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De 1919 a 2019: cem anos de diversidade no cinema

Paulo Sampaio

17/11/2019 04h00

Especialistas enxergam no filme "Sangue Vermelho" ("Call Her Savage"), de 1932, o  primeiro registro de um bar gay no cinema. Em Nova York, um amigo gigolô da personagem Nasa Springer (Clara Bow) a leva a "um lugar onde só poetas radicais e anarquistas vão". Em uma mesa do bar, frequentado apenas por cavalheiros de costume, um deles passa o braço por cima do ombro do outro. Basicamente isso.

O filme está entre os citados no curso "Cinema Queer — No Brasil e no Mundo", ministrado a partir do dia 28 no InC (Instituto de Cinema), em São Paulo, pelo cineasta Lufe Steffen, 44 anos, e o crítico Bruno Carmelo, 34.

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"Call Her Savage": a entrada de Nesa Springer e seu colega gigolô agita a atmosfera do primeiro bar gay retratado no cinema; a única alusão "queer" é um braço no ombro do colega de mesa (Foto: Reprodução)

Bixa Travesty

Para a época de "Sangue Vermelho", a cena do bar tornou-se tão significativa que passou a ser considerada um marco. Hoje, não seria suficiente para definir sequer a orientação sexual dos dois amigos. Na Alemanha, já se fala em mais de 70 diferentes identidades de gênero.

Em fevereiro, o prestigiado Festival de Cinema de Berlim premiou o documentário "Bixa Travesty" (Brasil, 2018) com o Teddy Awards, destinado a filmes de temática LGBTQI+. "Bixa" trata da vida da cantora trans brasileira Linn da Quebrada, 29 anos, que se declara "bicha", "travesti" e "mulher cisgênero".

Linn da Quebrada, do documentário "Bixa Travesty", autodeclarada "bicha", "travesti" e "mulher cisgênero" (Foto: Reprodução)

Queer quem?

O avanço globalizado do debate sobre orientação sexual e identidade de gênero foi tamanho que, hoje, já se considera plausível usar o termo "queer" no título de um curso de cinema — numa suposição de que o todo o mundo sabe do que se trata.

Ao pé da letra, "queer" quer dizer "excêntrico", "esquisito". A comunidade gay aceitou propositalmente a menção depreciativa, como forma de se diferenciar do que é normal ou normativo. Steffen e Carmelo falam em uma "identidade de gênero fora do padrão hétero dominante". (Esse parágrafo serve apenas para explicar que é preciso muita cautela no uso dessa nomenclatura, uma vez que se tornou uma bandeira politico-ideológica cara aos esquisitos de todos os gêneros).

Casal diferente

No curso, Carmelo se incumbe dos filmes estrangeiros, especialmente americanos e europeus, e Steffen, dos nacionais. Como seria impraticável citar tudo, a dupla faz um recorte cronológico do que considera importante, a partir do começo do século passado.

O primeiro longa-metragem a mostrar claramente o relacionamento afetivo entre dois homens foi o alemão "Diferente dos Outros" ("Different from the Others"), de 1919: um professor de violino e seu aluno se apaixonam e são chantageados por um vigarista que os flagra de mãos dadas. O final não é feliz.

"Different from the Others" é considerado o primeiro filme da história com temática homossexual (Foto: Reprodução)

Robe de plumas

Em "Levada da Breca" ("Bringing up Baby"), de 1938, a palavra "gay" (alegre, em inglês) faz seu début no cinema como sinônimo de homossexual. Dr. David Huxley (Cary Grant) é feito refém por Susan Vance (Katherine Hepburn), que o tranca em casa para que ele não se case com outra; obrigado a usar as roupas dela, ele se aperta em um robe debruado com plumas, ao sair do banho. Susan comenta, rindo, que ele está "bem gay".

Dr. David Huxley com o robe de Susan Vance (Foto: Reprodução)

Sissy, o afeminado

Durante as décadas de 30, 40 e 50, explica Carmelo, o cinema americano usou muito a figura da "sissy" (gay afeminado), que em geral era o melhor amigo da protagonista. Sempre disponível para admirá-la, a "sissy" não se relacionava com outros homens nem frequentava ambientes gays. O ator Franklin Pangborn (1889-1958) é um clássico intérprete de "sissies":  fez o papel cerca de cem vezes. 

