que têm de escalar figuras diferentes para conseguir destaque. Colocam o negro para desfilar, o plus size, o trans, aquele monte de pessoas que não são os consumidores daquelas roupas, sem saber nada sobre o universo delas."

Nesses dois anos, Akin não só participou de campanhas importantes, como também de clipes das cantoras Preta Gil, Anitta e Lexa. "O Akin era exatamente o que eu sempre busco no meu trabalho, a quebra de estereótipos óbvios e de padrões colonizadores", diz a produtora de elenco e coordenadora de produção do clipe de Lexa, "Provocar", Wanisy Roncone, 30. "Chega daquele papo de que não pode ser preto, gordo, gay ou trans. Quero ver uma outra vertente discursiva, outras narrativas, 'um novo começo de era, sabe?"'

Com Anitta, no clipe "Não Perco Meu Tempo"; e com Lexa, em "Provocar" (Foto: Rodolfo Magalhães/Divulgação)

Inclusão? Tô fora

Akin acha louvável a iniciativa de muitos estilistas e diretores, mas afirma que tem um pé atrás com a palavra "inclusão". Para ele, faz supor que há um lugar ideal, ao qual todos devem pertencer — como um parâmetro de correção. "Incluir é fazer com que a pessoa entre nesse lugar. Aí, ela entra, e deixa de ser ela, para agir naquele padrão. De que adianta?"

Ele diz que costuma ser lembrado tanto hoje (20 de novembro), Dia Nacional da Consciência Negra, como também em 25 de junho, Dia Mundial do Vitiligo. Em ambas as datas, aproveita para tentar "desconstruir o senso o comum". "Por causa dessas ideias conservadoras, muita gente preferia acreditar que o Michael Jackson queria mudar de raça — e não que tivesse vitiligo. É comum, aliás, me chamarem de Michael Jackson (além de dálmata, mancha, malhado..) "

Questionador, Akin lembra que inúmeros artistas se submetem a cirurgias plásticas e procedimentos estéticos para corrigir alguma imperfeição no rosto ou corpo, ou mesmo para mudar radicalmente a aparência, sem que tenham como "desculpa" o vitiligo.

Pirados em mancha

Definindo-se como preto, pobre e periférico, Akin conta que ele e a irmã sete anos mais velha foram criados pela mãe, que se separou do marido quando os dois eram crianças. Para dimensionar o tanto que sua vida mudou desde que passou a trabalhar como modelo, ele diz que a recente visibilidade atraiu enxurradas de elogios, um número menor de críticas e até propostas de fetichistas.  "Tem uma galera que é pirada em mancha. Já recebi proposta de dinheiro para sair. Alguns querem só saber se eu tenho vitiligo na genital."

Pergunto como saber se uma pessoa está olhando para ele por curiosidade, ou por se sentir atraído fisicamente.  "Ah, dá para saber", garante ele, que está namorando há um ano "uma pessoa do samba". Akin explica que "existe uma diferença entre você ter vitiligo na Avenida Paulista, na periferia de SP, no interior do estado ou no interior do Piauí". "Eu construí uma imagem mais cosmopolita para mim, por causa da maneira de vestir, de me comportar, de ter morado fora, isso faz muita diferença."

Veja bem…

Como boa parte das pessoas que são (ainda mais) julgadas pela aparência, Akin em geral está preparado para perguntas que ele considera mal formuladas. Na última edição do Fashion Week, alguém quis saber se ele algum dia imaginou que o fato de ser negro e ter vitiligo o levaria às passarelas.

Resposta: "Não foi isso que me trouxe às passarelas. O que me trouxe foi o que eu fiz com isso."

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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