Naquela época, os estúdios de Hollywood adotaram o Código Hays, um conjunto de normas criado para moralizar os roteiros. O personagem gay, quando havia, ou era uma "sissy" (que o tornava palatável) ou estava associado à depressão, punição e morte.

Eis que a recém-surgida televisão aborda os mesmos assuntos  "leves e familiares" (admitidos pelo Código Hays), e assim rouba muito da audiência do cinema –que, para se recuperar, precisa recorrer a temas que seriam censurados no horário nobre. A homossexualidade estava entre eles.

Franklyn Pangborn: cerca de cem sissies no currículo (Foto: Reprodução)

Fassbinder e Almodóvar

Constam ainda do roteiro de aula de Carmelo clássicos densos, como "Infâmia"(1961); tresloucados, como "The Rocky Horror Picture Show" (1975);  divertidos, como "Priscila, a Rainha do Deserto" (1995); prosaicos, como "Minha Vida em Cor de Rosa" (1997); heteronormativos, como o "O Segredo de Brokeback Mountain" (2006); e politizados, como "Milk" (2009).

Em uma referência ao conjunto da obra, citam-se a sombria filmografia do alemão Rainer W. Fassbinder, que morreu por uma overdose de cocaína em 1982; as tintas fortes do americano Gus Van Sant; e a colorida genialidade do espanhol Pedro Almodóvar.

O blog incluiria entre os obrigatórios "Um Bonde Chamado Desejo" (1951) e "Gata em Teto de Zinco Quente" (1958), ambos baseados em peças de Tennessee Williams; "Os Rapazes da Banda" (1970); "Morte em Veneza" (1971); "Parceiros da Noite"(1980); "Fome de Viver" (1983); "Furyo" (1983); "Filadelfia" (1993) e "Notas Sobre um Escândalo" (2006).

Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, em "O Segredo de Brokeback Mountain" (Foto: Divulgação)

Paris is Burning

Entre os documentários, a peça de resistência é o incendiário "Paris is Burning" (1990), de Jennie Livingston. Considerado um dos mais importantes registros do comportamento queer, o filme explora os delírios de grandeza e o sentimento de exclusão de uma comunidade gay no Harlem, bairro negro de Nova York, onde se promovem competições de desfiles de passarela, fantasias e danças.

O valioso retrato da época expõe a discriminação de gênero, raça, classe social e sexualidade.  Não bastasse o peso político, o filme tornou-se icônico também por mostrar a origem do "voguing", o movimento feito com os braços que Madonna transformou em letra de música e consagrou mundialmente.

Menos político, mas tão documental quanto, é "Celluloid Closet"(1996). Faz um apanhado de personagens LGBTQI criados para o cinema e aborda também a eventual homossexualidade dos próprios atores. O filme continua ótimo, mas a exponencial multiplicação do assunto dentro e fora da tela faz crer que ja há farto material para a produção de um "Celluloid Closet 2", quiçá um 3.

O documentário "Paris is Burning", que mostra registro de comunidades queer do Harlem, em Nova York (Foto: Divulgação)

Filmes brasileiros

Na parte nacional do curso, que será intercalada com a estrangeira, Lufe Steffen vai explicar que no começo do século passado, até os anos 50, não havia cenas abertamente gays no cinema produzido no Brasil. "Muita coisa é subliminar, a gente deduz. Não existe uma informação concreta", diz. 

Já nos anos 1950, as comédias produzidas pela Atlântida mostravam figuras como Oscarito e Grande Otelo usando roupas de mulheres, em personagens que não eram homossexuais –apenas gaiatos. Nessas comédias, Steffen vê um quê de queer na composição coruscante dos cenários, na exuberância dos figurinos e nas anedotas de duplo sentido. 

Grande Otelo e Oscarito, travestidos em comédia da Atlântida (Foto: Reprodução)

Nelson e Plínio

No anos 1960 e 1970, apesar da ditadura militar, houve uma tímida saída do armário no cinema nacional, marcadamente em filmes adaptados de peças de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, como "O Beijo no Asfalto", que explora a homossexualidade como escândalo, e "Navalha na Carne", o submundo.

"Os censores eram toscos, só prestavam atenção na subversão estritamente ligada à política", diz Steffen. Desse período, ele cita "A Rainha Diaba" (1974), de Antônio Carlos Fontoura; e "República dos Assassinos" (1979), no qual o namorado da travesti Eloína (Anselmo Vasconcellos) é eliminado pelo grupo paramilitar Esquadrão da Morte. No final, para se vingar, Eloína mata o assassino e foge em um iate. "Ela termina empoderada", lembra Steffen.

Milton Gonçalves em "A Rainha Diaba" (1974)

Pós-ditadura

Perto do fim da ditadura, antes um pouco do começo da nova república (1985), houve uma leva de longa-metragens que retratavam o descompromisso daquele momento com a politização do tema: "São filmes que falam de diversidade de uma maneira solta, bem-humorada, com cara de nova década mesmo", diz Steffen.

Em "Bete Balanço" (1984), a personagem de Debora Bloch é bissexual e tem um caso com a de Maria Zilda. O de Lauro Corona aparece na cena final vestindo um casaco de pele branco e óculos de sol chamativos, que Steffen associa à "estética queer". O filme integra uma trilogia dirigida por Lael Rodrigues, da qual fazem parte "Rock Estrela"(1986) e "Radio Pirata"(1987).

Em São Paulo, os cineastas José Antônio Garcia e Icaro Martins dirigem uma trilogia estrelada pela atriz Carla Camurati, que segue a mesma linha. "O Olho Mágico do Amor" (1981), "Onda Nova"(1984) e "Estrela Nua" (1986) sobrevoam alegremente o universo queer: "Os lançamentos acontecem ao som de rock nacional e da new wave brasileira", explica.

Em "Bete Balanço", Diogo Vilela faz um amigo gay da personagem título, interpretada por Deborah Bloch (Foto: Reprodução)

Barra pesada

Na segunda metade dos anos 1980, no auge da epidemia da Aids, a leveza dará lugar à melancolia, "em filmes mais complexos", como "Anjos da Noite" (1987), uma história estilo barra pesada que reúne prostitutas, bandidos, artistas e garotos de programa.

E então, com o fim da Embrafilme, em 1990, houve o chamado "desmonte" do cinema nacional. Em cinco anos, não se produziu nada. "A retomada foi em 1995, com Carlota Joaquina, da Carla Camuratti. Aí, deu uma engrenada. Em termos de temática LGBTQI+, o único filme produzido na década foi 'Bocage', do Djalma Limongi Batista", diz Steffen.

Depois do desmonte da Embrafilme, em 1990, o longa "Bocage, O Trunfo do Amor" foi único registro com temática LGBTQI+ em toda a década (Foto: Reprodução)

00, enfim

Animados com a extraordinária visibilidade alcançada pelo universo queer, tanto Carmelo quanto Steffen –ele próprio diretor de dois longas ("São Paulo em Hi-Fi" e  "A Volta da Pauliceia Desvairada")–  falam de uma "explosão de curtas com temática LGBTQI+" e definem o atual momento como "época de ouro".

Eles citam a importância do Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade, criado em 1993 pelo empresário André Fischer. (Para dimensionar o espaço que a comunidade LGBTQI+ conquistou no mundo, vale lembrar que nos primeiros anos do festival a sigla que era composta por apenas três letras, GLS. Signifcava "gays, lésbicas e simpatizantes"). Agora, em sua 27ª edição, o Mix Brasil apresenta 158 curtas produzidos no país entre 2018 e 2019.

Ao se referir à postura assumidamente homofóbica do atual governo, André Fischer fala em "uma guerra cultural declarada unilateralmente, que tem como principais alvos a educação, a cultura, a ciência e as minorias, em especial a população LGBTQI+". "Passado o primeiro momento de perplexidade, vimos a cena cultural dita 'temática' reagir com vigor. Nunca se produziu e se falou tanto sobre identidade e direitos".

Já no fim da conversa, Carmelo e Steffen afirmam que, por enquanto, é difícil avaliar o impacto da onda LGBTQI+ no cinema do futuro. "A gente tem de esperar pra ver no que tudo isso vai dar."

 

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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